Postagens com a palavra-chave ‘Oriente Médio’

Charge: Os guarda-costas do Irã

11/06/2010

Por Elder Galvão*

*Elder Galvão, 3° colocado na categoria charges do 4° Concurso de Ilustração da Folha de São Paulo, é chargista do Perspectiva Política e mostra sua arte em eldergalvao.com

Coluna do dia: O Brasil e os preços de um erro diplomático

05/04/2010

Por Arthurius Maximus*

O presidente Lula se prepara para sua vista ao Irã com o objetivo de firmar parcerias comerciais e na área nuclear com o país dos Aiatolás. Navegando a pleno vapor contra a maré mundial, o Brasil está para entrar no seleto grupo de nações atingidas pelas sanções do Conselho de Segurança da ONU.

No exato momento em que nosso governo estreita seus laços com o Irã e oferece cooperação para um programa nuclear carregado de nebulosidade e suspeitas, até aliados históricos dos iranianos ficam com “um pé atrás” em relação ao país e rumam na direção da formalização de sanções contra a nação islâmica.

Se isso realmente ocorrer, o Brasil terá o mesmo êxito que obteve ao apoiar Zelaya e participar de um dos maiores vexames que a diplomacia brasileira já protagonizou. Será deixado “falando sozinho” e terá de recuar de suas posições, humilhado e acuado, para não sofrer o mesmo destino de seu novo e polêmico amigo.

Se insistir em seu apoio ou fornecer “por debaixo dos panos” tecnologia ou qualquer tipo de assistência ao Irã, nosso “País do futuro” será apresentado à cruel realidade de tornar-se um pária frente à comunidade internacional.

É claro que ninguém espera que o Itamaraty vá “pagar o preço” por manter uma aliança com o Irã, no caso da aprovação das sanções. No entanto, isso mostra como é equivocada a ideia de “aceitar de peito aberto” a palavra de determinados governos que primam pela nebulosidade e pela repressão férrea a seu próprio povo e a qualquer informação.

Quando os aliados de primeira hora do Irã e “inimigos” de sempre das posições americanas se unem aos EUA (Rússia e China) para tentar dar um fim nas pretensões iranianas no campo nuclear, é porque algo muito “estranho” está mesmo acontecendo por lá.

Basta uma pequena olhada nas atitudes do governo iraniano para que um alarme soe na cabeça de qualquer simpatizante: a descoberta de instalações secretas (não relacionadas para os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica), a criação de usinas no interior de montanhas, o desenvolvimento (cada vez mais intenso) de mísseis de longo alcance e a presença (cada vez mais incisiva) de elementos da Guarda Revolucionária na tomada de decisões e controle das ações internas e externas do governo iraniano.

Além de correr o risco de se ver apanhado no meio do tiroteio das sanções, o recuo diplomático (promovido à força) sempre causa um certo “gosto de cabo de guarda-chuva” na “boca” de qualquer nação.

É muito mais importante analisar o que o Brasil teria a ganhar com a venda de urânio e de tecnologia ao Irã, nesse momento, além de pesar as péssimas experiências que já tivemos ao negociar com países da região (Iraque e Arábia Saudita).

Na época, o Brasil era o terceiro maior produtor mundial de tecnologia militar e tinha produtos invejados  e temidos (até pelos EUA) como o lançador de mísseis Astros II (visto como arma perigosíssima pelos americanos durante a Primeira Guerra do Golfo e na Guerra Irã – Iraque).

Ao “negociarmos” esses produtos por lá, o resultado foi um enorme calote e a negativa de aval para financiamentos prometidos que levaram a nossa indústria bélica à falência e à extinção em matéria de poderio e de negócios internacionais.

Cuidar para que a história não se repita, agora com reflexos ainda mais graves, é o que se espera do Itamaraty e do governo brasileiro. Muito mais do que simpatias ideológicas, o Brasil deve sempre primar por seus interesses como nação e pesar se o relacionamento com esse ou outro País nos trará reais benefícios ou meramente dores de cabeça.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Coluna do dia: O Brasil e a diplomacia do arrasa quarteirão

22/03/2010

Por Arthurius Maximus*

O Brasil gastou alguns milhões de reais para levar o Presidente Lula para uma fantasiosa excursão turística ao Oriente Médio. Entre gafes e erros táticos o saldo ficou apenas nisso: gastos desnecessários.

Lula, em sua ilusão arrogante de que é “o mediador”, deixou clara sua posição pró-palestina, “pisou” em um dos mais caros símbolos dos nacionalistas israelenses e, ao mesmo tempo, sepultou qualquer chance do nosso País ter mesmo algum papel na mediação do conflito.

Nada mais justo para coroar a mais infame campanha de nossa diplomacia desde que o Brasil foi “descoberto”.

Hoje, para ser embaixador ou diplomata, não é mais necessário dominar um idioma estrangeiro (nem mesmo o inglês – a linguagem universal da diplomacia).

Além disso, o próprio Celso Amorim deixou de lado a tradição de imparcialidade que o cargo exige para filiar-se ao PT. Se para um “cidadão comum” não influenciaria em nada, para um funcionário de carreira de Estado, que exige neutralidade absoluta, a filiação a uma agremiação política e a uma determinada ideologia pode, antes de qualquer coisa, trazer influências nefastas para um ambiente que deveria ser, em primeira análise, neutro.

O apoio irrestrito a ditadores africanos condenados por genocídio, o flerte com intolerantes árabes (que assumem queimar livros em praça pública), as declarações constantes e equivocadas em defesa do Irã e de seu programa nuclear suspeitíssimo (no mínimo) e a indefectível parcialidade em relação aos presos políticos cubanos e às atrocidades antidemocráticas cometidas na Venezuela, fizeram do Brasil uma piada em matéria de política internacional, nos renderam inúmeras condenações de organismos internacionais respeitados e acabaram por sepultar qualquer intenção do País em conseguir o tão sonhado assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU.

Mesmo assim, a arrogância e o enorme séquito de bajuladores seguem assolando o Presidente Lula e cegando nosso mandatário para os reflexos (e para o ridículo) que os rumos de nossa política externa terão.

No mais novo (e triste) episódio, o representante brasileiro no Fundo Monetário Internacional – FMI –,  Paulo Nogueira, “expulsou” e “demitiu”, como se sua emprega fosse, a representante da Colômbia no FMI. Pelo telefone, Nogueira exigiu que Maria Inés Agudelo abandonasse seu escritório em 24 horas. Não satisfeito, ainda enviou uma notificação ao Presidente do Banco de La República (o BC de lá) exigindo que enviassem currículos de novos candidatos para a sua apreciação.

Não é à toa que, ante a descoberta do sonho secreto de Lula de tornar-se Secretário-Geral da ONU, o mundo apenas gargalhe e esperneie convulsivamente diante de tamanha pretensão.

Afinal de contas, o despreparo, o destempero e a falta de qualquer senso ético norteiam a atual diplomacia brasileira, incapaz sequer de mediar um imbróglio entre Argentina e Uruguai, e colocam em xeque a capacidade decisória do Presidente e de seus assessores em qualquer coisa que não seja relacionada a um embate “Corinthians versus Palmeiras”.

Falta a Lula um assessor que tenha peito de dizer-lhe ao pé do ouvido:

“Menos presidente… Menos…”

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Coluna do dia: Uma crítica da “civilização” americana

10/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Ao se falar em Civilização Ocidental, é demasiado comum fazer-se referência aos Estados Unidos da América como o ente paradigmático e simbólico desta Civilização. Não são apenas os americanófilos que exaltam os EUA como os guardiões dos “valores” do Ocidente, mas mesmo seus opositores utilizam os termos “EUA” e “Civilização Ocidental”, como se fossem termos intercambiáveis; como se fossem sinônimos. Essa semântica caduca origina-se na Guerra Fria, a qual é representada por muitos historiadores e analistas como uma oposição entre um “Oeste” e um “Leste”, ou seja, entre um “Ocidente” e um “Oriente”.

Porém, seria tão ignóbil chamarmos o mundo soviético de “Civilização Oriental”, como o é chamarmos o mundo americano, o mundo americanizado e globalizado, pós-Guerra Fria, de algo como uma “Civilização Ocidental”. A noção dos EUA, ou do Oeste geográfico, como representante ou parte daquilo que autenticamente pode se chamar de Civilização Ocidental não passa de uma grave falácia, derivada da total ausência de consciência histórica que aflige os intelectuais modernos.

Inicialmente, pode-se dizer que esse grave equívoco possui como uma de suas raízes a falsa questão da concepção linear-progressiva da história. Os adeptos das religiões ideológicas da modernidade possuem a utópica e patológica tendência de assumir que há um sentido moral positivo na mera sucessão de momentos fáticos, ou seja, a passagem do tempo histórico representa um “progresso” ou “evolução”, uma continuidade absoluta a qual tende à perfeição da inércia absoluta, ou seja, ao “Fim da História”. Uma genealogia dessa concepção ridícula facilmente demonstra que ela se origina da concepção religiosa judaico-cristã da história, a qual é fundamentalmente messiânica. Liberais e marxistas são idênticos nessa crença. Em verdade, segundo muitos liberais nós já estamos muito próximos desse momento.

À parte o fato de que qualquer análise rigorosa da História demonstra sem sombra de dúvidas que os fatos e entes históricos se manifestam em movimentos cíclicos, os quais sempre possuem uma tendência decadencial, e que a noção de “progresso”, portanto, não passa de uma medíocre mitologia, o que se pode afirmar é que entende-se que a “Civilização” Americana é a Civilização Ocidental, simplesmente pelo fato de que a primeira sucedeu temporalmente a segunda no mesmo espaço geográfico anteriormente ocupado por esta.

Um estudo das origens e fundações dos EUA revela com clareza, porém, que ao invés de representar uma continuidade e, posteriormente sucessão, o surgimento dos EUA representa em verdade um rompimento absoluto com o Ocidente de até então. Se, portanto, as raízes filosóficas e ideológicas dos EUA são anti-ocidentais, só se pode concluir que o Mundo Americano, ou seja, o Mundo Contemporâneo, talvez seja um Anti-Ocidente.

Os EUA e o Mundo Contemporâneo, com seus valores iluministas e humanistas, não são um “desenvolvimento” das fundações civilizacionais ocidentais, as quais residem no Mundo Greco-Romano e na Idade Média. Ao contrário, não passam do fruto de uma caducidade patológica espiritual, essencialmente movidas por uma lógica de degeneração, cuja finalidade só pode ser a auto-destruição.

Não é ao menos possível dizer que o Mundo Americano constitua realmente uma Civilização, (por isso as aspas no título), pela total ausência de uma autêntica Ordem em seus desdobramentos históricos. A “Civilização” Americana não representa Ordem alguma, ao contrário, ela é exatamente a ausência de qualquer Ordem. Mais do que isso, a “Civilização” Americana é a ausência de todo e qualquer sentido não-material da existência. A “Civilização” Americana é, essencialmente, a “Civilização” da Ausência. A Modernidade (ou Americanidade; são sinônimos) constitui exatamente aquilo contra o quê Nietzsche alertou e que ele batizou de “Niilismo Passivo”.

A Modernidade é a rejeição de todos os valores autênticos, ou seja, Tradicionais e Orgânicos. Porém,  ela não é sua substituição por Ideais superiores, mas sim a ausência de qualquer proposta de superação, e até mesmo da própria possibilidade de se conceber a proposição de Ideais civilizatórios normativos. Sem sentido para a própria existência, a não ser a da própria perpetuação, a “Civilização” Americana é uma “Civilização” fadada ao fracasso, à ruína e ao esquecimento. Em troca dos Velhos Ideais, pelos quais acreditava-se valer a pena matar e morrer, ganhamos apenas uma “Tábua Moral” de valores negativos.

Não é à toa, portanto, que o homem moderno seja um completo covarde. Mesmo quando ele faz a guerra, ele não a faz como guerreiro, mas como mercenário. O homem moderno só crê na guerra e só a abraça, quando ele já se visualiza como absolutamente superior ao inimigo. Apenas quando ele sabe que o inimigo não tem chances, é que ele luta, a exemplo dos israelenses, que se regozijam massacrando palestinos armados com pedras, mas que choram quando são imigrantes na Europa e se veem sob a ameaça de nacionalistas.

É esse sentido pervasivo de Ausência, de Perda, que gera aquela constante sensação de angústia, da qual padece a maioria dos indivíduos nesse contexto. Essa é a razão pela qual o homem moderno está em uma constante busca do prazer. Por meio do bombardeio de estímulos sensoriais, o homem moderno busca anestesiar o sofrimento existencial generalizado da Modernidade. Não fosse isso, ele se atiraria de uma ponte, tornar-se-ia um louco (para ser internado por psicanalistas freudianos), ou viraria um revolucionário com sede de Sangue. Será coincidência o fato de que nunca tanta gente viveu à base de remédios?

Mas não é exatamente a maior parte da Humanidade ocidental que se encontra doente. É sua “Civilização” que é doentia. Ela não passa de um inverno, de um longo processo de agonia que antecede um ocaso, a qual, se houver homens de Valor, será sucedida por uma nova primavera, e uma nova civilização, a qual realmente representará um resgate de Velhos Ideais, que criem um novo Sentido para a Existência.

Já sei então como devo chamar a partir de agora aquilo que até então eu chamava “Civilização” Americana. A chamarei de “Patologia Americana”.

Pena faltarem, aparentemente, os Médicos adequados…

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva às terças

Coluna do dia: A paternidade – O mais maravilhoso de todos os anos

15/01/2010

Por Yashá Gallazzi*

Vou iniciar a coluna desta semana pedindo algumas desculpas. Preciso, por exemplo, me desculpar com o editor do site, nosso querido Bruno Kazuhiro. Isso porque, simplesmente, não consigo escrever nada sobre política hoje, “desrespeitando”, assim, a delimitação do tema que deveria rotineiramente ser abordado nas colunas.

Devo pedir desculpas a todos vocês, leitores do site. Isso porque todos merecem ler opiniões acerca dos grandes acontecimentos verificados no Brasil e no mundo, e não qualquer outra coisa que pareça, à primeira vista, menos importante.

Mas por que, afinal, tantas desculpas? Porque não consigo me concentrar em nada que não seja a pequena pessoa que caminha – com passos furtivos e incertos – ao redor da mesa onde digito estas linhas, grunhindo sílabas desconexas que soam, aos meus ouvidos enternecidos de pai, como uma declamação poética das mais belas.

Meu filho completou ontem, quinta-feira, seu primeiro ano de vida. Há um ano essa pequena criaturinha transformou minha vida – e a da minha esposa -, ensinando uma outra vertente daquele sentimento chamado de amor. Ele se tornou, como é fácil presumir, o centro de tudo. Nossos planos se dão em função dele, nossos horários são ajustados aos dele e nossos esforços buscam fazê-lo feliz. Há um ano, o menino faceiro que sorri para mim agora tomou as rédeas dos meus dias. Acho justo que neste momento tão especial ele tome a rédea do de vocês – pelo menos por um momento.

Uma coisa um tanto embaraçosa, mas muito verdadeira, é que ser pai me empurrou para um mar interminável de clichês e lugares-comuns. Eu não posso deixar de dizer, por exemplo, que “a paternidade muda as pessoas”. Ou que “o milagre da vida é fantástico”. Todos já ouvimos algo assim em algum momento, mas só passamos a ter noção exata da coisa toda quando o pequeno passa a existir em nossas vidas.

Você revê inevitavelmente os próprios conceitos quando percebe que cólicas atrozes, capazes de durar uma noite inteira, são muito – mas muito mesmo! – mais importantes do que uma guerra no Oriente Médio, ou um mensalão de quem quer que seja. Como sentar para escrever sobre o terrorismo promovido pelo fascismo islâmico, se o próprio filho não consegue dormir em razão da dor que o nascimento dos primeiros dentes causa? Acreditem: ser pai é, antes de mais nada, entender que o resto é apenas o resto.

Muitos dizem que a paternidade deixa o homem mais otimista com o futuro. Eu acabei ficando ainda mais cético – talvez até um tanto mais pessimista. Isso porque você percebe que tudo pode literalmente ir para o inferno, desde que o seu pequeno bebê esteja ternamente protegido. Ao mesmo tempo, a indignação inerente a todos que buscam um mundo melhor passa a aflorar com ainda mais força, pois somos naturalmente compelidos a construir uma realidade melhor para o futuro do pequeno. Afinal, trata-se de alguém que depende de mim, do meu suporte, dos meus atos.

Biocombustível? Redução da poluição? Solução para a emissão de carbono? Questões menores diante de um bebê que começa a engatinhar pela casa, descobrindo seus espaços e o mundo que o cerca. Pré-sal? Enriquecimento do País? Como tais coisas podem ser importantes, se o meu filho descobre a arte de dar os primeiros passos? Obama? Dilma? Serra e Aécio? Perdoem este pobre pai, mas nada pode ser maior do que a fala desengonçada destes últimos meses, nos quais o pequeno aprendeu a dizer “mamã” e “papá”.

Isso soa um tanto alienado? Um tanto egoísta? Sim, é claro! Ser pai é descobrir a certeza de que o indivíduo é mesmo o cerne da civilização, e que nenhuma “coletividade”, nenhuma “maioria” terá jamais a importância que aquele pequeno indivíduo tem para você.

A paternidade, meus caros, tem até mesmo o condão de mexer com nossas mais íntimas convicções. Depois de ser pai, por exemplo, passei a ter algo – como direi? – “pessoal” contra o comunismo. Além de todas as restrições de natureza política e filosófica, me descobri repudiando aquela ideologia simplesmente porque nada de bom poderia jamais sair da mente de um sujeito como Marx, que não exitou em abandonar os próprios filhos à miséria, enquanto tentava juntar dinheiro para “mudar o mundo”. Como respeitar quem não respeita um filho?

Ser pai também nos leva a rever opiniões tidas como imutáveis. Eu era favorável à descriminalização do aborto, por considerar tudo matéria apenas individual. Minhas certezas foram engolidas pelo som do coraçãozinho dele, pulsando ainda dentro do ventre da mãe. Então, de repente, surge a epifania: “Não! Acabar com esse som maravilhoso é assassinato!” Simples assim. É por ser pai que eu insisto, vez por outra, na grandeza da chamada civilização ocidental: nós protegemos e amamos nossos filhos, ao passo que algumas outras culturas – ainda! – sacrificam os seus…

Mas não pensem que pretendo ser profundo. Nada disso! Meu filho me ensinou coisas muito mais simples, como a importância da abóbora e do brócolis. Ao mesmo tempo em que me forçou a elevar a fritura ao posto de inimiga pública número um da Humanidade.

Por falar em inimigos, esqueçam Bin Laden e Ahmadinejad. São apenas dois paspalhos! O maior perigo do mundo se chama virose. Eu “votaria” em Obama, caso ele descobrisse uma cura para tal desgraça…

De resto, não farei como tantos pais que existem por aí, pródigos em ficar falando sobre a beleza e a grandiosidade dos próprios filhos. É desnecessário fazê-lo. Vocês todos, leitores inteligentes deste site, provavelmente acreditam que meu filhote é lindo, inteligente e esperto. E, não! Não estou exagerando. Confiem em meu julgamento “totalmente isento”.

O mais fascinante de tudo, porém, é a percepção libertadora de que nada mais, além do pequeno – e do seu núcleo familiar – pode ganhar mais importância que o devido. O que é uma carreira profissional, quando se assiste aos primeiros passos do filho? Você se torna pai e percebe que nunca poderá encontrar um “emprego dos sonhos”, pois já o tem. Aninhar o filho nos braços e fazer qualquer dor ir embora é a melhor profissão que pode existir, acreditem.

Ao segurar o filho nos braços pela primeira vez, surge aquele sentimento ímpar de que qualquer coisa pode – e deve! – ser feita para que ele tenha sempre a melhor segurança e a maior felicidade. “Por que viemos ao mundo?”, indaga uma das maiores proposições filosóficas de todos os tempos. Simples: para fazer felizes aos nossos.

Sabem por que não acredito em revolução ou, em outras palavras, por que acredito tanto no indivíduo? Porque “a única revolução possível é a de dentro de nós”, como afirmou Ghandi certa vez. E como se faz tal revolução? Construindo uma família e recebendo com amor os filhos confiados por Deus. É só então – e apenas então – que se pode compreender com perfeição a ideia de sacrifício pelo outro. Sem a alegria dele, nada mais importa. Na alegria dele, tudo o mais ganha esplendor. Por isso o ano que passou foi tão maravilhoso. O mais maravilhoso de todos os anos.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: A política externa russa e a importância do Brasil na nova Guerra Fria

13/01/2010

Por Raphael Machado Silva*

Após a queda da União Soviética, com a consequente fragmentação de seu Império, a Rússia caiu em uma espiral de caos, desordem, corrupção e decadência que durou ao menos 10 anos. Aparentemente, a Guerra Fria havia sido ganha pelos EUA. Só havia restado uma grande potência de pé e alguns diziam que seria assim “para sempre”. A “história havia chegado ao seu fim”.

Após a ascenção de Putin ao poder na Rússia, porém, esse quadro tem mudado radicalmente. De modo lento, porém progressivo e incontível, a Rússia volta a assumir sua posição de direito como uma grande potência e como rival dos Estados Unidos da América e da China na disputa pela hegemonia global.

Putin tem conseguido efetivamente perseguir e capturar a maioria dos grandes oligarcas russos que lideram as máfias, os quais são todos ex-comissários e ex-burocratas comunistas, que aproveitaram a derrocada do regime soviético para “abocanhar” a maior parte do país por uma “pechincha”. O líder russo realiza constantes programas e toma iniciativas visando aumentar a fertilidade e a natalidade dos russos étnicos. Ordenou a expulsão de milhões de imigrantes ilegais. Começou a treinar adolescentes em campos militares. Venceu uma guerra contra a Geórgia e aumenta sua influência sobre seus vizinhos e sobre toda a Europa, graças ao fato de ser o principal fornecedor de gás no continente europeu.

Como era de se esperar, porém, o fortalecimento interno da Rússia e suas iniciativas na direção de um fortalecimento externo a colocam cada vez mais em choque com os interesses americanos. Ainda que nem Rússia e nem os EUA sejam tão hegemônicos hoje como eram nas décadas da Guerra Fria, ainda assim ambos recomeçaram um lento jogo de xadrez em busca da solidificação de áreas de influência.

Por enquanto os principais palcos de enfrentamento têm sido Europa e Oriente Médio, porém, cada vez mais a América do Sul se revela uma região estrategicamente importante para qualquer projeto hegemônico global. As condições naturais globais elevam cada vez mais o valor estratégico da posse de recursos energéticos e estes a América do Sul e, principalmente, o Brasil possuem em abundância.

Até então, o principal parceiro estratégico e econômico da Rússia tem sido a Venezuela. Porém, como apontou o jornal russo Pravda recentemente, a utilidade de uma parceria com a Venezuela é bastante limitada por conta da instabilidade e dos riscos que o referido país apresenta a uma proximidade econômica internacional, além do fato de que, aos olhos dos russos, parece que o único interesse venezuelano está na compra de armamentos. É inevitável, portanto, que o Brasil se torne nos próximos anos a principal arena de disputas de influência entre Estados Unidos e Rússia, graças a sua posição como potência regional e como importante fonte de recursos energéticos na América do Sul.

Para que o Brasil aproveite essa situação ao máximo, ele deve cessar de tomar atitudes diplomáticas unilaterais e tentar ser o mais  equilibrado possível, durante o máximo de tempo possível, tirando proveito dos interesses russos e americanos, evitando nos comprometer com qualquer dos lados dessa rivalidade.

Infelizmente, me parece que a diplomacia brasileira é demasiadamente inexperiente nessa arte, sempre entregando-se “de corpo e alma”, ou a um lado, ou a outro.

* Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: 2009 – Choros e sorrisos

31/12/2009

Por Felipe Liberal*

O ano de 2009 foi um ano de certas desgraças.

Vimos mais uma vez que o capitalismo é tão fraco quanto uma folha de papel, mas também que ele é a única coisa que temos para viver. Percebemos que enquanto discutimos sobre a imortalidade humana dentro da ciência, o planeta se torna cada vez mais mortal e mortífero.

Em 11 de setembro de 2009, relembramos uma das maiores tragédias da Humanidade: O assassinato de 30 mil pessoas em Santiago do Chile, naquela terça-feira de setembro, em 1973, quando os EUA acabaram com qualquer esperança de liberdade naquele país.

Barack Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz, mesmo depois de ter atacado o Afeganistão.  Uma grande brincadeira de mau gosto. A intensificação do conflito na Faixa de Gaza, onde mais de 1.500 palestinos morreram no último ano, também é algo a ser lembrado e modificado em 2010.

Perdemos o maior (em expressão e fama) músico e dançarino de todos os tempos. Michael Jackson morreu de racismo, ganância e loucura, empreendidos por ele mesmo.

E a pior das tragédias: o Clube Náutico Capibaribe caiu para Série B do Campeonato Brasileiro, causando uma imensa tristeza nos quatro cantos do Brasil e do Mundo.

Mas o ano de 2009 também foi um ano de alegrias e glórias.

O Brasil conseguiu se recuperar da crise rapidamente, ratificando sua diversidade comercial e seu equilíbrio político dentro da política interna e externa. O Natal brasileiro nunca foi tão gordo, por conta da ascensão de grandes camadas pobres ao “Império do Consumo”.

A integração regional dentro da América Latina deu passos importantíssimos, com relevantes avanços do Mercosul, Banco do Sul, Parlamento do Mercosul, etc. A América do Sul foi um dos primeiros continentes a sair da crise, sem passar por sérios problemas.

A preocupação com o Meio Ambiente e com o futuro do Planeta Terra cresceu assustadoramente em 2009. Os encontros e reuniões (apesar da falta de sucesso), juntamente com a popularização da discussão sobre o tema, deram esperanças para os anos vindouros, que não serão fáceis.

Muitas outras coisas explodiram e nasceram dentro deste ano tão controverso. As mais importantes para mim, estão aqui.

Os anos que virão serão assim: tristes e alegres, trágicos e gloriosos. Como sempre. Seria outra piada de mau gosto tentar mudar isso.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Artigo do leitor: Outra visão sobre Ahmadinejad

02/12/2009

Caríssimos leitores,

Se inicia hoje mais uma possibilidade de interação entre os leitores deste blog, que já recebem considerável atenção deste blogueiro. Digo considerável pois, embora ela seja muito grande, sempre há o que melhorar.

Abro espaço nesta postagem para um artigo do leitor Carlos Robson, que, nele, trata sobre a questão das críticas ao Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e ao fato dele ter sido recebido com pompa e circunstância em nosso País. No artigo, Robson questiona a validade deste posicionamento crítico que, para ele, pode ser um tanto hipócrita.

É um prisma a ser observado.

Dito isso, confiram o texto de nosso leitor que, como todos os outros, pode agora, além de comentar sem moderação e ter a certeza de ter seu comentário respondido, submeter artigos ao blog.

Outra visão sobre Ahmadinejad

Carlos Robson*

Com a controvertida visita de Armadinejad ao Brasil foram gerados muitos protestos e críticas, porém, as motivações em jogo na verdade não se enquadram na política nacional.

Para os israelitas, tudo é claramente motivado por sua política, e não pela nossa. No que tange os homossexuais, a crítica é puramente religiosa. E, para os que foram no vácuo, a reclamação é preconceituosa mesmo.

Aos que criticam, não importam os acordos comerciais e nem tecnológicos, aliás, para os EUA e Israel isso tudo é muito incômodo, pois um inimigo que estava quase isolado agora encontra “um palanque no Brasil”.

O professor Peter Demant, holandês, doutor em seu país sobre a colonização israelense, morou e pesquisou em Jerusalém, chegando ao Brasil em 1999, e desde então, leciona Relações Internacionais e História da Ásia na USP. Ele defende que o mundo muçulmano historicamente apresentou um comportamento muito mais tolerante para com suas minorias do que o mundo cristão com as minorias na cristandade.

Podemos lembrar que ambas as religiões são monopolistas da verdade, expansionistas que, em princípio, querem converter todo o resto do mundo. Contudo, o Islã aceita o Judaísmo e o Cristianismo como antecedentes legítimos de sua própria religião, como formas um tanto modificadas da mesma mensagem de Deus. Assim, essas religiões têm um papel reconhecido e protegido dentro de uma sociedade religiosa, resultando em uma tolerância – mediante certas desqualificações sociais, econômicas e outras.

É claro que sempre temos a tendência de desqualificar a política, a cultura e a religião alheias e esquecemos que a verdadeira democracia, baseada na res publica (coisa pública), com certeza é o sistema político mais seguro contra ditadores e injustiças sociais. Pelo menos, era assim que deveria ser.

Porém, na nossa atual política ainda é muito comum o abuso do poder econômico para comprar cargos públicos e é praxe nas campanhas se falar em quanto  custa se eleger para um determinado cargo político. Digo isso para que possamos aperfeiçoar nosso sistema antes de criticar o sistema dos outros.

Mas, voltando a Ahmadinejad, aposto que se fosse o Rei Abdullah bin Abdelaziz, da Arábia Saudita, a vir aqui, ninguém faria esse absurdo que alguns fizeram com o  iraniano. E Abdullah sim é um ditador monárquico (mas como ele é aliado dos EUA não passa nada).

Será que ninguém nesse mundo vê as injustiças que acontecem com o povo árabe? Os EUA invadem os países deles, saqueiam e querem controlar a política e, daí, quando algum país sai de seu controle, eles usam toda a mídia mundial para encapetar uma nação (por que essa é a realidade – criaram uma imagem super negativa dos árabes).

Há maior terrorista no mundo do que George Bush filho? Eu não duvido nada que ele possa ter manipulado facções extremistas e fomentado aquele ataque de 11 de setembro para se reeleger e, depois, de quebra, ter apoio do povo americano para sua guerra pessoal e corporativa, já que as empresas de sua família são concorrentes dos xeques do petróleo.

Depois disso, fica a maioria dos ocidentais de cultura de  “robôs papagaios” só repetindo o que a mídia norte-americana diz.

Daí, no subconsciente das nações ocidentais fica o arquétipo de Rambo, ou de Schwarzenegger e de outros patetas fuzilando os demônios árabes, enquanto o mundo ocidental, embriagado pela fascinação cinematográfica norte-americana, aplaude e aplaude, até hoje, embevecido.

Os retratam como a polícia do mundo, mas, na verdade, os EUA não são a polícia do mundo, senão os sabotadores. A Africa está lascada muito por culpa do governo americano que apoiou ditadores nesses países (tal como fez na America Latina no passado).

Duvidas? Assista ao controvertido e premiado documentário, ao estilo de Michael Moore, que fala sobre a influência americana na Líbia e resto da Africa. Verás de maneira clara quem são os “policiais do mundo”…

Não morra sem ver isto!

*Carlos Robson é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog

Coluna do dia: Ahmadinejad e a hipocrisia tupiniquim

24/11/2009

Por Raphael Machado Silva*

Essa semana, veio a estas nossas terras, sofridas e quase inóspitas, o Presidente de um dos poucos países (talvez o único) autenticamente soberanos deste Mundo aloprado e tresloucado no qual nós, Espíritos Livres (tanto quanto os Cativos) passamos nosso tempo entre o Não-Ser que há antes e o Não-Ser que há depois. Refiro-me, obviamente, a Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irã sob a douta Auctoritas Espiritual do grandioso Aiatolá Khamenei.

Como verdadeiro amante do diálogo internacional (não é o Irã quem ameaça outros países de bombardeio, e nem é o Irã quem se recusa a receber inspetores da ONU), veio Ahmadinejad buscar uma tão benfazeja aproximação de cunho diplomático e econômico entre seu nobilíssimo e antiquíssimo país, herdeiro da Pérsia, e nossa triste terra tupinambá, ainda repleta de “selvagens”, mas que por ser obeso em tamanho e em PIB, e possuir mulheres e CEOs de fama internacional, vê a si mesmo como estando ‘a um passo do primeiro mundo’.

Um dos principais interesses que ambos os países têm em comum é o enriquecimento de urânio e a utilização de usinas nucleares para fins energéticos. Os dois têm feito avanços interessantes nesse sentido, e o Brasil até mesmo já pode se dizer ‘com alguma experiência’ na área, tendo até mesmo desenvolvido um método alternativo de enriquecimento de urânio.

Apesar de muitos medos, pois o Fantasma de Chernobyl ainda vive na mente de muitos, a Energia Nuclear se apresenta como uma das fontes mais eficientes e seguras, dentre as fontes de energia que poderiam servir como alternativa aos combustíveis fósseis. É belo que a partição da própria matéria-prima da existência seja capaz de liberar tamanha energia como o faz. Ainda que signifique algo temível e abominável, como tudo que é “divino”, o ‘Cogumelo Atômico’ possui tal magnitude e poder que inevitavelmente transmite uma sensação que só posso ver como análoga a estar diante de um aspecto de Deus. A total indiferença frente ao Humano, que não passa de uma formiga frente ao Macrocosmo… A sensação de expansão inelutável em direção ao infinito…

Essa impressão estética é compreensível, quando se apreende que estamos diante de algo tão primordial quanto a força que deu existência material ao Universo bilhões de anos atrás. O átomo é tanto força de Criação como força de Destruição. É oportuno lembrar de uma passagem do ‘Bhaghavad Gita’, mais importante obra espiritual do Hinduísmo, citada pelo cientista genocida Oppenheimer, responsável pelo Projeto Manhattan: “Agora tornei-me Morte, o Destruidor de Mundos.”

Deixando esse tema um tanto de lado, voltemos para o tema primário deste artigo.

Veio Ahmadinejad, líder democraticamente eleito do Irã, apesar da tentativa de golpe orquestrada pela CIA, e quão patética toda a reação dessa massa jornalística e “intelectualóide” brasileira, chorando e rastejando no pó, gemendo de ódio irracional e meramente repetindo mitos e ‘lugares-comuns’.

O que é mais cômico é que, alguns dias antes, quando recebemos alguém que realmente poderia ser dito como genocida, Shimon Peres, Presidente de Israel, absolutamente NENHUM desses indivíduos, de jornais grandes ou pequenos, disse uma única palavra sequer de desaprovação a respeito.

Ora, respeitáveis leitores, isso ocorre porque toda essa massa jornalística tem um lado que possui um quê de sionista. Quem diria que essa ideologia fincaria raízes tão fortes aqui no Brasil. Ou talvez minha surpresa seja indevida… Quem tiver disposição e coragem, que procure e leia “História Secreta do Brasil”, de Gustavo Barroso, membro da Academia Brasileira de Letras.

Só posso admitir que a maior parte desses sionistas brasileiros o seja por mera osmose. “Todos acham isso, então deve ser verdade…” Desafio qualquer um de vós, jornalistas anti-iranianos, a vir aqui me trazer a mítica “ameaça de genocídio contra Israel feita por Ahmadinejad.” Eu estou falando com seriedade. Desafio qualquer um a provar que tal citação apócrifa seja autêntica. Mas já afirmo de antemão que não admitirei como provas links do ‘The New York Times’, do ‘Haaretz’, ou de qualquer jornal de linha editorial similar. Quero o texto ou vídeo em que Ahmadinejad faz tal afirmação, com uma tradução feita para o português por alguém que fale sua língua.

Como é fácil distorcer palavras alheias ou mesmo as inventar… Principalmente quando se possui o monopólio da informação.

Só posso compreender o sentimento anti-iraniano como fruto de ignorância ou arrogância humanista. “Toda Nação deve possuir auto-determinação…”. Mas ai das nações que ousem contrariar os preceitos do Humanismo Liberal! Elas são más! Elas devem ser destruídas! Assim é que o Multiculturalismo mostra sua verdadeira face. Se todo país deve abarcar a todas as formas de auto-expressão e liberdade, então todo país deve ser idêntico e, portanto, não há diversidade.

Touché. Adoro brincar de assassinar ídolos. Principalmente “ídolos ideológicos”. Deve ser culpa das minhas leituras excessivas de Nietzsche.

“Devemos ter Tolerância”! Mas parece que isso não vale com relação a aqueles que discordam de nós verdadeiramente. Podemos tolerar que um indivíduo seja Social-Liberal, Social-Democrata ou Liberal-Democrata. Devemos tolerar essas diferenças. Mas coloque um tolerante humanista diante de, por exemplo, um fascista ou um muçulmano tradicionalista e veja como ele se transforma em alguém ululando de ódio, clamando por execução sumária e gritando slogans humanistas entrecortados por insultos vulgares.

Toda a tolerância humanista é muitas vezes uma máscara da mais profunda intolerância. Quanta hipocrisia.

Talvez seja pior viver sob o Totalitarismo Liberal. Em um país autoritário, todos sabem o que se pode fazer e o que não se pode fazer; o que se pode dizer e o que não se pode dizer; o que se pode ler e o que não se pode ler. Nas democracias liberais modernas, você pode fazer, dizer e ler tudo. A não ser aquilo que esteja em discordância com a ideologia oficial. Qual a diferença então?

Se há liberdade para questionar tudo, menos o Humanismo, menos a Moral Cristã, menos a Democracia, menos o Iluminismo, menos o Multiculturalismo, então não há liberdade nenhuma. Há um embuste. Há uma farsa.

Pior que a escravidão evidente e declarada é aquela que se disfarça trajando sem pudores as roupagens da Liberdade.

Quereis provar que estou errado?

Então começai atacando Israel, o ÚNICO país do Oriente Médio possuidor de armas nucleares e o ÚNICO que se recusa a receber inspetores da ONU. Começai pelos que hoje, enquanto você está sob lençóis de veludo, chacinam diariamente palestinos, usando para isso inclusive armamento proibido.

Qual poderia ser minha reação, senão rir até não poder mais, quando vi na televisão os tipos que protestavam contra Ahmadinejad, os quais certa rede de televisão abertamente sionista chamou de “representantes da sociedade civil”.

Festejemos a tolerância e o humanismo! Mas o façamos sob o som do fuzilamento dos que discordam de nossos “valores”. O humanista enche a boca para falar sobre a “desumanização” de minorias e outros “grupos santificados e vitimizados da modernidade”. Mas se o humanista se vê como representante do Bem, e todos que discordam essencialmente dele como representantes do Mal, quem é então o verdadeiro culpado pela desumanização? Olhai nos olhos de um humanista, quando ele fala de um inconformista. Ele olha com um olhar que é um misto de arrogância pequeno-burguesa e total desumanização do Outro.

“O Irã deve ter liberdade”! Menos para escolher ser Tradicionalista e Muçulmano. Caso isso ocorra devemos bombardear o Irã, até que ele seja salvo e aprenda o valor da tolerância.

Que os adormecidos despertem, que os cegos vejam e que os hipócritas passem a ter um mínimo de vergonha na cara, porque já está ficando difícil de aturar tudo isso.

Por fim, recomendo vídeo pouco divulgado que demonstra que Ahmadinejad dialoga com judeus e que prova que judaísmo e sionismo não são a mesma coisa.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Lula e Ahmadinejad, Brasil e Irã: Um caso para se pensar

24/11/2009

Por conta de todas as barbaridades defendidas pelo Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, a visita deste ao Brasil foi atacada por todos os lados. Pessoas de diferentes matizes ideológicos afirmam que é um absurdo que nosso País tenha recebido, com pompa e circunstância, um homem que nega o Holocausto.

Muitos comentários a respeito do caso dão conta de que trata-se de mais uma desventura da política externa brasileira. Estes somam a visita de Ahmadinejad a uma lista que conta com a conivência com relação às FARCs, o apoio a Hugo Chávez, o recebimento de Zelaya na embaixada brasileira em Honduras e a defesa de Cesare Battisti.

Pois bem. Acontece que a visita do Presidente iraniano torna necessário que se tenha muito mais maturidade do que a suficiente para analisar os casos de Zelaya, Battisti, etc, com precisão.

Por quê? Perguntarão alguns. Respondo: Porque as relações com as FARCs, com Chávez, com Zelaya e com Battisti têm viés fortemente ideológico. A visita de Ahmadinejad tem viés econômico.

Quando cito a maturidade quero dizer que é preciso deixar o asco nutrido por Ahmadinejad de lado por alguns instantes e analisar friamente o que a visita do iraniano representa.

É fato que as declarações de Ahmadinejad são absurdas? Sim, é. É impossível respeitar alguém que diz que o Holocausto não existiu e que em seu país não existem homossexuais? Com certeza.

Contudo, a questão não é essa. O ponto crucial a ser analisado é: Receber Ahmadinejad em seu País respalda as declarações deste Presidente e as suas teses abomináveis?

Quem critica Ahmadinejad e responde à minha pergunta com um sim reforça sua crítica. Mas é possível criticar Ahmadinejad e responder à minha pergunta com um não, o que não enfraquece a crítica ao líder iraniano.

O quero dizer é que, dependendo de como é gerenciada, uma visita de um líder estrangeiro condenável não representa defesa de seus valores. Justamente por ser econômica e diplomática, e não ideológica. É preciso que se tenha a noção de que esse viés analítico é plausível.

O que Ahmadinejad defende é em grande parte absurdo, com certeza. Mas o Presidente Lula não declarou nada que reforçasse os absurdos, ao contrário, alfinetou um deles, quando afirmou que o programa nuclear deve ser utilizado para fins pacíficos.

Nesse momento surgirá o comentário: Ora, mas Ahmadinejad foi eleito em um pleito fraudado e recebê-lo como líder iraniano legitima as eleições.

Isso é uma verdade. Inquestionável. Daí a dizer que isso reforça as teses de Ahmadinejad são outros quinhentos. Até porque a realidade é a de que Mahmoud é, infelizmente, o Presidente do Irã, doa a quem doer. E o Brasil não romperá relações com o Irã por conta disso.

Alguns poderão dizer: Ora, mas deveria romper!

Deveria? Será mesmo? Quando o Brasil era uma ditadura, que defendia um regime autoritário que assassinava, seria correto que rompessem com o Brasil? Talvez no que tange os princípios sim. Mas na prática não, porque isso não nos ajudaria em nada, ao contrário.

Em suma, o Brasil não passa a defender o que defende o Irã por se colocar como seu interlocutor. Ahmadinejad é abominável, mas recebê-lo ou não no Brasil é irrelevante quanto a isso.

Por outro lado, para a política externa brasileira, é sinal de crescimento receber em menos de um mês o líder israelense e o líder iraniano. Quando Bill Clinton recebeu tanto israelenses como palestinos em Camp David foi elogiado. Se os EUA recebessem Kim Jong Il para um diálogo estariam defendendo o regime esquizofrênico da Coreia do Norte?

E tudo isso que digo tem a explicação que é citada por mim no início: A relação é econômica e diplomática, e não ideológica.

Por isso é preciso maturidade. Por isso a crítica ao relacionamento com Chávez e com Zelaya não é a mesma que diz respeito a Ahmadinejad.

Com Chávez e Zelaya a relação do governo é ideológica. Há apoio das ações e dos ideais. A mesma coisa vale para a defesa de Battisti. O governo brasileiro atual é criticável nestes casos porque demonstra claramente apoiar o pensamento, ao invés de apenas estar se relacionando com a devida distância.

Com Ahmadinejad há mera conexão com a nação do Irã, que não pode ser extirpada de nossas relações por ser liderada por um idiota. Até porque, se assim fosse, em diversos momentos da história romperiam relações com o Brasil. Alguns diriam que isso valeria até mesmo para hoje.

Enfim, o encontro de Lula e Ahmadinejad é um caso para se pensar. Profundamente. A crítica superficial deve ser deixada de lado. O ponto principal é saber se receber o iraniano é, necessariamente, defender suas teses.

Talvez não seja.

É até complicado para mim, crítico feroz de regimes autoritários, levantar essa questão. Eu mesmo tenho certas reticências morais contra qualquer relação com Ahmadinejad.

Acontece que em certos casos é preciso, respeitados todos os princípios éticos, olhar além do óbvio.