Por Raphael Machado Silva*
Toda Ação se origina de uma resolução interna de causar certos efeitos sobre a realidade objetiva do mundo exterior. Assim, toda Ação possui um caráter subjetivo e volitivo, restando necessariamente fundada na representação interna que o ‘agente’ tem da realidade, assim como em sua ‘Visão-de-Mundo’, ou seja, na maneira pela qual ele valora e impõe sentido aos infindos entes da realidade objetiva.
Uma Ação (ou um conjunto de ações) pode ser dita ‘Verdadeira’ ou ‘Falsa’, não só na medida em que ela seja capaz de realizar os efeitos pretendidos, mas principalmente na medida em que a Representação e a Visão que a fundam possuam uma correlação positiva e o mais aproximada possível da realidade objetiva.
A despeito do que afirmam os relativistas, a impossibilidade de se conhecer racionalmente a realidade objetiva em sua pureza absoluta não refuta a sua existência, na medida em que ao estar o Homem sempre e necessariamente integrado nessa realidade objetiva (ou seja, inexistindo o Indivíduo, o ‘Átomo Humano’, a ‘Pessoa Humana’) ele é constantemente ‘afetado’ pelas relações de entes e forças, as quais não se originam dele mesmo.
Necessariamente, portanto, a Ação fundada no ‘Ilusório’ deverá, no mínimo, culminar em resultados negativos, ou mesmo funestos, para o ‘agente’, quando não em resultados negativos para a própria realidade objetiva na qual o Homem está absolutamente integrado. O Erro leva à Tragédia. É simples assim. Mas nem sempre essa verdade é fácil de ser percebida.
Se eu estiver caminhando, e houver um buraco no meu caminho e eu ‘representar falsamente’ esse aspecto da realidade objetiva, eu simplesmente vou cair e me ferir. Esse é um exemplo claro e óbvio de como toda Ação fundada no Erro leva à Tragédia. Situações como essa, que lidam com aspectos mecânicos e visíveis da realidade objetiva, e cujos efeitos surgem a curto prazo e diretamente, nos permitem visualizar com facilidade a estreita associação entre o ‘agir’ e a retidão dos juízos prévios à ação.
Infelizmente, porém, a realidade objetiva é muito mais complexa e a maior parte de seus aspectos é composta por redes e camadas de relações entre entes, as quais muitas vezes não são perceptíveis pelos sentidos, possuem uma natureza diluída e fragmentada, e que exercem influências mútuas, que só podem ser percebidas a longo prazo. Isso se aplica, por exemplo, a tudo que concerne à sociedade, à cultura e à história, entre outros âmbitos da realidade objetiva.
Não é de surpreender, portanto, que seja mais fácil cometer e sustentar absurdos infundados em tudo aquilo que concerne às relações do Homem com as suas criações culturais e sociais. Para a maioria dos animais, a incapacidade de representar e perceber corretamente a realidade, a incapacidade de se adaptar à realidade e de responder corretamente aos seus estímulos, culmina em sua morte e, quando a nível coletivo, na extinção de uma espécie. Os Homens, porém, ao longo dos milênios, desenvolveram inúmeros artifícios, principalmente a tecnologia, os quais lhes permitem ‘adiar as contas que eles têm que prestar’ com a Realidade Objetiva.
Uma certa medida ou orientação de política governamental, ou então uma ideologia, podem ser aplicadas por décadas, até mesmo séculos, até que sua inocuidade ou sua falsidade sejam percebidas claramente. Isso é um fato, mesmo que a falsidade essencial de referida orientação ou ideologia já sejam perceptíveis, aos que tem rigor, desde a sua concepção.
O principal problema é que, por conta dessa natureza dilatada dos efeitos das ‘ações políticas’, na maior parte das vezes simplesmente é tarde demais para se consertar os erros, depois que eles são percebidos.
Esse problema é agravado pelo fato de que a maioria dos membros da ‘classe intelectual’, ou por incapacidade, ou mais provavelmente por estarem completamente hipnotizados por pautas moralistas e sentimentalóides, nutrem um completo desprezo pela ‘Realidade’ e pelas Ciências, quando as mesmas, inevitavelmente, refutam de modo avassalador suas crenças pífias e esclerosadas.
Não saberia precisar se o desprezo pelas Ciências deriva da ignorância moral-sentimentalista, ou se o que ocorre é o contrário. Provavelmente a primeira opção é a mais acertada. Os espíritos fracos são impelidos na direção de sistemas morais de pensamento que invertem os valores tradicionais, exaltando a ‘vítima’ e condenando os ‘dominadores’. Sobre essa inversão, erguem-se religiões, ideologias políticas, conceitos filosóficos e projetos sociais e econômicos.
Quando as verdades da realidade objetiva, como interpretadas pelas Ciências (das Humanas às Exatas), não se adequam às fantasias humanistas dos ditos ‘intelectuais’, ou eles simplesmente ignoram a Ciência, limitando seus efeitos a um campo extremamente restrito (como fazem com as Exatas, e principalmente com a Biologia), ou então, simplesmente as distorcem e as manipulam, para fazer com que elas confirmem seus ‘ideais’ surreais (como fazem com todas as Ciências Humanas).
O desprezo visto nesses ‘intelectuais’ burgueses, nesses ‘homens de bem’ em geral, em relação à Verdade e à Ciência, deveria causar tanto nojo generalizado quanto me é causado. Isso, porém, não se verifica. Parece que, desde que os egos, individuais ou coletivos, sejam ‘massageados’, desde que todos ouçam exatamente aquilo que querem ouvir, então ‘simplesmente está tudo bem’.
Se tais ideais humanistas são falsos, ou não, é de pouca monta para essa intelectualidade. Me surpreende com desgosto ver que quando eu refuto com perfeição analítica alguns desses ideais, como o da Igualdade por exemplo, a face do adversário demonstra uma absoluta ‘nulidade’.
A face dos que são crentes fanáticos em ideais falsos e estéreis é vazia, oca e cinzenta como a de zumbis. Eles só são acesos, tornando-se hordas furiosas e enlouquecidas quando os referidos falsos ideais são desintegrados por certos filósofos, cientistas e pensadores em geral.
A diferença entre um seguidor das modernas ideologias humanitárias e sentimentais e o seguidor de uma das religiões sacerdotais abraâmicas é difícil de se detectar.
As primeiras, derivam das segundas, apesar de renegarem seus ‘genitores ideológicos’. São todos sistemas de pensamento que desprezam a ‘Realidade Objetiva’, posicionando a obediência a dogmas moralistas infundados acima de qualquer outra preocupação. E seus seguidores se transformam subitamente em hordas sanguinárias e enlouquecidas quando enfrentados.
*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente é colunista do Perspectiva Política às terças.










