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Coluna do dia: Um novo Vietnã para os Estados Unidos

04/08/2009

Por Raphael Machado Silva*

Segundo a rede de notícias Al Jazeera, o dia de ontem foi marcado no Afeganistão pelo disparo de 5 foguetes no coração de sua capital, Kabul. Os mesmos foram lançados na direção da embaixada americana, apesar de nenhum ter alcançado seu alvo. Segundo a mesma rede de notícias, outros foguetes foram disparados na direção do aeroporto internacional. Tal ataque se deu em uma área considerada “a mais segura do país”, e já sob “total controle das forças de ocupação”. Isso um dia após um ataque que matou 12 pessoas, uma semana depois de um ataque que matou outras 26 e duas semanas, aproximadamente, antes das eleições presidenciais.

Pois bem. Espero que eu não seja o único a perceber que essa Guerra do Afeganistão está sendo travada há 8 anos, mais anos do que levou a Segunda Guerra Mundial, e que a OTAN e os EUA não estão nem um pouco mais próximos de “pacificar” o país, ou seja, de vencer a Guerra, do que estavam após os bombardeios e ataques iniciais que desalojaram o governo central do Taliban.

Na verdade, há cada vez mais áreas do Afeganistão chamadas “áreas de risco extremo”. Não só isso, mas os dois principais alvos humanos das operações, Osama bin Laden e Mohammad Omar, continuam em segurança, provavelmente escondidos nas infinitas redes de cavernas e refúgios subterrâneos na fronteira com o Paquistão.

Um dos motivos, se não o principal, para essa incapacidade da Coalizão de conquistar uma vitória decisiva nessa Guerra é o fato de que a Coalizão não está em sincronia com seus inimigos. O que eu quero dizer com isso? Que a Guerra no Afeganistão é o que é chamado pelas doutrinas militares de ‘Guerra de Quarta Geração’. Esse tipo de Guerra é caracterizado pela relativização das linhas divisórias entre ‘guerra’ e ‘política’, entre ‘combatente’ e ‘civil’. Assim, como pela extrema descentralização das operações de combate por pelo menos um dos participantes. A Coalizão não chegou preparada para esse tipo de Guerra, apesar de ter estado a seu alcance prever que era exatamente isso que eles iriam enfrentar. Eles chegaram como se estivessem participando de um “jogo de estratégia”, no qual bastaria tomar a capital inimiga ou ocupar seus territórios para que a Guerra estivesse ganha.

É muito difícil para Estados como os EUA, ou para organizações centralizadas como a OTAN, se opor e se adaptar a um combatente que atua através dessa Doutrina. Não há base inimiga. Não há “bandeira inimiga” para se roubar. Praticamente também não há território inimigo facilmente identificável. Ontem o inimigo estava ali, hoje ele está lá, amanhã ele está entre nós, e depois ninguém sabe mais.

Um outro motivo é que há diferenças essenciais entre os combatentes dos dois lados. E não estou me referindo às diferenças em equipamentos, armamentos e logística, que são vantagens da Coalizão. Mas sim, a outra coisa muito importante nos próprios homens que travam os combates. Isso se refere à motivação ou ao fator moral dos combatentes. Os exércitos da Coalizão são compostos por Mercenários. Não tecnicamente, mas na prática. O serviço militar no Ocidente é, hoje, apenas mais uma entre muitas profissões remuneradas. Muitos jovens se interessam pelo serviço militar por acharem que não terão outra oportunidade de carreira, ou por motivos similares. Os insurgentes afegãos possuem motivações diferentes. Primeiro, eles estão se defendendo de um exército invasor, defendendo sua pátria. Segundo, eles estão travando uma Guerra Santa, de caráter eminentemente espiritual. Terceiro, eles possuem uma relação com as ideias de “vida” e “morte” que é muito diferente das relações estabelecidas por nós Ocidentais. Essa vantagem “moral” é muito relevante, já que ela é a força que mantém os insurgentes lutando e sendo substituídos por outros, assim que morrem.

Obama já se decidiu por ampliar a presença americana no Afeganistão. Porém, isso resolverá alguma coisa? A Guerra no Afeganistão já custa 223.549.795.000 dólares, e esse número continua aumentando. Somado ao custo da Guerra no Iraque, o custo total é de 894.167.900.000 dólares. Isso em meio a uma crise econômica mundial, e com os EUA se aproximando de uma nova crise econômica, que dessa vez estará relacionada à já titânica dívida americana. Quantos anos mais irá durar essa Guerra? E como se pretende pôr fim a ela? Considerando os fatores envolvidos é possível que nem o uso de uma bomba atômica ponha fim à insurgência. Ao mesmo tempo, a popularidade de Obama diminui cada vez mais e uma das causas é a continuidade dessas inúteis guerras estrangeiras.

Aos tolos, que acham que ela é útil para “combater o terrorismo”, eu pergunto por que então EUA e Europa continuam aceitando irrestritamente todo e qualquer tipo de imigrante, os quais estão constantemente conspirando contra seus países hospedeiros. Assim como pergunto por que os EUA apoiaram a independência do Kosovo quando a claque que se tornou o governo do mesmo é considerada o braço da Al-Qaeda na Europa?

Os EUA estão em uma guerra cara, inútil e sem previsão de vitória. E apesar de a população poder ter sentido alívio com a queda do Talibã, ela se irrita cada vez mais com a presença americana. Obama está esperando o quê? Terá ele algum plano messiânico ou alguma carta na manga? Pois se ele não tiver, é melhor ele sair, discretamente, mas sair, do que esperar um milagre e ver essa Guerra transformada em uma nova vergonha para os EUA.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: O Taliban

10/07/2009

Por Yashá Gallazzi*

taliban

Em mais de uma ocasião acabei provocando alguma polêmica ao defender de forma veemente a civilização ocidental e seus valores, notadamente a democracia e o sistema de liberdades individuais. No mais das vezes, as discordâncias giram em torno da suposta intolerância que me caracterizaria ao falar dos que considero inimigos da nossa civilização e, se querem saber, acho que meus críticos estão mesmo cobertos de razão. Eu realmente não tolero os valores que se mostram antagônicos aos nossos, porque – e aqui levanto mais uma polêmica – o Ocidente é moralmente superior aos seus algozes. Simplificando, posso dizer sem medo de errar: ou lutamos pela hegemonia dos nossos valores, ou teremos a barbárie. E ao longo deste texto explicarei o porquê disso.

Li na Folha de São Paulo que o grupo terrorista Taliban, não satisfeito em promover aquilo que – se me permitem – passo a chamar de “terrorismo convencional”, explodindo inocentes em nome do propósito supostamente divino de destruir os infiéis ocidentais, decidiu descer ainda mais baixo, a ponto de chegar às portas do inferno, adentrar o reino de Lúcifer e, uma vez ali, assumir o lugar de Hasmodeu. O que houve, afinal? Segundo o que foi noticiado no jornal paulista, os fascinorosos terroristas estão comprando crianças – algumas de onze anos apenas! – para usá-las como instrumento de sua guerra teratológica. Explico melhor: pagando em média seis mil dólares por cada infante, a canalha adquire carne fresca para sacrificar em nome de sua “causa” sociopata. As crianças que, envoltas em bombas, explodem a fim de matar os cães do ocidente, não passam de mercadoria, pertences aos Taliban.

Eu, que sempre cultivei os mesmos valores éticos e morais aborrecidamente imutáveis, não preciso de mais argumentos para ter certeza do óbvio: somos moralmente superiores a essa gente torpe! E por uma razão bem simples: aqui, no ocidente, a regra geral é proteger e amar as crianças, garantindo-lhes a vida, o mais basilar de todos os direitos individuais. Por mais mazelas sociais que ainda enfrentemos, por mais injustiças que sejam cometidas diariamente contra nossas crianças, violadas e escravizadas, ninguém pode nos acusar de não alimentar os princípios e os valores certos e humanamente melhores. Pode parecer pouco, mas é o fundamental, afinal, os homens – que subvertem a ordem e a legalidade – passam, ao passo que os valores permanecem, simbolizando um inteiro povo.

Não há maneira de tergiversar. Aqui, o nosso norte moral nos impõe o dever de proteger nosso futuro, representado por aqueles que darão sequência à obra por nós iniciada. Não há nenhuma causa ou objetivo capaz de nos levar a sacrificar nossas próprias crianças. Já no Oriente, refém do fascismo islâmico, a causa principal que os move é a destruição da besta ocidental e, para tanto, se pode lançar mão de qualquer recurso, por mais espúrio que seja. Já não era segredo que o terrorismo encontra muita desenvoltura para assassinar inocentes – inclusive crianças – do “lado de cá”, afinal, eles não fazem distinção: somos todos infiéis. A novidade agora é perceber que eles também não hesitam em sacrificar seus próprios inocentes. Suas crianças. Seus filhos. Essa gente representa o mal absoluto e precisa, sim, ser detida. É imperativo que o Ocidente imponha, de fato, a supremacia dos seus valores, para escorraçar os bárbaros que tentam buscar a hegemonia no mundo.

Está evidente que me refiro à necessidade de se combater e vencer a chamada guerra contra o terror. Impedir que a escória do mundo continue sacrificando crianças inocentes em nome de uma “guerra santa” é um verdadeiro imperativo moral para nossa civilização. E para quem ainda não acredita em superioridade de uma cultura sobre outra, proponho um exercício revelador: Lembram de George Bush, o ex-Satã de todo o mundo progressista, humanista e pacifista? Pois bem, o Republicano, tão reacionário, tão conservador e tão belicista, não arregimentou uma única criança para mandar ao Afeganistão e ao Iraque, lutar pelos Estados Unidos e pelo Ocidente. Isso porque aqui nós escolhemos proteger nossas crianças, não assassiná-las. Se algo assim não for suficiente para demonstrar o quanto a nossa escala de valores é superior às demais, espero que alguém me diga o que seria.

Custa-me, por exemplo, entender a abjeta condescendência que alguns ocidentais insistem em nutrir para com os seus algozes, os islamofascistas. Basta lembrar que, quando da ação americana no Afeganistão, os pacifistas de um lado só se apressaram em condenar Bush, denunciando sua – como era mesmo? – “política imperialista” e advogando em favor da tal “autodeterminação” dos povos, que garantiria a qualquer grupo o direito de ter seus próprios imperativos éticos e morais. O ponto é que, nestes tempos sombrios de inversão dos valores mais basilares da civilização, essa tal “autodeterminação” deve ser entendida como o direito que cada povo tem de amarrar bombas às suas crianças, usando-as como armas de guerra. Isso, caros, não pode – e não deve – ser aceito por nós, ocidentais.

Cruzar os braços diante de horrores como os perpetrados pelos Taliban é permitir que os portais do inferno sejam escancarados e que os demônios ditem as regras destinadas a reger nossas vidas. Assistir de forma passiva às atrocidades que o fascismo islâmico pratica, em nome de sua cultura e de sua moral, é concordar com o fato de que a nossa moral já capitulou e nada mais pode. Isso é falso! Urge resistir e prosseguir no único caminho possível quando o assunto é o combate ao terrorismo: caçar o inimigo, encontrar o inimigo e matar o inimigo. Devemos destruí-los não apenas para garantir o futuro de nossas crianças, mas para permitir que as deles também possam viver para, ao menos, sonhar com um. Hoje, sabemos, elas têm a vida ceifada pelos fascínoras que lhes impõem a obrigação de carregar bombas presas ao corpo.

Lembro-me de Sir Winston Churchill, um dos grandes baluartes da defesa do mundo ocidental. Criticado pelo imperialismo das potências europeias, o britânico dizia: “não há mal que o Império Britânico supostamente tenha feito aos colonos, que não possa ser, em muito, superado pelo mal que os próprios colonos praticam uns contra os outros.” E isso vem resumir com especial grandiloquência o argumento central articulado ao longo deste texto. Ou temos a hegemonia dos nossos valores éticos e morais, ou só restará a barbárie.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento