Por Bruno Medina*
O interfone toca:
- Tio, tem alguma coisa para dar?
- Não, não…
- É que minha mãe não pode trabalhar…
- Sinto muito.
- Tá bom, obrigada.
E então a menina toca o interfone da casa ao lado. Talvez, com alguma sorte, caso o morador se sensibilize com a situação, dê algum pedaço de pão ou as sobras da comida da noite anterior. Em geral, as pessoas não gostam de ajudar pedintes nesse tipo de situação, baseados na justificativa de que “uma vez que você dá, eles não param de pedir de novo” – o que não é uma total inverdade.
Considerando-se que a história da menina seja verdadeira – e não uma mentira que a mãe ensinou à criança para comover as pessoas –, aquele que, podendo, nega ajuda a alguém que está passando por dificuldades, comete uma falta de dever ético, porque deixa de praticar uma conduta boa para o indivíduo e para a sociedade. Mas o problema é que não se tem como saber se a menina mente ou diz a verdade. Na dúvida, nega-se.
E não se pode, neste caso, recriminar o sujeito que deixa de ajudar. Há diversas justificativas para esse comportamento negativo, como, por exemplo, o estímulo à mendicância, implicando uma situação confortável aos pais que ficam em casa e também à menina, que vai se acostumar a receber comida ou dinheiro gratuitamente sem o esforço necessário que o restante da sociedade emprega, fazendo da mendicância um meio de vida.
Para evitar isso, muitas pessoas preferem fazer doações a centros sociais mantidos e organizados pela sociedade civil – com o apoio da assistência social (art. 203, CF) -, o que é uma atitude louvável que vai ao encontro dos objetivos da Constituição cidadã, já que dessa forma ajudam na construção de uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I, CF). E não somente fazendo doações de mantimentos ou roupas, mas também participando da organização, promovendo encontros literários, musicais, esportivos, etc. Enfim, promovem ações sociais que visam ajudar o desenvolvimento e a integração das crianças, dos jovens, dos adultos e dos idosos à sociedade.
Mas como nem tudo são flores, o populismo político acaba se instalando nesses centros sociais. É comum a existência de centros mantidos por deputados e vereadores. Infelizmente, não por generosidade ou caridade (como fazem os cidadãos “comuns”, segundo o Presidente Lula), mas com o objetivo de garantir a destinação daquele direito (!?) político e universal que todo cidadão reclama e “faz questão” de exercer: o voto.
Como os frequentadores de centros sociais são, em geral, pessoas com pouca cultura e que necessitam de ajuda para viver, os políticos, considerados como “muitos bons” por essas pessoas, se valem da ignorância alheia e esclarecem que se não fosse por eles, aquela instituição, que provê roupas, comida e até mesmo onde dormir, não teria como existir.
Aqui em Canoas, no Rio Grande do Sul, tem um político que ora se elege vereador ora não. Desconheço seu nome real, mas sei que o chamam de “Xirú” (PTB). Ele mantém um ônibus que volta e meia leva as pessoas a “passeios culturais” pelo Estado, ou então é disponibilizado para a comunidade para que possam visitar a Expointer, feira agropecuária que se realiza em Esteio, aqui no Rio Grande do Sul. Há outro cujo apelido é “Pateta” (PTB). Ninguém conhece o rosto dele, mas todos sabem quem é o “Pateta”, porque durante as eleições um artista vestido de Pateta passeia pela cidade. Ele também tem um carro, com motorista, que leva as velhinhas da comunidade ao hospital ou aos centros sociais. Afinal, prestar um serviço social aos idosos é humanitário, não?
Um exemplo: Ano passado, a candidata Franciane (PMDB), esposa do Deputado Estadual Paulo Melo (PMDB), que mantinha um centro social, perdeu a eleição para o cargo de Prefeita, em Saquarema-RJ. No dia seguinte à eleição, o centro social amanheceu de portas fechadas. Motivo? “O centro social foi fechado porque eu perdi a eleição”, conforme a candidata. Tem prova mais contundente do que essa justificativa de que a manutenção dos centros sociais por políticos tem cunho puramente demagógico e eleitoral? Clientelismo escrachado!
Os cidadãos “comuns” têm cumprido com suas obrigações morais e com os objetivos estabelecidos em nossa Constituição, provavelmente, porque acreditam no futuro da nação. Já os representantes do povo…
*Bruno Medina é colunista do Perspectiva Política às sextas