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Coluna do dia: Sanções internacionais – Por quê?

17/06/2010

Por Felipe Liberal*

Eu odeio sanções. Podem ser econômicas ou políticas, eu as odeio. Tudo parece óbvio neste maldito planeta. É sempre a mesma coisa: sanções contra o Irã, Cuba e Coreia do Norte. Vindas de quem? Principalmente dos EUA. Eles, de fato, conseguem evitar que a evolução da História continue.

Quando vamos conseguir separar o sistema político adotado pelos iranianos, cubanos e coreanos do seu povo? Quando vamos entender que sanções só servem para prejudicar seres humanos que não tem nada a ver com interesses estúpidos e infinitos de alguns países? Até quando vamos suportar que cinco países decidam quem merece sofrer ou não?

Eu discordo de muita coisa que acontece nesses três “malditos” países, como também discordo de muita coisa que acontece nos EUA, Inglaterra e China, por exemplo. Nem por isso esses últimos mereceram ou merecem sanções por parte da ONU. Parece óbvio.

O Irã é totalitário? Sim. Mas a China também é. Cuba faz prisioneiros injustamente? Sim. Os EUA também fazem (vide Guantánamo e a “desativada” Abu Ghraib). A Coreia do Norte restringe a liberdade de informação? Sim. Mas todos os países europeus também fazem, inclusive comprando jornalistas e blogs (vide Yoani Sanchéz).

Então você deve estar se perguntando: portanto todos merecem sanções, né? Não. Discordaria totalmente de você. As sanções são a pior maneira de se tentar um acordo. O sistema socialista cubano sobrevive desde 1959 com fortes sanções estadunidenses, nem por isso a ilha cedeu ou aceitou as exigências internacionais. A Coreia do Norte passa pela mesma coisa, sofre sérios embargos dos países europeus e até asiáticos, na própria vizinhança, e nem por isso desistiu do seu isolamento exagerado.

Não é com o “big Stick” que as coisas se resolvem. Agressão gera agressividade. Até quando vamos conseguir ficar sem entender isso? Não podemos gerar paz com guerra. Não podemos construir um mundo melhor trazendo o que há de pior no ser humano, que é a raiva, a discórdia e a guerra.

A ONU é a maior farsa que o mundo já pôde ver. O organismo da paz é o maior gerador dos conflitos e problemas que temos hoje. Principalmente por ser comandada por países que precisam da guerra para sua própria sobrevivência, países sedentos por sangue e dinheiro. Meus caros, EUA, Inglaterra, China, Rússia e França querem tudo, menos a paz. Novamente parece óbvio.

E tudo isso só vai ser mudado, quando nós mudarmos também.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: A política externa russa e a importância do Brasil na nova Guerra Fria

13/01/2010

Por Raphael Machado Silva*

Após a queda da União Soviética, com a consequente fragmentação de seu Império, a Rússia caiu em uma espiral de caos, desordem, corrupção e decadência que durou ao menos 10 anos. Aparentemente, a Guerra Fria havia sido ganha pelos EUA. Só havia restado uma grande potência de pé e alguns diziam que seria assim “para sempre”. A “história havia chegado ao seu fim”.

Após a ascenção de Putin ao poder na Rússia, porém, esse quadro tem mudado radicalmente. De modo lento, porém progressivo e incontível, a Rússia volta a assumir sua posição de direito como uma grande potência e como rival dos Estados Unidos da América e da China na disputa pela hegemonia global.

Putin tem conseguido efetivamente perseguir e capturar a maioria dos grandes oligarcas russos que lideram as máfias, os quais são todos ex-comissários e ex-burocratas comunistas, que aproveitaram a derrocada do regime soviético para “abocanhar” a maior parte do país por uma “pechincha”. O líder russo realiza constantes programas e toma iniciativas visando aumentar a fertilidade e a natalidade dos russos étnicos. Ordenou a expulsão de milhões de imigrantes ilegais. Começou a treinar adolescentes em campos militares. Venceu uma guerra contra a Geórgia e aumenta sua influência sobre seus vizinhos e sobre toda a Europa, graças ao fato de ser o principal fornecedor de gás no continente europeu.

Como era de se esperar, porém, o fortalecimento interno da Rússia e suas iniciativas na direção de um fortalecimento externo a colocam cada vez mais em choque com os interesses americanos. Ainda que nem Rússia e nem os EUA sejam tão hegemônicos hoje como eram nas décadas da Guerra Fria, ainda assim ambos recomeçaram um lento jogo de xadrez em busca da solidificação de áreas de influência.

Por enquanto os principais palcos de enfrentamento têm sido Europa e Oriente Médio, porém, cada vez mais a América do Sul se revela uma região estrategicamente importante para qualquer projeto hegemônico global. As condições naturais globais elevam cada vez mais o valor estratégico da posse de recursos energéticos e estes a América do Sul e, principalmente, o Brasil possuem em abundância.

Até então, o principal parceiro estratégico e econômico da Rússia tem sido a Venezuela. Porém, como apontou o jornal russo Pravda recentemente, a utilidade de uma parceria com a Venezuela é bastante limitada por conta da instabilidade e dos riscos que o referido país apresenta a uma proximidade econômica internacional, além do fato de que, aos olhos dos russos, parece que o único interesse venezuelano está na compra de armamentos. É inevitável, portanto, que o Brasil se torne nos próximos anos a principal arena de disputas de influência entre Estados Unidos e Rússia, graças a sua posição como potência regional e como importante fonte de recursos energéticos na América do Sul.

Para que o Brasil aproveite essa situação ao máximo, ele deve cessar de tomar atitudes diplomáticas unilaterais e tentar ser o mais  equilibrado possível, durante o máximo de tempo possível, tirando proveito dos interesses russos e americanos, evitando nos comprometer com qualquer dos lados dessa rivalidade.

Infelizmente, me parece que a diplomacia brasileira é demasiadamente inexperiente nessa arte, sempre entregando-se “de corpo e alma”, ou a um lado, ou a outro.

* Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: O Estado de bem-estar social e o Estado neoliberal – Breves comparações

28/11/2009

Por Matheus Passos*

Tendo explicado sumariamente os funcionamentos e as ideologias que sustentam os dois modelos estatais analisados nessa série de artigos, cabe-nos agora responder a uma pergunta: o Estado neoliberal é uma “evolução” do Estado de bem-estar social? Ou, colocando-se a dúvida em outras palavras, será que toda organização estatal baseada no modelo do Estado de bem-estar social rumará em direção a uma organização dos moldes do estado neoliberal?

Muitos pensadores e teóricos gostariam de responder “sim” a todas estas perguntas. Para estes, a “vitória americana” na Guerra Fria conduziu-nos a um estágio no qual o que existe é o “capitalismo democrático” típico dos países do Ocidente. Mais ainda, esses teóricos dizem que não há outra opção a não ser a aceitação dos modelos político e econômico ocidentais. Desta forma, vários teóricos afirmam que a única saída é a adoção do modelo neoliberal de organização estatal.

É neste contexto que as ideias de Friedman ganharam importância, pois seus conceitos e suas propostas servem de base para o pensamento neoliberal “prático” surgido nos anos 1980. Estimulado pela crise capitalista dos anos 1970, o “novo” modelo de organização estatal – o neoliberalismo – surgiu recorrendo aos conceitos clássicos da teoria liberal, que já haviam sido “resgatados” por Friedman. Assim, o neoliberalismo passou a criticar o que chama de “excessivo intervencionismo estatal”, no qual o Estado – baseado na teoria keynesiana – seria o responsável por intervir na economia e regular as relações entre as pessoas. Mais ainda, os neoliberais passaram a afirmar que o Estado, ineficiente, burocrático e autoritário, deveria ser substituído pelo mercado, sendo este “a última garantia da liberdade e do progresso de nossas sociedades” (BORÓN, 1994, p. 186).

Aparentemente, a tendência mundial é de negação do Estado do bem-estar social. As ações tomadas pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido na década de 1980 levaram à consolidação da ideia “anti-Estado do bem-estar social”, situação na qual o importante era a máxima redução da influência do estado na economia e na sociedade. Esse modelo ganhou ainda mais força com a recuperação econômica presenciada pelos países capitalistas na década de 1980, em comparação com a década de 1970, e ainda mais na década de 1990. Dessa forma, a aparência passada era a de que os estados – principalmente os latino-americanos, que passavam por processos de redemocratização – deveriam se abrir para o comércio exterior, buscar controlar suas dívidas interna e externa e, principalmente, cortar gastos públicos – vistos como o “vilão” responsável pela falência do modelo do Estado do bem-estar social.

O corte nos gastos públicos era argumentado não só em termos econômicos, no sentido de se diminuir o déficit público e o endividamento estatal, mas também pelo fato de que a ajuda dada a determinadas classes sociais, por meio desses gastos públicos, ia contra a ideologia neoliberal.

Ultimamente, um ponto de vista específico tem obtido cada vez maior aceitação – o de que os altos funcionários das grandes empresas e os líderes trabalhistas têm uma “responsabilidade social” para além dos serviços que devem prestar aos interesses de seus acionistas ou de seus membros. Esse ponto de vista mostra uma concepção fundamentalmente errada do caráter e da natureza de uma economia livre. Em tal economia, há uma e só uma responsabilidade social do capital – usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a aumentar seus lucros até onde permaneça dentro das regras do jogo, o que significa participar de uma competição livre e aberta, sem enganos ou fraude. De modo semelhante, a “responsabilidade social” dos líderes do trabalho é a de servir aos interesses dos membros de seus sindicatos (FRIEDMAN, 1984, p. 122).

Há poucas coisas capazes de minar tão profundamente as bases de nossa sociedade livre do que a aceitação por parte dos dirigentes das empresas de uma responsabilidade social que não a de fazer tanto dinheiro quanto possível para seus acionistas. Trata-se de uma doutrina fundamentalmente subversiva. Se homens de negócios têm outra responsabilidade social que não a de obter o máximo de lucro para seus acionistas, como poderão eles saber qual seria ela? Podem os indivíduos decidir o que constitui o interesse social? Podem eles decidir que carga impor a si próprios e a seus acionistas para servir ao interesse social? É tolerável que funções públicas (…) sejam exercidas pelas pessoas que estão no momento dirigindo empresas particulares, escolhidas para estes postos por grupos estritamente privados? (FRIEDMAN, 1984, p. 123).

Desta forma, os neoliberais aceitam e defendem a ideia de que as funções de distribuição de renda e de garantia de um nível mínimo de vida não são função do Estado, e sim do mercado. O Estado não é capaz de solucionar estes problemas, já que tenta fazê-lo por meio de coerção. Já o mercado permitiria a distribuição “natural” da renda, pois cada indivíduo receberia de acordo com seu trabalho – se uma pessoa resolvesse trabalhar pouco, consequentemente ganharia pouco, mas a escolha foi dela própria. Friedman chega ao ponto de afirmar que os mecanismos distributivos adotados pelo Estado de bem-estar social não são éticos – já que o Estado tiraria de uns, que trabalharam por aquilo que receberam, para dar a outros, que não mereciam porque não trabalharam.

Essas teorizações acerca da economia se refletem na política. Ao limitar a expansão governamental, o mercado impediria a concentração do poder político em poucas mãos. De acordo com os neoliberais, isto favoreceria a democracia de modo indireto, porém eficaz, já que o mercado estimularia a criação de vários núcleos de poder, sem haver a predominância de um único poder coercitivo, o que acontece se o Estado for demasiado “grande” e controlar a economia das sociedades.

Outro ponto muito criticado pelos neoliberais é a questão dos gastos públicos excessivos do Estado de bem-estar social. Para eles, a crise do petróleo mostrou a falência deste modelo de organização estatal, inclusive no que diz respeito à área econômica. Os excessivos gastos do Estado com os diversos programas sociais – como programas de habitação, a previdência, impostos progressivos de acordo com o aumento da riqueza, e a criação de um salário mínimo – seriam os responsáveis pelos déficits públicos estatais que levaram à “quebra” das contas públicas.

Baseando-se nesses princípios, houve a sua aplicação prática na década de 1980, nos governos de Ronald Reagan nos Estados Unidos e de Margaret Thatcher no Reino Unido. No Brasil, a onda neoliberal ganhou força a partir de 1990, com a eleição de Fernando Collor de Melo. A medida mais visível ocorrida em nosso País foi a abertura do mercado brasileiro ao capital estrangeiro. No decorrer da década, o neoliberalismo se fortaleceu, devido às diversas privatizações, à retirada do Estado de diversas áreas da economia, à criação de agências nacionais reguladoras das áreas privatizadas e também ao corte de investimentos públicos em várias áreas, na “esperança” de que algum investidor privado nacional ou não se interessasse por estas áreas.

Com todas essas propostas, poderíamos ser levados a crer que a influência excessiva do Estado na economia seria, realmente, a responsável pela atual situação do modelo do Estado de bem-estar social, na qual o próprio Estado – que se diz de bem-estar social – não consegue fornecer o mínimo desse bem-estar à população. Ao mesmo tempo, fenômenos como a globalização e o desinteresse das pessoas pela política também confirmam, aparentemente, a tese de que é apenas por meio do mercado que os cidadãos conseguiriam atingir os seus objetivos e que a política estaria invariavelmente “perdida”, sem condições de oferecer nada à população. Assim, a aplicação do modelo neoliberal justificar-se-ia por si próprio.

Porém, os princípios neoliberais não são completamente aplicados, mas sim apenas uma “parte” dos mesmos. No que se refere a propostas de desregulamentação, de perda do monopólio estatal e de privatizações, os estados ocidentais – e alguns não-ocidentais, como a Rússia – estão seguindo o caminho neoliberal. Se pegarmos o Brasil, vemos a abertura ao capital estrangeiro, a venda de estatais de todos os portes, a perda de antigos monopólios – como na área do petróleo – e, ainda, ações no sentido de se desregulamentar diversas áreas e conceder-lhes autonomia, como é o caso da tão controversa autonomia universitária. O tão desejado equilíbrio fiscal também está sendo buscado a qualquer custo, como parte de todo um programa destinado a reduzir o papel do Estado na economia – se o Estado não tem déficits, é porque está gastando menos (já que a receita é constante), ou seja, está atuando menos de forma direta na economia.

O “calcanhar-de-aquiles” dos neoliberais, contudo, é a questão dos gastos públicos. Visto pelos neoliberais como a origem dos problemas do Estado de bem-estar social, os gastos públicos – sociais ou não – não diminuíram nos governos de Reagan nos Estados Unidos e de Thatcher no Reino Unido; ao contrário,

(…) entre 1980 e 1983, em plena fase ascendente da “revolução neoconservadora” do presidente Reagan, a porcentagem dos gastos estatais subiu de 36% para 39,2% do PIB, enquanto se prometia ao eleitorado norte-americano acabar com o big spending. Do outro lado do Atlântico, a senhora Thatcher oferecia, desde 1978, a mesma política: o resultado foi um incremento do gasto estatal de 45,1% a 49,3% do PIB em 1983 (BORÓN, 1994, p. 201-2).

Nos chamados “países de capitalismo avançado”, onde aparentemente os conceitos neoliberais estão mais solidificados, o que se viu após o surgimento de governos ditos neoliberais foi o aumento dos gastos públicos. Portanto, por mais que tenha sido proclamada a necessidade de diversos ajustes no Estado de bem-estar social, entre eles o do déficit público, a realidade é que a expansão do gasto público nos países desenvolvidos continuou – mais em alguns casos, menos em outros.

Assim, é possível dizer que atualmente o Estado de bem-estar social está tão sólido quanto nos vinte e cinco “anos de ouro do capitalismo”, entre 1948 e 1973. Porém, o atual modelo estatal existente em alguns países – entre eles o Brasil – pode ser considerado como uma “mistura” do Estado do bem-estar social e do Estado neoliberal.

No caso do Brasil, por exemplo, vemos o governo privatizando empresas estatais – medida neoliberal – mas ao mesmo tempo lançando programas de cunho assistencial – ação típica de um Estado de bem-estar social. O governo implanta medidas neoliberais, por um lado, mas ainda mantém firme o propósito de assistência social, por outro. Talvez seja até mesmo possível afirmar que os gastos públicos crescentes dos governos neoliberais sejam justificados como um ressarcimento por algum prejuízo causado por alguma política neoliberal implantada. Por exemplo, o enxugamento da máquina administrativa deixa várias pessoas desempregadas; o governo lança, então, um programa de requalificação profissional, para a reabsorção dessas mesmas pessoas. Os gastos sociais se justificariam para corrigir problemas criados pelas próprias políticas neoliberais.

Outro problema grave advindo da utilização desse modelo “misto” é o fato de que as perdas dos empresários são divididas com toda a sociedade, enquanto os lucros ficam apenas com os empresários e não é dividido. A lógica é semelhante à lógica do próprio Estado de bem-estar social: o governo faz investimentos em áreas não aproveitadas pela iniciativa privada (mas importantes para o desenvolvimento do país). Com a infraestrutura pronta (construída com dinheiro público), a iniciativa privada se interessa por aquela área, e a explora – ficando com os lucros. O gasto, portanto, é social, enquanto que o lucro é privado. A diferença, porém, é que, enquanto no Estado de bem-estar social os investimentos são feitos primordialmente com o objetivo de dar assistência aos cidadãos – com investimentos, por exemplo, em saúde e educação –, no modelo “misto” os investimentos são feitos tendo-se em vista a atração de recursos – nacionais ou estrangeiros. Assim, quando o Estado investe em educação primária, por exemplo, esse investimento não é aproveitado pelos empresários – pois é um investimento em longo prazo. Mas quando o governo reduz impostos para atrair uma indústria automobilística, os empresários aproveitam a chance, pois é a sociedade quem paga os custos – a diminuição de recursos arrecadados, decorrente da diminuição dos impostos –, mas são os empresários os beneficiados – com imposto menor, o lucro é maior.

É de suma importância, portanto, que os estados definam qual modelo irão utilizar – se serão estados de bem-estar social ou se serão estados neoliberais. É interessante que o modelo seja o Estado de bem-estar social, já que o Estado neoliberal não consegue atender às demandas da população. Como diz Borón (1994, p. 204), “o mercado demonstrou ser completamente inútil para resolver estes problemas [do Estado de bem-estar social] e não porque funcione mal, mas porque sua missão não é a de fazer justiça, mas a de produzir lucros”. Falando da situação latino-americana, continua Borón (1994, p. 204-5): “(…) necessitamos do Estado de bem-estar social: porque diante do agravamento das condições sociais imperantes na América Latina [o Estado de bem-estar social] nos garante não só a cobertura – mesmo que seja parcial e insuficiente – de necessidades humanas, mas porque, também, favorecerá o robustecimento de nossas frágeis transições democráticas”.

Vale aqui fazer uma ressalva. Assim como a posição neoliberal, que deseja ver a máxima redução do Estado, é equivocada, também o outro extremo – de que não há nada para mudar – não deve ser aceito. Novos mecanismos reguladores da economia devem ser criados, em substituição aos atuais; novos mecanismos e instrumentos democráticos que aumentem e/ou melhorem a capacidade de controle social sobre a burocracia e sobre os atores privados são necessários; novas formas de equalização dos conceitos de liberdade e de igualdade devem ser pensadas. O “novo” Estado de bem-estar social deve ser aquele que consiga oferecer garantias fundamentais à população não só nas áreas econômica e social, mas também – e principalmente – na área política, ampliando o atual modelo democrático da democracia formal até chegarmos à democracia substantiva.

Referências:

BORÓN, Atílio. Estado, capitalismo e democracia na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.

Brasil negocia a compra de sistema antiaéreo da Rússia

25/11/2009

Informa a Folha a respeito da intenção das Forças Armadas brasileiras de, através de uma compra de armamento russo, continuar os esforços recentes para reforçar a defesa brasileira:

“O Exército brasileiro negocia com o governo da Rússia a aquisição de um sistema de defesa antiaérea inédito no país. Se realizada, a compra mudará o Brasil de patamar em termos de capacidade de defesa, acrescentará temperatura ao processo de militarização da América Latina e poderá provocar reações em Washington.

Uma comitiva brasileira esteve em agosto na Rússia para avaliar o sistema, o Tor-M2E. Uma equipe de dez técnicos russos irá expor mais detalhes de sua proposta em uma reunião hoje no Quartel-General do Exército, em Brasília.

O Tor-M2E é a mais recente geração de um sistema de defesa com mísseis terra-ar desenvolvido na antiga União Soviética. É considerado o mais eficaz modelo em operação no mundo. Ele serve para abater aviões, helicópteros, armas de alta precisão e mísseis, usando radar. Sendo de curto alcance, visa proteger cidades e instalações estratégicas.

Hoje, a defesa antiaérea quase inexiste no Brasil, sendo restrita a menos de 200 canhões com projeto dos anos 50, 112 lançadores portáteis russos Igla e alguns franceses Mistral. Não há meios para abater mísseis e, se um avião supersônico penetrar perigosamente o espaço aéreo brasileiro, irá ser confrontado apenas por aviões como o Mirage-2000 ou o F-5.

O diretor de Material do Exército, general Sinclair Mayer, confirma o interesse, mas diz que o negócio ainda está na fase das ‘tratativas’ e que depende de recursos hoje inexistentes: ‘Como sabemos, nossas demandas de maior importância são grandes. Mas sim, do ponto de vista de defesa antiaérea, estamos desguarnecidos’.”

A defesa antiaérea brasileira realmente é obsoleta. Resta saber se é interessante, no cenário atual, comprar esse tipo de armamento da Rússia, além ter a certeza de que este setor é prioritário no que diz respeito aos gastos. Enfim, há a necessidade notória, mas a questão tem que ser bem avaliada e estudada por especialistas.

Coluna do dia: A globalização da fragmentação

19/11/2009

Por Felipe Liberal*

O neoliberalismo, que seria o rosto mais perverso do todo poderoso capitalismo, não se fixou. O sistema que globaliza mercados e culturas não se organizou e está começando a dar sinais de amadorismo, mostrando sua verdadeira face em vários momentos, coisa que a história já mostrou que não é aconselhável.

A Europa, com sua união mais desunida de todos os tempos, começa a mostrar que toda a fantasia harmoniosa que forma a comunidade europeia é apenas fachada. A Inglaterra e seu american way of life continuam com desejos de combater o que se tenta chamar de “Grande Império Europeu”, ratificando-se como eterna ponte entre os EUA e a Europa.

Do outro lado do canal, o chefe francês, Nicolas Sarkozy, já toma decisões protecionistas, visando defender o emprego dos franceses contra a globalização liberal, desestabilizando o euro e entrando em choque com o carro-chefe da UE, a Alemanha.

Angela Merkel, primeira-ministra alemã, quer o euro cada vez mais forte e começa uma integração econômica cada vez maior com a Rússia (esta que será a grande ameaça ao eixo “Washington-Londres” nos próximos anos, pois a perda de territórios em 1991 foi enorme e está longe de ser esquecida), de certa forma se distanciando do poderio britânico e criando tensões com a França.

Sarkozy, por sua vez, já fala em um novo bloco aliado a países norte-africanos e à Turquia, sob sua liderança. A Europa não está globalizada, como o mundo também não está. A fragmentação é o que há de mais real nesse momento da história mundial, portanto não é apenas na Europa.

Como não falar de um dos continentes mais complexos e extremos do mundo, a América Latina? Talvez o continente mais despolitizado do planeta e ao mesmo tempo um dos mais revolucionários também. Essa complexidade que nos cerca aqui embaixo está evidente nesse novo processo que está em andamento desde a virada do século. O neoliberalismo está sendo tão desgastante, através do seu genocídio silencioso, que o novo socialismo, ou o pós-neoliberalismo (não se sabe ainda), está rapidamente tomando as cabeças latino-americanas nos principais países.

A permissão que os povos como os da Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua deram aos seus novos governantes foi de grande coragem e uma determinante resposta ao imperialismo estadunidense. Essas pessoas simplesmente decidiram que o país pertence ao povo e não a empresas de nomes estranhos e sem rosto. As reformas sociais e as mudanças no cotidiano das pessoas são fatos inegáveis dentro do aspecto social. Porém, no lado político, as discussões são polêmicas e pertinentes sobre o desenrolar aqui no eterno caldeirão fervente que é a América do Sul.

É de extrema importância ratificar e ressaltar o nosso continente dentro do quadro mundial, principalmente por esse novo pensamento estar sendo contagiado para novos países e nações. A unificação da América Latina a torna fragmentada do resto do mundo e da América do Norte.

Não podemos também falar sobre complexidade sem falar do continente asiático. A efervescência econômica que vigora do outro lado do mundo é extremamente prejudicial a qualquer tentativa de progresso social em grande escala. Tudo o que foi conquistado na China para o povo está sendo devolvido de forma despótica para o desenvolvimento econômico, que não pode parar.

A China cresce em parceria com os EUA. Sem eles nada funciona no país de Mao. A dependência econômica mútua entre esses dois países elimina qualquer ameaça de conflito militar em um futuro próximo, transformando a Ásia em um continente indiscutivelmente capitalista. O Japão, representante estadunidense na localidade, funciona de forma muito semelhante à da Inglaterra, carregando as outras potências emergentes nas costas e defendendo com unhas e dentes a soberania imperialista americana.

Portanto, não estamos falando de um bloco mundial globalizado, e sim, de vários blocos heterogêneos ao redor do planeta. Isto não é novo, pelo contrário, sempre existiu em todos os períodos da história, porém sempre serviu como uma projeção de novos conflitos entre grandes países. O mundo está se desenhando novamente para esse novo velho quadro.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Alemanha morta e ressuscitada – A queda do Muro de Berlim

10/11/2009

Por Raphael Machado Silva*

Foram celebrados, no último dia 9, os 20 anos da queda do Muro de Berlim, o qual dividia a Alemanha em duas metades: a República Federal Alemã, capitalista, e a República Democrática Alemã, comunista. Tal evento foi e é considerado como o mais simbólico, o mais representativo, do fim da Guerra Fria.

Segundo relatos dos presentes, o evento se deu quase que de modo absolutamente espontâneo, inexplicável, mágico. De um dia para o outro, sem qualquer razão evidente, toda a Alemanha estava transformada. Ou melhor, a Alemanha havia voltado a existir de verdade.

A Alemanha, aqui entendida também como o conjunto dos povos germânicos, ou seja, como Nação e não só como Estado, tem sido por muitos considerada o terceiro pilar da civilização Ocidental. A chama da civilização Ocidental foi acesa pelos gregos, passada aos romanos e herdada pelos povos alemães.

Toda a história Ocidental após Roma é uma história com um substrato eminentemente germânico. A partir da fusão entre as etnias e culturas germânicas com a herança greco-romana, com a conclusão das Migrações Germânicas que puseram fim ao já decrépito Império Romano, ergueram-se as bases de todo o futuro da Europa.

O Cristianismo após as Invasões é diferente do Cristianismo Primitivo, muito mais próximo ao Judaísmo, posto que foi ‘paganizado’ de modo a possibilitar a conversão das tribos germânicas e eslavas. Alguns teólogos ortodoxos, reconhecendo isso, também chamam o Catolicismo de ‘Cristianismo Germânico’.

Mesmo a estrutura etno-racial dos povos europeus foi alterada com as migrações germânicas. Onde se estabeleceram, nas velhas províncias imperiais, os germânicos se misturaram à aristocracia romana, servindo como base para a futura nobreza feudal. Da Alemanha também vieram as principais contribuições para a Música e para a Filosofia ao longo da História da Humanidade: Beethoven, Bach, Mozart, Händel, Wagner… Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger… São todos filhos da Germânia, e são grande parte do ápice da Cultura Ocidental.

Ao mesmo tempo, falar da Alemanha e de seu povo é falar de uma das Nações mais odiadas, vilanizadas, vilipendiadas e, sim, perseguidas do século XX. Um ódio esse que se deriva muito da inveja de anglo-saxões e alguns outros povos, surgido nos fins do século XIX.

A unificação da Alemanha criou o único rival à altura da Grã-Bretanha, e a imediata industrialização realizada por Bismarck foi tão eficaz que em três décadas a Alemanha fez o que a Grã-Bretanha havia feito em um século e meio, e já produzia com qualidade superior aos britânicos.

Quando a França Napoleônica fez o mesmo preteritamente, e apareceu como rival da Inglaterra, como potência européia continental, a brilhante diplomacia inglesa moveu o mundo contra a França. Em verdade, a chave dos mistérios da maior parte dos conflitos europeus dos séculos XIX e XX é o entendimento da linha programática e dos objetivos da política externa inglesa dessa época. O aspecto euro-continental dessa estratégia se fundava na necessidade de não permitir o surgimento de qualquer potência continental européia. Aí está a razão pela qual, em distintas guerras, a Inglaterra se aliou a diferentes Estados, às vezes contra Estados anteriormente aliados. A Inglaterra sempre foi inimiga e algoz das Nações européias que almejassem se elevar em poder.

Assim, a Grã-Bretanha, o país mais beligerante, devastador e sem dúvida um dos mais genocidas dos últimos três séculos, buscou e buscou insistentemente e finalmente conseguiu impor à Alemanha, em 1914, uma Guerra Mundial, sob uma chuva de propagandismos de tablóide, com direito à acusações de que os alemães tinham soldados que praticavam canibalismo com crianças belgas e de que transformavam cadáveres em combustível.

Traída internamente a Alemanha por comunistas, derrubada a sagrada monarquia, ordenada a rendição, fez-se a vontade dos banqueiros e o país foi reduzido a escombros. Primeiro, se impôs um bloqueio marítimo, impedindo que a Alemanha se abastecesse de alimentos: morreram centenas de milhares. A seguir, veio o “Ditado” de Versalhes, no qual roubou-se um pedaço de quase metade do território da Alemanha, o qual foi dado, junto com sua população, à Polônia. Exigiu-se o desarmamento da Alemanha como pré-condição do desarmamento geral.

Desarmada a Alemanha, os vencedores descumpriram o acordo. Sugerido no Parlamento austríaco um plebiscito a respeito da unificação entre Alemanha e Áustria, algo intimamente desejado por ambos povos (que são um só), ameaçou-se ambos de nova aniquilação total. Roubou-se todas as reservas em metais preciosos, principalmente ouro, ao mesmo tempo que se exigiu da Alemanha reparações titânicas por uma Guerra cujas origens remontam à decisões tomadas em Londres, não em Berlim.

Não fosse o ressentimento, o ódio, a inveja e toda uma gama de outros sentimentos absolutamente irracionais contra os alemães que culminaram no “Ditado” de Versalhes e em 15 anos da mais abjeta escravidão de seu povo, a Segunda Guerra Mundial jamais teria acontecido. Tivesse ainda acontecido, todo o modo de condução da mesma teria sido diferente, porque os alemães não haviam se esquecido das centenas de milhares que morriam de fome nas ruas e dos milhões de desempregados. Isso não exime a Alemanha nazista de culpas, mas explica em grande parte os porquês de sua existência.

Nos momentos finais da Segunda Guerra surgiu ressentimento e ódio germanofílico ainda mais forte. Não satisfeitos com o pós-Primeira Guerra, queria-se mais. O povo alemão, principalmente a parcela que nada tinha a ver com a cúpula hitlerista, era visto como um povo mal, um povo beligerante, um povo intrinsecamente maligno, que havia causado duas Grandes Guerras e, portanto, era o responsável pela morte de dezenas de milhões.

Esse povo precisava ser punido, esmagado, destruído. Precisava-se garantir que esse Mal Absoluto jamais ressurgiria, ou seja, precisava-se garantir que não haveria qualquer oposição às maquinações diabólicas de Londres/Nova Iorque e Moscou. Não poderia mais haver oposição aos banqueiros internacionais e ao sistema econômico fundado na usura (para quem não sabe, a Revolução Russa foi financiada por Bancos, o que é demonstrado no livro ‘Wall Street and the Russian Revolution’).

O Plano Morgenthau, apresentado a Roosevelt e seriamente debatido entre os vencedores, previa o extermínio completo da população alemã por meio da esterilização gradual dos homens, da imigração de outras populações e da repartição dos territórios alemães entre todos os seus vizinhos. Venceu uma razoabilidade mínima e o Plano foi parcialmente rejeitado. Sugeriu-se, então, que o extermínio recaísse apenas sob um certo percentual de alemães, os quais deveriam ser julgados em tribunais de linchamento pelos vitoriosos com a sentença já definida previamente (ainda hoje, geriatras com mais de 90 anos são perseguidos pelo ódio anti-alemão).

Milhões de civis alemães foram também colocados em campos de concentração aliados para realizarem trabalho escravo, satisfazendo assim uma injustificável sanha vingativa dos Aliados, com a morte de quase 1 milhão de alemães. Erros não justificam outros.

Satisfez-se a gula e sede de sangue diabólica de Stálin entregando-lhe metade da Europa, apesar dos pedidos desesperados de vários generais americanos, em 1945, para que o Presidente Truman reconhecesse o governo alemão do Almirante Doenitz, autorizasse uma aliança com a Alemanha e declarasse guerra à URSS, cujas hordas vermelhas estavam absolutamente exaustas e enfraquecidas pela guerra no Fronte Oriental e que nessa época ainda não possuía armas nucleares.

Como se sabe, venceram as intrigas, a razão foi derrotada. Dezenas de milhões foram submetidos a uma tirania ainda pior do que qualquer que pudesse ter sido estabelecida pelos alemães. Entregou-se os que haviam se rebelado contra a tirania soviética ao longo da guerra, como os soldados cossacos com suas famílias, para que os mesmos fossem exterminados por Stalin.

Enfim, a Alemanha foi repartida entre os vencedores. O Muro de Berlim foi o muro do ódio. Não do ódio entre capitalistas e comunistas, os quais não se odeiam de verdade nos postos de liderança (haja vista a facilidade com que Comissários viram banqueiros e empresários, e vice-versa, com uma simples mudança de regime), mas apenas entre militantes; mas sim do ódio contra a Alemanha. Dividiu-se a Alemanha com vistas a que ela nunca se reunificasse, nunca se recuperasse, nunca mais resistisse às tiranias vindas da América e da Rússia.

Assim, Heidegger, o maior filósofo do século XX, justificou seu apoio à Alemanha do III Reich: a Alemanha, para ele, era a única coisa que se interpunha no caminho do domínio imperialista total das potências materialistas e desenraizadas, fundadas no Iluminismo, as quais instrumentalizavam sua dominação pela coisificação do homem operada por meio de sua ‘fagocitação’ na técnica (tanto o homem-massa-proletário do comunismo, como o ‘homo oeconomicus’ do capitalismo, mero objeto desumanizado inserido em um mercado são, em essência, idênticos).

Pois realizou-se o que Heidegger temia, dividiu-se o mundo em duas partes, ambas submetidas a abjetas tiranias. Já os alemães foram todos ‘desgermanizados’ culturalmente; metade dos alemães viraram americanos, a outra metade soviéticos.

A(s) Alemanha(s) das últimas décadas foi um país em que se sentia vergonha de se pertencer a ele. Os hinos nunca eram cantados, a bandeira nunca era hasteada. Quando alguém dizia a outro europeu que era alemão, o fazia com um misto de culpa e vergonha. Não há prática mais baixa, vil, mesquinha e ‘plebéia’’ como diria Nietzsche, do que impingir o sentimento de ‘culpa’ sobre os outros.

No caso da Alemanha, a ‘Culpa’ virou símbolo nacional. Uma espécie de ‘coroa de espinhos’, que os alemães ignominiosamente se regozijavam em portar.

Mas o domínio do ódio não pode durar para sempre. O ódio não acabou, mas o povo alemão deu o passo no sentido de retomar as rédeas de direção do próprio Destino. Um passo talvez frágil, mas ainda assim significativo por seu rico simbolismo.

Demonstração de uma pretensa superioridade do Capitalismo? Ora, superioridade não se demonstra por uma mera sobrevivência no tempo, mas pelos valores intrínsecos de uma Idéia e pelos seus efeitos no Mundo. Vitória parcial do Povo Alemão, que se libertou de uma tirania, caindo na talvez mais desumanizadora tirania do Mercado.

Caiu o Muro. Morreu o Comunismo. Falta à Alemanha tentar ser uma nação unida, livre de dualidades e com identidade própria, que tem o direito e o dever de reivindicar os louros que merece pelo que seu povo sofrido, esse sempre vítima, produz.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Radovan Karadzic – Nada é o que parece

27/10/2009

Por Raphael Machado Silva*

O julgamento que deveria ter tido início nessa segunda-feira, de Radovan Karadzic, outrora Presidente da República Sérvia, Presidente do Partido Democrata Sérvio e comandante do Exército Sérvio-Bósnio, foi adiado por um dia pelo não comparecimento do referido réu, que quer mais tempo para preparar sua defesa.

Karadzic, que será “julgado” (eufemismo para condenado) pelo Tribunal de Linchament…ops, Tribunal Penal Internacional para a Iugoslávia, em Haia, é acusado por ter supostamente praticado genocídio contra bósnios, croatas e outros não-sérvios durante uma guerra que foi de 1992 a 1995, com destaque para o suposto massacre de 7.000 civis em Srebrenica, e para o cerco de Sarajevo, o qual durou 44 meses.

Por outro lado, parece que realmente há algum tipo de política anti-sérvia constante na agenda da OTAN (que na verdade não passa de um braço armado dos EUA, cuja finalidade existencial há muito expirou). Ainda que eu não seja simpático a nenhum Estado que englobe vários povos, pelo fato patente de que nesses Estados sempre há a tendência para a dissolução e perseguição das identidades etnoculturais com o fito de propiciar a “tolerância” ou a tirania de um povo sobre os outros, é difícil negar que, no bojo da queda da União Soviética, as potências ocidentais também pressionaram por uma dissolução da Iugoslávia que fosse o mais desfavorável possível para os sérvios.

Depois foi a vez da separação da Bósnia, liderada por fundamentalistas islâmicos financiados pelo Irã.  Mais recentemente foi a vez do Kosovo, cuja secessão se deveu a uma verdadeira “iminvasão” e a uma disparidade entre as taxas de natalidade de albaneses e sérvios. O Kosovo, aliás, é hoje governado por membros do KLA, uma organização islâmica terrorista, com laços com a Al Qaeda, e cuja fonte de renda ao longo da última década tem sido o tráfico de armas, drogas, mulheres e o que mais der lucro.

Em seguida, veio a separação de Montenegro (ocupada por um povo sem qualquer distinção étnica, cultural ou religiosa em relação aos sérvios). Quiçá a próxima secessão seja a da província da Voivodina?

O que todas essas secessões possuem em comum? Todas foram apoiadas e financiadas pelos EUA e pela OTAN, em algumas situações com intervenção da CIA, ou ações militares dirigidas contra o povo sérvio. Qual seria a razão? Uma disputa com a Rússia por influência nos Bálcãs talvez seja uma boa explicação.

Afinal, deve haver uma boa explicação para os bombardeios genocidas praticados pela OTAN contra o povo sérvio, que duraram 78 dias ininterruptos, deixando inúmeros civis mortos. Como desculpa foi apresentada a alegação de que os sérvios, sob o comando do Presidente Milosevic, estavam cometendo genocídio contra os albaneses do Kosovo. Interessantemente, a equipe de peritos em medicina forense, vinda da Espanha e responsável pelas bem-sucedidas investigações de genocídio na Ruanda, não encontrou qualquer evidência de genocídio no Kosovo.

A OTAN alegou ter havido mais de 100.000 mortes. Achou-se algumas centenas de corpos, sem a possibilidade de se atestar a autoria de suas mortes. Quantos morreram em combate “justo” entre forças militares e quantos eram realmente civis? Onde foram parar os outros 99.500 corpos? Os sérvios usaram fornos crematórios, os transformaram em cinzas e depois assopraram no vento?

Pois então a OTAN matou 3.000 civis em bombardeios, porque os terroristas da KLA estavam perseguindo sérvios, inclusive ateando fogo a igrejas ortodoxas e, portanto, Milosevic resolveu, de pleno direito, defender seu povo?

O “duplipensar” corre solto na política externa dos EUA na Europa Oriental. Os EUA justificaram seu apoio à independência do Kosovo pelo “princípio da auto-determinação”. Pouquíssimo tempo depois, eles se posicionaram contrariamente à independência da Ossétia do Sul e da Abkhazia.

Pior ainda, no próprio Kosovo, a OTAN, diante da possibilidade de que a minoria sérvia no norte do Kosovo declarasse independência e se reunisse à Sérvia com base no “princípio de auto-determinação”, simplesmente resolveu “tornar mais rigoroso seu controle do norte do Kosovo, para acelerar sua pacificação e a integração dos sérvios”. Alguém já ouviu algo mais orwelliano? “Pacificar”. “Integrar”.

É triste a ignorância total a respeito dessa questão, mesmo entre supostos “anti-imperialistas”. Mostra o quanto ocidentais são sensíveis frente a acusações de “crimes contra a humanidade” e outros mantras humanistas, lamentações de vítimas e coisas do tipo. É importante ressaltar, aliás, uma suposta incongruência no que concerne aos ataques às campanhas anti-sérvias e às guerras americanas no Oriente Médio. A Europa Ocidental e os países muçulmanos apoiaram a primeira, e se opuseram à segunda.

Por quê? No caso dos muçulmanos é fácil. Não só porque bósnios e albaneses são muçulmanos, mas porque um tema sussurrado nos corredores das mesquitas e palácios, tanto por céticos e pragmáticos sunitas, como por xiitas fundamentalistas, é o retorno do “Califado Islâmico”, a forma de governo estabelecida e ordenada por Maomé, com autoridade para liderar os muçulmanos ao redor de todo o mundo, cuja finalidade é fazer a Jihad e retomar o que se extinguiu com o fim do Império Otomano. O risco do retorno do Califado já foi admitido pela CIA, em um de seus últimos relatórios anuais sobre política externa.

No caso da Europa Ocidental, se resume ao fato de que a Sérvia é, atualmente, o país mais hostil à União Européia e à qualquer forma de “integração” (eufemismo para escravização) internacional. A Sérvia é uma “pedra no sapato” dos globalistas. Por isso, tinha que ser bombardeada até voltar à Idade da Pedra.

Mas as razões abundam, também, para os EUA. Quer-se acesso aos trilhões de dólares em reservas minerais inexploradas nos subsolos do Kosovo e em certas partes da Bósnia. E uma outra grande razão, talvez a principal para o interesse americano e europeu, era a possibilidade de construção de um oleoduto saindo do Mar Cáspio, que não precisasse passar pela Rússia.

Não terminarei com qualquer desejo tolo de que “a verdade seja revelada no tribunal”. Não será. Todas essas cortes penais internacionais não passam de tribunais inquisitoriais, os quais já têm uma sentença pronta, antes mesmo do julgamento.

As cortes de Haia não passam de cortes políticas, apontadas com a específica finalidade de perseguir e punir os inimigos da OTAN e dos EUA. Que esperança de “contraditório” e “ampla defesa” pode haver nesse modelo de tribunal? Ademais, a ilegalidade de Haia é gritante, dado que a mesma violou as regras da ONU concernentes à imparcialidade quando aceitou doações da Time-Warner, da Disney e do banqueiro George Soros, o qual, agora, lucra milhões com as minas do Kosovo.

Diria George Orwell: “Em um mundo de mentira universal, falar a verdade é um ato revolucionário”.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Liberalização e inclusividade na Rússia

12/09/2009

Por Matheus Passos*

Escrevo esta coluna no dia 11 de setembro de 2009, dia em que são lembrados os oito anos dos ataques às torres gêmeas em Nova Iorque. O leitor pode estranhar: o que tem a ver os ataques aos EUA com a Rússia, que está presente no título da coluna? Absolutamente tudo a ver, pois o ataque permitiu que a ideia de democratização se impusesse em locais tradicionalmente não-democráticos, o que deu origem a uma contradição incrível: se a democracia pressupõe a liberdade de escolha, como ela pode ser imposta?

Em seu livro “Poliarquia”, Robert A. Dahl define todos os regimes políticos do mundo como não completamente democráticos. O autor acredita que mesmo naqueles países onde o sistema democrático já esteja consolidado, o que existe não é democracia – princípio que o autor acha impossível de acontecer em qualquer lugar do mundo. Partindo dessa hipótese, Dahl define o seu conceito de poliarquia como uma construção teórica que possui dois eixos: o da liberalização (ou contestação pública) e o da inclusividade (ou o grau de participação da sociedade no governo). Quanto maiores forem os graus de liberalização e de inclusividade, mais próximo da “poliarquia perfeita” determinado regime estará.

Tendo-se em mente tais eixos, é possível afirmar que a Rússia ampliou, após o fim da União Soviética, a participação política da população por meio de eleições livres e regulares, e também ampliou o grau de contestação pública ao regime, permitindo manifestações populares e o surgimento de verdadeira oposição.

O principal resultado da reforma política na Rússia desde o início da Perestroika foi a participação popular. Os cidadãos saíram de um estágio de total “alienação” em relação à escolha dos seus governantes e atingiram um estágio onde a democracia foi instaurada e consolidada – pelo menos a democracia formal, na qual a ênfase é dada à possibilidade de voto que é possuída pelas pessoas.

O processo eleitoral na Rússia nunca deixou de acontecer, desde o fim da União Soviética. As eleições parlamentares e presidenciais ocorreram sempre nas datas previstas, sendo que nenhuma delas foi suspensa – mesmo quando esta possibilidade existiu. A partir das eleições de 1995, podemos perceber que a contestação pública ao sistema passou a ser não apenas oficial, mas principalmente efetiva. Com a pluralidade de partidos políticos, cada qual com sua respectiva ideologia, a população pôde escolher dentre as diversas opções disponíveis, dando a maioria na Duma ao Partido Comunista da Federação da Rússia.

Outro ponto importante na reforma política russa, e que também está relacionado à questão das eleições, foi a possibilidade de abertura de novos partidos políticos e da desconcentração do poder político, que antes estava nas mãos apenas do Partido Comunista. A pluralidade partidária, refletida na Assembléia Federal, foi uma das grandes e importantes conquistas do povo russo, com o fim do monopartidarismo comunista.

Um terceiro ponto importante na reforma política russa foi a criação de um sistema político-administrativo nos moldes ocidentais, com três poderes independentes entre si. O Poder Judiciário, que existia mas era inoperante na União Soviética, passou a ter grande importância – e influência – no andamento dos processos políticos da Rússia. Desta forma, o sistema ocidental de pesos e contrapesos passou a existir também entre os russos, de forma que o poder não ficasse concentrado apenas nas mãos do Poder Executivo. Da mesma forma, também o Poder Legislativo conseguiu sua independência – ainda que relativa – em relação ao Poder Executivo, tendo podido os parlamentares, que foram escolhidos pela população, efetivamente irem contra as políticas neoliberais do Poder Executivo durante a década de 1990.

Após o fim da União Soviética, a tendência foi a total consolidação da participação política da sociedade. Desde 1992 ocorreram cinco eleições parlamentares no país (em 1993, 1995 e 1999, 2003 e 2007) e quatro eleições presidenciais (em 1996, 2000, 2004 e 2008). A participação da população aumentou gradativamente em cada uma dessas eleições, caracterizando a participação desta no processo de escolha do governo. Também em relação à contestação pública, houve um aumento significativo na possibilidade de manifestações abertas contra o governo, incluindo passeatas que pressionaram o Parlamento a tomar atitudes contra o Poder Executivo.

Desta forma, vemos que a democracia formal já está implantada e consolidada na Rússia, com eleições regulares e com a participação de grande parte da população. A contestação pública, por sua vez, se consolidou não apenas com passeatas e manifestações populares nas ruas, mas também com a criação e o funcionamento de instituições que permitem caracterizar a contestação pública. A escolha de parlamentares que fazem oposição ao governo é uma consequência do processo de consolidação da contestação pública e da participação política da população.

Contudo, é válido que façamos uma ressalva: a participação política e a contestação pública definidas por Dahl referem-se à chamada “democracia formal”, e não à “democracia substantiva”.

A democracia formal é aquela considerada como uma “democracia de procedimentos”, ou seja, o que importa são os meios e os procedimentos utilizados no processo democrático. Assim, para essa “vertente”, os países são considerados democráticos se possuírem o sufrágio universal, se houver um sistema partidário organizado, se forem realizadas eleições regulares e se os mandatos dos eleitos forem fixos. A ênfase recai sobre aspectos institucionais: se estes garantirem a expressão política das pessoas, a democracia está garantida. Já a vertente da democracia substantiva argumenta que não basta apenas a existência de mecanismos eleitorais para a manutenção da democracia: aspectos econômicos e sociais influem no resultado dos votos das pessoas. Assim, de acordo com esta vertente, o voto de um empresário valeria mais do que o voto de um mendigo, já que o primeiro tem acesso a muito mais informações e oportunidades do que  o segundo. As condições sócio-econômicas, por influírem no resultado das eleições, também devem ser consideradas ao se definir as democracias. As desigualdades sociais se refletem em desigualdades políticas.

Podemos estender este argumento também para a Rússia: conforme já afirmado, a democracia formal, com eleições periódicas e justas, já está instaurada e, pode-se dizer, consolidada. Mas é necessário mais do que isso para que seja garantida a verdadeira participação qualitativa da população, e não apenas quantitativa. É necessário que a reforma do estado na Rússia amplie a noção de democracia, fortalecendo a garantia aos direitos políticos e civis, bem como garantindo a possibilidade de concretização de valores sociais e de interesses não econômicos. É necessário, também, ter a visão de que o indivíduo não é um mero “cliente” dos serviços produzidos pelo estado e/ou pela iniciativa privada: o indivíduo deve ser visto como um cidadão, onde as noções de coletividade, de bem comum e de subjetividade de cada um são tão importantes quanto a mera concretização de interesses econômicos por parte daqueles que controlam o mercado.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

2ª Coluna do dia: Quão caro pode custar uma cadeira no Conselho de Segurança?

10/09/2009

Por Eduardo Schneider*

A França vem procurando um comprador para o jato de combate Rafale há mais de uma década. O Brasil vem procurando um avião de caça de última geração para substituir os já obsoletos caças da Força Aérea Brasileira há mais de uma década.

O Presidente Lula aproveitou as festividades do dia 7 de setembro, que tiveram como convidado de honra o Presidente francês Nicolas Sarkozy, para encerrar a compra pelo Brasil de 4 submarinos convencionais e 1 movido a reator nuclear , além de 50 helicópteros militares. Até aí tudo bem, tudo segundo o figurino. É amplamente sabido que o Brasil tem pretensões de conseguir o apoio francês para conquistar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Com a transferência de tecnologia advinda destas transações, o Brasil entra para o seleto grupo de países capazes de construir submarinos movidos a propulsão nuclear (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China e Rússia) o que significa um enorme salto de qualidade para a indústria naval brasileira.

Até aí corre tudo dentro da normalidade, afinal, este era um acordo já amplamente pensado, discutido e coerente tanto com a política externa brasileira de aproximação com a França quanto com a vontade de reaparelhamento de nossas Forças Armadas.

O que ocorreu de surpreendente neste encontro foi o anúncio antecipado, pelo Presidente Lula, da preferência brasileira pelos caças franceses. Anúncio este que causou incômodo frente ao Comando da Aeronáutica e que acabou levando a uma nota oficial do Ministério da Defesa afirmando que a discussão ainda não está encerrada. Me causa imensa estranheza este anúncio de Lula. Como pode nosso Presidente anunciar a preferência por um avião ou por outro, quando a própria Aeronáutica somente irá enviar um documento, através do ministro Nelson Jobim, divulgando o parecer técnico da FAB e apontando as vantagens e desvantagens de cada proposta, no fim do mês?

Como dito no início desta coluna, a Dassault, fabricante do caça francês, tenta emplacar a venda de sua aeronave há mais de 10 anos, conseguindo, até agora, apenas um comprador: a própria França. E se não tivesse vendido nem para a França, isto seria o equivalente a nem o Brasil comprar aeronaves da Embraer.

Em 2002, os franceses perderam para os americanos na Coreia do Sul. Em 2005, duas novas derrotas na disputa com os americanos: em Cingapura e na Holanda. Em 2006, perdeu a concorrência na Arábia Saudita, e, em 2007, sofreu um golpe no Marrocos.

Aí está a questão: Será que, e aqui coloco um grande será, o governo brasileiro estaria “forçando a barra” para que seja efetuada a compra junto à Dassault e assim salvá-la, tendo mais uma carta na manga para conseguir o incondicional apoio francês na eterna batalha pelo assento no C.S. das Nações Unidas?

A suposta primeira venda internacional do Rafale foi recebida com euforia pela imprensa francesa, pois tira a Dassault do risco de mergulhar imediatamente em uma séria crise e, além disso, pode ajudar a emplacar a venda dos caças também para os Emirados Árabes, a Líbia e a Suíça, tendo em vista que a compra das aeronaves por um País com peso internacional, como o Brasil, pode fazer pender a balança para o lado francês nestas disputas.

É difícil medir o impacto imediato desta decisão na esfera internacional. É certo, no entanto, que só serve para ratificar a má fama do Brasil de adquirir produtos militares baseado mais em critérios políticos do que técnicos. Além de tirar o crédito dos militares da FAB responsáveis por fazer as análises das propostas das empresas.

Quão caro pode custar uma cadeira? A dos designers franceses costumam ser caras. Neste caso não poderia ser diferente.

*Eduardo Schneider escreve no Perspectiva Política às quintas.

Coluna do dia: EUA – Quando a experiência faz falta

25/08/2009

Por Raphael Machado Silva*

Conforme passa a euforia popular e a razão volta a operar na mente dos americanos, um número cada vez maior de pessoas chega, muitas vezes timidamente, à seguinte conclusão: Cometeram um erro ao eleger Barack Obama. Caíram em um conto de vigário. Agiram previsivelmente como uma massa faria. Abraçaram um símbolo de caráter religioso, pronto para distribuir epifanias e êxtases, entoando mantras politicamente corretos, sem nunca antes ter ouvido falar no indivíduo, já que o mesmo possui um histórico político extremamente medíocre.

Obama foi escolhido como candidato pelos democratas por pura estratégia de imagem, não por qualquer conteúdo. Não afirmo que o candidato republicano era muito melhor. Não era mesmo. Em verdade, não vejo qualquer futuro para o “bipartidarismo” do sistema americano.

Se um dos muitos argumentos contrários à escolha de Obama como Presidente dos EUA era sua total inexperiência, esse fato fica mais patente na política externa americana. Se a vitória de Obama melhorou a imagem dos EUA ao redor do mundo, foi porque as pessoas ao redor do mundo, e isso inclui a Europa e o Brasil, simplesmente são alienadas e distantes da realidade. A mídia, com seu posicionamento radicalmente pró-Obama – a ponto do site de certa grande emissora brasileira ter bloqueado a postagem de comentários à época da contagem dos votos das eleições americanas 5 minutos após eu ter postado alguns comentários anti-Obama -, também parece não se preocupar muito com sua suposta função de nos transmitir a realidade, já que tal é a última coisa a nos ser informada e isso só quando lhes interessa.

A diplomacia é uma verdadeira arte na qual os países europeus possuem uma maestria absoluta. Os países asiáticos, historicamente acostumados com burocracias de bajuladores, também aprenderam a negociar. Países comunistas, independentemente da geografia, apesar de preferirem o uso da força, também com o tempo aprenderam a utilizar-se dela em conjunto com a astúcia. Os EUA, por sua vez, que também tinham possuído um histórico de diplomacia inteligente que se estende desde que John Adams conseguiu convencer a França a lhes prestar auxílio na Revolução, parecem estar perdendo suas perícias na área.

Cada vez mais, os EUA parecem estar desesperados, tentando “abocanhar” bem mais do que lhes seria possível. As contendas internacionais crescem, sem que as anteriores sejam definitivamente resolvidas. Os EUA, no plano internacional de hoje, parecem com uma criança que, diante de muitos brinquedos, não sabe bem com o quê brincar.

Os EUA decidiram voltar a treinar as forças armadas da Geórgia, ainda não muito tempo após uma guerra do país contra a Rússia e ainda sem que os problemas ente ambas as nações sejam resolvidas. Quanto tempo levará até que a paciência da Rússia se esgote? E o que acontecerá quando isso acontecer?

Por sua vez, o Irã decidiu permitir que suas instalações nucleares recebessem visita de inspetores da ONU. Mas isso não é nenhuma novidade. Quem tem medo de permitir visitas às suas instalações é Israel e não o Irã. Porém, esta pode ser considerada uma vitória americana? Não é isso que quer os EUA. E mostrando suas instalações à ONU, o Irã consegue dificultar qualquer apoio formal que se possa dar aos EUA no caso de guerra, já que se não há armas nucleares sendo produzidas, não há motivo justificável para a guerra. Ao mesmo tempo, a mal fadada tentativa de uma “revolução” no Irã não saiu do papel.

Enquanto isso, no Afeganistão e no Iraque, um número cada vez maior de atentados desestabiliza a região e começa a tornar qualquer vitória improvável. E a única solução que se considera é enviar ainda mais tropas, como se o problema fosse quantitativo e não estratégico. Os governos estabelecidos são incapazes de garantir um funcionamento normal às instituições  e durarão pouco após a eventual saída do exército americano.

Ao mesmo tempo, e de um modo bastante irracional, os EUA e seu principal aliado, a Grã-Bretanha, continuam em uma política irrestrita de imigração que facilita a penetração de extremistas em seus solos, dificultando qualquer combate eficaz ao terrorismo internacional.

Talvez seja hora dos EUA começarem a aprender que o mundo mudou e que não lhe é mais possível, hoje, se envolver e interferir em eventos múltiplos ao redor do globo de modo a garantir sua hegemonia. O resto do mundo aprendeu muitas lições durante a Guerra Fria. Já os EUA parecem ter parado, ou mesmo regredido.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.