Postagens com a palavra-chave ‘Patrimonialismo’

Marina define bem declaração de Lula: “Foi uma metáfora infeliz”

23/10/2009

Como informou o Perspectiva Política recentemente, o Presidente Lula declarou que, dado o espectro político que temos, hoje, no Brasil, poderia-se dizer quese Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão“.

A repercussão desta declaração do Presidente não foi das melhores. Aliás, foi, na realidade, das piores. A Igreja Católica protestou, dizendo que Jesus não se uniu aos fariseus, senadores como Cristovam Buarque alegaram que Jesus poderia perdoar Judas, mas não fazer acordos com ele, e diversos outros atores políticos comentaram, com críticas, a fala de Lula.

Na minha modesta opinião, o Presidente não fez por mal, não quis ofender, não calculou bem as palavras, simplesmente. Contudo, com certeza, merece as críticas, afinal, o Presidente da República não pode se dar ao luxo de declarar o que quiser, principalmente se estiver construindo metáforas que incluem personagens ligados a temas polêmicos, como Jesus e Judas.

Talvez na ânsia de declarar mais uma metáfora supostamente espirituosa, o Presidente se complicou e disse o que não devia. Mas, para mim, a metáfora não é o maior problema.

A questão, na visão deste humilde blogueiro, é o conformismo tácito que a metáfora traz. Se até Jesus se aliaria a Judas na visão de Lula, isso quer dizer que ele já incorporou a prática política conchavada e de rabos presos, cuja esperança de eliminação fora, justamente, uma das razões de sua vitória em 2002.

Dizendo o que disse, o Presidente demonstra que se rendeu ao clientelismo, ao patrimonialismo, ao assistencialismo, às oligarquias, enfim, ao jogo político espúrio das “raposas”.

Sob a justificativa da “governabilidade”, Lula parece entender que não ter rompido com aquilo que, por conta do repúdio que causa, proporcionou sua própria eleição, através dos votos dos que queriam a mudança destas práticas,  é justificável. Vale lembrar que “mudança” era, justamente, o lema de Lula.

Sobre a essência da metáfora, vale dizer que se Lula afirmava, quando venceu a eleição, que “a esperança venceu o medo”, seria interessante perceber que esta esperança é exatamente a abandonada quando ele compactua com o que há de mais nocivo na política nacional, tenta justificar esta atitude e, pior, vê isso como inevitável, com uma pitada de conformismo e nenhuma frustração aparente.

Sobre a metáfora em si, o comentário da ex-Ministra Marina Silva é perfeito:

“Nem todas as metáforas são felizes e essa é uma metáfora infeliz. “

Em tempo: Na política nacional existem diversos Judas. Muitos poderiam vestir essa carapuça. Mas em quem será que Lula pensou ao lembrar do traidor Iscariotes?

José Serra ataca PT e “loteamento” no governo

29/06/2009

Informa a Folha:

“Disposto a garantir alianças com vistas às eleições, o governador de São Paulo e potencial candidato à Presidência, José Serra, disse anteontem, em discurso no 16º Congresso Estadual do PPS, em Jaguariúna (134 km de São Paulo), que fará ‘o possível para atender aos pedidos dos prefeitos do PPS’.

Serra e o presidente nacional do PPS, o ex-deputado federal Roberto Freire, aproveitaram o encontro para criticar o governo federal e o PT.

‘O PT usa o governo como se fosse propriedade privada. Quando o PT foi para o governo, incorporou esse patrimonialismo do partido. Em São Paulo, não existe esse loteamento governamental, ao contrário do governo federal’, atacou o governador.”

De que no governo federal existe patrimonialismo dos grandes, loteamento de cargos e coisas do tipo, ninguém duvida. Ninguém mesmo. Os que defendem o governo dizem que a prática não é nociva, mas não a negam.

Porém, dizer que no governo estadual de São Paulo não existe loteamento já são outros quinhentos.

Uma coisa é intensidade bem menor, outra coisa é inexistência.

Coluna do dia: Nossa escola pública

24/05/2009

Por Tiago Franz*

Escola pública. A quem pertence? Já ouvi muitas pessoas se referirem à escola pública, principalmente às escolas estaduais, pelo termo “escola do governo”. “Não quero usar este uniforme feio do governo”, resmunga um primo meu, de 13 anos, que frequenta a oitava série do Ensino Fundamental numa escola do estado de Santa Catarina. Tudo bem, meu primo ainda não é grande o bastante para saber diferenciar muitas coisas. Mas os professores da rede estadual de ensino são e, mesmo sendo funcionários públicos, alguns usam o termo.

Isso não quer dizer que os professores não saibam a diferença. Seria lamentável se não soubessem. Acontece que muitas vezes as instituições têm seus papéis confundidos por uma série de práticas. Para ser professor da rede estadual é preciso prestar concurso público. Ótimo. O problema é a relação entre o governo e os diretores das escolas. Condição para ser diretor: corresponder aos interesses do governo, ser obediente. Por esta razão, professores mais comprometidos com a causa pública perdem o interesse em assumir o cargo.

Saber diferenciar… De que diferença estou falando? Da distinção entre público, do estado e do governo. Exemplo: a TV Brasil, canal da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi criada para ser uma televisão pública sob a responsabilidade do governo federal. Desde a criação do canal, em 2007, muitos brasileiros se perguntam: a que interesses a TV Brasil vai atender? Vai ser porta-voz do governo? Vai ser um canal a serviço da sociedade? A proposta é que atenda à última pergunta e seja de fato uma ferramenta a serviço dos brasileiros. Ainda se discute a melhor forma de organização e manutenção da TV Brasil, que por enquanto é financiada quase totalmente pelo orçamento da União. Qualquer cidadão minimamente consciente de seus direitos deve esperar que um canal que se propõe público não atenda aos interesses de quem está no poder, e sim da população. Pois bem. E as escolas?

A educação é um serviço público, e público é aquilo que se destina à coletividade, ao povo. Quem é proprietário de um serviço público? Absolutamente, não é nenhum grupo constituído, nenhum governo, nenhum governante. Não é raro ouvir funcionários públicos chamarem um governante de patrão. Mesmo quando é dito com ironia, soa repugnante.

Enfim, o Estado é o responsável por garantir este serviço à população. Para que fique bem claro, o Estado deve ser entendido como uma instituição acima de qualquer governo, grupo político ou pessoa. Seu caráter é público, portanto, coletivo. Tudo que é propriedade do Estado deve ser visto e tratado desta maneira. Ao exigir que professores, para se tornarem diretores, tenham que se submeter até mesmo à filiação partidária, alguns governos desconstroem este preceito fundamental. Feio ou bonito, o uniforme que meu primo tem que usar foi custeado pelos impostos que minha tia e todos nós pagamos ao Estado. Todos sabem o quanto sai caro.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo