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Coluna do dia: 15 de Novembro – A Pátria Atraiçoada

17/11/2009

Por Raphael Machado Silva*

“Um príncipe absoluto pode ser um Nero, mas também pode ser um Tito ou mesmo um Marco Aurélio. O povo normalmente é Nero, mas jamais pode ser Marco Aurélio”. (Antoine de Rivarol, escritor francês)

Neste domingo, talvez não por acaso um domingo abafado e de pesada atmosfera, cumpriu-se 120 anos desde que, animados por um ressentimento e uma ganância inigualáveis, as claques políticas, formadas por ancestrais dos eternos oligarcas do presente, orquestraram um golpe anti-nacional, o qual derrubou o Império e ‘proclamou’ a República, a qual estreou nos palcos tragicômicos da política internacional (os únicos que o Brasil frequentaria daí em diante), mui ironicamente, com uma ditadura militar ultrarreacionária encabeçada pelo ‘padrasto’ do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca.

Nasceu o Brasil com o Império. Por isso mesmo, não é audácia afirmar com veemência que, morto o Império, morreu o Brasil, e em seu lugar nós, órfãos da Nação e de seu Augusto, recebemos como herança um Monstro disforme, o qual, como um Titã fugido do Tártaro, ameaça escravizar e devorar todos nós, descendentes dos homens e mulheres que fundaram a Pátria e que a ajudaram a construir.

Terá sido uma expressão inconsciente de austera reprovação, o fato de que tão ignominiosa data tenha passado desapercebida da maior parte da população, e até mesmo dos aparatos oficiais da burocracia estatal republicana? Será apenas coincidência, ou terá algum valor simbólico, o fato de que a famigerada ‘Praça da República’, localizada no Rio, local do golpe, tenha hoje como principais transeuntes, as prostitutas e os mendigos?

Ab initio afirmo, com toda a ousadia que isso representa nesta degenerada hodiernidade, ser a Monarquia essencial e intrinsecamente superior à República. A Monarquia é a autêntica herança política ocidental. A República, o governo desumanizado dirigido pelos desejos dos números, é o ‘acidente de percurso’, saído das mentes dementes de homens como Rousseau.

As Monarquias ocidentais foram instituídas pelos homens que eram os mais inteligentes, os melhores guerreiros, os melhores estrategistas e planejadores, os mais corajosos, os mais viris, enfim, pelos homens que eram exatamente os mais aptos a liderar seus povos para a glória e para o sucesso. Tais homens se impuseram como Líderes pelo próprio Valor, e, por meio de casamentos seletivos, passaram seu sangue e seu Valor (diluídos em alguns casos) aos seus descendentes, os quais assumiram o Dever abnegado de Liderar.

A natureza heróica da instituição monárquica guarda por trás de si algo a mais. Na Monarquia, o Rei está em uma relação íntima de Identidade Carismática com a Nação. Ele não é um “forasteiro” recém-chegado, “que ontem não estava, hoje está, e amanhã não estará”. O Rei é o Símbolo Vivo da Nação. Ele é a Nação em forma humana. Sendo Símbolo, ele é o receptáculo de todas as aspirações nacionais. Só um Rei pode exercer essa função de unificar toda a Nação e servir de elo de ligação entre a coletividade, como soma de indivíduos, e a Transcendência, ou seja, com os Valores Eternos e o Destino, os quais representam mais do que uma mera soma quantitativa de desejos individuais, tendo nascido a partir das aspirações e assumindo vida própria.

Mas o Monarca não é um ente abstrato, e nem a Monarquia é um modelo-padrão, fabricado e plastificado, a ser comprado em um shopping center. Se toda Monarquia e seu Monarca derivam dos caracteres, virtudes, valores e aspirações de um dado povo, então toda Monarquia é única e absolutamente adequada ao povo no qual ela surgiu. Toda Monarquia é ‘sob-medida’. Sendo ‘sob-medida’ é necessariamente mais próxima do povo do que qualquer forma abstrata e racionalista de organização.

Monarquias não precisam de ‘teoria’ ou ‘livro doutrinário’ posto que são estruturas sociais orgânicas, as quais estão indissociavelmente ligadas às Nações que elas lideram. Uma Monarquia não é ‘instituída’ ou ‘proclamada’. Monarquias não são geradas por meio de ‘acordos’ ou ‘contratos’. A Monarquia brota espontaneamente da vitalidade de povos com aspirações superiores. Quando um povo está em sua Primavera, quando o mesmo se encontra enebriado pelo que Spengler chama ‘Espírito Faustiano’, ou seja, por aquele ímpeto de abarcar o Infinito, de singrar as estrelas, de conquistar a tudo que os olhos humanos possam contemplar, pela força se necessário, ali estarão as condições necessárias para o surgimento da Monarquia. O surgimento de um Grande Imperador é como o atender da mais íntima prece dos povos saudáveis pelo Divino.

Se o Parlamentarismo, por si só, já apresenta uma certa gama de vantagens em relação ao Presidencialismo contemporâneo, quando o mesmo se organiza ao redor do Carisma Imperial todas as suas potencialidades são ampliadas. O Imperador como unificador espiritual da Nação, está para além de toda parcialidade. Ele nunca representa uma parte da população, ao contrário dos políticos comuns, pois não possui partido. O Monarca representa o Todo da Nação, incluindo todos os compatriotas que já viveram e todos os que ainda vão nascer, e incluindo o próprio Solo Pátrio, mesmo que haja indivíduos que não lhe prestem homenagem ou que sejam antimonarquistas, pois a Nação não se limita a ser uma “pessoa jurídica do Direito Internacional”, mas é sim um elo comunitário, daqueles que partilham da mesma Origem e mesmo Destino, que se perpetua no Tempo, linhagem após linhagem, geração após geração.

O Poder Monárquico, portanto, possui muito mais legitimidade do que o mando liberal-republicano. A ‘legitimidade’ do mando republicano deriva única e exclusivamente do desejo efêmero de uma maioria de um grupo de indivíduos sem nome e sem face. Tal ‘legitimidade’ e o Nada são quase a mesma coisa.

O Monarca, por sua vez, está amparado por diversas autênticas Legitimidades. O Imperador possui uma Legitimidade Pura, derivada da própria superioridade intrínseca. Não há Legitimidade mais autêntica do que aquela derivada da própria Potência, derivada da própria Qualidade do Homem. É por isso, por exemplo, que todo Poder Militar é naturalmente legítimo, posto que deriva da própria superioridade de quem é superior hierárquico.

O Poder Inato legitima a Hierarquia e a Liderança. O Imperador possui Legitimidade Histórica, pois a História da Nação e sua História Pessoal e Familiar são uma só, principalmente quando foi um Monarca o Fundador da Nação. Aí mesmo, não há como separar as duas Histórias. A História da Nação é a Biografia Familiar de sua Casa Reinante. A Nação, portanto, só trilha um caminho ascendente no Devir histórico quando é Liderada por seu Monarca de jure, posto que o Monarca sendo a Vontade Humanizada da Nação, quando ambos se divorciam a Nação fica à deriva, como um navio que perdeu seu capitão, retalhada e dividida pelos inúmeros partidos e interesses privados, os quais sempre atuam como potências centrífugas e promovem a desintegração da Nação, quando não são coordenadas e moderadas por um Poder Central apartidário.

O Imperador também possui Legitimidade Cultural, posto que ao invés de chegar mecanicamente ao Poder e ser ‘escolhido’ por homens-robôs para administrar uma república formada a partir de abstrações racionalistas por homens doentios e fracos, os quais formaram suas teorias trancados em masmorras, chega ao Poder como consequência natural da passagem do tempo, para liderar um governo o qual é feito exclusivamente para aquela Nação, sem qualquer preocupação ou compromisso abstrato.

O Poder Moderador de um Imperador, como o de nosso Augusto, Dom Pedro II dignifica um Parlamento. Apenas diante de um Imperador o Parlamento cumpre sua natureza originária, a qual é de Conselho dos Melhores Homens da Nação. Em uma república, o Conselho degenera em Feira, ou Bolsa de Valores, enfim, em um lugar cuja finalidade é propiciar a troca de favores, as concessões, os ‘acordos’, as ‘negociações’, a submissão à lobbies com o fito de permitir a perpetuação de seus membros (os quais podem ser quaisquer do povo, independentemente das capacidades dos mesmos) no poder e rapinar a Nação o máximo possível. Torna-se, portanto, em foco e origem de todas as traições, de todas as rendições.

Um Imperador dificilmente trai a própria Pátria, pois ele é a personificação da Pátria, e portanto traí-la é trair a si mesmo. Um deputado republicano não possui qualquer ligação especial com sua Pátria, para além de uma carteira de identidade e um passaporte. Portanto, lhe é perfeitamente possível e plausível atuar contrariamente aos interesses nacionais, por exemplo, votando a favor de privatizações de empresas de setores estratégicos, permitindo o ingresso irrestrito de capital estrangeiro, liberalizando a economia (ou seja, esmagando os pequenos e médios produtores nacionais).

Um Imperador é como uma rocha que não se dobra e nem é arrastada pelos ventos. A própria natureza hereditária da Monarquia garante que uma Nação sob governo monárquico possuirá estabilidade muito maior do que uma República. Tivesse o Império durado, teriámos tido aproximadamente mais 3 Imperadores. 120 anos de República e tivemos mais de 40 tiranos, além de vários golpes e tentativas de golpes. Por sua durabilidade e senso inato de continuidade, um Império pode estabelecer para si verdadeiros projetos à longo prazo a serem cumpridos ao longo de décadas, ou até mesmo mais! Quão diferente das repúblicas, nas quais os políticos primam por desfazer todos os atos de seus antecessores, logo após sua ascenção ao poder.

Foi o Brasil um Império. E quando o foi, e principalmente sob nosso Augusto, Dom Pedro II, era o Brasil considerado internacionalmente como um “país de 1º mundo”. O Brasil viveu a Segunda Revolução Industrial ao mesmo tempo em que o fizeram Alemanha e Itália. Pedro II, um homem que aos dezesseis anos de idade falava sete línguas, era altamente versado em várias ciências, além de possuir reputação e honra ilibadas, realizava suas viagens diplomáticas internacionais com comitivas de no máximo 6 pessoas e a custeava com o dinheiro do próprio salário que recebia (o qual era a metade do que receberia o tirano Deodoro da Fonseca), e era tido como a segunda maior autoridade moral e diplomática do mundo, após o Papa.

E quanto ao seu poderio? O Brasil Imperial não era um gigante desengonçado, grande apenas no tamanho, como o é hoje. Tremiam as nações vizinhas ao nome do Brasil. Tinha o Brasil a segunda Marinha mais poderosa de todos os mares, sendo segunda apenas para a Marinha Britânica.

O Brasil era Poderoso, e amava o Poder que tinha. Era forte, e quando achava necessário usava sua força, doesse a quem doesse. Aos fins do século XIX, como prenúncio da Guerra do Paraguai, tomamos o Uruguai em um pouco mais de um único dia (a primeira Blitzkrieg da História), tendo como um dos Casus Belli o fato de que a Bandeira Nacional, nosso Estandarte Sagrado, foi arrastado no chão em uma cerimônia oficial do hostil governo uruguaio. Conquistamos e defendemos nossa Honra.

Teria o Brasil hodierno coragem e amor suficientes para se lançar em luta brutal por seus interesses? Acho muito duvidoso. Os Ministros, Diplomatas, Senadores e Deputados do Império eram Homens de Ferro. Os seus sucessores republicanos são feitos de manteiga. São todos malandros. Prefeririam rastejar a potências estrangeiras do que ir à Guerra (como o fez pessoalmente o Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel, que foi um dos líderes do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai). O Brasil se ‘tropicalizou’ com o Fim do Império, e por isso ‘amoleceu’.

Mataram o Império. Mataram o Brasil. De quem foram as mãos que dispararam o tiro? Não foi uma única mão, sem dúvida. Que inimigos, que chusma teria tanto ódio, tanto ressentimento, a ponto de destruir o Brasil desse modo?

Morreu o Brasil principalmente pelas mãos dos mesmos ‘homens’ que, ainda hoje, se refestelam com as riquezas nacionais, como chacais ou hienas devorando lentamente um Leão defunto. Os oligarcas mataram o Brasil. Queriam os oligarcas manter o Brasil como “vendedor de bananas”. Se sentiam ameaçados pela Segunda Revolução Industrial, orquestrada principalmente pelo nosso lendário Barão de Mauá e se ressentiam com a Autoridade do Imperador. O Império caiu principalmente pelas mãos de suínos gananciosos. O Brasil hodierno é fruto desses suínos e de sua Primeira República, a qual representou mais de 30 anos de absoluta estagnação, de desindustrialização, de decrescimento, de sufocamento das pequenas indústrias.

Ficai ruborizados de vergonha, ó moralistas e idealistas republicanos, pois todos os escravagistas partilhavam, financiavam e lideravam ativamente vossa conspiração e vosso golpe. Não foi o Império quem instituiu a escravidão, mas foi o Império e não a República quem pôs fim nela, e se dependesse da maioria dos republicanos, teria a escravidão continuado a existir.

Quem mais conta entre os traidores nacionais? Não surpreendentemente, os covardes urbanitas e cosmopolitas, enamorados imbecilmente com os patéticos ideais positivistas, defendidos pelos mais pobres dentre os intelectuais europeus da época. Como sempre, advogados, jornalistas, homens-médios (quiçá meio-homens?) e toda essa horda de progressistas, internacionalistas, racionalistas, mostraram estar absolutamente alienados em relação à Nação a qual os mesmos julgam pertencer “voluntariamente, por intermédio de um contrato-social”. Terá sido a motivação real o idealismo? É claro que não. Essas castas sempre defenderam o republicanismo, pois sabem que só prosperam e dominam quando a Pátria se transforma em Feira, tudo passa a ser negociável e é a sofística e o discurso quem diferencia Verdade de Ilusão.

Chorai republicanos. O povo não vos apoiava! Não houve participação popular na ‘Proclamação’ da República, é óbvio. Mas não porque a população fosse alienada, ou porque não soubesse defender seus interesses, ou porque fosse burra, ou porque não soubesse o que era melhor para si. Não. O povo era monarquista! E é isso que vós, amantes das Feiras e Praças, jamais compreenderão. Nem poderiam. Pois sois vós que vos arrogais de “defensores do povo”. Obviamente, quando o mesmo não concorda com vossos ideais, é porque os mesmos são ignorantes e é aí quando vós mostrais vossa verdadeira face. Pois no fundo, sois os maiores elitistas, os mais arrogantes e os mais preconceituosos.

Metade do Exército apoiou o Golpe, pois sim. Mas a Marinha era completamente monarquista. Será por isso, por ódio à Marinha Imperial, que a haveis destruído, tornando nossa Marinha um verdadeiro “ferro-velho”?

Mas e do lado de fora? Para a vantagem de quem caiu o Império? Que outra resposta seria possível, senão “Estados Unidos da América”? Pois se pautava a política externa americana pela Doutrina Monroe, a qual sob a máscara de proteger os países americanos da ameaça das potências coloniais européias, visava em verdade garantir a hegemonia absoluta dos EUA em todo o Continente Americano. Em seu caminho, estava o Império do Brasil, País de tamanho continental, se desenvolvendo e industrializando em grande velocidade, verdadeira potência mundial. Não creiam ser coincidência ter o Brasil sido rebatizado de “Estados Unidos do Brasil”, apesar de nosso sistema político-jurídico ser de tradição romano-germânica. Com a Queda do Império, a última barreira para as pretensões tirânicas dos EUA não existia mais. Transformou-se a América do Sul em seu pátio.

Do alto de sua nobreza e virtude, nosso Augusto não sentiu ódio. Sentiu nosso Augusto pena e decepção. Aos 60 anos aparentava ter 90. Seus anos, sua juventude (o Augusto foi coroado aos 15 anos de idade) foram totalmente entregues ao serviço Nacional. Como os Reis prussianos, nosso Imperador se considerava o Primeiro Servidor, ligado à Nação por um Dever Absoluto de Serviço.

Tinha o apoio popular, tinha metade do Exército e tinha toda a Marinha. Mas a nobreza e o amor do Augusto eram tamanhos, que ele se recusou veementemente a lançar o Brasil em uma Guerra Civil, apesar de saber que provavelmente sairia vitorioso. Preferiu o degredo a ver o Solo brasileiro ser manchado do Sangue de seus compatriotas.

Morreu o Augusto no Exílio. Jamais volveu a ver a Pátria. Esse foi seu pagamento por ter sido o maior Líder que esse País já teve. Que não se pergunte o porquê de os Grandes Homens serem tão raros, e surgirem tão esporadicamente. É que a Humanidade adquiriu o feio hábito de matar seus próprios Heróis.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

2ª Coluna do dia: Vem aí mais personalização da política brasileira

10/10/2009

Por Matheus Passos*

Como amplamente divulgado, terminou no último sábado, dia 03 de outubro de 2009, o prazo para filiações aos partidos políticos, tendo em vista as eleições do ano que vem. E, mais uma vez, os partidos, por meio da aceitação de filiação de “famosos”, apostam na longeva tradição brasileira de personalizar a política.

Matéria do portal G1 mostra que estes são os possíveis candidatos: “Gaúcho da Fronteira” (cantor de músicas típicas do sul do Brasil), Elymar Santos (cantor), Gabriela Leite (dona da Daspu), Kleber Bam Bam (vencedor do 1° BBB), Andréia Schwartz (responsável pela queda do Governador de Nova Iorque), Joãosinho Trinta (carnavalesco), Mirla (ex-BBB), Danrlei (ex-jogador do Grêmio), Marques (jogador do Atlético Mineiro), Doris Giesse (ex-apresentadora de TV), Salete Campari (drag queen em SP), Romário (ex-jogador de futebol), Edmundo (ex-jogador de futebol), Harlei (jogador do Goiás), Müller (ex-jogador de futebol), Andrés Sanchez (dirigente do Corinthians), Marcelinho Carioca, Acelino “Popó” Freitas (ex-boxeador), André Gonçalves (ator), e, por fim, Protógenes Queiroz (delegado da Polícia Federal). Isso, é claro, fora outros que não foram abrangidos pela reportagem do G1.

Por que os partidos aceitam e estimulam a presença de famosos em seus quadros? Porque querem se beneficiar daquilo que considero como uma das principais falhas do sistema eleitoral brasileiro: o sistema de lista aberta para as eleições proporcionais?

Além desses questionamentos, é preciso citar que é óbvio que os partidos se utilizam da total ignorância da grande maioria do povo brasileiro a respeito de como se dão as eleições, buscando, assim, um grande número de votos.

A título de uma breve explicação, é necessário dizer que quando votamos para um candidato do Poder Legislativo, em qualquer esfera – menos para o caso do Senado –, os votos contam, em primeiro lugar, para a “legenda”, ou seja, para o partido. Assim, o cidadão crê que está votando no candidato A quando, na verdade, está dando seu voto para o partido X. Essa é a primeira falha no Brasil: não o sistema em si, mas o desconhecimento da população de tal fato. A grande maioria acha que está votando no candidato quando, na verdade, está dando seu voto para o partido do candidato – e quem ganha as vagas, na verdade, são os partidos, não os candidatos.

A segunda definição teórica fica a respeito da diferença entre lista aberta e lista fechada. No sistema de lista fechada, os partidos definem previamente o ordenamento dos candidatos, cabendo aos eleitores exclusivamente votar na legenda. É o sistema adotado na grande maioria dos países com forma de governo parlamentarista. Já no sistema de lista aberta, o ordenamento dos candidatos é definido apenas pelos eleitores: os votos recebidos pelos candidatos das listas são somados e o total é utilizado para definir o número de representantes que caberá a cada partido. Os candidatos que obtiverem mais votos individualmente em cada lista estarão eleitos. É o sistema adotado no Brasil.

Um exemplo rápido: temos o partido X, e neste temos o candidato A (primeiro na lista registrada junto ao TSE), o candidato B (segundo na lista), o candidato C (terceiro na lista) e o candidato D (o quarto na lista). Suponhamos também que, em uma lista aberta, o candidato A tenha recebido 10 votos, o B tenha recebido 20 votos, o C tenha recebido 15 votos e o D tenha recebido 25 votos. Suponhamos ainda que o partido X tenha direito a duas vagas para deputado federal. Neste exemplo hipotético, pelo sistema de lista fechada estariam eleitos os candidatos A e B – pois eles são os dois primeiros na lista definida pelo partido. Já no sistema de lista aberta estariam eleitos os candidatos D e B, pois foram eles, nesta ordem, que obtiveram o maior número de votos dentro do partido.

E nessa história toda, onde entra o personalismo citado no primeiro parágrafo deste texto? No fato de que, como os votos contam para o partido, e não para o candidato, os partidos aceitam a filiação de tantos famosos quantos forem possíveis, apostando na tradição brasileira de desconhecer o nosso sistema eleitoral e ainda na nossa tradição personalista, que prefere enxergar pessoas – e não instituições – no comando político.

Assim, ao ter um famoso em seus quadros, pode ser que tal famoso consiga um número muito grande de votos – devido à sua fama, e não necessariamente devido às suas qualidades como “homem político”, como diria Max Weber – o que contribui para o coeficiente partidário, garantindo ainda mais vagas para o partido.

Foi o que aconteceu nas eleições para deputado federal em 2002: o então partido PRONA recebeu 1.635.393 votos, o que levou à eleição de 5 candidatos que tiveram a seguinte votação: 1) Enéas Ferreira Carneiro, com 1.573.642 votos; 2) Amauri Robledo Gasques, com 18.421 votos; 3) Irapuan Teixeira, com 673 votos; 4) Elimar Maximo Damasceno, com 484 votos; e 5) Ildeu Alves de Araujo, com 382 votos.

E aí pergunto a você, meu caro eleitor: São Paulo teve 19.617.270 votos válidos em tal eleição. Será que alguém com 382 votos dentre 19.617.270 efetivamente representa alguém? E aos que perguntarem “como ele conseguiu se eleger?”, volto aos pontos já destacados: 1) Personalismo da política brasileira, que vinculou a política a Enéas e a seu bordão “meu nome é Enéas”, e não à instituição do partido político; 2) Desconhecimento, por parte da população brasileira, de nosso sistema eleitoral, o que fez com que os paulistas votassem em Enéas imaginando que ele seria seu representante, sem saber que o voto era do PRONA.

Propostas para alterar tal situação existem, desde a implantação do sistema puro de lista fechada, passando pelo voto distrital e ainda pelo voto distrital misto.

Contudo, a mudança mais importante está no conhecimento da população – que atualmente, arrisco-me a generalizar, é ausente. Enquanto o povo brasileiro continuar acreditando mais em pessoas, em um “salvador da pátria”, e menos em instituições, não importará qual o sistema eleitoral utilizado: infelizmente, nada será mudado.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

Ninguém é insubstituível

17/01/2009

“Lula diz apoiar projeto de Hugo Chávez de reeleição ilimitada: Lula ressalvou que não considera esse caminho do Brasil.”

Partindo do pressuposto de que o Presidente realmente não acredita que as reeleições ilimitadas devam ser adotadas também no Brasil, o que beneficiaria a ele mesmo, analisemos apenas o que Lula diz em relação à situação de Hugo Chávez.

O Presidente fala que a reeleição está relacionada “à cultura e à vontade de cada povo”. Pode até ser. Mas se pensarmos bem, os países onde as reeleições são indefinidas, são os países parlamentaristas, ou seja, os países um voto de desconfiança do parlamento retira o primeiro-ministro do poder a qualquer momento, recentemente, ocorreu com Romano Prodi na Itália. No presidencialismo o poder é muito maior para o chefe de governo, já que ele é, também, o chefe de estado.  Sendo assim, um número limitado de reeleições é o ideal para garantir a democracia de um país presidencialista.

Mas é aí que o Presidente se confunde, ele diz que o processo democrático se traduz na garantia a todos os candidatos de participarem dos pleitos eleitorais nas mesmas condições. Não. O processo democrático se traduz em um conjunto muito maior de aspectos, entre eles, a alternância de poder, que evita o personalismo e que é justamente o afetado pelas reeleições ilimitadas.

Pode ser que apareça o argumento de que um governo está fazendo um ótimo trabalho, que aquela equipe não pode deixar o controle do país naquele momento. Tudo bem, se for mesmo assim, o povo terá conhecimento disso, e, nesse caso, elegerá o sucessor indicado pelo líder atual, simples assim.

Por último, não adianta dizer que as reeleições ilimitadas permitem que o povo, simplesmente, não eleja novamente esse ou aquele líder. Isso poderia ser verdade, e até é em alguns casos de países com instituições consolidadas. Porém, todos sabem o que é o chamado “uso da máquina” que é usado até mesmo no caso dos sucessores. Sem falar no fato de que os líderes que pregam as reeleições, curiosamente, são sempre os que pregam culto à personalidade, são um tanto autoritários, dominam as instituições e no fundo querem o poder vitalício. Resumindo, querem as reeleições porque sabem que controlam a política do país, mesmo não controlando a opinião real do povo, garantindo assim a reeleição.

Quando o governo vai mal, as reeleições ilimitadas de um líder que cooptou as instituições é praticamente um sequestro do país. E no caso do governo estar indo bem e o povo realmente desejar que aquela gestão continue, que se eleja o sucessor, que se conduza ao cargo até mesmo o vice, mas que não se cultue alguém. Ninguém é insubstituível.