Por Elder Galvão*
*Elder Galvão, 3° colocado na categoria charges do 4° Concurso de Ilustração da Folha de São Paulo, é chargista do Perspectiva Política e mostra sua arte em eldergalvao.com
Por Elder Galvão*
*Elder Galvão, 3° colocado na categoria charges do 4° Concurso de Ilustração da Folha de São Paulo, é chargista do Perspectiva Política e mostra sua arte em eldergalvao.com
Por Arthurius Maximus*
O presidente Lula se prepara para sua vista ao Irã com o objetivo de firmar parcerias comerciais e na área nuclear com o país dos Aiatolás. Navegando a pleno vapor contra a maré mundial, o Brasil está para entrar no seleto grupo de nações atingidas pelas sanções do Conselho de Segurança da ONU.
No exato momento em que nosso governo estreita seus laços com o Irã e oferece cooperação para um programa nuclear carregado de nebulosidade e suspeitas, até aliados históricos dos iranianos ficam com “um pé atrás” em relação ao país e rumam na direção da formalização de sanções contra a nação islâmica.
Se isso realmente ocorrer, o Brasil terá o mesmo êxito que obteve ao apoiar Zelaya e participar de um dos maiores vexames que a diplomacia brasileira já protagonizou. Será deixado “falando sozinho” e terá de recuar de suas posições, humilhado e acuado, para não sofrer o mesmo destino de seu novo e polêmico amigo.
Se insistir em seu apoio ou fornecer “por debaixo dos panos” tecnologia ou qualquer tipo de assistência ao Irã, nosso “País do futuro” será apresentado à cruel realidade de tornar-se um pária frente à comunidade internacional.
É claro que ninguém espera que o Itamaraty vá “pagar o preço” por manter uma aliança com o Irã, no caso da aprovação das sanções. No entanto, isso mostra como é equivocada a ideia de “aceitar de peito aberto” a palavra de determinados governos que primam pela nebulosidade e pela repressão férrea a seu próprio povo e a qualquer informação.
Quando os aliados de primeira hora do Irã e “inimigos” de sempre das posições americanas se unem aos EUA (Rússia e China) para tentar dar um fim nas pretensões iranianas no campo nuclear, é porque algo muito “estranho” está mesmo acontecendo por lá.
Basta uma pequena olhada nas atitudes do governo iraniano para que um alarme soe na cabeça de qualquer simpatizante: a descoberta de instalações secretas (não relacionadas para os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica), a criação de usinas no interior de montanhas, o desenvolvimento (cada vez mais intenso) de mísseis de longo alcance e a presença (cada vez mais incisiva) de elementos da Guarda Revolucionária na tomada de decisões e controle das ações internas e externas do governo iraniano.
Além de correr o risco de se ver apanhado no meio do tiroteio das sanções, o recuo diplomático (promovido à força) sempre causa um certo “gosto de cabo de guarda-chuva” na “boca” de qualquer nação.
É muito mais importante analisar o que o Brasil teria a ganhar com a venda de urânio e de tecnologia ao Irã, nesse momento, além de pesar as péssimas experiências que já tivemos ao negociar com países da região (Iraque e Arábia Saudita).
Na época, o Brasil era o terceiro maior produtor mundial de tecnologia militar e tinha produtos invejados e temidos (até pelos EUA) como o lançador de mísseis Astros II (visto como arma perigosíssima pelos americanos durante a Primeira Guerra do Golfo e na Guerra Irã – Iraque).
Ao “negociarmos” esses produtos por lá, o resultado foi um enorme calote e a negativa de aval para financiamentos prometidos que levaram a nossa indústria bélica à falência e à extinção em matéria de poderio e de negócios internacionais.
Cuidar para que a história não se repita, agora com reflexos ainda mais graves, é o que se espera do Itamaraty e do governo brasileiro. Muito mais do que simpatias ideológicas, o Brasil deve sempre primar por seus interesses como nação e pesar se o relacionamento com esse ou outro País nos trará reais benefícios ou meramente dores de cabeça.
*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica
Por Arthurius Maximus*
O Brasil gastou alguns milhões de reais para levar o Presidente Lula para uma fantasiosa excursão turística ao Oriente Médio. Entre gafes e erros táticos o saldo ficou apenas nisso: gastos desnecessários.
Lula, em sua ilusão arrogante de que é “o mediador”, deixou clara sua posição pró-palestina, “pisou” em um dos mais caros símbolos dos nacionalistas israelenses e, ao mesmo tempo, sepultou qualquer chance do nosso País ter mesmo algum papel na mediação do conflito.
Nada mais justo para coroar a mais infame campanha de nossa diplomacia desde que o Brasil foi “descoberto”.
Hoje, para ser embaixador ou diplomata, não é mais necessário dominar um idioma estrangeiro (nem mesmo o inglês – a linguagem universal da diplomacia).
Além disso, o próprio Celso Amorim deixou de lado a tradição de imparcialidade que o cargo exige para filiar-se ao PT. Se para um “cidadão comum” não influenciaria em nada, para um funcionário de carreira de Estado, que exige neutralidade absoluta, a filiação a uma agremiação política e a uma determinada ideologia pode, antes de qualquer coisa, trazer influências nefastas para um ambiente que deveria ser, em primeira análise, neutro.
O apoio irrestrito a ditadores africanos condenados por genocídio, o flerte com intolerantes árabes (que assumem queimar livros em praça pública), as declarações constantes e equivocadas em defesa do Irã e de seu programa nuclear suspeitíssimo (no mínimo) e a indefectível parcialidade em relação aos presos políticos cubanos e às atrocidades antidemocráticas cometidas na Venezuela, fizeram do Brasil uma piada em matéria de política internacional, nos renderam inúmeras condenações de organismos internacionais respeitados e acabaram por sepultar qualquer intenção do País em conseguir o tão sonhado assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU.
Mesmo assim, a arrogância e o enorme séquito de bajuladores seguem assolando o Presidente Lula e cegando nosso mandatário para os reflexos (e para o ridículo) que os rumos de nossa política externa terão.
No mais novo (e triste) episódio, o representante brasileiro no Fundo Monetário Internacional – FMI –, Paulo Nogueira, “expulsou” e “demitiu”, como se sua emprega fosse, a representante da Colômbia no FMI. Pelo telefone, Nogueira exigiu que Maria Inés Agudelo abandonasse seu escritório em 24 horas. Não satisfeito, ainda enviou uma notificação ao Presidente do Banco de La República (o BC de lá) exigindo que enviassem currículos de novos candidatos para a sua apreciação.
Não é à toa que, ante a descoberta do sonho secreto de Lula de tornar-se Secretário-Geral da ONU, o mundo apenas gargalhe e esperneie convulsivamente diante de tamanha pretensão.
Afinal de contas, o despreparo, o destempero e a falta de qualquer senso ético norteiam a atual diplomacia brasileira, incapaz sequer de mediar um imbróglio entre Argentina e Uruguai, e colocam em xeque a capacidade decisória do Presidente e de seus assessores em qualquer coisa que não seja relacionada a um embate “Corinthians versus Palmeiras”.
Falta a Lula um assessor que tenha peito de dizer-lhe ao pé do ouvido:
“Menos presidente… Menos…”
*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica
Por Raphael Machado Silva*
Ao se falar em Civilização Ocidental, é demasiado comum fazer-se referência aos Estados Unidos da América como o ente paradigmático e simbólico desta Civilização. Não são apenas os americanófilos que exaltam os EUA como os guardiões dos “valores” do Ocidente, mas mesmo seus opositores utilizam os termos “EUA” e “Civilização Ocidental”, como se fossem termos intercambiáveis; como se fossem sinônimos. Essa semântica caduca origina-se na Guerra Fria, a qual é representada por muitos historiadores e analistas como uma oposição entre um “Oeste” e um “Leste”, ou seja, entre um “Ocidente” e um “Oriente”.
Porém, seria tão ignóbil chamarmos o mundo soviético de “Civilização Oriental”, como o é chamarmos o mundo americano, o mundo americanizado e globalizado, pós-Guerra Fria, de algo como uma “Civilização Ocidental”. A noção dos EUA, ou do Oeste geográfico, como representante ou parte daquilo que autenticamente pode se chamar de Civilização Ocidental não passa de uma grave falácia, derivada da total ausência de consciência histórica que aflige os intelectuais modernos.
Inicialmente, pode-se dizer que esse grave equívoco possui como uma de suas raízes a falsa questão da concepção linear-progressiva da história. Os adeptos das religiões ideológicas da modernidade possuem a utópica e patológica tendência de assumir que há um sentido moral positivo na mera sucessão de momentos fáticos, ou seja, a passagem do tempo histórico representa um “progresso” ou “evolução”, uma continuidade absoluta a qual tende à perfeição da inércia absoluta, ou seja, ao “Fim da História”. Uma genealogia dessa concepção ridícula facilmente demonstra que ela se origina da concepção religiosa judaico-cristã da história, a qual é fundamentalmente messiânica. Liberais e marxistas são idênticos nessa crença. Em verdade, segundo muitos liberais nós já estamos muito próximos desse momento.
À parte o fato de que qualquer análise rigorosa da História demonstra sem sombra de dúvidas que os fatos e entes históricos se manifestam em movimentos cíclicos, os quais sempre possuem uma tendência decadencial, e que a noção de “progresso”, portanto, não passa de uma medíocre mitologia, o que se pode afirmar é que entende-se que a “Civilização” Americana é a Civilização Ocidental, simplesmente pelo fato de que a primeira sucedeu temporalmente a segunda no mesmo espaço geográfico anteriormente ocupado por esta.
Um estudo das origens e fundações dos EUA revela com clareza, porém, que ao invés de representar uma continuidade e, posteriormente sucessão, o surgimento dos EUA representa em verdade um rompimento absoluto com o Ocidente de até então. Se, portanto, as raízes filosóficas e ideológicas dos EUA são anti-ocidentais, só se pode concluir que o Mundo Americano, ou seja, o Mundo Contemporâneo, talvez seja um Anti-Ocidente.
Os EUA e o Mundo Contemporâneo, com seus valores iluministas e humanistas, não são um “desenvolvimento” das fundações civilizacionais ocidentais, as quais residem no Mundo Greco-Romano e na Idade Média. Ao contrário, não passam do fruto de uma caducidade patológica espiritual, essencialmente movidas por uma lógica de degeneração, cuja finalidade só pode ser a auto-destruição.
Não é ao menos possível dizer que o Mundo Americano constitua realmente uma Civilização, (por isso as aspas no título), pela total ausência de uma autêntica Ordem em seus desdobramentos históricos. A “Civilização” Americana não representa Ordem alguma, ao contrário, ela é exatamente a ausência de qualquer Ordem. Mais do que isso, a “Civilização” Americana é a ausência de todo e qualquer sentido não-material da existência. A “Civilização” Americana é, essencialmente, a “Civilização” da Ausência. A Modernidade (ou Americanidade; são sinônimos) constitui exatamente aquilo contra o quê Nietzsche alertou e que ele batizou de “Niilismo Passivo”.
A Modernidade é a rejeição de todos os valores autênticos, ou seja, Tradicionais e Orgânicos. Porém, ela não é sua substituição por Ideais superiores, mas sim a ausência de qualquer proposta de superação, e até mesmo da própria possibilidade de se conceber a proposição de Ideais civilizatórios normativos. Sem sentido para a própria existência, a não ser a da própria perpetuação, a “Civilização” Americana é uma “Civilização” fadada ao fracasso, à ruína e ao esquecimento. Em troca dos Velhos Ideais, pelos quais acreditava-se valer a pena matar e morrer, ganhamos apenas uma “Tábua Moral” de valores negativos.
Não é à toa, portanto, que o homem moderno seja um completo covarde. Mesmo quando ele faz a guerra, ele não a faz como guerreiro, mas como mercenário. O homem moderno só crê na guerra e só a abraça, quando ele já se visualiza como absolutamente superior ao inimigo. Apenas quando ele sabe que o inimigo não tem chances, é que ele luta, a exemplo dos israelenses, que se regozijam massacrando palestinos armados com pedras, mas que choram quando são imigrantes na Europa e se veem sob a ameaça de nacionalistas.
É esse sentido pervasivo de Ausência, de Perda, que gera aquela constante sensação de angústia, da qual padece a maioria dos indivíduos nesse contexto. Essa é a razão pela qual o homem moderno está em uma constante busca do prazer. Por meio do bombardeio de estímulos sensoriais, o homem moderno busca anestesiar o sofrimento existencial generalizado da Modernidade. Não fosse isso, ele se atiraria de uma ponte, tornar-se-ia um louco (para ser internado por psicanalistas freudianos), ou viraria um revolucionário com sede de Sangue. Será coincidência o fato de que nunca tanta gente viveu à base de remédios?
Mas não é exatamente a maior parte da Humanidade ocidental que se encontra doente. É sua “Civilização” que é doentia. Ela não passa de um inverno, de um longo processo de agonia que antecede um ocaso, a qual, se houver homens de Valor, será sucedida por uma nova primavera, e uma nova civilização, a qual realmente representará um resgate de Velhos Ideais, que criem um novo Sentido para a Existência.
Já sei então como devo chamar a partir de agora aquilo que até então eu chamava “Civilização” Americana. A chamarei de “Patologia Americana”.
Pena faltarem, aparentemente, os Médicos adequados…
*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva às terças
Por Raphael Machado Silva*
Após a queda da União Soviética, com a consequente fragmentação de seu Império, a Rússia caiu em uma espiral de caos, desordem, corrupção e decadência que durou ao menos 10 anos. Aparentemente, a Guerra Fria havia sido ganha pelos EUA. Só havia restado uma grande potência de pé e alguns diziam que seria assim “para sempre”. A “história havia chegado ao seu fim”.
Após a ascenção de Putin ao poder na Rússia, porém, esse quadro tem mudado radicalmente. De modo lento, porém progressivo e incontível, a Rússia volta a assumir sua posição de direito como uma grande potência e como rival dos Estados Unidos da América e da China na disputa pela hegemonia global.
Putin tem conseguido efetivamente perseguir e capturar a maioria dos grandes oligarcas russos que lideram as máfias, os quais são todos ex-comissários e ex-burocratas comunistas, que aproveitaram a derrocada do regime soviético para “abocanhar” a maior parte do país por uma “pechincha”. O líder russo realiza constantes programas e toma iniciativas visando aumentar a fertilidade e a natalidade dos russos étnicos. Ordenou a expulsão de milhões de imigrantes ilegais. Começou a treinar adolescentes em campos militares. Venceu uma guerra contra a Geórgia e aumenta sua influência sobre seus vizinhos e sobre toda a Europa, graças ao fato de ser o principal fornecedor de gás no continente europeu.
Como era de se esperar, porém, o fortalecimento interno da Rússia e suas iniciativas na direção de um fortalecimento externo a colocam cada vez mais em choque com os interesses americanos. Ainda que nem Rússia e nem os EUA sejam tão hegemônicos hoje como eram nas décadas da Guerra Fria, ainda assim ambos recomeçaram um lento jogo de xadrez em busca da solidificação de áreas de influência.
Por enquanto os principais palcos de enfrentamento têm sido Europa e Oriente Médio, porém, cada vez mais a América do Sul se revela uma região estrategicamente importante para qualquer projeto hegemônico global. As condições naturais globais elevam cada vez mais o valor estratégico da posse de recursos energéticos e estes a América do Sul e, principalmente, o Brasil possuem em abundância.
Até então, o principal parceiro estratégico e econômico da Rússia tem sido a Venezuela. Porém, como apontou o jornal russo Pravda recentemente, a utilidade de uma parceria com a Venezuela é bastante limitada por conta da instabilidade e dos riscos que o referido país apresenta a uma proximidade econômica internacional, além do fato de que, aos olhos dos russos, parece que o único interesse venezuelano está na compra de armamentos. É inevitável, portanto, que o Brasil se torne nos próximos anos a principal arena de disputas de influência entre Estados Unidos e Rússia, graças a sua posição como potência regional e como importante fonte de recursos energéticos na América do Sul.
Para que o Brasil aproveite essa situação ao máximo, ele deve cessar de tomar atitudes diplomáticas unilaterais e tentar ser o mais equilibrado possível, durante o máximo de tempo possível, tirando proveito dos interesses russos e americanos, evitando nos comprometer com qualquer dos lados dessa rivalidade.
Infelizmente, me parece que a diplomacia brasileira é demasiadamente inexperiente nessa arte, sempre entregando-se “de corpo e alma”, ou a um lado, ou a outro.
* Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças
Caríssimos leitores,
Se inicia hoje mais uma possibilidade de interação entre os leitores deste blog, que já recebem considerável atenção deste blogueiro. Digo considerável pois, embora ela seja muito grande, sempre há o que melhorar.
Abro espaço nesta postagem para um artigo do leitor Carlos Robson, que, nele, trata sobre a questão das críticas ao Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e ao fato dele ter sido recebido com pompa e circunstância em nosso País. No artigo, Robson questiona a validade deste posicionamento crítico que, para ele, pode ser um tanto hipócrita.
É um prisma a ser observado.
Dito isso, confiram o texto de nosso leitor que, como todos os outros, pode agora, além de comentar sem moderação e ter a certeza de ter seu comentário respondido, submeter artigos ao blog.
Outra visão sobre Ahmadinejad
Carlos Robson*
Com a controvertida visita de Armadinejad ao Brasil foram gerados muitos protestos e críticas, porém, as motivações em jogo na verdade não se enquadram na política nacional.
Para os israelitas, tudo é claramente motivado por sua política, e não pela nossa. No que tange os homossexuais, a crítica é puramente religiosa. E, para os que foram no vácuo, a reclamação é preconceituosa mesmo.
Aos que criticam, não importam os acordos comerciais e nem tecnológicos, aliás, para os EUA e Israel isso tudo é muito incômodo, pois um inimigo que estava quase isolado agora encontra “um palanque no Brasil”.
O professor Peter Demant, holandês, doutor em seu país sobre a colonização israelense, morou e pesquisou em Jerusalém, chegando ao Brasil em 1999, e desde então, leciona Relações Internacionais e História da Ásia na USP. Ele defende que o mundo muçulmano historicamente apresentou um comportamento muito mais tolerante para com suas minorias do que o mundo cristão com as minorias na cristandade.
Podemos lembrar que ambas as religiões são monopolistas da verdade, expansionistas que, em princípio, querem converter todo o resto do mundo. Contudo, o Islã aceita o Judaísmo e o Cristianismo como antecedentes legítimos de sua própria religião, como formas um tanto modificadas da mesma mensagem de Deus. Assim, essas religiões têm um papel reconhecido e protegido dentro de uma sociedade religiosa, resultando em uma tolerância – mediante certas desqualificações sociais, econômicas e outras.
É claro que sempre temos a tendência de desqualificar a política, a cultura e a religião alheias e esquecemos que a verdadeira democracia, baseada na res publica (coisa pública), com certeza é o sistema político mais seguro contra ditadores e injustiças sociais. Pelo menos, era assim que deveria ser.
Porém, na nossa atual política ainda é muito comum o abuso do poder econômico para comprar cargos públicos e é praxe nas campanhas se falar em quanto custa se eleger para um determinado cargo político. Digo isso para que possamos aperfeiçoar nosso sistema antes de criticar o sistema dos outros.
Mas, voltando a Ahmadinejad, aposto que se fosse o Rei Abdullah bin Abdelaziz, da Arábia Saudita, a vir aqui, ninguém faria esse absurdo que alguns fizeram com o iraniano. E Abdullah sim é um ditador monárquico (mas como ele é aliado dos EUA não passa nada).
Será que ninguém nesse mundo vê as injustiças que acontecem com o povo árabe? Os EUA invadem os países deles, saqueiam e querem controlar a política e, daí, quando algum país sai de seu controle, eles usam toda a mídia mundial para encapetar uma nação (por que essa é a realidade – criaram uma imagem super negativa dos árabes).
Há maior terrorista no mundo do que George Bush filho? Eu não duvido nada que ele possa ter manipulado facções extremistas e fomentado aquele ataque de 11 de setembro para se reeleger e, depois, de quebra, ter apoio do povo americano para sua guerra pessoal e corporativa, já que as empresas de sua família são concorrentes dos xeques do petróleo.
Depois disso, fica a maioria dos ocidentais de cultura de “robôs papagaios” só repetindo o que a mídia norte-americana diz.
Daí, no subconsciente das nações ocidentais fica o arquétipo de Rambo, ou de Schwarzenegger e de outros patetas fuzilando os demônios árabes, enquanto o mundo ocidental, embriagado pela fascinação cinematográfica norte-americana, aplaude e aplaude, até hoje, embevecido.
Os retratam como a polícia do mundo, mas, na verdade, os EUA não são a polícia do mundo, senão os sabotadores. A Africa está lascada muito por culpa do governo americano que apoiou ditadores nesses países (tal como fez na America Latina no passado).
Duvidas? Assista ao controvertido e premiado documentário, ao estilo de Michael Moore, que fala sobre a influência americana na Líbia e resto da Africa. Verás de maneira clara quem são os “policiais do mundo”…
Não morra sem ver isto!
*Carlos Robson é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog
Por conta de todas as barbaridades defendidas pelo Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, a visita deste ao Brasil foi atacada por todos os lados. Pessoas de diferentes matizes ideológicos afirmam que é um absurdo que nosso País tenha recebido, com pompa e circunstância, um homem que nega o Holocausto.
Muitos comentários a respeito do caso dão conta de que trata-se de mais uma desventura da política externa brasileira. Estes somam a visita de Ahmadinejad a uma lista que conta com a conivência com relação às FARCs, o apoio a Hugo Chávez, o recebimento de Zelaya na embaixada brasileira em Honduras e a defesa de Cesare Battisti.
Pois bem. Acontece que a visita do Presidente iraniano torna necessário que se tenha muito mais maturidade do que a suficiente para analisar os casos de Zelaya, Battisti, etc, com precisão.
Por quê? Perguntarão alguns. Respondo: Porque as relações com as FARCs, com Chávez, com Zelaya e com Battisti têm viés fortemente ideológico. A visita de Ahmadinejad tem viés econômico.
Quando cito a maturidade quero dizer que é preciso deixar o asco nutrido por Ahmadinejad de lado por alguns instantes e analisar friamente o que a visita do iraniano representa.
É fato que as declarações de Ahmadinejad são absurdas? Sim, é. É impossível respeitar alguém que diz que o Holocausto não existiu e que em seu país não existem homossexuais? Com certeza.
Contudo, a questão não é essa. O ponto crucial a ser analisado é: Receber Ahmadinejad em seu País respalda as declarações deste Presidente e as suas teses abomináveis?
Quem critica Ahmadinejad e responde à minha pergunta com um sim reforça sua crítica. Mas é possível criticar Ahmadinejad e responder à minha pergunta com um não, o que não enfraquece a crítica ao líder iraniano.
O quero dizer é que, dependendo de como é gerenciada, uma visita de um líder estrangeiro condenável não representa defesa de seus valores. Justamente por ser econômica e diplomática, e não ideológica. É preciso que se tenha a noção de que esse viés analítico é plausível.
O que Ahmadinejad defende é em grande parte absurdo, com certeza. Mas o Presidente Lula não declarou nada que reforçasse os absurdos, ao contrário, alfinetou um deles, quando afirmou que o programa nuclear deve ser utilizado para fins pacíficos.
Nesse momento surgirá o comentário: Ora, mas Ahmadinejad foi eleito em um pleito fraudado e recebê-lo como líder iraniano legitima as eleições.
Isso é uma verdade. Inquestionável. Daí a dizer que isso reforça as teses de Ahmadinejad são outros quinhentos. Até porque a realidade é a de que Mahmoud é, infelizmente, o Presidente do Irã, doa a quem doer. E o Brasil não romperá relações com o Irã por conta disso.
Alguns poderão dizer: Ora, mas deveria romper!
Deveria? Será mesmo? Quando o Brasil era uma ditadura, que defendia um regime autoritário que assassinava, seria correto que rompessem com o Brasil? Talvez no que tange os princípios sim. Mas na prática não, porque isso não nos ajudaria em nada, ao contrário.
Em suma, o Brasil não passa a defender o que defende o Irã por se colocar como seu interlocutor. Ahmadinejad é abominável, mas recebê-lo ou não no Brasil é irrelevante quanto a isso.
Por outro lado, para a política externa brasileira, é sinal de crescimento receber em menos de um mês o líder israelense e o líder iraniano. Quando Bill Clinton recebeu tanto israelenses como palestinos em Camp David foi elogiado. Se os EUA recebessem Kim Jong Il para um diálogo estariam defendendo o regime esquizofrênico da Coreia do Norte?
E tudo isso que digo tem a explicação que é citada por mim no início: A relação é econômica e diplomática, e não ideológica.
Por isso é preciso maturidade. Por isso a crítica ao relacionamento com Chávez e com Zelaya não é a mesma que diz respeito a Ahmadinejad.
Com Chávez e Zelaya a relação do governo é ideológica. Há apoio das ações e dos ideais. A mesma coisa vale para a defesa de Battisti. O governo brasileiro atual é criticável nestes casos porque demonstra claramente apoiar o pensamento, ao invés de apenas estar se relacionando com a devida distância.
Com Ahmadinejad há mera conexão com a nação do Irã, que não pode ser extirpada de nossas relações por ser liderada por um idiota. Até porque, se assim fosse, em diversos momentos da história romperiam relações com o Brasil. Alguns diriam que isso valeria até mesmo para hoje.
Enfim, o encontro de Lula e Ahmadinejad é um caso para se pensar. Profundamente. A crítica superficial deve ser deixada de lado. O ponto principal é saber se receber o iraniano é, necessariamente, defender suas teses.
Talvez não seja.
É até complicado para mim, crítico feroz de regimes autoritários, levantar essa questão. Eu mesmo tenho certas reticências morais contra qualquer relação com Ahmadinejad.
Acontece que em certos casos é preciso, respeitados todos os princípios éticos, olhar além do óbvio.