Postagens com a palavra-chave ‘Segunda Guerra Mundial’

Coluna do dia: Tudo sobre o Estado de bem-estar social (I)

15/11/2009

Por Matheus Passos*

Atendendo ao pedido de Bruno Kazuhiro, mentor do blog “Perspectiva Política”, decidi escrever a respeito do Estado de bem-estar social, pois é o modelo teórico de Estado que, em linhas gerais, dá sustentação ao Estado brasileiro atual. A postagem, entretanto, ficou maior do que aquilo que o espaço do blog permite, e por isso decidi dividir a coluna em duas. A segunda parte será publicada na semana que vem.

O chamado Estado de bem-estar social foi o modelo típico de organização estatal dos países capitalistas desenvolvidos, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial. A função básica desse modelo era fornecer a todos os cidadãos, na forma de um direito, e não como “caridade”, padrões mínimos de renda, saúde, alimentação, educação e segurança, dentre outras áreas sociais. O Estado tornou-se, assim, o responsável por garantir a proteção desses padrões, atuando diretamente na sociedade e na economia. Buscou-se, também, a “distribuição do bolo”, ou seja, a garantia de um nível mínimo de participação dos indivíduos na riqueza coletiva.

É curioso notar o porquê do fortalecimento e da expansão do Estado de bem-estar social ter acontecido apenas após a Segunda Guerra Mundial, se considerarmos que desde o final do século XIX este modelo já existia (na Alemanha, por exemplo) e que desde o início do século XX vários países europeus já criavam políticas de proteção a idosos e a mulheres. Mesmo com o relativo fortalecimento do Estado na década de 1930, devido à crise de 1929, quando as estruturas estatais viram-se responsáveis por reerguer a economia de seus países, foi apenas após a Segunda Guerra Mundial que este modelo se desenvolveu e atingiu o seu auge.

Segundo Carlos Aurélio Pimenta de Faria, em seu livro Uma genealogia das teorias e modelos do estado de bem-estar social, são três os elementos essenciais para se compreender a consolidação do Estado de bem-estar social após 1945. O primeiro deles refere-se à disponibilidade de excedente econômico passível de ser realocado; o segundo é relativo à lógica keynesiana surgida na época, que viabilizou a aplicação desse excedente econômico; e, por fim, a própria centralização estatal, como resultado do esforço de guerra, resultou no aumento da capacidade administrativa do Estado, que pôde ser usada para conduzir a expansão do Estado de bem-estar social. Ou seja, o excedente econômico obtido em períodos anteriores à Segunda Guerra Mundial foi aplicado em investimentos feitos por um Estado fortalecido e centralizado baseando-se em uma teoria econômica que incentivava os governos a serem os impulsionadores da economia por meio dos chamados gastos sociais.

Resta-nos agora entender o porquê da expansão desse modelo. Os meios para tal expansão já foram apresentados, mas quais razões levaram à expansão? Existem duas tendências principais para responder a esta pergunta. A primeira delas é a que afirma que os condicionantes do desenvolvimento do Estado de bem-estar social são predominantemente de origem econômica, enquanto que a segunda tendência se relaciona com a ordem política.

No que diz respeito à tendência economicista, são identificadas duas subdivisões. A primeira delas refere-se ao Estado de bem-estar social como resultado das mudanças ocorridas na sociedade devido ao processo de industrialização dos últimos dois séculos. Neste sentido, a industrialização traria problemas (rápidas mudanças sociais que não podem ser absorvidas de pronto) e também benefícios (o excedente de riqueza como consequência da industrialização), e caberia ao Estado, por meio de suas políticas públicas, transformar o excedente de riqueza em soluções para os problemas trazidos pela industrialização, dando um mínimo de proteção social para todas as pessoas daquele país. Assim, acredita-se que as razões para o surgimento e a expansão dos sistemas de proteção estatal “são mais um subproduto de forças inerentes ao processo de industrialização e menos o resultado de conflitos e decisões políticas” (ARRETCHE, 1995, p. 12-13).

A segunda subdivisão da origem do Estado de bem-estar social baseada na economia é a que diz que o Estado de bem-estar social é uma resposta às necessidades de acumulação e de legitimação do sistema capitalista. Assim, o Estado seria o responsável pela própria acumulação capitalista, por um lado, e legitimaria essa acumulação, por outro. Ao mesmo tempo em que o Estado de bem-estar social surge, nessa visão, para solucionar – por meio de políticas sociais – os problemas que ele próprio cria. Ele também serve para socializar os gastos das empresas privadas: como é o Estado quem faz investimentos sociais, acaba sendo a sociedade como um todo quem paga esses investimentos, mas são as empresas privadas as principais beneficiárias do processo. Da mesma forma, o processo produtivo, que se torna cada vez mais industrializado, passa a utilizar cada vez menos mão-de-obra, mas a força de trabalho excedente não pode ficar parada. Mais uma vez, seria o Estado de bem-estar social quem “socorreria” a população, garantindo uma renda mínima para a população por meio de atividades produtivas nos campos econômico e social (ARRETCHE, 1995, p. 13-14).

A segunda grande visão explicativa do porquê do surgimento e da expansão do Estado de bem-estar social diz respeito à esfera política. Esta tendência também é subdividida, mas aqui três direcionamentos são possíveis (ARRETCHE, 1995, p  19).

A primeira vertente política afirma que o Estado de bem-estar social é o resultado de uma progressiva ampliação dos direitos dos cidadãos, começando com os direitos civis e passando pelos direitos políticos, até se chegar aos direitos sociais. Nesta visão, os cidadãos teriam, em um primeiro momento, direitos civis, que seriam aqueles relacionados aos direitos necessários à liberdade individual, inclusive direitos na área das relações de trabalho. A evolução histórica levou os cidadãos a obterem também, em um segundo momento, direitos políticos, relacionados ao direito de participação no exercício do poder político. Por fim, em um terceiro momento, os cidadãos passaram a ter direitos sociais, que seriam direitos relacionados à participação na riqueza produzida pela coletividade. O Estado de bem-estar social seria, então, o responsável, politicamente falando, por dividir a riqueza produzida pela sociedade como um todo entre seus cidadãos por meio de suas políticas sociais, garantindo os direitos sociais a toda a população (ARRETCHE, 1995, p  22).

A segunda vertente política baseia-se em um acordo entre o capital e o trabalho organizado. Dessa forma, tanto os empresários – que possuem o capital – quanto os trabalhadores – o trabalho organizado – passariam a demandar do Estado políticas sociais para corrigir os problemas surgidos devido a esse acordo feito entre as duas partes. Os empresários, por meio da acumulação capitalista, geram necessidades e demandas constantes de políticas sociais; estas, por sua vez, são criadas pelo Estado para proteger socialmente os trabalhadores, que colaboram para a continuação da acumulação de capital. (ARRETCHE, 1995, p. 25).

A terceira e última vertente política explanatória da consolidação do Estado de bem-estar social é a que afirma que este modelo é o resultado de configurações históricas particulares de antigas estruturas estatais e instituições políticas. O Estado aqui não é o resultado da maior participação política, nem suas ações são tomadas tendo-se por base os anseios de empresários e trabalhadores: o Estado é autônomo em relação à sociedade civil, podendo-se assim analisar a lógica da ação das burocracias públicas de forma independente (ARRETCHE, 1995, p. 30). Desta forma, a capacidade estatal para se criar políticas sociais é diretamente proporcional à autonomia do Estado, sendo que este se baseia atualmente na evolução de suas próprias instituições políticas anteriores.

Referências:

ARRETCHE, Marta T. S. Emergência e desenvolvimento do welfare state: teorias explicativas. BIB 39, 1995, pág. 3-40.

FARIA, Carlos Aurélio Pimenta de. Uma genealogia das teorias e modelos do estado de bem-estar social. BIB 46, 1998, pág. 39-78.

*Matheus Passos, escrevendo excepcionalmente no domingo, é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr

Coluna do dia: Alemanha morta e ressuscitada – A queda do Muro de Berlim

10/11/2009

Por Raphael Machado Silva*

Foram celebrados, no último dia 9, os 20 anos da queda do Muro de Berlim, o qual dividia a Alemanha em duas metades: a República Federal Alemã, capitalista, e a República Democrática Alemã, comunista. Tal evento foi e é considerado como o mais simbólico, o mais representativo, do fim da Guerra Fria.

Segundo relatos dos presentes, o evento se deu quase que de modo absolutamente espontâneo, inexplicável, mágico. De um dia para o outro, sem qualquer razão evidente, toda a Alemanha estava transformada. Ou melhor, a Alemanha havia voltado a existir de verdade.

A Alemanha, aqui entendida também como o conjunto dos povos germânicos, ou seja, como Nação e não só como Estado, tem sido por muitos considerada o terceiro pilar da civilização Ocidental. A chama da civilização Ocidental foi acesa pelos gregos, passada aos romanos e herdada pelos povos alemães.

Toda a história Ocidental após Roma é uma história com um substrato eminentemente germânico. A partir da fusão entre as etnias e culturas germânicas com a herança greco-romana, com a conclusão das Migrações Germânicas que puseram fim ao já decrépito Império Romano, ergueram-se as bases de todo o futuro da Europa.

O Cristianismo após as Invasões é diferente do Cristianismo Primitivo, muito mais próximo ao Judaísmo, posto que foi ‘paganizado’ de modo a possibilitar a conversão das tribos germânicas e eslavas. Alguns teólogos ortodoxos, reconhecendo isso, também chamam o Catolicismo de ‘Cristianismo Germânico’.

Mesmo a estrutura etno-racial dos povos europeus foi alterada com as migrações germânicas. Onde se estabeleceram, nas velhas províncias imperiais, os germânicos se misturaram à aristocracia romana, servindo como base para a futura nobreza feudal. Da Alemanha também vieram as principais contribuições para a Música e para a Filosofia ao longo da História da Humanidade: Beethoven, Bach, Mozart, Händel, Wagner… Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger… São todos filhos da Germânia, e são grande parte do ápice da Cultura Ocidental.

Ao mesmo tempo, falar da Alemanha e de seu povo é falar de uma das Nações mais odiadas, vilanizadas, vilipendiadas e, sim, perseguidas do século XX. Um ódio esse que se deriva muito da inveja de anglo-saxões e alguns outros povos, surgido nos fins do século XIX.

A unificação da Alemanha criou o único rival à altura da Grã-Bretanha, e a imediata industrialização realizada por Bismarck foi tão eficaz que em três décadas a Alemanha fez o que a Grã-Bretanha havia feito em um século e meio, e já produzia com qualidade superior aos britânicos.

Quando a França Napoleônica fez o mesmo preteritamente, e apareceu como rival da Inglaterra, como potência européia continental, a brilhante diplomacia inglesa moveu o mundo contra a França. Em verdade, a chave dos mistérios da maior parte dos conflitos europeus dos séculos XIX e XX é o entendimento da linha programática e dos objetivos da política externa inglesa dessa época. O aspecto euro-continental dessa estratégia se fundava na necessidade de não permitir o surgimento de qualquer potência continental européia. Aí está a razão pela qual, em distintas guerras, a Inglaterra se aliou a diferentes Estados, às vezes contra Estados anteriormente aliados. A Inglaterra sempre foi inimiga e algoz das Nações européias que almejassem se elevar em poder.

Assim, a Grã-Bretanha, o país mais beligerante, devastador e sem dúvida um dos mais genocidas dos últimos três séculos, buscou e buscou insistentemente e finalmente conseguiu impor à Alemanha, em 1914, uma Guerra Mundial, sob uma chuva de propagandismos de tablóide, com direito à acusações de que os alemães tinham soldados que praticavam canibalismo com crianças belgas e de que transformavam cadáveres em combustível.

Traída internamente a Alemanha por comunistas, derrubada a sagrada monarquia, ordenada a rendição, fez-se a vontade dos banqueiros e o país foi reduzido a escombros. Primeiro, se impôs um bloqueio marítimo, impedindo que a Alemanha se abastecesse de alimentos: morreram centenas de milhares. A seguir, veio o “Ditado” de Versalhes, no qual roubou-se um pedaço de quase metade do território da Alemanha, o qual foi dado, junto com sua população, à Polônia. Exigiu-se o desarmamento da Alemanha como pré-condição do desarmamento geral.

Desarmada a Alemanha, os vencedores descumpriram o acordo. Sugerido no Parlamento austríaco um plebiscito a respeito da unificação entre Alemanha e Áustria, algo intimamente desejado por ambos povos (que são um só), ameaçou-se ambos de nova aniquilação total. Roubou-se todas as reservas em metais preciosos, principalmente ouro, ao mesmo tempo que se exigiu da Alemanha reparações titânicas por uma Guerra cujas origens remontam à decisões tomadas em Londres, não em Berlim.

Não fosse o ressentimento, o ódio, a inveja e toda uma gama de outros sentimentos absolutamente irracionais contra os alemães que culminaram no “Ditado” de Versalhes e em 15 anos da mais abjeta escravidão de seu povo, a Segunda Guerra Mundial jamais teria acontecido. Tivesse ainda acontecido, todo o modo de condução da mesma teria sido diferente, porque os alemães não haviam se esquecido das centenas de milhares que morriam de fome nas ruas e dos milhões de desempregados. Isso não exime a Alemanha nazista de culpas, mas explica em grande parte os porquês de sua existência.

Nos momentos finais da Segunda Guerra surgiu ressentimento e ódio germanofílico ainda mais forte. Não satisfeitos com o pós-Primeira Guerra, queria-se mais. O povo alemão, principalmente a parcela que nada tinha a ver com a cúpula hitlerista, era visto como um povo mal, um povo beligerante, um povo intrinsecamente maligno, que havia causado duas Grandes Guerras e, portanto, era o responsável pela morte de dezenas de milhões.

Esse povo precisava ser punido, esmagado, destruído. Precisava-se garantir que esse Mal Absoluto jamais ressurgiria, ou seja, precisava-se garantir que não haveria qualquer oposição às maquinações diabólicas de Londres/Nova Iorque e Moscou. Não poderia mais haver oposição aos banqueiros internacionais e ao sistema econômico fundado na usura (para quem não sabe, a Revolução Russa foi financiada por Bancos, o que é demonstrado no livro ‘Wall Street and the Russian Revolution’).

O Plano Morgenthau, apresentado a Roosevelt e seriamente debatido entre os vencedores, previa o extermínio completo da população alemã por meio da esterilização gradual dos homens, da imigração de outras populações e da repartição dos territórios alemães entre todos os seus vizinhos. Venceu uma razoabilidade mínima e o Plano foi parcialmente rejeitado. Sugeriu-se, então, que o extermínio recaísse apenas sob um certo percentual de alemães, os quais deveriam ser julgados em tribunais de linchamento pelos vitoriosos com a sentença já definida previamente (ainda hoje, geriatras com mais de 90 anos são perseguidos pelo ódio anti-alemão).

Milhões de civis alemães foram também colocados em campos de concentração aliados para realizarem trabalho escravo, satisfazendo assim uma injustificável sanha vingativa dos Aliados, com a morte de quase 1 milhão de alemães. Erros não justificam outros.

Satisfez-se a gula e sede de sangue diabólica de Stálin entregando-lhe metade da Europa, apesar dos pedidos desesperados de vários generais americanos, em 1945, para que o Presidente Truman reconhecesse o governo alemão do Almirante Doenitz, autorizasse uma aliança com a Alemanha e declarasse guerra à URSS, cujas hordas vermelhas estavam absolutamente exaustas e enfraquecidas pela guerra no Fronte Oriental e que nessa época ainda não possuía armas nucleares.

Como se sabe, venceram as intrigas, a razão foi derrotada. Dezenas de milhões foram submetidos a uma tirania ainda pior do que qualquer que pudesse ter sido estabelecida pelos alemães. Entregou-se os que haviam se rebelado contra a tirania soviética ao longo da guerra, como os soldados cossacos com suas famílias, para que os mesmos fossem exterminados por Stalin.

Enfim, a Alemanha foi repartida entre os vencedores. O Muro de Berlim foi o muro do ódio. Não do ódio entre capitalistas e comunistas, os quais não se odeiam de verdade nos postos de liderança (haja vista a facilidade com que Comissários viram banqueiros e empresários, e vice-versa, com uma simples mudança de regime), mas apenas entre militantes; mas sim do ódio contra a Alemanha. Dividiu-se a Alemanha com vistas a que ela nunca se reunificasse, nunca se recuperasse, nunca mais resistisse às tiranias vindas da América e da Rússia.

Assim, Heidegger, o maior filósofo do século XX, justificou seu apoio à Alemanha do III Reich: a Alemanha, para ele, era a única coisa que se interpunha no caminho do domínio imperialista total das potências materialistas e desenraizadas, fundadas no Iluminismo, as quais instrumentalizavam sua dominação pela coisificação do homem operada por meio de sua ‘fagocitação’ na técnica (tanto o homem-massa-proletário do comunismo, como o ‘homo oeconomicus’ do capitalismo, mero objeto desumanizado inserido em um mercado são, em essência, idênticos).

Pois realizou-se o que Heidegger temia, dividiu-se o mundo em duas partes, ambas submetidas a abjetas tiranias. Já os alemães foram todos ‘desgermanizados’ culturalmente; metade dos alemães viraram americanos, a outra metade soviéticos.

A(s) Alemanha(s) das últimas décadas foi um país em que se sentia vergonha de se pertencer a ele. Os hinos nunca eram cantados, a bandeira nunca era hasteada. Quando alguém dizia a outro europeu que era alemão, o fazia com um misto de culpa e vergonha. Não há prática mais baixa, vil, mesquinha e ‘plebéia’’ como diria Nietzsche, do que impingir o sentimento de ‘culpa’ sobre os outros.

No caso da Alemanha, a ‘Culpa’ virou símbolo nacional. Uma espécie de ‘coroa de espinhos’, que os alemães ignominiosamente se regozijavam em portar.

Mas o domínio do ódio não pode durar para sempre. O ódio não acabou, mas o povo alemão deu o passo no sentido de retomar as rédeas de direção do próprio Destino. Um passo talvez frágil, mas ainda assim significativo por seu rico simbolismo.

Demonstração de uma pretensa superioridade do Capitalismo? Ora, superioridade não se demonstra por uma mera sobrevivência no tempo, mas pelos valores intrínsecos de uma Idéia e pelos seus efeitos no Mundo. Vitória parcial do Povo Alemão, que se libertou de uma tirania, caindo na talvez mais desumanizadora tirania do Mercado.

Caiu o Muro. Morreu o Comunismo. Falta à Alemanha tentar ser uma nação unida, livre de dualidades e com identidade própria, que tem o direito e o dever de reivindicar os louros que merece pelo que seu povo sofrido, esse sempre vítima, produz.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: A ironia da liberdade no Afeganistão

20/10/2009

Por Raphael Machado Silva*

Os deuses possuem um belo senso de humor, e penso que esse senso de humor se torna manifesto, principalmente, nos eventos os quais categorizamos como “irônicos”. É como se, no jogo de circunstâncias eternamente mutantes a que chamamos “devir”, subitamente ocorresse algo cujo valor é o de pura zombaria frente a certas declarações e polêmicas, enunciadas, com uma solenidade pomposa, por personagens repletos de empáfia diante do mundo. Um padre sifilítico é um ótimo exemplo de ironia divina.

Eu prefiro as ironias políticas. Como um Presidente beligerante ganhando um Nobel da Paz, por exemplo. Ou a descoberta de que um terço dos votos das eleições presidenciais ocorridas no democrático e “liberto” Afeganistão foram fraudados, em favor da reeleição do títere Hamid Karzai, alguns meses após as polêmicas acusações, feitas pelos “protetores” do Afeganistão, de que as eleições no “totalitário” e “satânico” Irã foram fraudadas para que se promovesse a reeleição de Ahmadinejad.

Portanto, em realidade, Karzai não alcançou a quantidade necessária de votos para garantir sua reeleição no primeiro turno, como até então se achava. Terão os “libertadores” sido surpreendidos com essa informação? Mas é claro que não. Karzai é um líder fraco. Sendo um líder fraco, ele é essencial para a continuidade da ocupação do Afeganistão.

Karzai não só nunca estará em posição de minimamente controlar a atuação das tropas invasoras em seu país, como também serve como barreira entre a ira popular e as tropas invasoras. Reivindicações, reclamações, revoltas, etc, sempre serão voltadas, em primeiro lugar, contra o governo Karzai e apenas em segundo lugar contra os invasores estrangeiros. Isso me lembra a ocasião em que, após as tropas americanas “liberarem” a Sicília durante a Segunda Guerra, foram libertos todos os “Dons” das máfias e os mesmos foram instaurados, pelos americanos, como prefeitos das cidades sicilianas.

Oh! Nós certamente cremos na “liberdade” do Afeganistão. Afinal, antes eles eram malignos produtores de ópio e, agora, no Afeganistão “liberado”, a população está livre para se tornar usuária do alucinógeno e para se engajar em todas as depravações que tão bem caracterizam a modernidade. E, certamente, o destino do Ocidente está indissociavelmente ligado ao destino do Afeganistão, não é?

Agora, o que farão os invasores diante dessa desagradável revelação eleitoral? A vitória de Karzai é essencial para os objetivos de longo prazo dos invasores no Afeganistão.

Mais ironia que isso é o Irã sendo atacado por terroristas ligados à Al-Qaeda, quando todos, inclusive nossa maior rede de televisão, juram de pés juntos que há íntimas relações entre a organização terrorista e a Teocracia Iraniana.

Falta é o nosso Presidente se tornar membro da Academia Brasileira de Letras, para que fique demonstrado que nosso mundo é uma grande piada de mau gosto.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Enola, a malvada – 64 anos da bomba de Hiroshima

07/08/2009

Por Yashá Gallazzi*

Quando esta coluna for publicada, já estaremos na sexta-feira, dia 7 de agosto. Mas eu esclareço que escrevi estas linhas um dia antes, quinta-feira, dia 6 de agosto. O dia em que o mundo relembra aquela que considero a pior e mais macabra homenagem que um filho já fez a uma mãe.

Os leitores mais atentos já entenderam que me refiro ao aniversário do ataque atômico desferido contra Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, já no final da segunda grande guerra mundial. Há exatos sessenta e quatro anos o mundo conheceu um horror até então inédito, diferente de tudo o que já fora experimentado pela humanidade. Quando a malfadada bomba, composta por cerca de 60Kg de urânio, foi arremessada sobre aquela cidade japonesa, o que se viu foi um breve esboço do armagedon, com o fogo consumindo tudo e todos que estavam no lugar. E todo esse cenário de destruição serviu para prestar honras a Enola, mãe do piloto que atirou a arma nuclear. E ele, imbuído por sabe-se lá qual espírito, achou por bem batizar aquela que então era a mais poderosa arma de destruição com o nome da mãe. Enola… Uma americana que, como tantas outras, viu seu filho partir para a guerra. Não acredito que ela esperasse semelhante presente. Penso que teria se dado por satisfeita apenas recebendo seu filho de volta dos campos de batalha, preferencialmente livre dos conhecidos transtornos pós-traumáticos que o acometeram.

Como alguém que se orgulha de prezar a democracia e o sistema de liberdades individuais, não posso deixar de me confessar triste ao lembrar o que se passou naquele longínquo 6 de agosto de 1945. É impossível se regozijar com aquilo que aconteceu em Hiroshima, onde milhares de inocentes foram tragados pela onda violenta formada a partir de anos de guerra. Uma guerra sangrenta e dura. Talvez a mais dura que o mundo já conheceu. Mas o pior, confesso, é pensar naqueles inocentes que sequer estavam lá em 1945, mas que foram perseguidos e capturados pelos tentáculos atômicos da bomba. Descerebrados, alienados, mutilados… Homens, mulheres e crianças… Todos igualmente vítimas de Enola e seu poder de devastação inigualável. É sem dúvida um dos episódios mais sombrios da história humana, que diminui a todos nós. É uma data que viverá na infâmia, como disse o Presidente Roosevelt sobre… o ataque a Pearl Harbor! Aos que pensam que me perdi em divagações, tranquilizo: Estou apenas cuidando de rememorar um contexto histórico especialmente conturbado, a fim de construir uma análise sóbria que passe ao largo de alguns lugares-comuns assaz conhecidos.

Não estou entre aqueles que se deixam seduzir pelo antiamericanismo bocó, típico do terceiro-mundismo primitivo. Pelo contrário até: sou bel “filoamericano” mesmo. Para que tenham uma ideia, reconheço-me naquele estreito grupo de pessoas que entendem a importância dos Estados Unidos para o resto do mundo civilizado, especialmente a partir da segunda grande guerra. Não fossem os americanos – e o sempre importante Winston Churchill, Hitler teria marchado sobre toda a Europa, subjugando os valores morais sobre os quais o Ocidente se erigiu. Ainda hoje, por exemplo, custo a compreender o sentimento antiamericano dos franceses, que devem sua liberdade ao desembarque na Normandia. Por que esta tergiversação agora? Porque recuso-me a comprar a teoria que classifica o ataque atômico a Hiroshima como uma maldade do império americano contra um pobre povo indefeso. Isso é apenas tolice provinciana, nada mais!

A segunda guerra mundial foi um conflito com dois lados bem definidos: o bem, representado pelo ocidente democrático, e o mal, incorporado pelo nazismo e pelo fascismo. Qualquer um com dois neurônios e um pouco de senso lógico sabe que não há escolha possível entre tais campos. A escolha está feita de per si: cumpre alinhar-se com o bem. E qual era o objetivo do Ocidente democrático? Derrotar aquele que até então era o mal absoluto, eliminando-o da face da terra. Estados Unidos, Inglaterra e todos os demais países que representaram o bem pegaram em armas porque era preciso defender os valores que fazem da nossa civilização uma civilização! O inimigo, encarnado por Hitler e pelos fascismos italiano e japonês, representava a morte do mundo tal qual o conhecemos hoje. Nenhuma guerra é boa, dizem os pacifistas. E estão certos. Mas algumas são imprescindíveis! A segunda guerra mundial foi uma delas.

O horror havido em Hiroshima foi, a meu aviso, um erro de análise militar. Acredito que a força do exército americano – e dos demais aliados – poderia vencer o Império Japonês sem o recurso àquela bomba, injustamente chamada de Enola. Principalmente, estou convencido de que a guerra midiática teria sido vencida com enorme facilidade, caso Truman não tivesse lançado mão da tal arma. Guerra midiática, eu disse? Sim, isso mesmo. Os americanos e seus aliados venceram a guerra militar, para nossa sorte e para sorte de todo o mundo civilizado. Já aquela da propaganda, sabe-se, foi vencida pelo antiamericanismo – que muitas vezes se confunde com o pacifismo.

Muitos especialistas no assunto, por exemplo, sustentam ainda hoje que o ataque atômico acabou sendo a solução militarmente mais adequada. Eu, que não entendo muito de táticas militares, só posso ler as várias interpretações e construir minha própria análise a partir delas. Diz-se, por exemplo, que o número de mortos no caso de uma invasão por terra ao Japão seria muito superior aos cerca de cem mil mortos provocados por Enola. Sustenta-se, com base em estudos empíricos, que a duração do conflito poderia se estender por pelo menos mais uma década, caso fosse feita a escolha pela ocupação do território inimigo. E a história nos conta que Truman teve todos esses cenários à mesa antes de decidir que rumo tomar. Escolheu, como sabemos, a solução mais rápida, mas que só os canalhas podem considerar mais fácil. Não havia bandidos genocidas daquele lado – o lado do bem -, mas homens honrados tentando encontrar uma forma de salvar o nosso mundo. Eu, hoje, posso dizer que a escolha deles foi dolorosa. Mas não posso dizer que, fazendo outra, a coisa teria sido mais fácil.

A guerra da propaganda, estimulada pelo antiamericanismo do mundo, tratou de inverter a realidade e colocar os Estados Unidos na posição do império assassino, que subjugou com força desproporcional – eles adoram essa expressão – um inimigo muito mais frágil. Nada mais falso! O império do mal era o Império Japonês e seu fascismo assassino, que promovia expansão militar e territorial por meio de campanhas dignas de fazer inveja aos bárbaros de outrora. O ranço que certo pacifismo “woodstockiano” promoveu contra a América criou uma relação de causa e efeito entre Pearl Harbor e Hiroshima, coisa que não passa de trapaça retórica e moral. Mesmo porque – e aqui vai uma constatação muito importante – o ataque dos kamikazes foi moralmente muito pior do que a bomba chamada Enola. E eu não estou aqui falando apenas de aritmética, mas de valores, de ética. Uma ética que até nas guerras sempre existiu, mas que o fascismo, com sua obsessão por tudo o que é mais abjeto, tratou de violar.

O ataque japonês a Pearl Harbor foi aquilo que hoje se poderia chamar de terrorismo. Os japoneses de então estão para aquela guerra como os assassinos da Al Qaeda estão para o 11/9. E Hiroshima? Bem, como todos sabemos o lançamento da bomba não foi uma tática para dar início a um combate. Foi, antes, a maneira que se achou de por fim a ele, forçando à rendição o último arrimo de sustentação do forte fascista, que insistia em não ceder. Não preciso aqui lembrar, por exemplo, que o governo americano exortou os japoneses a pôr fim às hostilidades, inclusive advertindo que poderia lançar mão de uma arma muito poderosa. Ainda assim, o Império resistiu. Durante quanto tempo os Estados Unidos tentaram vencer de outra forma? Foram quatro anos! Quatro anos entre o atentado terrorista a Pearl Harbor – que não pode ser justificado sob nenhum ponto de vista moralmente aceitável – e o lançamento de Enola. Quatro anos! Digam o que quiserem, mas é impossível classificar o que houve em Hiroshima como vingança, ou como retaliação. Foi, isso sim, uma manobra militar e, como tal, deve ser encarada e julgada.

Eu a condeno, hoje, porque hoje me é dado conhecer todos os seus reflexos. Hoje sei as sequelas que centenas de milhares de inocentes tiveram – e tem – que suportar. Hoje sei que isso alimentou – e alimenta até hoje – o antiamericanismo rasteiro que tanto atrasa o mundo. Mas isso eu sei hoje, depois de consumados os fatos. Da mesma forma que sei o quanto era imprescindível vencer aquela guerra, colocando fim ao jugo nazista e fascista. Da mesma forma que critico a guerra do Iraque em razão de sua estratégia patética de ação, orquestrada por um presidente Bush que acreditou em uma vitória rápida e fácil. Mas não posso – e não consigo – criticar a guerra contra o terror, porque o terrorismo praticado pelo fascismo islâmico precisa ser detido hoje, da mesma forma que o fascismo do Império Japonês precisava ser detido então.

Não se trata, como percebem, de ser contra ou a favor da bomba atômica. Como já disse: ninguém com algum senso democrático e de humanidade pode ser a favor de semelhante massacre. Trata-se, isso sim, de olhar a história com olhos sérios, julgando homens e fatos a partir dos valores que temos e sobre os quais nossa história de civilização foi construída. Essa mesma civilização que os aliados lutaram vigorosamente para salvar na segunda grande guerra. Sob tal ótica, digo que vencer a guerra era um imperativo moral e categórico, mesmo porque os nossos valores, uma vez preservados do inimigo, nos permitem analisar as ações pretéritas, condenando aquilo que de errado foi cometido por nós ou por nossos antepassados. Os valores deles, caso tivessem prosperado – caso Pearl Harbor tivesse sido vitorioso – não seriam assim tão complacentes para conosco. Basta ver o que foi o nacional-socialismo de Hitler, moldado às custas de campos de concentração e de limpezas étnicas. De todas as infindáveis vítimas que aquela guerra fez – e foram inúmeras – confesso que uma das que mais me comove é Enola. A mãe, não a bomba. Ela não merecia isso.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento