Informa a Veja:
“Na cartilha de certas administrações, aproveitar o finzinho de ano para decretar uma medida polêmica, impopular ou simplesmente indecorosa é prática corrente.
Com o Legislativo já quase em recesso, os órgãos do Executivo mais ou menos desmobilizados e as atenções da imprensa voltadas para outros assuntos, governantes se sentem à vontade para sacar medidas que, de outro modo, não teriam coragem de apresentar em público.
O governo federal se valeu mais uma vez dessa tática no dia 23 de dezembro, quando um ato do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome alterou as regras de funcionamento do Bolsa Família, numa manobra destinada a evitar que 5,8 milhões de beneficiados fossem excluídos do programa – fato legal e previsível, mas que, em ano de eleição, poderia ser funesto para a campanha petista.
Pelas normas até então em vigor, perdiam o direito ao recebimento do benefício famílias cujo cadastro estivesse desatualizado havia mais de dois anos e aquelas cuja renda per capita tivesse ultrapassado o limite de 140 reais.
São critérios justos: o primeiro se destina a coibir fraudes e o segundo visa a evitar que o cidadão fique para sempre sob a tutela do Estado – o que é, ou deveria ser, uma das preocupações do programa. Mas, como em ano de eleição vale tudo, o governo decidiu deixar para lá.
O ato administrativo do dia 23 de dezembro estabelece um ‘prazo de carência’ dentro do qual a burla das regras passa a ser tolerada. Assim, quase 1 milhão de famílias que não atualizaram seu cadastro em 2009, e tiveram o pagamento bloqueado em novembro, voltarão a ganhar o benefício.
Da mesma forma, continuarão a receber dinheiro público as famílias cuja renda per capita ultrapassou 140 reais – em torno de 440.000″
Já fui questionado aqui no Perspectiva a respeito de reproduzir conteúdos da Folha e da Veja. Principalmente da segunda. Afirmam alguns leitores que estes meios são tendenciosos demais, querendo sempre atingir o governo por questões de ideologia e interesse.
Minha posiçãoo tem sido a mesma sempre e continuará sendo a seguinte: Os conteúdos informativos da Folha e da Veja são de qualidade, afinal, são meios com excelência e expertise na reportagem. Os conteúdos opiniativos devem ser lidos com isenção. É o que faço quando leio. É como pauto o que o Perspectiva reproduz.
Esta questão do Bolsa Família é exemplo claro. A opinião da Veja de que o programa é um Bolsa Cabresto não é compartilhada por mim. Acredito que trata-se de paliativo necessário no médio prazo, que enxerga a realidade brasileira como ela, infelizmente, é. Não adianta tapar os olhos. É, sim, preciso tentar igualar o ponto de partida da população para que possam competir no mercado com um mínimo de condições parelhas. Sou social-liberal, seria incoerente pensar diferente.
Ao mesmo tempo, entendo que o Bolsa Família precisa evoluir muito. Não se pode ter, por questões eleitorais, receio de se dizer que o programa precisa, embora se mantendo, mudar. Se o discurso da porta de saída não rende politicamente, não me interessa, é minha convicção pessoal a de que o Bolsa Família necessita ser temporário essencialmente, no que diz respeito ao recebimento pela família x ou y do benefício.
Pois bem. O que acontece é que embora eu não concorde com o conteúdo opinativo da Veja nesse caso, e por isso não o tenha reproduzido, preciso ressaltar o conteúdo informativo. São fatos. Inegáveis. O destaque pode ser dado para desgastar o governo? Pode, obviamente. Mas isso não torna as informações falsas. Correto?
Sendo assim, é preciso que todos saibamos que as regras do Bolsa Família foram alteradas de forma a manter famílias que deveriam ser descredenciadas recebendo os benefícios. E isso nas vésperas de um ano eleitoral e na total surdina, antes da véspera de Natal.
Coincidência não é. E a opinião da Veja nada tem a ver com isso.
E se não é coincidência, é condenável. É de divulgação devida. É de notoriedade necessária.
É esperteza oportunista. Câncer da política nacional.











