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Coluna do dia: O Brasil e os preços de um erro diplomático

05/04/2010

Por Arthurius Maximus*

O presidente Lula se prepara para sua vista ao Irã com o objetivo de firmar parcerias comerciais e na área nuclear com o país dos Aiatolás. Navegando a pleno vapor contra a maré mundial, o Brasil está para entrar no seleto grupo de nações atingidas pelas sanções do Conselho de Segurança da ONU.

No exato momento em que nosso governo estreita seus laços com o Irã e oferece cooperação para um programa nuclear carregado de nebulosidade e suspeitas, até aliados históricos dos iranianos ficam com “um pé atrás” em relação ao país e rumam na direção da formalização de sanções contra a nação islâmica.

Se isso realmente ocorrer, o Brasil terá o mesmo êxito que obteve ao apoiar Zelaya e participar de um dos maiores vexames que a diplomacia brasileira já protagonizou. Será deixado “falando sozinho” e terá de recuar de suas posições, humilhado e acuado, para não sofrer o mesmo destino de seu novo e polêmico amigo.

Se insistir em seu apoio ou fornecer “por debaixo dos panos” tecnologia ou qualquer tipo de assistência ao Irã, nosso “País do futuro” será apresentado à cruel realidade de tornar-se um pária frente à comunidade internacional.

É claro que ninguém espera que o Itamaraty vá “pagar o preço” por manter uma aliança com o Irã, no caso da aprovação das sanções. No entanto, isso mostra como é equivocada a ideia de “aceitar de peito aberto” a palavra de determinados governos que primam pela nebulosidade e pela repressão férrea a seu próprio povo e a qualquer informação.

Quando os aliados de primeira hora do Irã e “inimigos” de sempre das posições americanas se unem aos EUA (Rússia e China) para tentar dar um fim nas pretensões iranianas no campo nuclear, é porque algo muito “estranho” está mesmo acontecendo por lá.

Basta uma pequena olhada nas atitudes do governo iraniano para que um alarme soe na cabeça de qualquer simpatizante: a descoberta de instalações secretas (não relacionadas para os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica), a criação de usinas no interior de montanhas, o desenvolvimento (cada vez mais intenso) de mísseis de longo alcance e a presença (cada vez mais incisiva) de elementos da Guarda Revolucionária na tomada de decisões e controle das ações internas e externas do governo iraniano.

Além de correr o risco de se ver apanhado no meio do tiroteio das sanções, o recuo diplomático (promovido à força) sempre causa um certo “gosto de cabo de guarda-chuva” na “boca” de qualquer nação.

É muito mais importante analisar o que o Brasil teria a ganhar com a venda de urânio e de tecnologia ao Irã, nesse momento, além de pesar as péssimas experiências que já tivemos ao negociar com países da região (Iraque e Arábia Saudita).

Na época, o Brasil era o terceiro maior produtor mundial de tecnologia militar e tinha produtos invejados  e temidos (até pelos EUA) como o lançador de mísseis Astros II (visto como arma perigosíssima pelos americanos durante a Primeira Guerra do Golfo e na Guerra Irã – Iraque).

Ao “negociarmos” esses produtos por lá, o resultado foi um enorme calote e a negativa de aval para financiamentos prometidos que levaram a nossa indústria bélica à falência e à extinção em matéria de poderio e de negócios internacionais.

Cuidar para que a história não se repita, agora com reflexos ainda mais graves, é o que se espera do Itamaraty e do governo brasileiro. Muito mais do que simpatias ideológicas, o Brasil deve sempre primar por seus interesses como nação e pesar se o relacionamento com esse ou outro País nos trará reais benefícios ou meramente dores de cabeça.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Perspectiva: Hugo Chávez – Início do fim?

01/02/2010

Os últimos acontecimentos políticos da América Latina podem ter decretado o fim da expansão do bolivarianismo na região. Os recentes fatos políticos venezuelanos, por sua vez, podem representar mais: A derrocada de Hugo Chávez. Externa e internamente o semi-ditador enfrenta graves dificuldades de ordem socio-político-econômica.

No que diz respeito à América Latina, o bolivarianismo recebeu, recentemente, três golpes duros:

A vitória de Sebastián Piñera nas eleições presidenciais chilenas, através de um discurso anti-Chávez e da defesa de um projeto de centro-direita.

A resolução pacífica do impasse hondurenho, com a confirmação de perda do poder e ida para o exílio de Manuel Zelaya, representante da ideologia chavista no País, e subida à presidência de Pepe Lobo, conservador e defensor de um discurso de conciliação que agradou os hondurenhos.

E a atuação humanitária ampla e elogiadíssima dos Estados Unidos no Haiti, recuperando para os americanos um pouco da imagem de benfeitores que já existiu em algumas épocas passadas e enfraquecendo o argumento bolivariano de que os EUA são os vilões e malfeitores da América Latina.

No que concerne o cenário político-econômico interno da Venezuela, a conjuntura também não é nada animadora para os chavistas:

Uma crise cambial séria atinge o país, trazendo inflação, desabastecimento e recessão. Desvalorizações monetárias desastradas, planos econômicos pouco eficientes e fixação de preços têm sido o caminho de combate não muito eficiente escolhido.

Sucessivos cortes de energia elétrica se dão nas cidades venezuelanas. Há racionamento intenso e agressivo. Uma crise energética clara está completamente instalada. Também existe falta d’água em algumas torneiras, além de uma seca que afeta a agricultura já enfraquecida pelos anos de desatenção chavista.

E o regime de Chávez, afetado por isso tudo, está em baixa significativa. O Vice-Presidente renunciou. A Ministra do Ambiente, esposa deste, também. Deixou igualmente o governo o Presidente do Banco da Venezuela. Há definitivamente algo de podre no reino chavista dos bolivarianos.

Diante de toda esta situação político-econômica difícil, Hugo Chávez perdeu de vez o controle. Decidiu, como os piores ditadores, responder aos pedidos de mais liberdade com mais repressão, devolver as críticas com justificativas absurdas e risíveis e ameaçar os opositores internos e externos com bravatas.

Enquanto Chávez afirma ridiculamente que os Estados Unidos causaram um terremoto que atingiu a Venezuela, a criminalidade no país dispara, chegando a níveis recordes.

Ao mesmo tempo em que o líder venezuelano desafia a oposição a afastá-lo e repete o enfadonho, mofado e equivocado discurso de que os protestos populares recentes são obras de conspirações oligarcas e burguesas, sua popularidade despenca entre a população e as mobilizações contrárias ao regime e defensoras de mais liberdade, principalmente de opinião e de imprensa, proliferam.

Ao passo que a influência externa de Hugo Chávez vai minguando, seu poder também se reduz internamente. Seu governo começa a ser questionado com mais atrevimento, fato típico do ocaso das ditaduras e das gestões autoritárias.

- Se Chávez está acabado, bem, me afastem! Com toda a energia gasta nessa loucura, toda tinta e papel, que organizem um grupo, peçam o referendo. Vamos ver se dizem mesmo que estou acabado. Ninguém vai impedi-los — foi o que disse o Presidente venezuelano à sua oposição.

Claramente, esperneira e desafia para se afirmar. Líderes personalistas sempre reagem mal às quedas de popularidade e aos questionamentos de suas qualidades. Comprova-se até psicologicamente que o caudilho está em maus lençóis.

Em resumo, temos hoje um cenário de vantagem da democracia liberal sobre o chavismo na América Latina e uma conjuntura socio-político-econômica completamente prejudicial aos planos condenáveis de Chávez no mundo próprio da Venezuela.

Será o início do fim?

Honduras acerta: Pedida a prisão de cúpula militar que deportou Zelaya

08/01/2010

Informa o Estadão:

“O procurador-chefe de Honduras, Luis Alberto Rubi, pediu ontem à Suprema Corte que emita mandados de prisão contra comandantes militares do país por abuso de poder. A infração ocorreu, segundo Rubi, quando a cúpula militar retirou o então presidente Manuel Zelaya do poder e o expulsou do país, em 28 de junho. A corte terá três dias para decidir se aceita ou não o pedido do procurador.

[...]

Se a Suprema Corte indiciar as lideranças militares, o caso deve ser ouvido por um dos 16 magistrados desse tribunal. Entre os listados pelo procurador estão o chefe das Forças Armadas, general Romeo Vásquez, e cinco outros oficiais, incluindo o chefe da Aeronáutica, general Javier Prince, e o comandante da Marinha, general Juan Pablo Rodriguez. Caso condenados, eles podem pegar entre três a quatro anos de prisão.”

A Suprema Corte hondurenha não pode tomar outra decisão que não seja iniciar os processos visando a prisão daqueles que deportaram Zelaya. Seria um exemplo para o mundo, além de uma interessante e devida complicação para a retórica dos que insistem em dizer que houve um terrível golpe em Honduras.

Este que vos fala afirmou à época do rebuliço hondurenho e afirma novamente, sem medo de causar polêmica: Em Honduras houve um abuso por parte dos militares que expulsaram Zelaya do país, já que essa não era a punição prevista legalmente para o crime cometido por ele ao tentar modificar à força a Constituição hondurenha, desafiando ordem expressa da justiça daquele país, porém, golpe não houve.

Não houve golpe por dois motivos simples:

Primeiramente porque Zelaya deixou de ser o Presidente ao tentar aprovar, por via de plebiscito proibido, a sua tentativa de reeleição, afinal, a punição prevista para quem se porta desta forma é, segundo a carta magna hondurenha, a perda imediata do mandato.

Em segundo lugar, porque foi empossado no lugar de Zelaya o sucessor constitucional, o Presidente do Congresso, e não um militar.

Tanto é assim que a população hondurenha não apoiou maciçamente  a tentativa de Zelaya de tentar retomar o poder e compareceu fortemente às urnas para eleger um novo Presidente legítimo, tendo vencido as eleições Porfírio Lobo. As eleições e um novo Presidente com legitimidade são a melhor saída para o impasse hondurenho e o povo do país, sábio, sabe disso.

Contudo, nada disso quer dizer que o abuso dos militares não deve ser punido. É claro que deve. É óbvio que deve. Zelaya deveria ter sido deposto legalmente, com aval do Parlamento hondurenho, e ponto final. Tendo cometido arroubos desnecessários e completamente condenáveis, os que ordenaram e os que empreenderam a deportação do ex-Presidente no meio da madrugada precisam, como Zelaya, sofrer as consequências legais de seus atos.

Defendo isso desde o início e, neste momento, aproveito para reproduzir trechos escritos por mim em 29 de junho de 2009:

Estando configurada a tentativa de Zelaya de ir contra todo o ordenamento jurídico hondurenho e de deixar que um líder estrangeiro influenciasse uma questão de soberania nacional, o equivalente ao STF determinou a prisão dele. Com isso, Zelaya apresentou sua renúncia à presidência.

Pela manhã, o Congresso aceitou a renúncia e nomeou Presidente o presidente do Congresso, Roberto Micheletti. Zelaya foi detido pelo exército e transferido para a Costa Rica. Nesse momento, curiosamente, Zelaya negou a renúncia.

[...]

As Forças Armadas hondurenhas, juntamente com a oposição ao governo, cometeram certos abusos inegáveis e que são condenados por este blogueiro. Manuel Zelaya não deveria ter sido retirado do poder sob armas e levado para fora do país.

Porém, os abusos são compreensíveis. Afinal, havia o receio totalmente correto de que Zelaya fizesse Honduras ser mais um país a trilhar o caminho do bolivarianismo. O que ele tentava empreender era exatamente isso.

Em suma, Zelaya realmente não deveria ter sido deposto pelo exército,  e sim, por pressão do Congresso, eleito pelo povo e legítimo, que aceitou sua renúncia.

[...]

O que o exército hondurenho fez foi muito errado no modo, mas não, na essência. Não deveria ter sido o exército a retirar Zelaya do poder, porém, aceita a renúncia deste pelo Congresso e nomeado o novo Presidente, Manuel Zelaya deveria sim, no fim das contas, deixar o governo. Melhor que tivesse sido voluntariamente.

A mesmíssima posição firme da época continua valendo. Zelaya errou feio e os militares que o deportaram também. Mas Zelaya errou no modo e na essência. Os militares só erraram no modo. O que eles fizeram é compreensível, entende-se o que os motivou, mas não justifica-se.

Deposto do poder Zelaya deveria ter sido realmente, afinal, não era mais Presidente. Deportado, não!

Espero com ansiedade a decisão da Corte Suprema hondurenha.

Se a denúncia for aceita e os militares indiciados, será um caso raro de um país que puniu os que mereciam em ambos os lados da contenda em questão. Será uma demonstração de justiça, de sensatez, de coerência. Valores muito caros ao Perspectiva e a este que vos fala e por isso defendidos neste espaço diariamente.

Corre o boato de que o pedido de prisão poderia ser só fachada. Torço para que não.

Se não for, Honduras irá ter acertado. E muito.

Análise Geral: PSDB, PT e o futuro do nosso Brasil

03/01/2010

O Partido da Social Democracia Brasileira e o Partido dos Trabalhadores protagonizam, hoje, um bipartidarismo de fato no que diz respeito à política nacional. Por mais que outras legendas tenham sob seus domínios municípios e estados da federação, é impossível imaginar, atualmente, um projeto de terceira via ocupando o Planalto em curto e até médio prazo.

Por mais que o maior partido do País seja, hoje, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro, isso não o coloca como o mais robusto e estruturado da nação. Ao contrário, o PMDB é o mais capilarizado, justamente, por ter se dividido, tornando-se uma federação de caciques que, regionalmente, lutam por seus próprios interesses e nada mais, mas todos sob o número 15. Resta a um PMDB gigantesco, porém essencialmente desunido, orbitar o poder federal, que já está há dezesseis anos – tendo tudo para continuar assim por mais alguns – nas mãos ou do número 45, ou do número 13.

Outras legendas, como o Partido Socialista Brasileiro e o Democratas, têm expressão suficiente para almejar, com o passar dos anos, a construção de um projeto presidencial com chances de ser bem-sucedido. Acontece que parece impensável um sucesso do PSB sem o apoio do PT. O mesmo se pode dizer com relação a um sucesso do DEM sem o apoio do PSDB. Portanto, resta comprovado que o espaço para a terceira via no âmbito federal é estreito ou até nenhum.

Fazendo, com o auxílio deste texto, uma reflexão acerca do cenário político-partidário brasileiro, o leitor pode acabar por chegar à conclusão de que PT e PSDB são os partidos que, atualmente, apresentam ao eleitorado tupiniquim projetos de nação embasados e alternativos. Pois bem. Estaria esta conclusão correta? Não.

Os projetos não são tão embasados assim, tendo lacunas visíveis, e, principalmente, não são nem de longe alternativos. Contrariamente, são complementares. O governo petista, que se iniciou em 2003, não pode ser enxergado como algo diferente de uma mescla de uma continuidade do governo tucano, vigente entre 1995 e 2002, e atenções maiores a certos setores como os movimentos sociais e os mais pobres. De igual forma, é completamente equivocado imaginar que um possível governo tucano futuro possa vir a direcionar o País de forma a empreender uma guinada brusca ou uma mudança de rota drástica.

O futuro do nosso Brasil promete ser melhor que o presente em grande medida. As previsões – por mais que os precedentes gerem desconfianças – apontam para tempos de desenvolvimento, de redução da pobreza, de aumento da qualidade de vida. Pois bem. Por acaso alguém já viu previsões de futuro condicionadas à presença do Partido dos Trabalhadores ou do Partido da Social Democracia Brasileira no poder? Certamente que não. E nem verá. Porque o Brasil já atingiu, ainda bem, uma maturidade política, pelo menos em nível federal, que inibe aventuras e arroubos. Esteja no poder o PT ou o PSDB, continuará a nação nos trilhos, rumo ao futuro previsto. Algumas mudanças de linha podem se dar, é verdade, mas o destino se manterá o mesmo, simplesmente pois a divergência entre trabalhistas e social-democratas brasileiros se dá na disputa por poder, e não na agenda.

As informações que chegam ao conhecimento do grande público são ótimas para ilustrar essa realidade: Em 1996, 48,5% dos brasileiros tinham água encanada, passando para 59,6% no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e para 68,3% agora, no final do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1996, 79,9% dos brasileiros tinham energia elétrica, passando para 90,8% sob FHC e para 96,2% sob Lula.

Outros dados seguem o mesmo script: Os telefones residenciais presentes nas casas dos mais pobres passaram de 5,1% para 28,6% e depois para 64,8% dos domicílios. As geladeiras, na mesma conjuntura, passaram de 46,9% para 66,1% e depois 80,1%.

Não poderia estar mais comprovada a continuidade. Obviamente existem as bifurcações leves, as ideologias dos mais extremados de cada grupo que se opõem e a política externa levada de maneira diferente. Contudo, o continuísmo no que vai bem, e até no que vai mal, está fortemente presente.

Daí serem absurdos os terrorismos eleitorais. Tanto o passado, como o atual. Ao divulgar a Carta aos Brasileiros e convidar José Alencar para ser seu Vice, Lula provou que o PSDB não foi fiel à verdade quando exibiu Regina Duarte em seu programa eleitoral afirmando ter medo de uma futura gestão petista. Da mesmíssima forma terá sido ludibriado aquele que crer no PT, quando a propaganda do partido afirmar que José Serra, se vencedor, encerrará os programas sociais vigentes hoje.

Alguns dirão que o PSDB faz uma oposição mais honesta intelectualmente. Talvez. Não se sabe se é por falta de discurso, por medo da popularidade do Presidente, ou por na realidade concordar com o que está sendo feito que os tucanos criticam Lula muito menos do que este criticou-os. Por outro lado, é necessário reconhecer que Lula usufruiu, hoje, de feitos do governo FHC que foram execrados pelo PT à época, coisa que não se dará se o PSDB retomar o poder e se utilizar de feitos petistas. Isso é fato, ponto pacífico. Porém, se é intencional ou não, existência de honestidade intelectual ou não, não se sabe. Cada um dirá o que mais lhe convém.

E o tal futuro? Bom, a previsão é a de que nos próximos cinco anos, o Brasil deve reduzir o número de miseráveis pela metade e aumentar em 50% as classes A e B. As estatísticas afirmam, igualmente, que o Brasil já tem dois trabalhadores para cada idoso ou criança, condição que só acontece raramente por questões óbvias e que favorece o crescimento. Nenhuma das previsões cita a necessidade de se ter o PT ou o PSDB no poder. E nem poderia.

Dito tudo isso, resta, obviamente, o pensamento a respeito de quem será o mais indicado para comandar o País a partir de janeiro de 2011. PT ou PSDB? Serra ou Dilma?

Entretanto, percebam que não há mais o questionamento sobre direita ou esquerda, entreguista ou nacionalista, progressista ou conservador, em nossa reflexão. Não há pois ele é artificial. Não existe na realidade, não procede, não se dá. Quem o incentiva procura lucros eleitorais por entender que ele o beneficia, e não a verdade das eleições. É balela o PSDB entreguista inventado por alguns petistas, que o tentam e tentarão reviver com a discussão do pré-sal partilhado ou concedido. É besteira o PT bolivariano criado por alguns tucanos, que o tentam ou tentarão comprovar citando a política externa brasileira recente.

Alguns dirão, nesse momento, que alguns fatos e episódios relevantes para estas caracterizações estão sendo deixados de lado. Mas não estão. Sabe-se muito bem que muitos tucanos são próximos da grande elite banqueira e empresarial paulista. Sabe-se, também, que a defesa de Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad, Manuel Zelaya, Cesare Battisti, etc, por diversos petistas graúdos não é mera coincidência.

O que se defende não é a irrelevância destes pontos, e sim a noção de que estas são correntes minoritárias que, como nos partidos americanos, não encontram ressonância junto à maioria do partido e, consequentemente, nas ações de condução do País mais decisivas, definidoras e irretratáveis.

Por fim, agora que nossa reflexão vai chegando ao final, a dúvida cruel pode ter tomado conta do leitor/eleitor. Em quem votar, se as semelhanças são tantas?

Ora, a decisão estará nas nuances diferentes, nos pequenos pontos divergentes, nos rumos mais apropriados para atingir o mesmo objetivo, enfim, nos detalhes que – percebam – não foram colocados como desimportantes em momento algum do texto, afinal, é neles que reside o inferno.

Se José Serra e Dilma Rousseff não defendem ou defenderão um programa diametralmente oposto nem de longe, resta decidir pelo melhor candidato, pela melhor equipe, pelo posicionamento preferido no que diz respeito aos tais detalhes.

Isso é pouco e muito ao mesmo tempo.

Análise: Política externa brasileira – É possível questionar as prioridades

16/12/2009

Durante os últimos meses, mais do que antes, a política externa do Brasil, comandada pelo governo Lula e, especificamente, por Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, foi extremamente criticada.

Por mais que episódios como a tomada de refinarias da Petrobras pelo governo boliviano, que se deu sem que o Brasil recebesse as devidas indenizações, fossem sempre lembrados há muito tempo, de uns tempos para cá a condução da diplomacia nacional tem sido cada vez mais questionada.

O que acontece é que os episódios onde o Brasil, teoricamente, não se comportou da melhor forma, se sucedem muito rapidamente neste momento. Temos a intromissão em Honduras, temos o caso de Cesare Battisti, temos a aproximação com o bolivarianismo e temos ainda a recente visita ao País de Mahmoud Ahmadinejad, Presidente iraniano.

Em todas as situações listadas, diversos especialistas em política internacional afirmam que o Itamaraty não coordenou o comportamento brasileiro da maneira mais apropriada. São atitudes da política externa nacional questionadas fortemente, sucessivamente, em um curto espaço de tempo. Daí o foco recente no tema que, se antes já era destaque, hoje mais ainda.

Dito tudo isso, gostaria este que vos fala de explicitar sua modesta opinião: Acredito que todos os supostos erros brasileiros na condução de sua política externa dizem respeito a uma espinha dorsal, a escolha das prioridades.

Fica nítido que Celso Amorim, e principalmente o famigerado Marco Aurélio Garcia, que nunca poderia ser condutor de política externa alguma em um País ideal, carregam uma ideologia de fatias do governo para a diplomacia brasileira. Isso faz com que tenhamos uma política externa de governo, e não de Estado.

Uns acreditam que a política externa deve mesmo ser de governo. Outros defendem a política externa de Estado. De qualquer forma, ambas as vertentes primam pela política externa apropriada para o caso concreto. Pois bem. A diplomacia de governo que Amorim e Garcia têm trazido erra, se equivoca, e isso é suficiente para questionarmos não só seus nomes e o fato de a política externa ser de governo, como também, justamente, as prioridades elencadas.

Pois então quais são as prioridades eivadas de ideologia que podem ser observadas? Ora, temos a aproximação com o chavismo, temos a visita de Ahmadinejad, temos a defesa de Zelaya e temos a proteção de Cesare Battisti. Alguém duvida que todas essas atitudes partem da mesma espinha dorsal? Alguém duvida que os posicionamentos do Brasil poderiam ser diversos se não fossem Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia os nossos condutores? E digo mais: Alguém em sã consciência não percebe o alinhamento com os entendimentos de Hugo Chávez?

Afinal, Chávez também auxilia economicamente a Bolívia e o Equador, assumindo prejuízos que serão suportados pela população venezuelana, em benefício dos seus interesses políticos; também é próximo de Ahmadinejad, alimentando o estúpido anti-americanismo; também defendeu Zelaya, pretendendo espalhar o modelo chavista de perversão da democracia pelas mãos da democracia; e também acolheria Cesare Battisti, por conta, puramente, de ser, este, um assassino de esquerda.

Perceberam? Basta não ser torcedor do PT Futebol Clube para assimilar estas conexões. Aliás, não é necessário, afirmo, ser torcedor do PSDB Futebol Clube para dizer o que estou dizendo. Até porque, eu mesmo, não sou partidário, embora não seja, claro, alguém sem posicionamentos políticos pessoais.

As notícias recentes comprovam que as prioridades eleitas pela diplomacia nacional, principalmente nos últimos tempos, dão o tom que explica o porquê das recentes críticas.

Enquanto o Brasil fecha acordo para pagar US$ 1,2 bi a mais por gás boliviano, colocando o prejuízo na conta dos brasileiros, pelo simples motivo de querer ajudar politicamente Evo Morales, além de ter o seu Senado aprovando a entrada da Venezuela no Mercosul, o que não é de todo errôneo mas, no mínimo, questionável, é o Chile que é aceito na OCDE.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) confirmou, nesta terça-feira, em Paris, a aprovação do Chile como membro permanente da instituição.

Com a adesão, o Chile será o primeiro país da América do Sul a integrar a OCDE, definida como “clube dos países ricos e desenvolvidos” e que reúne as nações mais industrializadas do mundo.

Ora, por que não é o Chile o país atraído para o Mercosul? Por que esse país, onde as eleições presidenciais trazem a noção madura para a população de que qualquer candidato que vencer manterá o que tem caminhado de forma correta, não é aquele que miramos para estreitar relações?

Resposta: Prioridade.

É por isso que digo que é possível questionar as prioridades do governo brasileiro no que tange a política externa.

Digo isso porque temos Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia no comando da área.

Digo isso pois parece que mais vale a política pró-ideologia do que a economia e a importação de experiências bem-sucedidas.

Digo isso por conta de o Brasil querer ser, hoje, mais Chávez do que Bachelet.

Artigo do leitor: A realidade do governo Lula

06/12/2009

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto do leitor Paulo Palito:

A realidade do governo Lula

Paulo Palito*

Há uns meses atrás, li uma crônica de um famoso cientista político dizendo que o Brasil nunca teve uma Diplomacia tão exuberante: Asilo a um Presidente deposto em Honduras, asilo a um condenado na Itália, defesa de homens como os Presidentes da Venezuela, de Cuba, da Bolívia e do Irã. O Presidente dos EUA chamando Lula de “o cara”. E o Presidente Lula viajando pelo Mundo elevando o nome do Brasil, etc.

Sinceramente fiquei balançado. Será que Lula e os petistas é que estariam certos?

Esqueci do Presidente Kadafi e de Omar Hassan Ahmad al-Bashir, condenado pela ONU. E existem outros.

O Presidente Lula realmente nunca desceu do palanque. Discursa aqui no Brasil e no Mundo todo emocionando as pessoas. Seu Governo está com 80% de aprovação.

Mas vamos analisar as coisas.

Hitler também emocionava as pessoas e teve o seu Governo com 100% de aprovação do povo alemão.

A situação econômica do Brasil está boa hoje porque o Plano Real acabou com a inflação e as medidas econômicas do Governo anterior foram seguidas. É claro que a aprovação popular tem que estar elevada.

O Presidente de Honduras, que está asilado na Embaixada do Brasil, foi deposto pelo Congresso Hondurenho, por ele querer modificar a Constituição daquele país, visando perpetuar-se no poder. No seu lugar assume a autoridade indicada pela Constituição e garante a eleição de novembro que já estava marcada. Essa eleição transcorreu com uma participação popular recorde na história daquele país, apesar do boicote pregado pelo Presidente deposto. O povo hondurenho deu uma verdadeira demonstração de democracia ao verdadeiro golpista. Sobre o reconhecimento dessa eleição o Presidente Lula disse: “Não, não e não”.

Desafiando a justiça italiana, o governo brasileiro está asilando o assassino Battisti condenado na Itália por quatro assassinatos e militância política. Não duvido que vá lhe dar um emprego em uma empresa estatal.

Hugo Chávez, um idiota a quem o Rei da Espanha mandou calar a boca; A ditadura de Cuba que já mandou milhares para o “paredón”; A Bolívia de Evo, O Paraguai de um Presidente que tinha relacionamentos enquanto bispo. Lula Já ajudou todos estes com milhões de dólares, apesar de não ter dinheiro para pagar decentemente aos aposentados.

Ahmadinejad, Presidente reeleito do Irã, em uma eleição reconhecida mundialmente como fraudulenta. Esse merece um capítulo especial: Lula defendeu Ahmadinejad na sua coletiva com a primeira-ministra alemã Angela Merkel, no dia 4/12, na frente do mundo inteiro. É o apoio de Lula a um líder que está colocando a Humanidade em perigo, com os seus delírios messiânicos de construir a bomba atômica para destruir Israel e a civilização ocidental. Hoje, Lula é o grande avalista de Ahmadinejad diante do mundo no Ocidente.

Hoje tenho certeza: Na eleição de 2010, eu ainda não sei em quem votar, mas com certeza não será em ninguém do PT indicado por Lula. Acho que devemos escolher um governo sério, ético, que dê prioridade para a educação, a saúde, e que combata a corrupção.

Corrupção se combate é com Judiciário forte e independente, leis severas e julgamento rápido, removendo-se todos os entulhos jurídicos existentes na legislação. Enquanto tivermos um Judiciário frágil, ministros dos superiores tribunais nomeados pelo Executivo e o jogo de influência dos poderosos nos tribunais, vamos continuar com alto nível de corrupção na política brasileira, reinando a impunidade e a máxima de que o crime compensa.

A única coisa que um criminoso respeita é a condenação pela justiça com aplicação de penas severas, sem redutores. Sem um Judiciário forte e independente e justiça aplicada para todos, jamais veremos a redução da corrupção no País, que, ao contrário, tende a aumentar com a impunidade. O exemplo tem que partir de cima para baixo. Lotar as cadeias principalmente com gente graúda, independentemente de onde vierem.

Sobre as imagens do Governador Arruda e seu bando recebendo propina e pondo dinheiro nas meias e nas cuecas, que chocaram o Brasil inteiro, o nosso Presidente da República, Luiz Inácio da Silva, o Lula, disse: “As imagens não falam por si, o que fala por si é todo o processo de apuração, todo o processo de investigação”. Ou seja: Depois do processo de investigação eles serão inocentados e eleitos novamente, como em exemplos anteriores.

E as amizades internas dos governistas com quem, antes de chegar ao poder, eles chamavam de picaretas: Sarney, Renan Calheiros, Collor. Em nome da governabilidade Lula faz aliança com esta gente. É de enojar ver uma fotografia da líder petista no Senado Federal abraçando e beijando o Sarney. Se fosse um homem sério, o Presidente Lula jamais faria aliança com esta gente. Aliás, deveria procurar um meio de colocá-los na cadeia. Se não estiver com o “rabo preso”, jeito tem.

Sem partidarismo, espero que o povo brasileiro acorde e eleja um governo sério na próxima eleição.

*Paulo Palito é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog

Coluna do dia: Eleições em Honduras – O Brasil parece querer o juízo final

30/11/2009

Por Arthurius Maximus*

A política externa brasileira vem sendo criticada por mim, e por inúmeros outros articulistas, faz tempo. Subserviência a Chávez, apoio a toda sorte de ditadores e genocidas africanos, esmolas em profusão para nossos vizinhos que, ao invés de trabalharem pela melhora de seus países, ficam chafurdados no velho discurso de que a culpa de sua pobreza é do “Imperialismo Tupiniquim” e não de seus governos preguiçosos e de uma população acostumada ao populismo e ao assistencialismo.

A posição do Brasil frente às eleições hondurenhas deste domingo é mais um ponto de vergonha na política externa do governo Lula. A canhestra operação de acobertamento envolvendo a tomada da embaixada brasileira em Tegucigalpa pelas “legiões” de Zelaya e a sua transformação em palanque político (contra todas as leis internacionais) pelo velho caudilho hondurenho, não foram suficientemente capazes de fazer ver a Lula e ao Itamaraty a burrada em que o Brasil se meteu.

Além de abdicar do importante papel de mediador e de agente da normalidade política, aumentando o seu poder de influência na região e levando uma imagem de país preparado para lidar com crises além da sua própria fronteira, o Brasil, embalado pela subserviência a Chávez, tomou o pior partido possível e acabou se prestando ao papel de marionete de Zelaya e do venezuelano.

Honduras vivia a quase normalidade política e todas as partes compactuaram com um acordo firmado pelo Presidente da Costa Rica, que reconduziria o país para a normalidade democrática. Mas o retorno de Zelaya ao país e o seu abrigo em nossa embaixada serviram para lançar a nação hondurenha à beira de uma guerra civil e da instabilidade institucional. Tudo porque o Brasil deixou que Zelaya acessasse rádios, canais de televisão e a imprensa internacional através da nossa embaixada e conclamasse os seus seguidores a se revoltarem.

Como sempre vimos nas transmissões ao vivo, as passeatas sempre eram de poucas centenas de pessoas. Contudo, a balbúrdia e a insegurança criadas por elas levaram o país para a beira de um colapso social e de uma luta fratricida.

Como ficou claro depois, Zelaya nunca quis negociar. Seu intuito era mesmo criar confusão e ser reconduzido “nos braços do povo” para o palácio presidencial (do qual foi retirado legalmente ao violar a Constituição de Honduras). Ao perceber que isso não aconteceria, pelo simples fato de que a maioria da população de seu país estava contra ele, a única alternativa era impedir as eleições. Com a ajuda do Brasil, Zelaya e Chávez tentaram de tudo. Mas, com o apoio dos EUA e de quase toda a comunidade das Américas para a realização das eleições e o reconhecimento de que isso encerrava a crise de uma vez por todas, Zelaya viu a sua posição esvaziar-se e até os membros de seu próprio partido participaram das eleições.

O resultado não pode ser mais expressivo do pensamento do povo hondurenho: Tanto o partido de Zelaya quanto o de Micheletti foram derrotados nas eleições. Isso demonstra claramente que o povo hondurenho está farto do populista de chapéu de vaqueiro e do incompetente que não soube explicar à comunidade internacional o acontecido.

As eleições colocaram um fim nessa longa pantomima mal interpretada e cheia de atores de terceira categoria. Mas, insatisfeito com seu papel ridículo, o Brasil se uniu às “forças do avanço” (Venezuela e Equador) e se recusará a reconhecer o vencedor das eleições hondurenhas como Presidente eleito legítimo.

O que querem o Itamaraty e o governo Lula? Um banho de sangue? A convulsão social em Honduras? Uma guerra civil?

Tudo isso para satisfazer Hugo Chávez e um obscuro caudilho centro-americano que só nos deu dores de cabeça. Além disso, ao invés de reduzir os danos, ao ser derrotado miseravelmente em seu apoio a Zelaya, o Brasil assumirá a posição equivocada de esperar que Papai Noel restitua o poder a ele.

O mais estranho é que Zelaya, ao ter sua proposta de negociação submetida à Suprema Corte Hondurenha, ainda foi condenado por traição. Portanto, se deixar a embaixada brasileira, ao invés do palácio presidencial, vai para a cadeia.

E o Brasil corre o risco de ficar com o “mico internacional” do ano ao apoiar a realização do Juízo Final e de uma guerra civil como única forma viável para reempossar um Presidente que desejava “apenas” eternizar-se no poder e violar a sua própria Constituição.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Lula e Ahmadinejad, Brasil e Irã: Um caso para se pensar

24/11/2009

Por conta de todas as barbaridades defendidas pelo Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, a visita deste ao Brasil foi atacada por todos os lados. Pessoas de diferentes matizes ideológicos afirmam que é um absurdo que nosso País tenha recebido, com pompa e circunstância, um homem que nega o Holocausto.

Muitos comentários a respeito do caso dão conta de que trata-se de mais uma desventura da política externa brasileira. Estes somam a visita de Ahmadinejad a uma lista que conta com a conivência com relação às FARCs, o apoio a Hugo Chávez, o recebimento de Zelaya na embaixada brasileira em Honduras e a defesa de Cesare Battisti.

Pois bem. Acontece que a visita do Presidente iraniano torna necessário que se tenha muito mais maturidade do que a suficiente para analisar os casos de Zelaya, Battisti, etc, com precisão.

Por quê? Perguntarão alguns. Respondo: Porque as relações com as FARCs, com Chávez, com Zelaya e com Battisti têm viés fortemente ideológico. A visita de Ahmadinejad tem viés econômico.

Quando cito a maturidade quero dizer que é preciso deixar o asco nutrido por Ahmadinejad de lado por alguns instantes e analisar friamente o que a visita do iraniano representa.

É fato que as declarações de Ahmadinejad são absurdas? Sim, é. É impossível respeitar alguém que diz que o Holocausto não existiu e que em seu país não existem homossexuais? Com certeza.

Contudo, a questão não é essa. O ponto crucial a ser analisado é: Receber Ahmadinejad em seu País respalda as declarações deste Presidente e as suas teses abomináveis?

Quem critica Ahmadinejad e responde à minha pergunta com um sim reforça sua crítica. Mas é possível criticar Ahmadinejad e responder à minha pergunta com um não, o que não enfraquece a crítica ao líder iraniano.

O quero dizer é que, dependendo de como é gerenciada, uma visita de um líder estrangeiro condenável não representa defesa de seus valores. Justamente por ser econômica e diplomática, e não ideológica. É preciso que se tenha a noção de que esse viés analítico é plausível.

O que Ahmadinejad defende é em grande parte absurdo, com certeza. Mas o Presidente Lula não declarou nada que reforçasse os absurdos, ao contrário, alfinetou um deles, quando afirmou que o programa nuclear deve ser utilizado para fins pacíficos.

Nesse momento surgirá o comentário: Ora, mas Ahmadinejad foi eleito em um pleito fraudado e recebê-lo como líder iraniano legitima as eleições.

Isso é uma verdade. Inquestionável. Daí a dizer que isso reforça as teses de Ahmadinejad são outros quinhentos. Até porque a realidade é a de que Mahmoud é, infelizmente, o Presidente do Irã, doa a quem doer. E o Brasil não romperá relações com o Irã por conta disso.

Alguns poderão dizer: Ora, mas deveria romper!

Deveria? Será mesmo? Quando o Brasil era uma ditadura, que defendia um regime autoritário que assassinava, seria correto que rompessem com o Brasil? Talvez no que tange os princípios sim. Mas na prática não, porque isso não nos ajudaria em nada, ao contrário.

Em suma, o Brasil não passa a defender o que defende o Irã por se colocar como seu interlocutor. Ahmadinejad é abominável, mas recebê-lo ou não no Brasil é irrelevante quanto a isso.

Por outro lado, para a política externa brasileira, é sinal de crescimento receber em menos de um mês o líder israelense e o líder iraniano. Quando Bill Clinton recebeu tanto israelenses como palestinos em Camp David foi elogiado. Se os EUA recebessem Kim Jong Il para um diálogo estariam defendendo o regime esquizofrênico da Coreia do Norte?

E tudo isso que digo tem a explicação que é citada por mim no início: A relação é econômica e diplomática, e não ideológica.

Por isso é preciso maturidade. Por isso a crítica ao relacionamento com Chávez e com Zelaya não é a mesma que diz respeito a Ahmadinejad.

Com Chávez e Zelaya a relação do governo é ideológica. Há apoio das ações e dos ideais. A mesma coisa vale para a defesa de Battisti. O governo brasileiro atual é criticável nestes casos porque demonstra claramente apoiar o pensamento, ao invés de apenas estar se relacionando com a devida distância.

Com Ahmadinejad há mera conexão com a nação do Irã, que não pode ser extirpada de nossas relações por ser liderada por um idiota. Até porque, se assim fosse, em diversos momentos da história romperiam relações com o Brasil. Alguns diriam que isso valeria até mesmo para hoje.

Enfim, o encontro de Lula e Ahmadinejad é um caso para se pensar. Profundamente. A crítica superficial deve ser deixada de lado. O ponto principal é saber se receber o iraniano é, necessariamente, defender suas teses.

Talvez não seja.

É até complicado para mim, crítico feroz de regimes autoritários, levantar essa questão. Eu mesmo tenho certas reticências morais contra qualquer relação com Ahmadinejad.

Acontece que em certos casos é preciso, respeitados todos os princípios éticos, olhar além do óbvio.

Democracia é mais do que mero procedimento

09/11/2009

As férias de fim de ano estão chegando aos poucos e este blogueiro que vos fala começou a pesquisar em lojas virtuais. A pesquisa visa decidir que livros comprar para ler no tempo livre que surgirá pela parada das aulas na universidade.

Pois bem. Neste minha pesquisa encontrei um livro chamado Democracia: Não é Apenas Procedimento. Trata-se de um livro pequeno e não sei ainda se o comprarei. Porém, sem dúvida alguma a descrição deste livro, que visa explicar resumidamente do que ele trata, é sensacional.

Democracia, definitivamente, é mais do que mero procedimento. Eu dedico o trecho abaixo, que descreve o livro supracitado, a todos os chavistas e bolivarianos, defensores do “kit-Chávez”, que tentam defender que existindo alguns procedimentos democráticos, existe democracia real, o que é uma falácia.

Não bastam plebiscitos e referendos para que as liberdades democráticas estejam garantidas. O bolivarianismo, ao contrário, suprime estas através daqueles. Não só na Venezuela, como na Bolívia, no Equador e na Nicarágua. Por tentar o mesmo em Honduras, Zelaya foi deposto.

Dito isso, confiram:

“Os princípios e valores da democracia ateniense  ‘liberdade, igualdade e solidariedade’, que se efetivaram impedindo a concentração dos poderes existentes na sociedade, podem ser encontrados ainda hoje nos sistemas institucionais das atuais democracias, porém recontextualizados por conta da diversidade e modo de organização da atividade econômica na sociedade.

Se por um lado a democracia requer respeito às normas que instituem procedimentos para conquistar o poder político e racionalizar os conflitos, por outro lado o conceito atual transcende o mero procedimento para efetivar e garantir os valores da dignidade, cidadania e justiça”.

Resultado da enquete: Zelaya deve poder retomar a Presidência em Honduras?

09/11/2009

Em meio ao vai e vem das negociações em Honduras a respeito da restituição ou não de Zelaya no cargo de Presidente daquele país, a décima terceira enquete do Perspectiva Política em novo formato perguntava o seguinte:

Zelaya deve poder retomar a Presidência em Honduras?

Pois bem. Aproveitando para agradecer o grande número de votos, apresento os resultados:

Não – 49%

Sim – 38%

Depende das circunstâncias – 13%

Se partirmos do pressuposto de que os leitores do Perspectiva conseguem representar, embora em menor escala, as intenções de voto da população como um todo, podemos tirar algumas conclusões destes resultados:

1- Os posicionamentos acabam sendo bem extremados. Provavelmente por questões ideológicas pessoais, os votantes se colocam, na maioria dos casos, ou a favor ou contra, não apreciando muito a opção “depende das circunstâncias”. Em suma, uns defendem Zelaya de volta de qualquer forma e outros defendem que ele não deve retornar de forma alguma.

2- Fica claro pelas porcentagens que a maioria, quase absoluta, se coloca contra o retorno de Zelaya ao poder. Isso não quer dizer que todos aprovam o modo como o hondurenho foi retirado do poder ou que todos são simpatizantes do governo Micheletti, porém, comprova que 49% dos que votaram entendem que, com seus arroubos autoritários, Zelaya desrespeitou a Constituição hondurenha, merecendo perder seu cargo.

3- Por fim, é interessante ressaltar que o caso de Zelaya é um onde fica nítido que, em alguns momentos, mais é levada em conta a ideologia e os campos do espectro político que estão sendo defendidos por cada posição, do que os fatos reais em si.

Dito isso, coloco à disposição de vocês na barra lateral à direita  uma nova enquete, dessa vez dizendo respeito ao blog em si, que pergunta:

Você acha que o Perspectiva deveria mudar de visual?

Aguardo as respostas de vocês.