Postagens com a palavra-chave ‘Política Internacional’

Coluna do dia: O Brasil de Lula e os novos aliados democratas

09/08/2010

Por Arthurius Maximus*

Segundo Lula, o Irã é uma democracia. Talvez baseando-se no mesmo raciocínio torpe usado pelo nosso Presidente, muitos partidários de Lula acham o mesmo. Afinal, para esse pessoal, basta que um País tenha eleições para que seja considerado “uma democracia”.

Assim, também são consideradas “democracias”, várias nações africanas com governos totalmente ditatoriais e lunáticos sanguinários exercendo o poder com mão de ferro e espadas (ou baionetas, para sermos mais modernos) banhadas no sangue de seu próprio povo.

Longe de querer explicar aqui o que é uma democracia real, indico apenas um dos elementos que servem para determinar se um País é democrático ou não: a proteção do cidadão contra o Estado.

É esse, não a realização de eleições, o principal ponto que define um País como democracia. Afinal de contas, não há poder maior numa nação do que o poder do Estado. A máquina estatal é usada em regimes autoritários e ditatoriais para suprimir a vontade do cidadão e curvá-la perante a vontade do governo regente. Quando uma nação protege o cidadão comum contra a mão pesada do Estado, ela dá garantias de que esse mesmo indivíduo jamais será molestado ou usado como “exemplo” por quem quer que esteja no poder em determinado momento.

Mesmo que a política internacional seja repleta de detalhes intrincados, interesses ocultos e as mais diversas nuances, uma coisa que não muda nunca, quando países travam relações mútuas é a pergunta base que fazem antes de iniciar quaisquer conversações: “O que a outra nação tem a nos oferecer?”

Aqui, entenda bem, não está referido o povo que habita determinado pedaço do planeta. Nesta pergunta estão encerrados os interesses de um Estado em relação a outro. Assim, grosso modo, podemos definir essa “vontade inicial” como a troca de vantagens que podem beneficiar ambas as partes. Seja a cooperação comercial, militar, técnica ou política.

E a pergunta base, em relação aos nossos novos amigos conquistados pelo governo Lula é: Quais vantagens eles podem nos trazer?

Em minha opinião, praticamente nenhuma. Afinal de contas, nosso comércio com Irã e alguns países africanos sempre foi insignificante e, mesmo que haja um fomento momentâneo, os problemas advindos dessas parcerias podem nos trazer muito mais problemas do que soluções. O Irã foi um bom exemplo disso. Enquanto assinamos acordos de cooperação nuclear com o Irã, iniciamos o financiamento das exportações prometidas no tratado e, com a publicação das sanções da ONU, todo comércio com o país foi proibido (exceto alimentos e materiais comumente usados para as necessidades da população em relação à saúde, por exemplo).

Além disso, o desgaste internacional só aumenta e a visão de que passamos a ser um país intimamente ligado a esses governos totalitários prejudica a nossa imagem de nação progressista e democrática.

Transportando esse exemplo para o nível de um único ser humano, seria algo como ter amigos que fossem brigões de rua e assassinos que se orgulhassem de seus crimes e vivessem gritando isso aos quatro ventos. Você, por mais ligado a eles que fosse, se sentiria confortável com isso?

Mesmo que você ache que eu estou “pegando pesado”, responda de forma sincera se você se sente confortável com uma relação tão próxima – eu diria mesmo “bajulativa” – com uma nação que condena uma mulher a morrer apedrejada porque ela “cometeu adultério” ao relacionar-se com um homem APÓS A MORTE DE SEU MARIDO?

Você se sente confortável e aprova chamar de democratas um bando de homens que determina a essa mulher a impossibilidade de defender-se das acusações? Sim. Pois o seu advogado viu-se obrigado a fugir para a Noruega ao ter a sua vida e a sua família ameaçadas por esse “Estado democrático” que apoiamos cegamente.

Além disso, você se sente bem ao saber que esse mesmo Estado está para executar um jovem de 18 anos pelo terrível crime de ser homossexual? O mais dramático no caso é que sequer foram encontradas provas de que o rapaz seja mesmo um homossexual. A condenação baseia-se simplesmente num “preceito muito democrático” da lei iraniana chamado “conhecimentos do juiz”, um mecanismo legal que permite que autoridades judiciárias emitam sentenças em casos em que não há evidências conclusivas.

Ou seja, não há provas ou testemunhas. Mas, o juiz te olha e diz: “Você é culpado”.

Pronto. Basta isso para que você seja condenado à morte e executado rapidamente.

Esses são os “democratas” que acompanham o Brasil atualmente e que são abraçados como nossos novos “irmãos” ideológicos na luta contra “o Grande Satã”.

Com vocês um poema que ilustra muito bem o que vem acontecendo em nosso País em nome de uma melhoria econômica que é frágil e que – em longo prazo – está ameaçada pelos próprios elementos que a mantém artificialmente nesse momento:

“Na primeira noite, eles chegam mansamente

e roubam uma flor do nosso jardim.

E nós não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem.

Pisam nas flores de nosso jardim, batem em nosso cão

e nós, mais uma vez, não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles entra em nossas casas,

violenta a nossa família, bate em nossas crianças

e arranca-nos a voz da garganta.

E nós, mais uma vez, não podemos falar nada,

porque já não temos voz….”

Eduardo Alves da Costa

(e não Maiakoviski)

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Argentina aprova casamento homossexual

15/07/2010

Informa o Globo a respeito da legalização do casamento homossexual na Argentina:

“A Argentina tornou-se o primeiro país latino-americano a autorizar homossexuais a se casarem e adotarem filhos, desafiando a oposição católica para engrossar as fileiras dos poucos países, em sua maioria europeus, que já contam com leis semelhantes.

O Senado argentino aprovou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo na madrugada da quinta-feira, após mais de 14 horas de debates acirrados, enquanto centenas de manifestantes permaneciam reunidos diante do Congresso sob frio. Os senadores aprovaram a lei por 33 votos contra 27, com três abstenções.

‘Somos agora uma sociedade mais justa e democrática. Isso é algo que todos devemos festejar’, disse a destacada líder dos direitos dos homossexuais Maria Rachid, enquanto os defensores da lei se abraçavam e festejavam o resultado da votação.

 

[...]

País nominalmente católico, a Argentina agora se encontra na vanguarda dos direitos dos gays na região.

Líderes da Igreja Católica tinham feito campanha contra a lei, reunindo dezenas de milhares de manifestantes contrários a ela, desde crianças até freiras idosas, diante do Congresso na terça-feira.

Mas as pesquisas de opinião mostram que a maioria dos argentinos é a favor do casamento gay.

 

[...]

Analistas políticos dizem que a postura adotada pela presidente teve o objetivo de reforçar as credenciais de esquerda de seu partido. A expectativa ampla é que Nestor Kirchner, marido de Cristina e seu predecessor na Presidência, volte a candidatar-se para as eleições de outubro de 2011.”

Coluna do dia: Fidel?

15/07/2010

Por Felipe Liberal*

Nem parecia ele. Velho, pálido, seco e maltratado. Quando o vi na televisão, nem parecia aquele. Aquele gigante das “sierras”; aquele que derrubou montanhas de tamanhos incalculáveis; aquele que fez a Hora sem esperar nada, simplesmente nada acontecer.

Meu Deus, nem parecia. Não consigo enxergar naquele rosto enrugado e naquela barba transparente o que ele realmente representa pra mim. Não consigo pensar que tamanhas virtudes, que residem naquele corpo e mente, estejam reduzidas a um velho doente e semimorto. Como pode?

Eu sei, não precisa falar que ele tem seus defeitos, óbvio. Ele não é Deus e nem se diz ser. E quem não tem defeitos, não é? Mas suas virtudes são gritantes. Não consigo ver que toda aquela genialidade está se acabando como um casebre abandonado, caindo aos poucos a ponto de desmoronar. Eu sempre dizia: “eu vou a Cuba antes de Fidel morrer”. Mas não vai dar tempo. Não sei nem se irei a Cuba. Não sei se terei estômago pra ver que tudo que aquele semimorto fez na ilha está se acabando por completo.

Por incrível que pareça, há “pouco” tempo atrás, pra quem não lembra, aquele velho fez um lado de todo um continente tremer, enquanto o outro lado o via como um exemplo a seguir. Aquele velho fez o mundo parar inúmeras vezes pra ouvir seus discursos, seja por medo ou admiração. Aquele velho salvou milhares de pessoas da fome, da prostituição e da ignorância. Aquele velho colocou sua vida em favor de seu país e seu povo. Aquele velho amou cada ser humano que passou por sua vida, indiretamente ou diretamente. Aquele velho não resolveu todos os problemas da ilha e muito menos do planeta, mas tudo que ele conseguiu fazer foi feito com amor, de dentro da alma. Aquele velho doente é um dos maiores Heróis da História da Humanidade.

Mas, de fato, nem parecia.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Brasil e o flerte constante com as piores ditaduras mundiais

05/07/2010

Por Arthurius Maximus*

Mais uma vez a diplomacia “de ponta” do governo Lula leva o Brasil a receber condenações de todas as entidades de direitos humanos do planeta. A visita e a abertura de negociações com o ditador da Guiné Equatorial – Obiang Nguema – no poder desde 1979 com mão de ferro e muito derramamento de sangue, mostram bem como a nossa visão de mundo tem valores “especiais”.

Além do sangue e do desprezo pelos direitos humanos, em escala genocida, Nguema é famoso por sua corrupção desenfreada. Apesar das grandes reservas petrolíferas encontradas no país, a população amarga grande pobreza e total desesperança. Mas, para Lula e Amorim, o país reúne os requisitos de uma democracia, pois, em palavras do próprio Amorim, é essa a base para a escolha dos países com os quais o Brasil quer se relacionar.

O estranho mesmo é entender como um país que possui um presidente no poder desde 1979 e tem uma das mais sangrentas ditaduras do continente africano preenche os tais quesitos de democracia. Só se for em relação à corrupção desenfreada. Aí, nesse caso, o nosso governo está “pau a pau” com eles.

Sem dúvida essa será mais uma daquelas parcerias duras de engolir e tristes de olhar. O mais terrível é a vergonha que qualquer cidadão de bem, que ame a democracia e o respeito ao ser humano – independente da ideologia – deve sentir ao ver seu país ligado à fina flor do autoritarismo e do genocídio internacional.

É claro que negócios trazem divisas e investimentos para nossa nação. Empregos são necessários e sempre bem-vindos. Mas e o preço desses investimentos? Será mesmo tão benéfico para nós faturar alguns dólares a mais e ter nossa imagem atrelada às ditaduras do mundo todo? Será que ganhamos algo negociando com a Guiné Equatorial que nenhum outro país pudesse nos proporcionar? Será mesmo preciso reconhecer ditadores sanguinários como democratas e ainda apregoar isso aos quatro cantos?

Para Lula, Amorim e a turma do PT é.

Pelo andar da carruagem ainda teremos que conviver com um Itamaraty infiltrado por uma visão ideológica inadequada e inconveniente durante um bom tempo.

Azar o nosso.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica.

Coluna do dia: Sanções internacionais – Por quê?

17/06/2010

Por Felipe Liberal*

Eu odeio sanções. Podem ser econômicas ou políticas, eu as odeio. Tudo parece óbvio neste maldito planeta. É sempre a mesma coisa: sanções contra o Irã, Cuba e Coreia do Norte. Vindas de quem? Principalmente dos EUA. Eles, de fato, conseguem evitar que a evolução da História continue.

Quando vamos conseguir separar o sistema político adotado pelos iranianos, cubanos e coreanos do seu povo? Quando vamos entender que sanções só servem para prejudicar seres humanos que não tem nada a ver com interesses estúpidos e infinitos de alguns países? Até quando vamos suportar que cinco países decidam quem merece sofrer ou não?

Eu discordo de muita coisa que acontece nesses três “malditos” países, como também discordo de muita coisa que acontece nos EUA, Inglaterra e China, por exemplo. Nem por isso esses últimos mereceram ou merecem sanções por parte da ONU. Parece óbvio.

O Irã é totalitário? Sim. Mas a China também é. Cuba faz prisioneiros injustamente? Sim. Os EUA também fazem (vide Guantánamo e a “desativada” Abu Ghraib). A Coreia do Norte restringe a liberdade de informação? Sim. Mas todos os países europeus também fazem, inclusive comprando jornalistas e blogs (vide Yoani Sanchéz).

Então você deve estar se perguntando: portanto todos merecem sanções, né? Não. Discordaria totalmente de você. As sanções são a pior maneira de se tentar um acordo. O sistema socialista cubano sobrevive desde 1959 com fortes sanções estadunidenses, nem por isso a ilha cedeu ou aceitou as exigências internacionais. A Coreia do Norte passa pela mesma coisa, sofre sérios embargos dos países europeus e até asiáticos, na própria vizinhança, e nem por isso desistiu do seu isolamento exagerado.

Não é com o “big Stick” que as coisas se resolvem. Agressão gera agressividade. Até quando vamos conseguir ficar sem entender isso? Não podemos gerar paz com guerra. Não podemos construir um mundo melhor trazendo o que há de pior no ser humano, que é a raiva, a discórdia e a guerra.

A ONU é a maior farsa que o mundo já pôde ver. O organismo da paz é o maior gerador dos conflitos e problemas que temos hoje. Principalmente por ser comandada por países que precisam da guerra para sua própria sobrevivência, países sedentos por sangue e dinheiro. Meus caros, EUA, Inglaterra, China, Rússia e França querem tudo, menos a paz. Novamente parece óbvio.

E tudo isso só vai ser mudado, quando nós mudarmos também.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Charge: Os guarda-costas do Irã

11/06/2010

Por Elder Galvão*

*Elder Galvão, 3° colocado na categoria charges do 4° Concurso de Ilustração da Folha de São Paulo, é chargista do Perspectiva Política e mostra sua arte em eldergalvao.com

Análise: Vitória folgada do governista Santos contraria pesquisas e levanta suspeitas na Colômbia – Abstenção explica

30/05/2010

Há algumas semanas, Antanas Mockus, candidato do Partido Verde colombiano à Presidência do país, surgia nas pesquisas com boa vantagem. Surpreendentemente, liderava. Era a sensação das eleições colombianas. O fenômeno da vez.

Nos últimos dias, Juan Manuel Santos, candidato governista apoiado pelo Presidente Álvaro Uribe e membro do Partido Social da Unidade Nacional, encostou. Com o apoio da máquina administrativa e pregando a continuidade do elogiado governo de Uribe, Santos caminhou até o empate técnico, estando à frente em algumas simulações e pesquisas.

Mockus se perdeu um pouco. Patinou. Esqueceu-se de que, uma vez conhecido, teria que levar sua campanha para um novo nível.

Contudo, de qualquer forma, um primeiro turno acirrado era previsto.

Eis que surgem os resultados: Santos teve 46,5% dos votos. Mockus conseguiu 21,5%. Vitória folgada do governo.

Algo deu errado.

Uns começam a questionar as pesquisas.

Outros iniciam os boatos negativos sobre a lisura do processo eleitoral.

Discordo de todos eles.

Mockus e Santos tinham, nas pesquisas, índices que correspondiam, sim, ao número de simpatizantes de cada um. E as eleições não parecem ter sido fraudadas.

A resposta está na abstenção: 56%.

Foram votar mais simpatizantes de Santos do que simpatizantes de Mockus. Simples assim.

Os votos das pesquisas e da internet não se tornaram votos reais. Declarar voto não é votar.

Os interessados em que a máquina administrativa continue nas mãos dos mesmos compareceram bem motivados.

Mockus emocionou, mas aparentemente não motivou.

Perderá no segundo turno.

Fim do sonho verde colombiano.

Lição para Mockus e para muitos.

Lula articula para assumir ONU ou Banco Mundial

23/05/2010

Comentou este blog quase um ano atrás – isso mesmo, um ano atrás – quando o nome de Lula foi cogitado para comandar o Banco Mundial a partir de 2011:

Todos os que acompanham a política sabem o tamanho do ego do Presidente Lula e sabem, também, o quanto ele gostaria de ter um cargo que se assemelhasse ao de “líder mundial”.

Como não pode ser Presidente dos EUA, ainda, Lula visa os órgãos internacionais. Há algo além da presidência do Brasil para galgar, é o que pensa o Presidente.

Talvez por conhecerem esse entendimento, alguns dizem com firmeza que Lula pode até aceitar o Banco Mundial mas que queria ser, mesmo, Secretário-Geral da ONU.

Pois bem. Trata-se de mais uma informação divulgada com acerto pelo Perspectiva. Confiram o que informa a Folha:

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou articulações com outros líderes mundiais para definir seu futuro após deixar o cargo. Gostaria de virar secretário-geral de uma renovada Organização das Nações Unidas ou de presidir o Banco Mundial.

A Folha apurou que Lula já tratou dos dois temas com outros presidentes e primeiros-ministros. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, também fala com diplomatas estrangeiros.

A avaliação de Lula, Amorim e alguns líderes mundiais é que o brasileiro conquistou cacife político que o credencia a assumir um posto internacional de relevo.”

Além do fato de que o Perspectiva adiantou este boato com um ano de antecedência, vale ressaltar que o destino político do Presidente parece estar traçado:

Se José Serra vencer e Lula não conseguir nenhum dos cargos internacionais que pretende, o Presidente deve tentar retornar ao poder em 2014.

Se Dilma Rousseff vencer e Lula não conseguir nenhum dos cargos, o Presidente talvez cogite retornar, barrando a reeleição de Dilma, em um cenário menos provável que o anterior, mas possível.

Se Dilma Rousseff perder e Lula conseguir os cargos, o Presidente pode atazanar o governo fazendo oposição do alto de seu novo posto e talvez tentar retornar.

Mas o cenário mais definidor é o seguinte: Dilma vencer e Lula conseguir os cargos. Nesse caso, a petista parte para a reeleição.

É claro que em política não se trabalha muito com essas hipóteses distantes, afinal, tudo pode mudar.

Contudo, verdade seja dita, o quarto cenário, onde Lula não concorre em 2014, está nos sonhos de Aécio Neves.

Coluna do dia: Política e manipulação moral

21/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

Pessoas em geral, independentemente da classe social e do nível educacional, são praticamente como robôs. Basta saber ‘que botões apertar’, que elas reagem exatamente da maneira como se pretendia inicialmente. E para saber ‘quais botões apertar’, basta sermos bons observadores dos homens e termos uma alta dose de frieza analítica. Obviamente, uma faculdade de psicologia ajuda muito.

É essa noção de que os homens, sujeitos a certos tipos de impressões sensíveis, sugestões e símbolos, podem ser levados a atuar de maneiras específicas, ou a comprar um objeto, ou então a endossar fanaticamente um certo projeto ou opinião, que alimenta áreas como o marketing, o jornalismo e, em uma democracia, inevitavelmente a política.

Em uma democracia, a massa manda. É ela que escolhe que homens deverão ocupar os cargos governamentais, para que estes homens satisfaçam os desejos egoístas dos componentes dessa massa. Ocorre, porém, que os candidatos a serem selecionados pela massa não permanecem inertes aguardando a boa vontade das massas.

O que fazem os políticos, então?

Apresentam racionalmente suas propostas e ideias às massas, para que elas possam fazer uma reflexão crítica, compará-las com as dos oponentes, pesar os prós e os contras, e tomar uma decisão?

Sejamos sinceros, a massa é simplesmente desinformada e acomodada demais. A inteligência de uma massa é sempre equivalente ao menor denominador comum da inteligência de seus componentes.

Se muitos têm dificuldade em se planejar economicamente de um mês a outro sem gastar tudo com bobagens e não conseguem traçar nem mesmo o número de filhos que terão, quanto mais conseguir fazer silogismos e juízos analíticos para se chegar a uma boa opção política.

Também não é interessante para o político ser objeto de reflexão crítica. É algo arriscado demais. O político simplesmente está interessado em receber o apreço das massas, que possa ser traduzido em votos, para que ele possa chegar ao poder, se perpetuar nele, e assim fazer carreira para si. Os políticos, em geral, simplesmente não têm mesmo quaisquer propostas razoáveis a oferecer. E mesmo que tenham boas propostas, boas ideias e uma visão de mundo acertada, as massas são tão ignorantes e egoístas que são capazes de não gostar ou de ignorar um ótimo político, preferindo os que a manipulam.

Não é uma questão de ‘educação’, como os apóstolos da engenharia social adoram pregar, como se fosse possível moldar os homens ao nosso bel-prazer. Também não estou me referindo ao ‘Brasil’. Isso não é um ‘problema nacional’. Esse é um problema institucional estrutural inato ao modelo político escolhido pelas sociedades ocidentais modernas. De Paraguai e Bolívia à Islândia e Suécia, é exatamente assim que funciona. Nesse elemento particular, as diferenças nacionais são mínimas, porque massa é massa onde quer que seja.

Afinal, existe algum exemplo que se encaixe melhor no fenômeno que eu estou descrevendo do que o comportamento robótico e fanático, reminiscente desses cultos messiânicos obscurantistas, ou dessas seitas haitianas de vodu e Santería, do que o dos adeptos políticos e do eleitorado de Barack Hussein Obama? O eleitorado americano se assemelha a uma horda aborígene perante um totem sagrado, o qual possui a propriedade mágica de revelar a ‘verdade’ e a ‘vontade dos deuses’.

Obama é o reductio ad absurdum da hipnose moral e psicológica característica das democracias pós-modernas. Enquanto, costumeiramente, a hipnose residia no subtexto do discurso político, com Obama e a nova geração de líderes políticos mundiais, deixou de haver qualquer subtexto e a hipnose e a repetição de ‘mantras’ se tornou o próprio discurso.

O discurso político na pós-modernidade se mediocrizou ainda mais, para assim poder melhor acompanhar a decadência intelectual das gerações humanas viciadas em televisão. Tendo em vista que a capacidade de atenção e concentração das massas se reduziu drasticamente, a eficiência hipnótica de um discurso composto de trechos longos e encadeados em formato narrativo seria ridiculamente baixa hoje. Oratórias como a de Fidel Castro são apenas resquícios paleoantropológicos.

O orador pós-moderno não discursa, no sentido autêntico da palavra, ele cospe ‘palavras-chave’ de modo pausado, para assim permitir os aplausos ou outras reações populares pré-planejadas, ligadas entre si por uma quantidade minúscula de pronomes, porém cercadas por quantidades gigantescas de adjetivos e advérbios.

A maior eficiência do discurso político e, também, o ponto no qual ele alcança o ápice da baixeza e da abjeção, está na falácia mágica de se traçar linhas morais entre o ‘Bem’ e o ‘Mal’ e se utilizar desses pseudo-conceitos esotéricos para se mobilizar as massas e as convencer a dar apoio a algum projeto político. A finalidade dessa forma falaciosa de discurso é a de basicamente construir alguma legitimidade para um projeto espúrio, quando simplesmente não há nenhum outro argumento que as massas poderiam considerar plausível.

Não é realmente difícil convencer as massas da ‘intrínseca malignidade’ de qualquer povo, ideologia ou conceito, basta despertar nas massas dois instintos básicos, o ‘medo do desconhecido’ e o instinto de auto-preservação. Basta convencer as massas de que esse algo ‘estranho’ representa uma enorme ameaça, ainda que esse algo seja um povo desprovido de armas nucleares habitando uma ilha vulcânica do outro lado do mundo.

Quem enxerga para além das aparências, porém, sabe que ‘Mal’ é apenas aquilo que se desenrola no sentido contrário de nossas expectativas e interesses.

Agora, quem tem qualquer esperança de que algum dia esse modus operandi se altere, pode as perder imediatamente. É assim que a política democrática funciona, é assim que tem sido desde sempre, e as coisas só tendem a piorar, como sempre.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

3ª Coluna do dia: Dilma – Talvez uma boa escolha petista

14/05/2010

Por Felipe Liberal*

Pelos meus cálculos, Dilma Rousseff ganhará as eleições deste ano. Já posso escutar os gritos desesperados dos leitores desejando que minha alma queime no fogo do inferno. Mas calma, enquanto o inferno não chega, afirmo novamente: Dilma ganhará de Serra. Vamos ao fundamento.

Primeiro motivo: A América Latina do século XXI se comportou de uma maneira bem diferente diante das previsões futuristas da década de 90 que previam um conglomerado de países neoliberais e submissos aos estadunidenses e europeus. O continente caminhou contra a maré.

Hoje, a AL é sinônimo de integração, independência e crescimento, guardadas as devidas limitações. Há uma tendência para governos de esquerda social sem abandonar o capitalismo de mercado, buscando um equilíbrio socio-econômico, como acontece hoje no Vietnã e  em parte da China. Dilma, por ter o apoio de praticamente todos os presidentes da América do Sul, sai na frente quanto ao quesito “tendência regional”, como se fosse um princípio da continuidade.

Segundo motivo: Depois da Era FHC e sua baixa popularidade que precedeu a Era Lula, o povo brasileiro sente e procura a toda hora uma mudança significativa e representativa na figura do Presidente da República. Dilma novamente sai na frente por ser mulher. A possibilidade de termos pela primeira vez uma Presidente do sexo feminino traz novamente esse sentimento de “mudança continuada” dentro do Brasil, seguindo também uma tendência sul-americana (Argentina e Chile).

Terceiro motivo: O apoio de Lula. Talvez o mais importante dos motivos. O Presidente mais popular e influente da História do Brasil apóia a candidata Dilma. Isto, na minha modesta opinião, é monstruosamente determinante. Considero todos os defeitos “eleitoreiros” de Dilma: falta de carisma, seriedade exagerada, falta de experiência com candidaturas, etc. Mas duvido muito que com o apoio de Lula e o trabalho de marketing e publicidade do PT, isso não seja superado.

Último motivo: Ela foi do governo Lula. Como foi Ministra, ela tem a autoridade de dizer: “Eu fiz pelo Brasil”. Ou seja, ela participou do governo que tem 80% de popularidade. Isso tudo é um excelente argumento para a campanha junto a Lula.

Não digo que será fácil, porém, não vejo como Serra vencer uma chapa tão poderosa e popular como a do PT. Serra disputa contra Dilma, contra Lula e contra toda a América do Sul.

*Felipe Liberal, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal