Por Tiago Franz*
Sem recorrer a Rousseau e a bibliografia alguma, finalmente satisfaço minha vontade de escrever, de forma livre e pretensiosamente poética, sobre a questão do direito à propriedade.
Seguem ideias fragmentadas, em forma de versos, que me ocorrem ao pensar no tema. Por favor, permitam-me esta divagação, que, enfim, mais indaga do que responde.
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Privado, particular, individual, restrito, reservado
Comum, público, plural, coletivo, universal
Finito, escasso, limitado
Necessário, vital, indispensável
Desejável
Pertencemos ao mundo ou o mundo nos pertence?
A quem o mundo pertence?
Somos muitos ou poucos?
Privilegiados? Merecedores? Dignos? Herdeiros?
Fortes e fracos?
Bons e maus?
Bons e ruins?
Vencedores e perdedores?
O espaço, as dimensões, o plano, a superfície
Alqueires, hectares, metros quadrados
Cerca, muro, marco, fronteira
Ar, água, subsolo
Litros, tanques, barris
Toneladas, quilos, quilates
Quanto custa a luz do sol? Quanto vale uma alvorada?
Qual é o preço de uma sombra ao meio-dia tropical?
Da beira-mar e de um terreno em Cuiabá?
Quanto custa uma terra em Mato Grosso?
E uma caçamba de terra do Mato Grosso?
Quanto vale um barril de suor? Um contêiner de esforço? Uma saca de conhecimento?
Um dom? Uma sequência genética? Um sobrenome?
Quanto custa o azar, o infortúnio, o imprevisto?
A hora errada no lugar errado?
Quanto vale uma oportunidade? Como se mede uma oportunidade?
Uma ilha, uma só fonte de água doce, seca
Mil habitantes, dez somente armados, ausência de leis
A força, o poder, o controle, a posse
A violência, a guerra, a terra manchada de sangue
O social, a política, o acordo
O Contrato Social
O Estado
O Estado Democrático de Direito
Uma nação, um povo, um território
A tripartição dos poderes
A democracia representativa
A lei, a moral, os costumes
As Forças Armadas, a polícia, a coerção
O militar e o civil
A praça pública, o jornal, a tela, as redes sociais
Os movimentos sociais, os grupos de pressão
Possuir um pedaço da superfície do planeta, setenta metros quadrados no quinto andar
Possuir um contrabaixo, um pedaço de papel com a frase “eu te amo”
Possuir um saco de feijão, uma dúzia de ovos
Possuir uma cabra, um rouxinol cantor
Possuir uma vida
Possuir um ser humano
Qual a diferença entre possuir um colar de sementes e possuir um colar de diamantes?
O que se pode produzir com sementes e o que se pode produzir com diamantes?
Quantas sementes valem um diamante?
As necessidades, os desejos
Os bens, o uso, o valor, a troca, a moeda, os mercados, a economia
A mais-valia, o lucro
O capital e o trabalho
A luta de classes
Um bem, muitos bens, todos
A propriedade privada
A função social da propriedade
Indivíduo e coletivo
Onde começa um e termina o outro?
*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda, é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz










