Como informou o Perspectiva Política recentemente, o Presidente Lula declarou que, dado o espectro político que temos, hoje, no Brasil, poderia-se dizer que “se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão“.
A repercussão desta declaração do Presidente não foi das melhores. Aliás, foi, na realidade, das piores. A Igreja Católica protestou, dizendo que Jesus não se uniu aos fariseus, senadores como Cristovam Buarque alegaram que Jesus poderia perdoar Judas, mas não fazer acordos com ele, e diversos outros atores políticos comentaram, com críticas, a fala de Lula.
Na minha modesta opinião, o Presidente não fez por mal, não quis ofender, não calculou bem as palavras, simplesmente. Contudo, com certeza, merece as críticas, afinal, o Presidente da República não pode se dar ao luxo de declarar o que quiser, principalmente se estiver construindo metáforas que incluem personagens ligados a temas polêmicos, como Jesus e Judas.
Talvez na ânsia de declarar mais uma metáfora supostamente espirituosa, o Presidente se complicou e disse o que não devia. Mas, para mim, a metáfora não é o maior problema.
A questão, na visão deste humilde blogueiro, é o conformismo tácito que a metáfora traz. Se até Jesus se aliaria a Judas na visão de Lula, isso quer dizer que ele já incorporou a prática política conchavada e de rabos presos, cuja esperança de eliminação fora, justamente, uma das razões de sua vitória em 2002.
Dizendo o que disse, o Presidente demonstra que se rendeu ao clientelismo, ao patrimonialismo, ao assistencialismo, às oligarquias, enfim, ao jogo político espúrio das “raposas”.
Sob a justificativa da “governabilidade”, Lula parece entender que não ter rompido com aquilo que, por conta do repúdio que causa, proporcionou sua própria eleição, através dos votos dos que queriam a mudança destas práticas, é justificável. Vale lembrar que “mudança” era, justamente, o lema de Lula.
Sobre a essência da metáfora, vale dizer que se Lula afirmava, quando venceu a eleição, que “a esperança venceu o medo”, seria interessante perceber que esta esperança é exatamente a abandonada quando ele compactua com o que há de mais nocivo na política nacional, tenta justificar esta atitude e, pior, vê isso como inevitável, com uma pitada de conformismo e nenhuma frustração aparente.
Sobre a metáfora em si, o comentário da ex-Ministra Marina Silva é perfeito:
“Nem todas as metáforas são felizes e essa é uma metáfora infeliz. “
Em tempo: Na política nacional existem diversos Judas. Muitos poderiam vestir essa carapuça. Mas em quem será que Lula pensou ao lembrar do traidor Iscariotes?










