Postagens com a palavra-chave ‘Repressão’

Coluna do dia: Yoani Sanchéz, Fausto e o Diabo

29/04/2010

Por Felipe Liberal*

FAUSTO:

Se podes me enganar com coisas deliciosas, doçuras a sentir, prazeres! Alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas, que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo.

MEFISTÓFELES:

Aprovo. Pensa bem no que dizes. Diabo tem memória.

Este é o momento exato em que Fausto aceita a proposta do Diabo (Mefistófeles) e vende sua alma. Para quem não conhece “Fausto”, uma das maiores obras literárias e teatrais da história da Humanidade, escrita por Goethe, recomendo a ida a qualquer livraria mais próxima e a compra hoje mesmo, leiam e contem-me depois qual a sensação de devorar uma obra-prima.

Esta cena explodiu na minha mente essa semana, quando li a entrevista que a famosa blogueira cubana Yoani Sánchez concedeu ao jornalista francês Salim Lamranium. Entrevista que foi indicada pelo meu leitor e colega Alan de Freitas. Agradeço publicamente.

Já era lógico que existia alguma coisa estranha em toda essa raiva de Yoani contra Fidel e Raul. Já era óbvio que toda essa gritaria e pânico tinham alguma coisa de errado. Já era claro que toda essa “liberdade” de pensamento virtual não passava de mais uma criação americana, como na Guerra Fria, lembram? Aquela política de fabricar pensadores e intelectuais? Pois é, isso nunca acabou. A Guerra da Mentira continua quente e viva.

Só tem um problema: a “cria” foi mal treinada. Não suportou o bombardeio de perguntas do jornalista francês e entrou em contradição várias vezes durante a entrevista. Temas como censura, repressão, polícia cubana, Fidel, Raul, EUA, Obama e internet, foram abordados incansavelmente por Salim diante da blogueira, que não conseguia responder e algumas vezes entrava em contradição com suas próprias palavras ditas anteriormente.

Sabemos que dentro do seu blog existem reclamações pertinentes e válidas, sendo inclusive indagações da maioria esmagadora do povo cubano, mas o que me deixa triste são as mentiras contadas por ela contra seu próprio país. Mentiras essas que ferem a imagem e a identidade do seu povo, de seus irmãos. E tudo isso tendo ampla publicidade das grandes empresas jornalísticas em todo o planeta, mostrando o quanto é frágil esse dinamismo virtual e cibernético, o quanto é frágil a informação verdadeira.

Yoani Sanchéz vendeu a alma ao Diabo em troca de fama, prestígio e premiações internacionais. O Diabo azul e vermelho. O Diabo que fala inglês.

Yoani Sanchéz não é a primeira e nem será a última a interpretar Fausto na vida real. Muitos conseguiram esse papel no teatro do bem e do mal. E agora consigo lembrar-me qual foi o fim de outro que empreendeu interpretação do personagem há bem pouco tempo atrás: morte na forca, em Bagdá. Lembram?

Nem sempre o final é feliz.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Quando o esporte funciona como instrumento de alienação

03/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Todo Tirano, seja ele liberal ou marxista, teme o espectro sombrio da possibilidade de revoluções, venham elas das massas ou de elites. Até os primórdios do século XX, a solução para tal possibilidade sempre se fundou na repressão pela força bruta a cada vez que havia a suspeita de dissidência, ou quando se publicava “livros proibidos”, ou quando se fazia discursos públicos de teor “anti-social”, ou quando se praticava qualquer ato que fizesse os Tiranos se sentirem ameaçados.

A ingenuidade dos Tiranos, portanto, foi a causa geradora de inúmeras agitações políticas ao longo dos séculos. A instrumentalidade da Tirania, quando atua de modo visível e direto, quando ela mostra sua face horrenda desavergonhadamente para todos, quando a mesma representa um regozijo aberto da opressão, possui exatamente o efeito contrário do que seria a intenção dos Tiranos. Quando a instrumentalidade da Tirania assim opera, ela endurece os corações dos dissidentes, gera mártires e empurra o apoio popular na direção dos revolucionários.

Com o passar do tempo, porém, vem a experiência. E a experiência ensinou aos Tiranos toda a sorte de sutilezas, diplomacias e lisonjas. Aprenderam, então, que para que uma Tirania se perpetue na história, e afaste completamente o espectro da Revolução, a melhor estratégia de atuação é fazer com que as massas concordem com a permanência da Tirania.

Se nos casos mais primitivos essa concordância se dava pela oferta de segurança frente a alguma ameaça externa, em pouco tempo os Tiranos passaram a adotar novas táticas. A primeira é convencer as massas de que sua escravidão constitui a maior das liberdades. A segunda é a mais eficaz: apaziguar os ímpetos das massas por meio da afluência de objetos materiais e do entretenimento. E é exatamente essa função a que os esportes ocupam na contemporaneidade.

Os antigos romanos, povo muito sábio, já haviam reduzido essa verdade a uma máxima muito conhecida: “panem et circenses”. À época imperial, a agricultura familiar tradicional dos romanos já havia sido esmagada pelos oligarcas, e todas as terras pertenciam a um número muito reduzido de indivíduos, forçando uma enorme massa humana a ocupar a cidade.

Para apaziguar os ânimos e evitar o caos social obviamente causado por tal situação, as massas eram divertidas com fantásticos jogos públicos, realizados em diversos anfiteatros, o mais famoso sendo o Coliseum. Em seu ápice, o Coliseu chegou mesmo a abrigar batalhas navais. As multidões ficavam completamente hipnotizadas pelos jogos, e durante muito tempo eles tiveram a eficácia desejada.

Um dos principais efeitos dos esportes é o de infantilizar as massas, por meio de sua identificação simbólica com equipes ou atletas, os quais simplesmente não se importam minimamente com seus fãs, posto estarem completamente integrados em uma relação industrial fetichista, como commodities, meros produtos geradores de lucros para seus donos.

Assim, as massas idiotizadas por meio de uma identidade artificial são levadas a se submeterem a toda forma de paixões e exaltações por eventos os quais simplesmente não possuem qualquer efeito ou significação efetiva sobre sua realidade pessoal. As massas chegam a ser levadas mesmo à violência física por conta de pseudo-rivalidades construídas por ricos “cartolas” e pela propaganda midiática.

Um hilário exemplo histórico ocorreu no Império Bizantino, quando houve uma autêntica revolta popular porque o ‘time vermelho’ havia vencido o ‘time verde’ na corrida de bigas, ou vice-versa. Quem se importa? Interessantemente, é um caso em que “o tiro saiu pela culatra”, afinal, aparentemente até o desporto pode gerar suficiente insatisfação a ponto de causar revoluções.

Todo o dispêndio de energia gera exaustão. E é exatamente isso o que ocorre às massas por meio da sacralização do esporte, e sua transformação em entretenimento. As massas são exauridas intelectual e emocionalmente. Assim, são nulificadas as potências revolucionárias que poderiam derivar dos ímpetos e paixões dos homens, caso essas fossem dirigidas à política e ao pensamento. A facticidade da referida afirmação pode ser verificada por uma singela análise de qual a importância dada pelas massas ao esporte e à política em suas vidas pessoais.

Colocando em termos mais simples, as massas são simplesmente distraídas pelos esportes, para que elas não prestem atenção e nem deem tanta importância aos eventos políticos, econômicos e sociais de sua pátria, todos os quais sempre as afetam. Justifica-se pateticamente a atenção dada aos esportes (ao futebol, por exemplo) com a falácia do “povo sofrido”. O “povo brasileiro”, por ser “sofrido”, deve ter suas dores e tristezas anestesiadas pela panacéia da histeria coletiva do esporte?

Pois é exatamente essa anestesia, assim como a exaltação do prazer lascivo e da materialidade em geral, que ao afastar o homem do sofrimento, o afasta da consciência da necessidade de tomar nas próprias mãos as rédeas de seu destino político, e de derrubar das alturas todas as Tiranias que o esmagam e subjugam na pior das misérias: a Miséria do Não-Pensamento.

Não se trata aqui de desvalorização do esporte como atividade física ou da vontade natural do humano de pertencer a um grupo que pode, muito bem, ser representado pelos torcedores de um “time”. O que se quer ressaltar é o quanto prejudicial é o fanatismo e valorização, por exemplo, de um “clube de futebol” em detrimento do próprio futuro e da própria família. O quanto é nocivo o fato de serem preferidas mesas redondas sobre futebol em comparação com as que discutem a política mundial e nacional, a economia e a sociedade. O quanto é condenável que se deixe um debate filosófico por conta de um debate a respeito de qual jogador atua melhor na posição de ponta-esquerda.

Que caiam todos os disfarces com que são enfeitadas as desgraças, e que o homem encare de frente o próprio sofrimento. Aí então, os que tiverem valor tornar-se-ão livres.

*Raphael Machado Silva, excepcionalmente escrevendo em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.

2ª Coluna do dia: Sociedade – O aparelho ideológico de Estado

31/10/2009

Por Matheus Passos*

Por motivos profissionais, nesta semana tive contato frequente com as ideias do filósofo algeriano Louis Althusser, que fala a respeito dos aparelhos ideológicos do Estado e como os mesmos são utilizados para se manter a hegemonia do grupo dominante. Sendo assim, acreditei ser importante trazer ao debate político o papel de tais meios na atualidade, ainda mais quando se leva em consideração a atuação da mídia no processo político.

Althusser afirma que, para que a produção sobreviva, é necessário que ela faça a reprodução dos meios de produção. Tais meios de produção são formados pelas forças produtivas e pelas relações de produção existentes. A reprodução da força de trabalho se dá fora da empresa e o meio material pelo qual ela se reproduz é o salário. Assim, o salário é indispensável para a reconstituição da força de trabalho do assalariado (vestimentas, alimentação, etc.), e também é indispensável à educação das crianças.

Contudo, não basta apenas fazer com que a força de trabalho se reproduza: ela deve ser capaz de manusear as máquinas e equipamentos da empresa. Esta qualificação ocorre através do sistema escolar capitalista e é aqui – principalmente – que entra a ideia de aparelho ideológico do Estado.

Na escola, além de ler e escrever, aprende-se também as regras do bom comportamento, ou seja, aprende-se a ser submisso à ordem vigente, fazendo com que os operários sejam submissos em relação à ideologia dominante. Além da escola, também a Igreja e outros aparelhos, como as Forças Armadas, são aparelhos ideológicos do Estado. Eles dominam não pelo uso da força, e sim pelo uso da ideologia para manter a classe dominante no poder.

Outros conceitos importantes para Althusser dizem respeito à separação entre o que ele chama de “aparelho de Estado” do “poder de Estado”. O objeto de disputa é o poder do Estado; já o aparelho do Estado pode continuar, mesmo que os operários atinjam o poder. Quem detém o poder do Estado usa o aparelho do Estado em benefício de sua classe. Assim, para poder complementar a teoria marxista, devemos então ter em mente não apenas a distinção entre poder de Estado e aparelho de Estado, mas também admitir a existência de uma realidade que não se confunde com o aparelho repressivo de Estado: são os aparelhos ideológicos de Estado.

A diferença básica entre os aparelhos repressivos de Estado (ARE) e os aparelhos ideológicos de Estado (AIE) é que os ARE se utilizam predominantemente de argumentos repressivos e coercitivos para atingirem seus objetivos. Já os AIE utilizam predominantemente a ideologia para manter sua dominação. São integrantes dos AIE, dentre outros, o sistema de diferentes Igrejas, o sistema escolar (tanto público quanto privado), o sistema familiar, o sistema jurídico, o sistema político, o sistema sindical, o sistema de informação e o sistema cultural.

Outra diferença, além da maneira de atuação (os ARE utilizam-se da repressão e coerção, enquanto os AIE utilizam-se da ideologia), é que, enquanto os ARE são totalmente públicos, a grande parte dos AIE pertencem ao domínio privado. Isto não significa dizer que exista alguma diferença entre AIE públicos e privados: ambos funcionam como aparelhos ideológicos de Estado.

É interessante notar que nenhuma classe pode, de forma duradoura, deter o poder do Estado sem exercer ao mesmo tempo sua hegemonia sobre e nos aparelhos ideológicos do Estado – e é aqui que estão as lutas de classes. Isto porque a classe no poder não consegue impor sua vontade tão facilmente nos AIE como faz nos ARE, pois a antiga classe dominante pode manter fortes posições durante muito tempo nesses, e ainda porque as classes exploradas podem utilizar-se dos AIE para expressarem-se.

Voltemos à questão da reprodução das relações de produção. Esta reprodução ocorre, em grande parte, através da superestrutura jurídico-política e ideológica. Em outras palavras, é o aparelho de Estado, formado pelos ARE e pelos AIE que garante tal reprodução.

A função de provedor da reprodução das relações de produção existe desde o pré-capitalismo. Em tal época, o principal AIE era a Igreja, que tinha funções não só religiosas mas também educacionais, além de uma boa parte das funções de informação e de cultura. Durante o século XIX, com a progressiva separação entre Estado e Igreja, foi surgindo um novo AIE: a escola. Este é o AIE que mais influencia no momento, pois é a escola quem dá formação a todas as crianças, independentemente de classe social, desde o maternal até a universidade. É a escola quem atua nos anos “vulneráveis”, onde a criança está aprendendo os valores sociais.

Portanto, é através da educação que a reprodução das relações de produção ocorre. Esta ideologia, entretanto, está oculta, pois a escola é tida como neutra na formação do indivíduo. A escola desempenha um papel determinante na reprodução das relações de produção de um modo de produção ameaçado em sua existência pela luta mundial de classes.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político, editor do Blog do Prof. Matheus e escreve no Twitter em @mpassosbr

Jorge Semprún, que lutou contra Franco, diz não ser vítima do franquismo

10/07/2009

Jorge Semprún, para quem não sabe, é espanhol e foi membro da resistência francesa durante a ocupação nazista, tendo sido detido e sobrevivendo ao Holocausto.

Mais tarde,  continuou na luta e passou a ser ativista contra o regime de Franco na Espanha, participando, na clandestinidade, do Partido Comunista espanhol.

Pois bem. Em uma entrevista recente, Semprún foi perguntado a respeito de se sentir, ou não, uma vítima do franquismo.

A resposta foi a seguinte: “Não me considero vítima do franquismo. As vítimas são aqueles que sofreram a repressão com passividade. É uma distinção que faço… mas, como lutei contra, não me considero vítima, mas ator nesse período histórico. A reconstrução da democracia na Espanha fez triunfar os valores democráticos que eram os dos vencidos na Guerra Civil.”

Faço este registro por um simples motivo: É um ótimo exemplo para aqueles que lutaram com coragem contra a ditadura brasileira, se opondo corretamente e heroicamente à repressão, mas que, mais tarde, entendendo que deveriam ser recompensados financeiramente, e não apenas  com a gratidão de todo um País, por uma batalha que empreenderam voluntariamente e por um ideal, requereram a “Bolsa-Ditadura”.

A pergunta que me vem à cabeça é sempre a mesma: Se a luta dos que batalharam contra o regime militar no Brasil era pela democracia e pelo nosso País, porque pedem compensação financeira? A abertura política, a democracia brasileira e a liberdade de expressão, conseguidas, não eram os objetivos da luta?

Entendo e defendo os que requerem indenização por terem perdido parentes, ficado inválidos ou sido torturados.

Mas não compreendo os que, por apenas terem participado de grupos clandestinos, ou até algo mais brando, querem ser sustentados pelo Estado brasileiro.

Vocês lutaram por algo e conquistaram. Sintam-se felizes e satisfeitos. Verdadeiros heróis. Mas não tentem levar vantagem, já na terceira idade, com isso.

Aprendam com Semprún.