Por Yashá Gallazzi*
A frase que utilizo como título foi dita pela Senadora Kátia Abreu, que pediu ao Ministério da Justiça a adoção de ações concretas a fim de prevenir as invasões de terra protagonizadas pelo MST, aquela milícia clandestina criada por João Pedro Stédile, o homem que pretende transformar o Brasil num País mais “justo e igualitário”, inspirando-se, para tanto, em ninguém menos que Mao Tsé-Tung, o carniceiro chinês responsável pelo assassinato de 70 milhões de pessoas.
O slogan cunhado por Kátia Abreu – e pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), presidida pela Senadora do Democratas – é o melhor e mais eficaz mote de campanha que a oposição brasileira, liderada por José Serra, poderia usar. A ideia seria partir abertamente para um confronto ideológico, como nos velhos tempos: eles são os “vermelhos”, que apóiam Cuba, Venezuela e o MST. E, por isso, o Brasil não pode confiar neles.
É claro que Serra e os tucanos não farão nada disso, afinal, são uma – como é mesmo que eles dizem? – “oposição construtiva”. São pessoas elegantes, que se preocupam apenas em fazer uma “campanha propositiva” focada, principalmente, em mostrar uma infinidade de obras feitas pelos políticos do PSDB. E haja “choque de gestão”, “eficiência” e “competência” pra preencher tantos discursos. Confronto ideológico? Ah, isso é coisa do passado! Ninguém mais liga pra isso hoje em dia, dizem os especialistas.
Bem, os especialistas estão errados! Lembram da campanha de 2006? O melhor momento de Alckmin foi quando ele deixou de lado aquela patacoada de “eu vim de ‘Pinda’” e passou a colocar o dedo na cara de Lula, perguntando insistentemente: “De onde veio o dinheiro do mensalão e do dossiê?”
Lembram de 89? Esqueçam as teorias conspiratórias que pretendem atribuir o triunfo de Collor à edição de um mísero debate. Isso pode até ter ajudado, mas não foi decisivo. Collor venceu porque conseguiu incutir no povo o medo de um candidato do “campo comunista”, como ele chamava Lula repetidamente na TV. E o eleitor brasileiro, majoritariamente conservador, rejeitou o barbudinho com cara de mau.
Na campanha atual, Serra e Dilma não vão tocar no tripé que sustenta a economia brasileira. Se houver alguma mudança, ela será feita pelo tucano – que não precisa pagar pedágio ao mercado financeiro -, não pela petista.
Além do enfadonho discurso do “pós-Lula”, o que resta aos candidatos?
Passaremos meses vendo Dilma, de um lado, tentando se apresentar como aquilo que é: um avatar de Lula. E Serra, do outro, dizendo que tudo está bom, mas ele sabe como pode melhorar ainda mais. Só de imaginar já me sinto aborrecido…
E o confronto de valores, como fica? O que eles pensam sobre aborto, liberação das drogas, pena de morte, liberdade de imprensa e valores democráticos? Por que diabos o candidato da oposição não vai apontar o dedo para Dilma e cobrar a petista por seu passado terrorista? Por que o PSDB não cuida de associar, da forma mais explícita possível, o PT aos bandoleiros de Stédile? Porque isso tudo não tem importância? Tem, sim!
Uma pesquisa do Ibope, feita em 2008, procurou saber como os brasileiros viam o MST. As respostas não deixam margem para dúvida:
- 50% são contrários ao movimento;
- para 45%, a palavra que melhor descreve o movimento é “violência”.
- 31% discordam totalmente do objetivo do MST;
- 38% concordam com o objetivo, mas acham que o MST se desviou dele;
- 60% acham que as tais “organizações camponesas” estão se aproximando da criminalidade
E não venham me dizer que os brasileiros condenam o MST porque são doutrinados pela mídia conservadora, reacionária, preconceituosa e de direita. A Rede Globo, grande besta-fera das esquerdas radicais brasileiras, nunca chamou os milicianos de Stédile de criminosos ou terroristas. Eles são sempre “militantes”. Se isso é ser parcial, resta forçoso concluir que a parcialidade em questão só ajuda o MST.
A Senadora Kátia Abreu percebeu que o confronto ideológico contra o MST só pode ser uma boa jogada, afinal, a maioria da população não vê lá com muita simpatia aqueles bandoleiros. Ela se mostra, assim, “o melhor homem da oposição”, numa paráfrase da famosa frase usada por Ronald Reagan para descrever Margareth Thatcher.
Uma campanha sem confrontação de valores é morna e sem graça, coisa que não é do interesse da oposição atual. A mensagem de Serra é ótima: “fizeram muito. Tenho experiência para fazer muito mais. Minha adversária não tem.”
O problema é que para Dilma a coisa também é muito simples: basta a petista convencer o eleitor de que, se é para melhorar o que de bom foi feito, o mais prático é votar em alguém da situação, não da oposição. Isso, associado a um ou outro lance de guerrilha política, como espalhar a falsa ideia de que os tucanos acabarão com o Bolsa Família, pode virar o jogo facilmente.
A oposição deveria perceber o óbvio: uma sociedade – qualquer que seja ela – tem valores morais próprios. Exatamente por isso o confronto ideológico nunca é ignorado pelo eleitor. Ele pode, sim, ser relativizado, principalmente num cenário de fartura econômica. Mas ignorado ele nunca será.
O problema é que a oposição brasileira tem medo do confronto ideológico. Serra tem medo de chamar Dilma de terrorista, porque ela pode responder acusando-o de ter simpatia pela ditadura. E aí? Um embate de ordem moral nunca é fácil de ser feito, pois os tiros – dos dois lados – sempre são pesados. É preciso muito traquejo para explicar, no Brasil, que ser anti-comunista não quer dizer ser fascista, coisa que muitos ainda confundem.
Mas o principal nem é o medo do contra-ataque. O problema é que Serra e o PSDB são muito de esquerda para fazer algo assim. Lá no fundo dos seus corações emplumados, há tucanos que ainda caem naquela baboseira de que “a resistência armada” foi importante para a construção da democracia. Eles querem, em resumo, disputar com o PT o “campo progressista”, pois morrem de medo quando são acusados de serem conservadores e direitistas.
Isso para não mencionar que a própria moral dos principais expoentes do tucanos foi forjada a golpes de martelo esquerdista. Ou alguém se espantou quando FHC – o monstro neoliberal, lembram? – se disse favorável à liberação das drogas? Eu não esperava outra coisa dele. Da mesma forma que não espero ver um partido como o PSDB se dizendo publicamente contra o aborto, afinal, abraçar a defesa da vida virou um fardo a ser suportado só pelos “neocons”, não é? E eles são “progressistas”!
É por tudo isso que a campanha será muito dura para ambos os principais candidatos. E imprevisível também. Tudo porque a oposição insiste em disputar no terreno do PT, que é o terreno das esquerdas. Morrem todos de medo das chamadas “bandeiras conservadoras”, por isso se negam a chamar o MST de milícia partidária, afinal, não querem ser acusados de “criminalizar os movimentos sociais”…
Não sei se a eleição seria menos difícil para Serra se ele adotasse o lema de Kátia Abreu, conclamando os eleitores a “tirar o Brasil do vermelho”. Mas tenho certeza que ela seria bem menos chata para mim.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi