Por Yashá Gallazzi*
Na última semana, durante minhas férias na Europa, tive o prazer de acompanhar as eleições gerais no Reino Unido “in loco”. E adorei! O voto dos britânicos seria uma sucessão interminável de clichês, uma reunião de previsibilidade quase embaraçosa, não fosse a declarada preferência deste escriba por tudo aquilo que, bem… conserva certas tradições.
Os eleitores britânicos seguiram o principal de todos os clichês: quando uma situação econômica incerta se avizinha, a direita é chamada a governar, afinal, os conservadores e seus cortes de impostos parecem muito mais atraentes em tempos de vacas magras. Assim, os “tories” voltaram a ser o maior partido depois de anos de hegemonia trabalhista – ou, mais precisamente, de hegemonia de Tony Blair.
Apesar disso, outros clichês também foram devidamente revividos naquela votação. Os Conservadores de David Cameron, apesar de terem recebido a maior porção dos votos, não conseguiram uma maioria suficiente para formar, sozinhos, o novo governo. Isso, apesar do triunfo numérico, acaba por ser uma espécie de derrota política, afinal, mostra que a mensagem de Cameron, em que pese a péssima popularidade de Brown e dos trabalhistas, não convenceu plenamente.
O jovem e carismático líder dos Conservadores acabou se mostrando excessivamente utópico, falando reiteradamente em mudar tudo e em governar melhor que o “Labour”, mas sem apresentar planos concretos de como fazê-lo. Passou, assim, uma áurea de insegurança, que o acompanhou até o final da campanha.
Gordon Brown, por sua vez, não tinha mesmo como sair vencedor. Além de ser um político impopular e com nenhum carisma, o principal nome dos Trabalhistas chefia um governo sem apelo e cujas realizações são muito contestadas. A receita que ele apresentou para enfrentar a crise econômica? Mais impostos. E isso – claro! – não agradou.
Além dos dois principais protagonistas, também ganhou destaque nas últimas semanas de campanha o liberal-democrata Nick Clegg, que empolgou boa parte dos eleitores com sua atuação forte nos debates televisivos – os primeiros da história do Reino Unido.
Algumas das pesquisas de intenção de voto, feitas logo depois dos debates, chegaram a indicar Clegg como potencial vencedor e, mais do que isso, chegou-se a especular o fim do tradicional bipartidarismo existente entre Conservadores e Trabalhistas. Mas isso seria uma surpresa, e a eleição britânica, como já disse, foi nada mais que uma sucessão interminável de clichês.
O bipartidarismo está mais forte do que nunca, e os liberais-democratas de Clegg, em que pese o papel importante que poderão ter na formação do próximo governo, acabaram perdendo três assentos em Westminster. Como explicar isso? Muito simples: a partir do momento em que se falou em possível crescimento forte de uma terceira força política, as bases dos dois maiores partidos se mobilizaram e foram às urnas, mantendo tudo exatamente como sempre foi.
Parte da imprensa – britânica e mundial – falou numa eleição com três vencedores. Sou um tanto mais duro e, por isso, apresento um veredicto diferente: foram três perdedores. Cameron e os Conservadores perderam porque, mesmo numericamente vitoriosos, deixaram que um favoritismo acachapante fosse corroído por sua própria incapacidade de ação, deixando escapar a chance de controlar o Parlamento. Brown e os Trabalhistas perderam para sua própria obra, ou seja, foram reprovados pelos eleitores. Clegg, por sua vez, foi derrotado pelo pragmatismo: a maioria esmagadora dos britânicos não quis dar uma chance à aventura liberal-democrata.
Nas ruas de Londres o clima era de uma moderada empolgação. Conversei com algumas pessoas rapidamente, e percebi que a eleição geral deste ano despertou bastante interesse, principalmente em razão dos inéditos confrontos televisivos. Os tradicionais eleitores de Conservadores e Trabalhistas com quem falei estavam dispostos a votar nos seus candidatos, mas todos faziam questão de tecer críticas aos seus potenciais primeiros-ministros, condenando a incapacidade de um – Brown -, ou a falta de propostas concretas do outro – Cameron.
Não encontrei lá muitas pessoas dispostas a votar em Clegg, o que acaba por refletir o resultado das urnas. Os liberais-democratas receberam a maior quantidade de votos da história, mas, do ponto de vista proporcional, ficaram muito aquém do esperado. Na verdade, o agora terceiro maior partido do Reino Unido só terá importância grande na próxima legislatura em razão das “derrotas” de Conservadores e Trabalhistas.
Todas as análises eleitorais decorrentes do resultado podem ser resumidas no seguinte: os Conservadores, na ânsia de se mostrarem “modernos e progressistas” – Cameron falou várias vezes em “romper com o passado thatcherista” -, acabaram por perder boa parte de seu eleitorado. Os Trabalhistas, depois de quase duas décadas no poder, sofreram o esperado desgaste político. Os liberais-democratas de Clegg, por outro lado, apesar das ideias bonitas e do discurso politicamente correto, não conseguiram convencer os eleitores de que poderiam ser uma real alternativa de poder – mais ou menos o problema que Marina Silva enfrenta aqui…
Mais tarde, chegou-se às especulações pré-formação de governo. Brown, alegando que Cameron não conseguiu a maioria parlamentar, avocou o direito de permanecer no número 10 de Downing Street, liderando um governo de união nacional com os liberais-democratas de Clegg. O líder dos Conservadores, por outro lado, alegou que é absurda a hipótese de um primeiro-ministro que não seja o líder do maior partido, e que, se alguém devia formar um novo governo, este alguém era ele. Já Clegg, por sua vez, tratou de agir como um bom e velho filiado do PMDB e alimentou todos os boatos possíveis. E, com isso, deixou claro que não estava mesmo à altura do cargo que ambicionava.
Tanto Brown quanto Cameron poderiam terminar como chefes do governo britânico, afinal, ambos tinham condições de formar uma maioria legislativa estável. A lógica, porém, fez caber ao jovem conservador apresentar à Rainha uma futura agenda de trabalho e um plano de reformas, afinal, foi ele quem recebeu o maior número de votos dos eleitores.
E, convenhamos: dar a chave do número 10 de Downing Street a David Cameron, o político proporcionalmente mais votado pelos britânicos, foi o fechamento de ouro para essa bela eleição cheia de clichês.
Concluo com um exercício de imaginação: se fossem realizados debates televisivos na época de oradores brilhantes como Churchill e Thatcher, o que teria sido dos pobres adversários? Destroçados… É essa a única palavra que me vem à mente.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi