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Coluna do dia: José Serra, Bolívia e as coisas que não devem ser faladas

31/05/2010

Por Arthurius Maximus*

Nesta semana que passou, a grande polêmica ficou por conta das declarações feitas por José Serra a respeito do Governo Boliviano. Ao afirmar, com todas as letras, que o Presidente Evo Morales favorece o tráfico de drogas e faz vista grossa para a exportação de cocaína da Bolívia para o Brasil e para o mundo sem combatê-la, Serra lançou um mal-estar desnecessário. Mesmo não concordando em nada com o governo boliviano e achando que Serra está completamente certo em suas afirmações, existem certas coisas que não acrescentam nada ao debate.

Uma das funções básicas do Presidente é a manutenção de boas relações internacionais com os vizinhos. Mesmo criticando abertamente as benesses exageradas dadas por Lula aos bolivianos, paraguaios e argentinos – muitas vezes em detrimento dos interesses do Brasil e dos brasileiros – creio que a postura de José Serra foi desnecessária e criou um constrangimento evitável para o Estado Brasileiro como entidade.

É claro que, como grande produtor de coca, Evo Morales tem como clientes principais os traficantes bolivianos. Só quem não conhece como funciona o mercado de folhas de coca naquele país pode afirmar o contrário. As folhas colhidas são enviadas para mercados nas proximidades das fazendas onde são compradas pelo maior preço – independentemente de quem pague por elas. Além disso, a única riqueza boliviana além do gás e de um pouco de minério é a coca. Sem a venda das folhas, segundo os bolivianos utilizadas apenas para uso nas beberagens culturais, a economia rural boliviana entraria em colapso.

Por isso mesmo, dizer que um dos principais produtores de coca da Bolívia, o Presidente Evo, combateria o tráfico local e a mola propulsora de sua economia é uma piada. Contudo, dizer isso abertamente é como mostrar uma tremenda falta de educação e de “toque” diplomático, municiando a concorrência.

O que Serra fez é mais ou menos como você receber uma visita em casa e o sujeito ficar dizendo para os amigos que sua casa fede, é feia ou suja. Ela até pode ser tudo isso, mas ninguém tem o direito de dizer isso.

Os caminhos a serem tomados são simples. Basta endurecer a fiscalização e desmoralizar o gordinho Evo com a verdade: sua inação no combate ao tráfico. Se a Bolívia nada faz, o Brasil então que cumpra a sua parte e a parte da Bolívia.

Bastaria, para calar as vozes contrárias, intensificar o patrulhamento nos rios, estradas e na selva fronteiriça. Infelizmente, o governo atual deixa muito a desejar nesse aspecto e, a exemplo do que fez com o Paraguai, afrouxou a fiscalização de fronteira nessas áreas críticas a pedido dos nossos vizinhos.

Serra fala uma verdade que não deve ser escondida. No entanto, o meio utilizado para propagá-la não foi o adequado. Faltou a necessária “tarimba” e a esperteza de agir antes de falar para que, depois, a coisa não fique apenas no discurso ou na letra morta.

E você leitor, o que pensa disso?

*Arthurius Maximus, escrevendo excepcionalmente em uma terça, é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica.

2ª Coluna do dia: A História e a verdade – Há certeza nos fatos históricos?

14/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

“Quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro.” – George Orwell

Difícil definir a História. Corre-se o risco de cair no simplismo de afirmar que “História é o estudo do passado”, ou que “História é aquilo que passou, aquilo que já aconteceu.” Essas definições não estão equivocadas, mas são insuficientes.

Não sendo a finalidade deste artigo a investigação do conceito de História, simplesmente afirmarei que a História é o fluir das configurações humanas (sejam individuais, coletivas, institucionais, intelectuais, enfim, tudo que deriva do homem) no Tempo. Nesse sentido, a História é um processo que constantemente realiza e atualiza a si mesmo. A História é sempre presente. Mas sendo um fluir contínuo, passado, presente e futuro nela se confundem.

Não obstante, o objeto da ciência histórica é o fato histórico, cuja ‘residência’ mais natural é o passado. E ainda que os desdobramentos de muitos fatos históricos continuem operando no presente, fazendo com que tais fatos permaneçam em aberto e não se possa discursar definitivamente sobre estes, pode-se afirmar com tranquilidade que a maioria dos fatos históricos, de natureza simples, já se concluíram, ou seja, se esgotaram e permanecem ‘fechados’. Sendo fatos históricos conclusos, estes existem de tal forma que se pode dizer que eles consistem em ‘verdades’. A ‘verdade’ de um fato histórico é a narrativa da configuração de entes que compõem esse fato.

É o resgate dessas ‘verdades’ para o presente o que caracteriza a função autêntica do historiador. A própria natureza da existência, porém, impede que se possa conceber o fato histórico em um estado de objetividade pura. Observar um ente já é participar da existência desse ente e influenciar o seu destino. O que se pode exigir asceticamente do historiador, porém, é um máximo de objetividade possível, a qual consistiria na ausência de uma vontade consciente de tentar moldar os fatos históricos, para fazer com que eles se conformem a uma visão pré-concebida ou a algum objetivo externo à história.

Se devo apregoar isso, é porque tal disposição histórica para a verdade é exatamente aquilo que praticamente inexiste. Nunca o discurso histórico foi tão ideologizado quanto é hoje. Se em outras eras, como no século XIX talvez, os historiadores tinham sua objetividade um pouco atrapalhada por conta de concepções internas inconscientes, a manipulação, a distorção e o uso da história para fins ideológicos hoje é algo absolutamente consciente e intencional.

Crê-se na possibilidade de o ‘bem’ e a ‘verdade’ poderem existir separadamente. E, nesse caso, crê-se na possibilidade de se sacrificar a ‘verdade’ em nome do ‘bem’. Sendo assim, seria válido distorcer e manipular a história, se tal manipulação tiver uma finalidade moral ou servir para favorecer a vitória de uma utopia moral.

Sabe-se que o ditador Josef Stalin (tio Joe, como Roosevelt o chamava, sem ironia ou sarcasmo), neurótico e volúvel como era, alterava seus súditos favoritos como se muda de trajes. E o destino da maior parte dos que caíam em seu desfavor era a execução ou o gulag. Mas mais perturbador do que o destino físico de seus inimigos era o destino histórico dos mesmos.

Stálin simplesmente ordenava que todos os registros fotográficos da existência de certos inimigos fossem apagados. Assim, ocorreu que todas as fotos de Trótski com Lênin fossem alteradas, com a exclusão de Trótski delas.

Um outro famoso caso foi o do Chefe da NKVD, antecessora da KGB, Nikolay Yezhov, absolutamente leal a Stálin, mas que teve o azar de ser bem-sucedido demais e incorrer nas desconfianças paranóicas do Grande Camarada. Não satisfeito em ordenar sua execução, Stálin ordenou que Yezhov fosse expurgado da memória histórica, como se ele nunca tivesse existido.

Se nós não temos acesso direto aos fatos históricos por meio de nossa presença neles, ou seja, se nós apenas recebemos tais fatos históricos a partir de terceiros, como podemos garantir a veracidade da narrativa histórica?

Simples, não podemos.

A princípio, nada garante a ocorrência de qualquer dos fatos históricos ‘famosos’ que supostamente conhecemos. Eles simplesmente são considerados ‘dados’, porque nós possuímos uma ingênua confiança nas ‘autoridades’. Nesse caso, cremos nos indivíduos encarregados em investigar e narrar a História.

Pode ser que a maioria desses fatos seja genericamente verdadeira. Mas e quanto a seus detalhes? Não bastasse a possibilidade natural de erros inconscientes, e quanto ao fato de os historiadores serem indivíduos que recebem salários, possuem ideologias, têm um emprego a preservar e uma reputação a defender?

Poucas coisas são tão fortes e, ao mesmo tempo, tão frágeis quanto a verdade.

Se o monopólio do conhecimento pertence a uma mídia e a uma academia radicalmente ideologizadas (ambas em uma direção esquerdista e politicamente correta), devemos ter em mente que o que nós recebemos é o discurso histórico de uma ideologia específica e não uma narrativa histórica objetiva.

E se, inevitavelmente, nós só temos contato com narrativas históricas ideológicas, como ter confiança em qualquer suposto fato histórico?

Fica a dúvida.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: A ação e a verdade – Observando a realidade objetiva

10/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

Toda Ação se origina de uma resolução interna de causar certos efeitos sobre a realidade objetiva do mundo exterior. Assim, toda Ação possui um caráter subjetivo e volitivo, restando necessariamente fundada na representação interna que o ‘agente’ tem da realidade, assim como em sua ‘Visão-de-Mundo’, ou seja, na maneira pela qual ele valora e impõe sentido aos infindos entes da realidade objetiva.

Uma Ação (ou um conjunto de ações) pode ser dita ‘Verdadeira’ ou ‘Falsa’, não só na medida em que ela seja capaz de realizar os efeitos pretendidos, mas principalmente na medida em que a Representação e a Visão que a fundam possuam uma correlação positiva e o mais aproximada possível da realidade objetiva.

A despeito do que afirmam os relativistas, a impossibilidade de se conhecer racionalmente a realidade objetiva em sua pureza absoluta não refuta a sua existência, na medida em que ao estar o Homem sempre e necessariamente integrado nessa realidade objetiva (ou seja, inexistindo o Indivíduo, o ‘Átomo Humano’, a ‘Pessoa Humana’) ele é constantemente ‘afetado’ pelas relações de entes e forças, as quais não se originam dele mesmo.

Necessariamente, portanto, a Ação fundada no ‘Ilusório’ deverá, no mínimo, culminar em resultados negativos, ou mesmo funestos, para o ‘agente’, quando não em resultados negativos para a própria realidade objetiva na qual o Homem está absolutamente integrado. O Erro leva à Tragédia. É simples assim. Mas nem sempre essa verdade é fácil de ser percebida.

Se eu estiver caminhando, e houver um buraco no meu caminho e eu ‘representar falsamente’ esse aspecto da realidade objetiva, eu simplesmente vou cair e me ferir. Esse é um exemplo claro e óbvio de como toda Ação fundada no Erro leva à Tragédia. Situações como essa, que lidam com aspectos mecânicos e visíveis da realidade objetiva, e cujos efeitos surgem a curto prazo e diretamente, nos permitem visualizar com facilidade a estreita associação entre o ‘agir’ e a retidão dos juízos prévios à ação.

Infelizmente, porém, a realidade objetiva é muito mais complexa e a maior parte de seus aspectos é composta por redes e camadas de relações entre entes, as quais muitas vezes não são perceptíveis pelos sentidos, possuem uma natureza diluída e fragmentada, e que exercem influências mútuas, que só podem ser percebidas a longo prazo. Isso se aplica, por exemplo, a tudo que concerne à sociedade, à cultura e à história, entre outros âmbitos da realidade objetiva.

Não é de surpreender, portanto, que seja mais fácil cometer e sustentar absurdos infundados em tudo aquilo que concerne às relações do Homem com as suas criações culturais e sociais. Para a maioria dos animais, a incapacidade de representar e perceber corretamente a realidade, a incapacidade de se adaptar à realidade e de responder corretamente aos seus estímulos, culmina em sua morte e, quando a nível coletivo, na extinção de uma espécie. Os Homens, porém, ao longo dos milênios, desenvolveram inúmeros artifícios, principalmente a tecnologia, os quais lhes permitem ‘adiar as contas que eles têm que prestar’ com a Realidade Objetiva.

Uma certa medida ou orientação de política governamental, ou então uma ideologia, podem ser aplicadas por décadas, até mesmo séculos, até que sua inocuidade ou sua falsidade sejam percebidas claramente. Isso é um fato, mesmo que a falsidade essencial de referida orientação ou ideologia já sejam perceptíveis, aos que tem rigor, desde a sua concepção.

O principal problema é que, por conta dessa natureza dilatada dos efeitos das ‘ações políticas’, na maior parte das vezes simplesmente é tarde demais para se consertar os erros, depois que eles são percebidos.

Esse problema é agravado pelo fato de que a maioria dos membros da ‘classe intelectual’, ou por incapacidade, ou mais provavelmente por estarem completamente hipnotizados por pautas moralistas e sentimentalóides, nutrem um completo desprezo pela ‘Realidade’ e pelas Ciências, quando as mesmas, inevitavelmente, refutam de modo avassalador suas crenças pífias e esclerosadas.

Não saberia precisar se o desprezo pelas Ciências deriva da ignorância moral-sentimentalista, ou se o que ocorre é o contrário. Provavelmente a primeira opção é a mais acertada. Os espíritos fracos são impelidos na direção de sistemas morais de pensamento que invertem os valores tradicionais, exaltando a ‘vítima’ e condenando os ‘dominadores’. Sobre essa inversão, erguem-se religiões, ideologias políticas, conceitos filosóficos e projetos sociais e econômicos.

Quando as verdades da realidade objetiva, como interpretadas pelas Ciências (das Humanas às Exatas), não se adequam às fantasias humanistas dos ditos ‘intelectuais’, ou eles simplesmente ignoram a Ciência, limitando seus efeitos a um campo extremamente restrito (como fazem com as Exatas, e principalmente com a Biologia), ou então, simplesmente as distorcem e as manipulam, para fazer com que elas confirmem seus ‘ideais’ surreais (como fazem com todas as Ciências Humanas).

O desprezo visto nesses ‘intelectuais’ burgueses, nesses ‘homens de bem’ em geral, em relação à Verdade e à Ciência, deveria causar tanto nojo generalizado quanto me é causado. Isso, porém, não se verifica. Parece que, desde que os egos, individuais ou coletivos, sejam ‘massageados’, desde que todos ouçam exatamente aquilo que querem ouvir, então ‘simplesmente está tudo bem’.

Se tais ideais humanistas são falsos, ou não, é de pouca monta para essa intelectualidade. Me surpreende com desgosto ver que quando eu refuto com perfeição analítica alguns desses ideais, como o da Igualdade por exemplo, a face do adversário demonstra uma absoluta ‘nulidade’.

A face dos que são crentes fanáticos em ideais falsos e estéreis é vazia, oca e cinzenta como a de zumbis. Eles só são acesos, tornando-se hordas furiosas e enlouquecidas quando os referidos falsos ideais são desintegrados por certos filósofos, cientistas e pensadores em geral.

A diferença entre um seguidor das modernas ideologias humanitárias e sentimentais e o seguidor de uma das religiões sacerdotais abraâmicas é difícil de se detectar.

As primeiras, derivam das segundas, apesar de renegarem seus ‘genitores ideológicos’. São todos sistemas de pensamento que desprezam a ‘Realidade Objetiva’, posicionando a obediência a dogmas moralistas infundados acima de qualquer outra preocupação. E seus seguidores se transformam subitamente em hordas sanguinárias e enlouquecidas quando enfrentados.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Dia Internacional da Mulher – Mitos infundados e verdades que devem ser ditas

08/03/2010

Por Arthurius Maximus*

Costuma-se dizer que se as mulheres dominassem a política ela seria muito melhor do que é hoje. Infelizmente, a prática mostra que esse é apenas um sonho e um mito infundado. Poderíamos aqui traçar um número enorme de elogios e repetir os clichês de sempre para homenagear as mulheres. No entanto, esses clichês repetidos “ad nauseam” são a mola propulsora dos hipócritas.

A verdade nos mostra que, aqui no Brasil, especificamente, muitas mulheres que se sobressaíram na política preferiram o caminho do mal, da desonra, da corrupção e da desfaçatez.

Quem pode esquecer da infame “dancinha da pizza”? E o apoio de uma influente Senadora ao coronel corrupto e carcomido pelo tempo?

E que tal a conspiradora que tomou de assalto a ex-capital da República e, com seu marido, é alvo de uma série de processos e acusações quase constantes de fraudes e desvios?

Lembram-se também da ex-ministra que falsificou diplomas para seus filhos conseguirem um “empreguinho” e que toda vez que assume um cargo está envolvida em escândalos e em acusações de desvios de verbas e mal versação de fundos?

E a Governadora que instala em seu secretariado uma verdadeira máfia com o único propósito de pilhar os cofres de seu estado e provoca uma convulsão administrativa nas instituições locais?

E a repórter que é teúda e manteúda de um Senador e que, a peso de muito dinheiro público desviado, vive nababescamente com seu rebento bastardo?

Infelizmente essas mulheres não merecem qualquer homenagem nesse dia.

Contudo, como sempre, há o outro lado.

Reservo-me o direito de homenagear apenas aquelas mulheres que fazem jus aos mitos que se constroem em torno delas. Mulheres de raça e de fibra que acordam cedo, trabalham em casa e nas fábricas e escritórios e, depois de um dia estafante, ainda trabalham em suas próprias casas.

Mulheres que deram suas vidas por uma causa, pelo combate ao mal e à injustiça, pela luta por um mundo realmente melhor. Felicito as mulheres que honram as suas vidas não compactuando com a corrupção, a desordem, a desonra e a discórdia.

Abraço cada uma que se ergue contra a enorme maré de descaso e de desfaçatez que toma conta de nossa sociedade e ousa fazer mais. Fazer algo além “da sua obrigação”, apenas porque assim o deseja.

Beijo as mães, as amantes, as namoradas, as esposas e as amigas que lutam para fazer de seus companheiros homens melhores e que os repreendem quando se desviam, ao invés de simplesmente compactuarem com a situação.

A essas mulheres o meu carinho, a minha devoção e a minha homenagem.

Para as outras… Bem… O inferno.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

2ª Coluna do dia: As verdades não ditas da história

26/02/2010

Por Felipe Liberal*

O Negro:

Em 1936, o país natal do todo poderoso Adolf Hitler foi derrotado pela seleção peruana de futebol. Três gols peruanos foram anulados e também a partida, no dia seguinte. No fim de tudo a Áustria ficou com a prata e a Itália, de Mussolini, com o ouro. O Peru voltou pra casa. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

O Latifúndio:

No rio chamado Massacre, que divide a República Dominicana do Haiti, aconteceu o maior dos espetáculos. Em 1937, caíram assassinados a golpes de facão milhares de negros haitianos, que estavam trabalhando no lado dominicano. Quem mandou matar? O generalíssimo, branco, com cara de rato, Rafael Leónidas Trujillo. Após 73 anos, a empresa dominicana ainda não ficou sabendo. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

Mapa- múndi:

Yalta, fevereiro de 1945. Churchill, Roosevelt e Stálin decidiram o futuro de vários países que levaram anos para ficar sabendo. Três grandes homens, a santíssima trindade do pós-guerra. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

Natureza:

Tem um provérbio que diz que ensinar a pescar é melhor que dar o peixe. O bispo Pedro Casaldáliga, que vive na região amazônica, diz: “A ideia é genial, mas o que acontece se alguém compra o rio, que era de todos, e nos proíbe de pescar? Ou se o rio se envenena, e assim se envenenam seus peixes, pelos tóxicos que jogam nele? Ou seja: o que acontecerá se acontece o que está acontecendo?”

Tó:

Em 2003, os Estados Unidos da América dizimaram milhares de famílias no Iraque. Tudo por culpa de um erro divino, que colocou o petróleo sob os pés dos árabes. Mas não foram só vitimas de carne e osso: Várias relíquias arqueológicas foram transformadas em areia fina após os bombardeios. Entre elas, algumas tábuas de barro. Uma destas tabuas dizia: Somos pó e nada. Tudo que fazemos não é mais que vento.

*Felipe Liberal, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Haiti, EUA, Brasil e o choque de realidade

18/01/2010

Por Arthurius Maximus*

O terremoto no Haiti não jogou por terra apenas vidas e as estruturas daquele país miserável. Jogou por terra também os sonhos de grandeza do governo Lula e a farsa do discurso fácil de políticos que ainda tentam se iludir achando que o amadorismo e o despreparo podem tomar o lugar da competência e dos recursos.

A ocorrência do terremoto acabou deixando exposto o nervo da falta de recursos e da falta de equipamentos de nossas forças armadas em situações de grande necessidade. Sem condições financeiras e materiais de fazer frente ao desastre, o Brasil vê sua posição de liderança local ser posta em xeque pela esmagadora presença americana que controla todas as áreas vitais do país e a distribuição de donativos. Até no socorro às vítimas os americanos estão presentes de forma maciça e constrangedora, tomando para si a responsabilidade maior sobre todas as áreas coordenadas pela ONU no Haiti.

Isso é ruim para nós?

Não. A proporção da desgraça, a necessidade de ações rápidas e de recursos ilimitados para fazer frente a todas as exigências da situação coloca os EUA como o coordenador ideal das operações e, por ser o mais rico país do mundo, o verdadeiro protagonista da situação. O Brasil perde apenas o discurso fácil e a postura de “fortão” que o governo Lula sempre quis dar à presença brasileira naquele país.

Sem apoio sério de nosso governo e sem equipamentos capazes de fazer frente às necessidades do momento e, até mesmo, antes do terremoto, nossos militares conseguiram um resultado muito bom graças à experiência brasileira em favelas e ao fornecimento de material bélico pela ONU.

Mas, nesse momento, a brincadeira acabou e a ocasião exige que “adultos” e países experientes tomem conta da situação. Nosso exército tem excelente material humano e cérebros de alto nível. No entanto, nossas forças armadas estão em tal nível de sucateamento que é impossível para nós imaginar que sejam capazes de fazer frente até a situações do dia a dia (basta lembrar que o Brasil dispõe apenas de 4 caças interceptadores – supersônicos – para fazer frente a invasões de nosso espaço aéreo e que nossa marinha praticamente não tem navios patrulhando o nosso litoral pela simples questão de falta de combustível).

Poucos brasileiros podem saber disso, mas, por trás da propaganda do governo Lula de forças armadas equipadas e preparadas, há na verdade desaparelhamento e abandono quase total. Nos quartéis, militares são liberados para voltarem à casa todos os dias pela simples falta do que comer. Veículos que nos custaram muito caro são canibalizados para que unidades com problemas mecânicos possam continuar operando porcamente em mínimas atividades cotidianas.

Estamos criando forças armadas mal treinadas, mal equipadas e inaptas para defender nossas riquezas, nossas fronteiras e atender às mínimas condições operacionais em casos de grandes catástrofes (que também podem acontecer aqui).

O terremoto no Haiti parece ter causado abalos no ego e nos sonhos de uma gente que achava a participação do Brasil em uma missão de paz da ONU uma brincadeira ou, como eles gostam de fazer muito por aqui, um trampolim para ambições políticas em relação à própria ONU.

Agora, a verdade, caiu-lhes, literalmente, na cabeça.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

2ª Coluna do dia: Crônica – A verdade sobre a verdade

29/11/2009

Deus, os homens e a honestidade intelectual

Por Tiago Franz*

- Ateu?

- Sim. Se considerado for que ateu é quem nega a existência de divindades tais quais os teísmos pregam. Por quê? O que é um ateu pra você?

- Se diz de quem não acredita em Deus. Mas significa ser contra Ele. Anti-Deus.

- Definitivamente não significa ser contra Deus. É possível ser contra algo que se nega? Já ouvi falar em antiteísmo, que dizem ser uma oposição direta a divindades. Mas pra ser anti-Deus é preciso acreditar que Ele existe, penso.

- Mas…

- Não podemos confundir! Acho que há um erro conceitual aí. Teísta é aquele que crê que Deus existe. Ateísta, ou seja, ‘a’ mais ‘teísta’, é quem não crê. É simples.

- Humm!

O ‘a’ indica a negação. Mas essa negação não significa necessariamente ser contrário, como um antagonista ou adversário. Assexuado, por exemplo, não é ser contra o sexo. E analfabeto não é quem faz oposição à alfabetização.

- Tá certo.

- Uma vez assisti a uma palestra de um filósofo, que definiu e diferenciou ateus, céticos, fideístas, gnósticos…

- Hum!? Fideístas!? Gnósticos!?

- Calma! Vamos por partes. Ele disse que a palavra ‘ateu’, do grego ‘a’ mais ‘théos’, significa a negação do conceito de Deus. É contra a mentalidade de que há um ou mais deuses que nos avaliam pelos ditames do “certo e errado”, como muitas religiões teístas doutrinam. É contra a imposição da “verdade divina”.

- Então pro ateu não existe uma só verdade?

- Não existe a afirmação de uma só verdade. Mas acho melhor não ampliarmos e complicarmos muito a definição de ateísmo. Vamos limitá-la à negação do conceito de Deus e ver as outras definições. O ceticismo, por exemplo, é ligado à noção de “septo”, de olhar à distância, examinar, observar, desconfiar até mesmo da capacidade que a razão tem de conhecer alguma coisa, disse o filósofo. Já o fideísmo busca ignorar ou minimizar o papel da razão para se chegar à verdade suprema. E o gnosticismo, ao contrário do fideísmo, busca alcançar a plena realização humana a partir do desenvolvimento pleno do conhecimento, a razão…

- Nossa! Vá devagar aí senão eu não acompanho. Isso tudo tem a ver com acreditar ou não em Deus?

- São algumas das formas de pensar que orientam as pessoas a crer ou não na existência de Deus ou de qualquer outra entidade divina. Mas eu ainda não falei da definição que eu acho mais interessante: o agnosticismo.

- Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

- Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

- Mas como assim? Se o agnosticismo considera a existência de Deus improvável e o ateísmo simplesmente a nega, não se pode ser agnóstico e ateu ao mesmo tempo.

- Mas posso estar próximo de ambos e sentir-me um pouco em cada lado. Afinal, essa coisa do improvável tem a ver com movimento, reflexão e mudança de pensamento. Não nego de todo a possibilidade de existir uma força relacionada ao equilíbrio universal. O que eu nego é a existência de um Deus à imagem de um cabeludo e barbudo grisalho, sentado num trono nas nuvens e rodeado de querubins e serafins e tudo mais. Isso, a meu ver, é mitologia. Invenção humana.

- Mas você não era assim. Você já foi um cristão como eu. O que te fez mudar?

- É aquilo que eu disse sobre estar em movimento. Eu não nasci cristão. Nasci numa família e numa comunidade cristã. Minha cultura é cristã. Porém, há uma questão de honestidade intelectual nisso. Você acredita que Deus existe e que Jesus Cristo é seu filho, certo?

- Certo. Mas estou meio abalado com toda essa conversa. E como é isso de honestidade intelectual? Por acaso você acha que eu sou desonesto?

- Não é isso, não! Se você confessa que está com suas convicções um tanto abaladas, é sinal de honestidade intelectual. Mas acho melhor falar por mim. Ser honesto intelectualmente é aceitar a dúvida e conviver com ela. É assumir que somos incapazes de solucionar tais questões. É dessa forma que eu me oriento.

- Me parece que a solução que você encontrou é negar tudo e pronto. Você é ateu e agnóstico, isto é, um “não teísta” e “não gnóstico”. E outra coisa que não entendo: essa tendência de negação não tem uma pitada de ceticismo? E se você chegou a esse ponto através da reflexão e da tal honestidade intelectual, não tem muito de gnosticismo no teu pensamento?

- Tem sim. Como eu já disse, o ‘a’ não significa ser contrário. Os agnósticos não são necessariamente contra os gnósticos, ou seja, não são contra a razão e o conhecimento. O que sei é que os agnósticos acham que o conhecimento e a razão são incapazes de responder à questão da existência de Deus. Até pode ser que haja um pouco de ceticismo aí também. Enfim, as formas de pensamento se aproximam e se afastam em diferentes pontos. E para ser bem honesto, comigo, com você e com todo mundo, repito o que disse Sócrates antes ainda de Jesus ter nascido, se é que eles existiram mesmo:

“Só sei que nada sei.”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: Uma rocha em meio à tempestade

15/09/2009

Por Raphael Machado Silva*

“O caminho certo é o do meio” – Buda

Em meio aos acontecimentos cotidianos, seja no âmbito político ou não, cercados por toneladas de informação e desinformação, e estando dotados de alguma capacidade de raciocínio, é muito difícil não assumirmos uma postura dogmática, a partir de nossa maneira de ver o mundo, e nela ficarmos fechados por nossas próprias limitações, cegos para tudo o mais. Ao invés de olharmos para fora e vermos o Mundo, olhamos e só vemos a nós mesmos, que colocamos em todas as coisas, graças à nossa incapacidade de mantermos uma distância das inúmeras situações que testemunhamos, sejam benéficas ou maléficas.

Mais difícil ainda é se recusar a assumir uma atitude passiva, de aceitação generalizada, de inconstância ética e intelectual, daquele tipo utilizado pelos que pregam o “ah…mas é assim que são as coisas…”.  Porém, caso as coisas mudem amanhã e você retruque eles repetirão como se nada houvesse mudado: “ah…mas é assim que são as coisas…”. Como se os homens fossem apenas bonecos de pano que são movimentados de um lado para o outro, sem qualquer esperança de exercer influência sobre o meio que os cerca.

É necessária uma certa leveza de Espírito para se trilhar um caminho de equilíbrio. É preciso amar a verdade por ela mesma, independente de seus frutos e consequências. O maior risco nesse caminho, além do risco da passividade e da covardia, é o de entender o caminho do meio como um fim em si, ou seja, descaracterizar o caminho como aquilo que ele é, apenas um caminho. É assim que supostos defensores da “moderação” se amedontram diante de certas afirmações, pelo simples fato de os mesmos não serem inofensivos. Fatos com possíveis consequências perigosas, ou que culminam em uma percepção muito distinta da percepção que a maioria tem do mesmo fato, são taxados de extremismos ou radicalismos, e por isso falsamente rejeitados de antemão, como se verdades dependessem de sua adequação a noções subjetivas de cotidianeidade.

O Perspectiva Política é, diferentemente de quase todos os blogs de mesma temática, um blog sem medo. Sem medo, e sem compromissos fora daqueles exigidos pela ética e pelo apreço pela maior aproximação possível da verdade dos fatos políticos nacionais e internacionais. Se o blog reúne indivíduos de visões de mundo e preferências ideológicas diversas, reúne ao mesmo tempo pessoas que colocam sinceridade e veracidade acima de suas preferências pessoais. E se, mesmo assim, indivíduos diferentes chegam a resultados diferentes de avaliação sobre um mesmo fato ou personagem, isso se dá porque todos os fatos políticos são multifacetados e nenhuma pessoa é capaz de abarcar todas as facetas com um único vislumbre.

É por isso que este blog e seu autor Bruno Kazuhiro confundem os “militantes”, sempre ansiosos para etiquetar os outros com toda forma de epítetos e chavões. Que o Perspectiva permaneça sendo uma das melhores mídias políticas alternativas nacionais e que continue a contribuir de forma fértil, como creio que já faz, para o debate político e institucional, enriquecendo-o, distante das fórmulas jurássicas e dos compromissos partidários!

Perspectiva Política, parabéns pelo aniversário!

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Eduardo Paes: Exemplo de desonestidade intelectual

14/07/2009

Existe uma qualidade importantíssima para o ser humano, prezada em demasia por este blogueiro, que está em falta tanto na vida cotidiana de todos como, consequentemente, na vida política. Esta é a honestidade intelectual.

A honestidade intelectual se confunde com a sinceridade e a franqueza, mas não é exatamente nenhuma das duas. Para explicar o que é honestidade intelectual, recorramos à explanação do que é o seu oposto: A desonestidade intelectual.

O desonesto intelectualmente diz que é falso o que sabe verdadeiro, é cínico e nega o que todos os que os cercam sabem ser verdade. O desonesto intelectualmente privilegia seus interesses em detrimento de verdades que não têm nada de controverso. Ele nega o óbvio, sem vergonha de fazê-lo. Ele se recusa a confirmar o que é correto, pois isso atenta contra seus objetivos.

Resumindo, o desonesto intelectualmente mente ou, no mínimo, omite o que lhe convém quando há uma oportunidade, por mais que se espere dele que não o faça. É muito mais nocivo do que alguém que simplesmente omite um fato, pois, diversas vezes, trata-se de alguém de quem se aguarda a verdade

Pois bem. O Prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), teve sua desonestidade intelectual comprovada pelo jornalista Sidney Rezende, que divulga em postagem de seu site, o seguinte episódio:

“Eu disse ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, que havia ficado impressionado com a limpeza e seriedade da gestão de duas escolas municipais que visitei: Lasar Segall, em Realengo, e Roquete Pinto, em Bangu. O prefeito recostou-se na cadeira e elogiou o antecessor:

- Você sabe que o Cesar Maia foi muito criticado pela aprovação automática, mas as escolas públicas são um brinco !

Depois, com humor, Eduardo Paes, arrematou: ‘Só não posso elogiar em público’”.

Lamentável. Vergonhoso. A população do Rio de Janeiro será, pelo equívoco de alguns nas urnas, obrigada a ser comandada por este senhor durante mais 3 anos e meio.

O que teria de mal em reconhecer em público os acertos do antecessor? Não seria muito mais honesto admitir os avanços empreendidos por Cesar Maia?

É esse tipo de prática que macula a política brasileira. Esse conceito de muitos políticos de que ninguém fez nada direito a não ser eles mesmos. Reconheçam-se os feitos do antecessor e prometam-se avanços, melhorias e correções do que está equivocado. Isso sim é honestidade intelectual.

Eduardo Paes só traz um benefício com a declaração que deu. Permite que seja compreendido por nós, perfeitamente, o que é desonestidade intelectual. Configura ótimo exemplo:

Só não posso elogiar em público”

Pronto. Vocês acabam de entender perfeitamente o que é desonestidade intelectual.