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Coluna do dia: A utopia moral e a ideologia pacifista

15/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Em um âmbito social mais localizado, o Pacifismo como ideologia moral é subversivo. Fundado no misticismo e no hocus-pocus liberal, o pacifista considera a vida humana individual como o maior dos bens. Se a vida é o maior dos bens, não há mal maior do que a perda ou retirada de uma vida, ou que a ameaça a sua integridade por meio da violência. Para o pacifista, absolutamente nada é pior do que a violência.

O pacifismo é o fruto de uma doença espiritual do homem. O progenitor do pacifismo é o burguês urbano e cosmopolita. Estando completamente alienado dos autênticos processos da Vida, por meio dos artifícios da vida cômoda, o burguês é incapaz de compreender a Natureza e, portanto, a falsifica moralizando-a. Foge à compreensão do pacifista que tudo no Universo se constrói por meio do embate entre forças que estão constantemente tentando se sobrepôr umas às outras.

Ou, quando ele visualiza a ‘Guerra Total’ que é a existência, ele vê isso como um Mal, porque sua Utopia Moral é ‘extra-mundo’, reside fora do Mundo. Então, ele não julga seus Ideais segundo a Natureza. Ao contrário, o utopista moral, o pacifista burguês, quer julgar a Natureza segundo sua Utopia, e impor essa Utopia ao mundo, independentemente das consequências. Ele é incapaz de contemplar as possíveis consequências, ou quando é capaz, nada disso importa, porque a Utopia Moral é o Bem Absoluto e qualquer mal na direção de sua consecução não passa de um ‘mal menor’.

Não há ‘barbárie’ na Natureza. Há apenas as diversas manifestações da ‘Vontade de Poder’. E, mais importante ainda, a Natureza não é um ‘Outro’ a respeito do qual seja possível ao Homem falar ‘à distância’ como se a mesma fosse um objeto. O Homem é perpetuamente parte disso a que se chama Natureza e está submetido a todas as suas leis e processos.

Isso não quer dizer que ‘a guerra é melhor do que a paz’, como alguma pessoa demente ou com dissonância cognitiva poderia (mal) interpretar essas considerações.

O que se quer dizer é que, para a realização de seus objetivos, os homens possuem ao seu dispor uma grande gama de possíveis métodos. Entre esses métodos estão a violência e a guerra, as quais podem ser tranquilamente vistas como meios válidos de resolução de problemas e conquista de objetivos, dependendo das circunstâncias. E não é nem necessário moralizar e postular: ‘Violência só em último caso’.

Para além da violência como fato, está a postura ética do Homem como Guerreiro. Essa postura não se define pela aplicação efetiva da violência, mas sim por uma disposição constante para fazer uso dela em defesa de seus direitos, no cumprimento de seu dever, ou para conquistar seus objetivos e realizar seus ideais em geral.

Toda tentativa de se impor uma visão sobre o Mundo, toda Ação é uma forma de violência. O artista, o guerreiro e o estadista, são animados por esse mesmo ímpeto, o de transformar a realidade por meio da Ação. E o que anima essa possibilidade de Ação é a ‘Vontade de Poder’ do Homem, que sempre quer se expandir e se impôr sobre o mundo e sobre todos os outros Homens.

É a ‘Vontade de Poder’ com sua vitalidade beligerante e disposta a tudo o fator essencial capaz de erguer das areias do deserto uma nova civilização. Todas as civilizações foram criadas e preservadas por homens ‘violentos, beligerantes’. Nenhuma foi criada por pacifistas. É unicamente a disposição para fazer tudo o que for necessário para conquistar e superar, a disposição capaz de gerar belas obras. E essa disposição, mesmo no poeta e no filósofo está associada à beligerância e à mais pura testosterona, mesmo que o referido poeta nunca pegue em armas. Que sirva como testemunha o maior poeta da língua inglesa, Lord Byron, que partiu para a Grécia para participar na guerra de liberação do berço da civilização ocidental contra os turcos e lá encontrou sua morte.

Alguém tentará ‘normalizar’ essas reflexões dizendo: ‘Não sei porque você está escrevendo essas coisas, quando o pacifismo só busca que haja um pouco menos de violência no mundo!’. Esse tipo de intervenção só pode surgir de alguma mente míope demais para ver qualquer coisa para além de objetivos declarados.

Ocorre que, e eu tenho que repetir isso, para a consecução da Utopia Moral, não há meio indigno e imoral. Ora, a Paz Perpétua não pode ser simplesmente alcançada evitando ou impedindo que as instâncias individuais de violência ocorram, porque isso é simplesmente impossível. Então, o que se deve fazer? A resposta é óbvia, descobrir porque os indivíduos são violentos, porque eles são predispostos à violência, que fatores psicológicos, sociais, culturais e biológicos os levam a querer usar da força para conquistar seus objetivos.

Nenhuma manipulação social, então, é imoral se o objetivo é tornar os homens mais ‘tolerantes’, ou seja, passivos, moscas-mortas, incapazes de conquistar qualquer coisa. Hoje, o Ocidente é bombardeado por uma pesada propaganda cultural que associa os valores combativos e beligerantes a símbolos e figuras indesejados. O único herói admissível hoje é o ‘herói moralista’, ou seja, o herói que se vinga em nome da Utopia Moral. A esse é permitida toda barbárie, como se pode verificar no filme mais nojento e demente já feito por Quentin Tarantino. A moralidade é legitimadora da barbárie.

Os valores viris, ativos, beligerantes, são marginalizados em prol de uma figura humana afeminada, meio andrógina, ultra-tolerante, dialética, conciliadora, que passa a ser vista como o tipo humano ideal. Experiências psicossociais já são realizadas em locais como a Suécia, por exemplo, onde meninos desde a tenra idade são obrigados a se vestirem de menina, e vice-versa, com a finalidade de ensinar a ‘tolerância’.

Quanto tempo irá demorar até que se resolva, por meio de mudanças na alimentação, reduzir a taxa de testosterona dos homens? Que isso já está sendo feito, é fato. A taxa de testosterona masculina tem se reduzido na maioria dos países ‘desenvolvidos’. Não é à toa que poucos ‘homens’ hoje são capazes de desenvolver uma barba de verdade.

A única questão discutível é se essa redução tem sido intencional, ou se é apenas produto das porcarias plásticas e artificiais que passam por ‘comida’ na dieta ocidental. Isso sem falar na possibilidade futura de manipulações e experiências genéticas com a finalidade de impôr a paz no mundo, por meio da castração hormonal da humanidade. O mundo caminha na direção de uma eugenia inversa, uma autêntica disgenia.

Surreal? Ninguém iria tão longe para conquistar a ‘Paz Perpétua’? Por que, se esse objetivo é o mais moral que há, e se é o Bem Absoluto? Se alguém tem a possibilidade material de impelir o mundo nessa direção, por que não o faria?

A violência, a guerra, a morte e o sofrimento, podem ser aspectos feios, horríveis, da existência humana. Porém, ainda assim, possuem seu lugar nessa existência. Todos esses aspectos cumprem uma função, de algum modo possuem um sentido relevante para as experiências humanas.

Não é ‘banindo a morte’, rejeitando os aspectos da realidade que nos são desagradáveis, que vamos aprender a lidar e crescer por meio dessas experiências.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

2ª Coluna do dia: Quando a paz não passa de uma utopia moral

07/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.

Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: Uma crítica da “civilização” americana

10/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Ao se falar em Civilização Ocidental, é demasiado comum fazer-se referência aos Estados Unidos da América como o ente paradigmático e simbólico desta Civilização. Não são apenas os americanófilos que exaltam os EUA como os guardiões dos “valores” do Ocidente, mas mesmo seus opositores utilizam os termos “EUA” e “Civilização Ocidental”, como se fossem termos intercambiáveis; como se fossem sinônimos. Essa semântica caduca origina-se na Guerra Fria, a qual é representada por muitos historiadores e analistas como uma oposição entre um “Oeste” e um “Leste”, ou seja, entre um “Ocidente” e um “Oriente”.

Porém, seria tão ignóbil chamarmos o mundo soviético de “Civilização Oriental”, como o é chamarmos o mundo americano, o mundo americanizado e globalizado, pós-Guerra Fria, de algo como uma “Civilização Ocidental”. A noção dos EUA, ou do Oeste geográfico, como representante ou parte daquilo que autenticamente pode se chamar de Civilização Ocidental não passa de uma grave falácia, derivada da total ausência de consciência histórica que aflige os intelectuais modernos.

Inicialmente, pode-se dizer que esse grave equívoco possui como uma de suas raízes a falsa questão da concepção linear-progressiva da história. Os adeptos das religiões ideológicas da modernidade possuem a utópica e patológica tendência de assumir que há um sentido moral positivo na mera sucessão de momentos fáticos, ou seja, a passagem do tempo histórico representa um “progresso” ou “evolução”, uma continuidade absoluta a qual tende à perfeição da inércia absoluta, ou seja, ao “Fim da História”. Uma genealogia dessa concepção ridícula facilmente demonstra que ela se origina da concepção religiosa judaico-cristã da história, a qual é fundamentalmente messiânica. Liberais e marxistas são idênticos nessa crença. Em verdade, segundo muitos liberais nós já estamos muito próximos desse momento.

À parte o fato de que qualquer análise rigorosa da História demonstra sem sombra de dúvidas que os fatos e entes históricos se manifestam em movimentos cíclicos, os quais sempre possuem uma tendência decadencial, e que a noção de “progresso”, portanto, não passa de uma medíocre mitologia, o que se pode afirmar é que entende-se que a “Civilização” Americana é a Civilização Ocidental, simplesmente pelo fato de que a primeira sucedeu temporalmente a segunda no mesmo espaço geográfico anteriormente ocupado por esta.

Um estudo das origens e fundações dos EUA revela com clareza, porém, que ao invés de representar uma continuidade e, posteriormente sucessão, o surgimento dos EUA representa em verdade um rompimento absoluto com o Ocidente de até então. Se, portanto, as raízes filosóficas e ideológicas dos EUA são anti-ocidentais, só se pode concluir que o Mundo Americano, ou seja, o Mundo Contemporâneo, talvez seja um Anti-Ocidente.

Os EUA e o Mundo Contemporâneo, com seus valores iluministas e humanistas, não são um “desenvolvimento” das fundações civilizacionais ocidentais, as quais residem no Mundo Greco-Romano e na Idade Média. Ao contrário, não passam do fruto de uma caducidade patológica espiritual, essencialmente movidas por uma lógica de degeneração, cuja finalidade só pode ser a auto-destruição.

Não é ao menos possível dizer que o Mundo Americano constitua realmente uma Civilização, (por isso as aspas no título), pela total ausência de uma autêntica Ordem em seus desdobramentos históricos. A “Civilização” Americana não representa Ordem alguma, ao contrário, ela é exatamente a ausência de qualquer Ordem. Mais do que isso, a “Civilização” Americana é a ausência de todo e qualquer sentido não-material da existência. A “Civilização” Americana é, essencialmente, a “Civilização” da Ausência. A Modernidade (ou Americanidade; são sinônimos) constitui exatamente aquilo contra o quê Nietzsche alertou e que ele batizou de “Niilismo Passivo”.

A Modernidade é a rejeição de todos os valores autênticos, ou seja, Tradicionais e Orgânicos. Porém,  ela não é sua substituição por Ideais superiores, mas sim a ausência de qualquer proposta de superação, e até mesmo da própria possibilidade de se conceber a proposição de Ideais civilizatórios normativos. Sem sentido para a própria existência, a não ser a da própria perpetuação, a “Civilização” Americana é uma “Civilização” fadada ao fracasso, à ruína e ao esquecimento. Em troca dos Velhos Ideais, pelos quais acreditava-se valer a pena matar e morrer, ganhamos apenas uma “Tábua Moral” de valores negativos.

Não é à toa, portanto, que o homem moderno seja um completo covarde. Mesmo quando ele faz a guerra, ele não a faz como guerreiro, mas como mercenário. O homem moderno só crê na guerra e só a abraça, quando ele já se visualiza como absolutamente superior ao inimigo. Apenas quando ele sabe que o inimigo não tem chances, é que ele luta, a exemplo dos israelenses, que se regozijam massacrando palestinos armados com pedras, mas que choram quando são imigrantes na Europa e se veem sob a ameaça de nacionalistas.

É esse sentido pervasivo de Ausência, de Perda, que gera aquela constante sensação de angústia, da qual padece a maioria dos indivíduos nesse contexto. Essa é a razão pela qual o homem moderno está em uma constante busca do prazer. Por meio do bombardeio de estímulos sensoriais, o homem moderno busca anestesiar o sofrimento existencial generalizado da Modernidade. Não fosse isso, ele se atiraria de uma ponte, tornar-se-ia um louco (para ser internado por psicanalistas freudianos), ou viraria um revolucionário com sede de Sangue. Será coincidência o fato de que nunca tanta gente viveu à base de remédios?

Mas não é exatamente a maior parte da Humanidade ocidental que se encontra doente. É sua “Civilização” que é doentia. Ela não passa de um inverno, de um longo processo de agonia que antecede um ocaso, a qual, se houver homens de Valor, será sucedida por uma nova primavera, e uma nova civilização, a qual realmente representará um resgate de Velhos Ideais, que criem um novo Sentido para a Existência.

Já sei então como devo chamar a partir de agora aquilo que até então eu chamava “Civilização” Americana. A chamarei de “Patologia Americana”.

Pena faltarem, aparentemente, os Médicos adequados…

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva às terças

Coluna do dia: Climagate – A fraude do aquecimento global

27/11/2009

Por Yashá Gallazzi*

“ – Aleluia, irmãos!”, brada o pastor Al Gore, incitando a massa.
“ – Aleluia! Aleluia!”, respondem os fiéis, arrebatados pelo entusiasmo da pregação.

Assim funciona a Igreja do aquecimento global dos últimos dias. Ou funcionava… Sim, afinal está ficando claro que o evangelho da tal seita não era assim tão sólido… As profecias anunciadas com alarde e pompa, dando conta de que o “çerumano” estaria levando o planeta a uma catástrofe hedionda, parece, estão sendo desmistificadas pelos fatos.

O que aconteceu para que os alicerces da mais nova utopia coletivista interplanetária começassem a ruir? Bem, digamos que descobriram o Santo Graal da Igreja de Al Gore. Sabem, né? A tal “prova”, que jogaria por terra os dogmas e as certezas próprias da fé. O Santo Graal que abalaria as estruturas do cristianismo, por exemplo, só foi encontrado por Dan Brown, no Código Da Vinci. Já aquele capaz de jogar por terra as previsões catastrofistas do prêmio Nobel, está aí, acessível a todos os céticos.

Não! Eu realmente não entendo nada de ciência e de aquecimento global. Quem entende disso, sabemos, são os humanistas do “pogreçismo” politicamente correto. Aquela gente fascinante que faz passeata pelo fim da poluição e vai até a concentração do evento dirigindo seus carros. Sim! Qualquer um que esteja engajado na luta pela preservação da Terra se torna uma autoridade sobre o assunto. Eu? Ah, que nada! Eu sou só uma voz dissonante, não é mesmo? Em matéria de aquecimento global, certo mesmo é ficar com as opiniões de Victor Fasano, Cristiane Torloni e Sharon Stone – esta última dotada da autoridade intelectual típica de quem cruzou as pernas sem calcinha…

Mas o que aconteceu, afinal? Bem, alguns hackers – todos seguramente conservadores, reacionários, de direita, golpistas, preconceituosos e a serviço “duzamericânu” – invadiram uma meia-dúzia de servidores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Caso os leitores não saibam, a tal universidade está para a Igreja de Al Gore assim como Aparecida está para o catolicismo brasileiro. Pois bem, nos computadores dos obreiros-cientistas, os piratas encontraram uma série de e-mails um tantinho curiosos. Lá, havia o registro de um especialista contando para outro especialista que truque usara para esconder a queda média da temperatura global, que acabaria por implodir um dos dogmas primários da fé deles.

Phil Jones, o obreiro de Al Gore, admitiu que os e-mails são todos verdadeiros, mas tentou torturar as palavras, a fim de que confessassem ter um sentido diferente daquele que realmente possuem. Segundo o sujeito, “truque” não queria dizer… “truque”! Claro! Assim como o tal pedido para agilizar, que a terrorista mãe do PAC fez à servidora da receita, queria dizer outra coisa, não é? É sempre assim: a turma humanista e “pogreçista” que se arvora em mudar o mundo e salvar a Humanidade, não exita em contar um punhado de mentiras sempre que entende conveniente. Eles nos enganam? Sim, sempre enganaram! Mas o fazem para o nosso próprio bem! É para construir o tal “outro mundo possível”.

O fato é que o apocalipse de São João, pintado diante de nossos olhos pelos ecoterroristas arregimentados pela Igreja do aquecimento global dos últimos dias, parece, não irá se materializar. O mundo andou se aquecendo, como eles tanto dizem? Tudo indica que não. A verdade, aliás, poderia ser bem outra: parece que o mundo andou foi se esfriando… Porém, ainda que realmente tivesse sido registrada uma alta nas temperaturas, está parecendo que isso não significaria a primeira trombeta do juízo final, já que, ao longo da história humana, sempre foram registrados movimentos cíclicos de variação da temperatura do planeta. Quem diz isso? Eu? Os serviçais “duzamericânu”? Que nada! Quem disse isso foram os obreiros-cientistas de Al Gore, em suas encíclicas secretas.

“Tá, suponhamos que a coisa não seja assim tão grave. Que mal há em ouvir o que eles dizem e preservar o planeta?” Ah, mal nenhum! Percebam: eu não me oponho a medidas ecologicamente corretas, nem acho que devemos tocar fogo em cada árvore da Amazônia. O que me deixa furioso é essa mania que certo “pogreçismo” tem de tentar coletivizar a Humanidade, unindo-a em torno de um “ideal”, de um suposto “bem comum”. Quando vejo isso, um alarme dispara dentro de mim, denunciando o perigo iminente. Sempre que essa gente trilhou semelhante caminho, o resultado foi o mesmo: morte, miséria e terror.

Reparem que o roteiro é sempre o mesmo: há um mal iminente, que vai conduzir à destruição da Humanidade; há uma única salvação possível, que vai destruir o mal e salvar os “homens bons”; e há uma “entidade”, portadora das verdades da “causa redentora”, que vai guiar aqueles que abraçarem suas verdades, encarregando-se, também, de eliminar os que forem contrários.

No passado, Marx e mais alguns desocupados cismaram que o capitalismo ia conduzir o mundo à ruína, e tentaram convencer o povo de que “O Partido” deveria conduzir uma grande revolução. A burguesia – aqui compreendida como qualquer pessoa ou coisa contrária ao “Partido” -, claro, deveria ser aniquilada sem piedade.

Só que o marxismo fracassou, basicamente porque Marx, como analista econômico, era um ótimo pai… O sujeito, que não conseguia organizar as próprias finanças, de modo a não depender de Engels, esqueceu do óbvio: é muito mais prático receber o salário como operário, do que tentar matar o dono fábrica.

Os teóricos do fim da história, porém, não conseguem se render aos fatos. De tempos em tempos, surge uma nova distopia coletivista, sempre com os mesmos traços já vistos no passado. A Igreja do aquecimento global dos últimos dias, assim como o marxismo, também jura de pés juntos que o mundo, tal qual está hoje, vai acabar… acabando! E apenas eles – os “pogreçistas” ecologicamente corretos – conhecem a fundo “a causa” redentora. Apenas eles podem nos salvar, desde que sigamos cegamente as ideias deles.

Qual é a armadilha por trás da retórica salvacionista? Bom, num discurso extremista – que irrompe invariavelmente no fim da história e na extinção da Humanidade tal qual a conhecemos – qualquer barbaridade pode ser tolerada aos olhos da “moral deles”. Mesmo que tais barbaridades sejam, hoje, condenadas pela “nossa moral”. Ora, se o obreiro de Al Gore está agindo para impedir o fim do planeta Terra, como recriminá-lo se conta uma ou duas mentirinhas sobre a elevação das temperaturas médias? A trapaça de hoje é justificada pelo fim máximo, que é a busca pela salvação do “çerumano”. E, convenhamos, diante de “tão nobre” objetivo, nenhum imperativo moral de hoje consegue sobreviver, não é?

A Igreja do aquecimento global dos últimos dias não vai morrer. Longe disso. Na verdade, essa moderna distopia coletivista e redentora vai apenas seguir o curso de todas aquelas que surgiram no passado: as trapaças do presente serão justificadas em nome da salvação, que virá no futuro; os que denunciarem tais trapaças serão tratados como as bestas-fera pelos “homens bons” – tudo será rapidamente imputado aos conservadores, direitistas, reacionários e aos grandes conglomerados econômicos mundiais.

E Al Gore, que ainda não apareceu depois de escancaradas as fraudes da seita por ele capitaneada? Bem, ele continuará sendo uma espécie de Edir Macedo do aquecimento global: ninguém acredita que ele seja santo e miraculoso, mas seus cultos continuarão cheios, com os fiéis levantando os braços e berrando: “Aleluia! Aleluia!”

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: O Muro de Berlim – “Tear down this wall !”

13/11/2009

Por Yashá Gallazzi*

“Viva Cuba! Viva Fidel!”

É com a expressão acima que um conhecido meu, esquerdista bem radical, costuma se despedir das nossas conversas. Sim, ele gosta de Cuba. Sim, ele gosta de Fidel. Não, ele não está internado…

Por que diabos ele gosta tanto de Cuba? Bem, a verdade é que nunca consegui entender muito bem isso… Vai ver ele não tem lá muita simpatia pelo papel higiênico, uma invenção pequeno-burguesa claramente contrarrevolucionária. Afinal de contas, o padrão de limpeza e higiene deve ser – sei lá… – uma construção das grandes empresas capitalistas, ávidas por vender seus desodorantes, seus perfumes e seus sabonetes.

Mas talvez ele goste tanto de Cuba porque não vê problema nenhum em um regime que, por meio de alguns gorilas fardados, captura, sequestra e agride fisicamente uma mulher, mãe de família. Quem? Yoani Sánchez, cujo crime foi manter um blog na internet em que critica algumas das faces mais odientas da tirania castrista. Não! Não foi esse o único motivo! Yoani foi agredida também porque estava tentando participar de uma passeata de blogueiros. Ah, talvez ela também tenha sido subversiva ao ponto de contrabandear para a ilha dos Castros alguns rolos de papel higiênico…

Por que Yoani é importante? Bem, porque ela é… Yoani. Ela é um indivíduo e a violação dos direitos de um indivíduo é a violação dos direitos de todos. Não a defendo porque é mulher, mãe e blogueira. Eu a defendo porque ela é… ela. E isso me basta. Ayn Rand, a quem já me referi no passado, afirmou certa vez que a menor e mais frágil minoria é o indivíduo. Por isso ele é a primeira vítima de regimes escorados nas distopias coletivistas, como o comunismo geriátrico de Fidel Castro, em Cuba. Da mesma forma como foi a primeira vítima dos demais comunismos, como o soviético e o chinês, duas das maiores e mais eficientes máquinas de matar que a Humanidade já conheceu.

Nesta semana, comemorou-se os vinte anos da queda do Muro de Berlim, um monumento à irracionalidade da ideologia lamacenta e assassina que nasceu a partir dos devaneios de Karl Marx – teúdo e manteúdo de Engels. O Muro foi construído porque os comunistas, sempre ávidos por controlar o destino dos homens, queriam impedir que os alemães do leste continuassem a fugir para o Ocidente democrático. Sabem como é? A primeira coisa que alguém obrigado a viver sob o comunismo faz é tentar fugir. A segunda, a história mostra, é morrer. E muitos, como é sabido, morreram na tentativa de enfrentar o mais sanguinário regime de que jamais se teve notícia. E venceram, afinal, o Muro caiu.

A história que conduz ao colapso do comunismo é longa, mas pode ser resumida à ação decidida de três nomes: Ronald Reagan, Margareth Thatcher e João Paulo II. Os três, não por acaso, são considerados, juntos, a besta-fera de toda a esquerda radical que existe no mundo. Quer unir os radicais do PSTU àqueles da Coreia do Norte? Diga o nome de Reagan. E saia correndo! Eles imediatamente abandonarão seus afazeres e tratarão de perseguí-lo com tochas, foices e martelos.

O ódio deles a Reagan é explicável: daquela trinca acima referida, o ex-ator de Hollywood foi a peça principal que dinamitou o regime comunista. Reagan, seguindo os pressupostos econômicos mais basilares, provocou uma escalada dos investimentos em defesa externa, elevando às estrelas o orçamento militar americano. Os soviéticos, que travavam com os Estados Unidos a chamada guerra fria, não queriam ficar atrás, e tentaram elevar seus gastos também. Só que os comunistas quebraram a cara e afundaram seu Estado paquidérmico em um limbo de prejuízo e miséria, que tornou o regime inviável.

Reagan, assentado no capitalismo e num sistema de liberdades individuais, contava com os rendimentos de uma economia forte para investir. Os comunistas, por outro lado, vivem daquilo que conseguem arrancar da população escrava. E um monte de escravos miseráveis, convenhamos, não poderia produzir nada capaz de fazer frente ao “Projeto Guerra nas Estrelas” idealizado pelos americanos. Em resumo, Reagan desafiou o regime do “outro mundo possível” a mostrar se tinha mesmo bala na agulha. E os comunistas responderam com festim. Aquele que se pretendia o maior regime de todos, que conduziria ao “fim da história” e à redenção da humanidade, perdeu para um ex-ator. É como se o Dado Dolabella acabasse com o PT.

“Tear down this wall!” (Derrube este muro), desafiou Reagan, quando o fim do império comunista era só questão de tempo. Ele estava certo e, para o bem da Humanidade, venceu. Aquele muro inglório foi derrubado. Outros, porém, ainda existem. Como o muro ideológico que cerca Cuba, a ilha tomada de assalto pelos Castro, que, como piratas, mataram, pilharam e espalharam o terror. O muro que protege a mais duradoura tirania do mundo moderno foi erguido inclusive com a ajuda de brasileiros, coniventes com o massacre comunista. No governo do PT, por exemplo, há vários simpatizantes declarados do facinoroso cubano.

Mas não são apenas pessoas de partidos que se alinham ideologicamente aos assassinos em série da “causa igualitária”. Há também profissionais liberais, sindicalistas e professores, como aquele meu conhecido, lá do início do texto. Estes últimos, a meu aviso, são os mais deletérios para a sociedade, pois fazem proselitismo ideológico e doutrinação comunista nas escolas. Muitas vezes ganhando salários pagos pelo contribuinte.

Lá, na presença de crianças desprovidas de conhecimento suficiente para contestar a pregação quase religiosa que fazem, eles cantam as “conquistas sociais” de Cuba. Falam de educação e saúde, escondendo muito cuidadosamente que todo e qualquer feito dos irmãos Castro foi resultado de morte e terror. Acho hilário ver um “cubanófilo” discorrendo sobre as glórias do sistema de saúde cubano… Nessa hora eu pergunto: “Mas e a questão do papel higiênico? Não diz respeito à saúde pública?” E eis que o interlocutor se apressa em me apontar o dedo sujo de sangue para dizer: “Reacionário! Direitista!” Vejam a que ponto chegamos: ser de direita, hoje, é defender o direito que o indivíduo tem de comprar materiais próprios para a higiene básica…

Hoje, passados mais de vinte anos da queda do Muro de Berlim, símbolo maior da grandiosa tragédia que foi o comunismo, é passada a hora de colocar abaixo os muros ideológicos que ainda estão erguidos nas mentes de alguns – se me permitem – “pensadores”. “Mr. Castro, tear down this wall!”, digo para o anão comunista que, hoje, decide quem vive e quem morre naquela ilha. Mas quem sou eu? Por que ele me ouviria? Eu sou apenas um indivíduo, um homem livre. E essa gente, sabemos, não dá a mínima para os indivíduos. Antes: eles os odeiam, tanto que buscam exterminá-los, a fim de criar “a comunidade”, “a coletividade”, “o bem comum”.

Ah, quando lembro que há delinquentes aos montes por aí, pregando as supostas glórias daquela revolução… Lembro de Ortega y Gasset: “Não haveria totalitarismo, se não fossem as massas e suas revoluções.” Pode mesmo ser que os Castro não abram seus ouvidos para o clamor da liberdade, e continuem, mesmo vinte anos depois de derrubado o Muro de Berlim, a sequestrar e espancar mulheres indefesas. Mas eu, como indivíduo livre, continuarei a gritar em direção a todo entusiasta da ideologia lamacenta e assassina: “Tear down this wall!”

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Ciro diz que é fofoca mas não descarta candidatura em SP

17/06/2009

“Ciro diz que é fofoca mas não descarta candidatura em SP”

A necessidade que a prática política muitas vezes traz para os políticos de não darem certeza alguma em suas falas no que diz respeito às especulações sobre possíveis candidaturas gera episódios que chegam  a ser cômicos.

O político é obrigado, pelas circunstâncias das disputas, por aquela necessidade de não revelar para seus adversários, antes da hora, suas estratégias e cartas na manga, a negar e não descartar uma coisa ao mesmo tempo.

Ciro diz que sua pré-candidatura ao Governo de São Paulo é fofoca, porém, ao mesmo tempo, não a descarta. Como pode isso? É possível algo ser dito por alguém como sendo fofoca e possível no mesmo momento? Na política é. Se é.

Os políticos que negam as especulações são obrigados, sempre, a deixar as portas abertas, afinal, não querem diminuir suas possibilidades. Ao mesmo tempo, não podem confirmar nada com precisão, já que se assim fizessem não poderiam mudar de rota diversas vezes como fazem, além de estarem facilitando a vida dos adversários.

Em suma, na política, alguma especulação pode ser, ao mesmo tempo, totalmente fantasiosa e muito próxima da realidade.

Confuso? Sem dúvida. Necessário? Talvez. Produtivo? Nem um pouco.

Em um mundo um tanto utópico, onde o debate político se desse com total respeito e sem ataques aos adversários, privilegiando o confronto de propostas, as coisas poderiam ser mais às claras e menos resolvidas nos bastidores. Os candidatos poderiam dizer, sem medo de se prejudicarem, os cargos que desejam ocupar e os planos que têm para implementar se vencerem. O eleitor teria tempo para amadurecer seu voto.

Mas esse é um sonho do blogueiro. Dificilmente se concretizará.

As especulações continuarão a ser mentira e verdade. Os pré-candidatos continuarão a querer e não querer os cargos.

Coluna do dia: Rousseau e a participação popular na política

30/05/2009

Por Matheus Passos*

Em 1762 o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau publicou uma de suas principais obras, o contrato social. Rousseau criticava o estado liberal de sua época, que se baseava em um poder Legislativo bicameral no qual estavam representadas apenas a nobreza e a pequena burguesia. O autor propunha a retomada da democracia direta, com todos os cidadãos sendo considerados como livres e juridicamente iguais, e todos sendo membros daquilo que poderíamos chamar hoje de poder Legislativo (que, nas palavras de Rousseau, era o soberano).

Os ideais de Rousseau sempre foram vistos, pela filosofia política liberal, como muito “idealistas”, “utópicos” e “inviáveis” – e todos hão de concordar que praticar a democracia direta em um país como o nosso, com aproximadamente 130 milhões de eleitores, é realmente inviável. Contudo, resgatar o pensamento de Rousseau é fundamental no momento político em que vivemos porque o filósofo suíço fez questão de destacar também algo que não existe mais em nosso país: o sentido da participação política, ou seja, a ideia de que não podem haver boas leis e um bom governo se não houver uma espécie de “intimidade” entre o cidadão e o poder político que o governa em seu nome.

O último dos diversos disparates da nossa política foi a declaração do presidente do Senado, senador José Sarney, afirmando que não recebia auxílio-moradia e depois voltando atrás e dizendo que não sabia que recebia tal auxílio. Para além da questão monetária, fica latente o total “descolamento” do senador frente à população brasileira ao afirmar que sabia que “alguém” depositava o dinheiro em sua conta. Ora, como pode um parlamentar fazer tal afirmação – que poderia ser entendida como “dinheiro não me falta, e por isso não dou atenção à minha conta bancária” – em um país em que boa parte de sua população vive em condições econômicas que em nada se assemelham à do ilustre senador?

De nada adianta questionarmos a estrutura de nossa suposta democracia representativa se o povo também não sair do seu estado de letargia e questionar seus representantes. De nada adianta ficarmos acomodados esperando que o Estado “melhore”, que nossos representantes “trabalhem pelo povo” se esse próprio povo não deixar claro, para seus representantes, que quem manda somos nós, e não eles. Nesse sentido, reler o contrato social de Rousseau poderia fazer com que argumentos interessantes surgissem na hora de questionar nossos representantes, melhorando o próprio sentido da nossa participação política.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus