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2ª Coluna do dia: Quando a paz não passa de uma utopia moral

07/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.

Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: O mito da igualdade (Parte II)

23/03/2010

Continuando o texto iniciado na coluna passada. Confira-o aqui

A ‘Igualdade’ é uma impossibilidade ontológica. Um ente é ele mesmo por conta de suas características individualizadoras. Eu sou ‘eu’, por conta daquilo que me diferencia de tudo que é ‘não-Eu’.

Toda a multiplicidade de entes se realiza como multiplicidade pela Diferença, pela Individualidade. Assim, retirando-se os elementos individualizadores, a ‘Diferença’, que é o meio de alcançarmos a ‘Igualdade’, a partir do momento que tivermos dois entes idênticos, não teremos mais dois entes, mas apenas um.

Se a Diferenciação é o que gera a multiplicidade de entes, ou seja, aquilo a que chamamos ‘Universo’, ‘Realidade’, a desconstrução das diferenças entre os entes só pode ser vista como uma tentativa de se engajar em um processo de destruição do Universo. O ‘Igualitarismo’, é uma teologia ‘Anti-Vida’, uma teologia da destruição.

Não possuindo base natural, ou seja real, o Mito da Igualdade só pode se sustentar por meio da coação oficial do Estado, ou por meio das formas difusas de coação, originadas da infra-estrutura social, principalmente dos meios de comunicação e da educação. A principal demência derivada do Mito da Igualdade consiste exatamente na crença de que ‘se não há igualdade, isso é um erro, pois deveria haver’, e agir com base nesse preceito teológico, sustentando e tentando impor a ‘Igualdade’ frente a uma Realidade indiferente e hostil aos retardos supersticiosos dos homens.

‘Se não há igualdade, deveria haver’. Por quê? Por quê deveria haver igualdade? De onde se pode retirar a legitimidade para se estabelecer como Juiz da Natureza? Não se pode. Isso não existe onde há qualquer tipo de reflexão autêntica. E como se pode derivar um ‘dever ser’, de um ‘não ser’? Não se pode. Não há qualquer elo de necessidade, seja lógico, ontológico ou existencial, entre esses dois juízos.

Inevitavelmente, a única fundação possível, a única fonte de legitimidade para esse juízo falso, é novamente a teologia cristã, a superstição bárbara. Se os homens possuem uma ‘essência’ igual.

Se todos os homens são iguais em um plano abstrato, seja teológico, seja racional, então deve-se fazer o possível para atualizar essa potência igualitária metafísica na realidade, como se estivesse a criar um ‘Paraíso na Terra’, como se quisesse promover a materialização da ‘Jerusalém Celeste’.

Vê-se, portanto, que o ‘Mito da Igualdade’ possui fortes características messiânicas e escatológicas, principalmente por estar intimamente associada a outro Mito, o do ‘Progresso’.

As consequências sociais dessa teologia anti-humana são evidentes. Todos os entes só podem ser aquilo que são, e nada mais. Sendo as diferenças entre os entes ontológicas e essenciais, qualquer tentativa de se gerar igualdade só pode ser efetuada nos entes que se diferenciam nos graus de uma mesma qualidade.

Ocorre, porém, que o que é inferior em grau em uma certa característica, não pode se elevar para além dos limites da própria capacidade. Ao contrário, o que é superior em grau, pode se rebaixar, pois já guarda consigo, a priori,  todas as gradações que lhe são inferiores.

Isso significa basicamente que todo processo de equalização se realiza exclusivamente mediante uma ‘nivelação por baixo’, por uma mediocrização imposta ao que é superior, para que ele se aproxime do que é inferior.

Pensemos um cavalo de corrida e um ‘burrico’. Queremos torná-los iguais. ‘É injusto que o cavalo de corrida possa correr mais que o burrico! O burrico não merece isso!’. Que faremos então?

Poderemos tentar ‘educar’ o burrico a correr como um cavalo de corrida.

Logo perceberemos, porém, que isso é impossível.

O ‘burrico’ poderá correr um pouco mais do que já corre, mas apenas dentro das limitações apriorísticas já contidas nas próprias potencialidades dele mesmo.

Se ao invés de nesse momento percebermos que a ‘Igualdade’ é um engodo e resolvermos sabiamente que o cavalo de corrida e o ‘burrico’ devem ser utilizados naquilo que cada um tem de seu, ao invés de equalizados, quisermos continuar nesse projeto igualitário demente, qual será a opção restante? Aleijar o cavalo de corrida. Apenas assim será conquistada a Igualdade.

Parece, porém, que a maioria das pessoas crê em algo que não só é impossível, como também prejudicial para a sociedade. As razões para essa crença são duas apenas.

A primeira é a soma do ressentimento e da inveja daqueles que enxergam a si mesmos como incapazes frente a semelhantes mais afortunados. O desejo pela ‘Igualdade’ nesse caso não passa de manifestação de um medíocre sentimento vingativo.

A segunda, o desejo por ‘Igualdade’ dos que não são incapazes, surge a partir de um auto-destrutivo senso de ‘piedade’, e de uma deficiência mental, uma ‘dissonância cognitiva’.

Inevitavelmente, esse Mito levará o Ocidente à ruína. Será uma ruína merecida, porém. Restará, para os que sobrarem, a missão de construir uma nova civilização sobre fundações mais sólidas.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: O mito da igualdade (Parte I)

17/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

“A pior forma de injustiça é tentar tornar iguais coisas desiguais” – Aristóteles

Toda sociedade se estrutura ao redor de Mitos fundadores. Mito não é, como pressupõe o vulgar vernáculo racionalista, sinônimo de ‘mentira’. Não é uma ‘mentira’ porque não é uma narrativa de um fato histórico, e não sendo narrativa de um fato histórico não pode ser dito nem ‘verdadeiro’, nem ‘falso’, a partir de uma perspectiva historicista.

Um Mito é um continente (no sentido de uma forma que contém um conteúdo, não no sentido geográfico, obviamente…) de relações entre entes, dotado de máxima significação por uma valoração realizada pela Vontade de um Povo.

Um Mito é uma representação simbólica do impulso fundador e conduzente de uma sociedade, justificando o surgimento daquela sociedade e estabelecendo todas as pautas culturais, as quais a mesma deverá obedecer em seu desenvolvimento.

O fato de não ser uma narrativa de um fato histórico, porém, não isenta um Mito de ser objeto de um juízo de ‘verdade’. Apenas altera o âmbito no qual tal juízo deve ser realizado.

A ‘verdade’ de um Mito está contida em sua capacidade de ‘afirmar a Vida’ do Povo no seio do qual ele surgiu, ou seja, de promover a expansão e fortalecimento das potencialidades criativas de um Povo e de sua vitalidade. Um Mito incapaz de afirmar a Vida, ou que faça o contrário, é necessariamente auto-contraditório e, portanto, falso.

O Mito, portanto, para ser válido deve ser eminentemente realista enquanto Idéia. A negação das verdades existenciais eternas do Homem, dos seus fundamentos existenciais, constitui propriamente ‘negação da Vida’ e já identifica intuitivamente um Mito como absolutamente falso.

Um Mito é uma realidade simbólica eternamente presente em todas as sociedades, independentemente de seu ‘nível tecnológico’, de seu ‘progresso material’, ou de seu posicionamento frente à religiosidade. Existirá tanto em tribos primitivas e supersticiosas quanto em sociedades cientificistas e atéias.

Entre os muitos Mitos que ocupam uma posição central nas sociedades ocidentais modernas, o principal e o mais nefasto de todos é o Mito da Igualdade. Nenhum outro Mito é mais fanaticamente defendido, e nenhum pode ser tão ridiculamente falso e prejudicial às sociedades nas quais ele virulentamente se instala, como este.

Esse Mito pode ser formulado de duas maneiras. Ou ‘todos os Homens são iguais’, ou então, ‘todos os Homens não são iguais, mas deveriam ser.’ A primeira é simplesmente uma formulação míope e selvagem, a segunda é uma formulação covarde dos que, tendo sido forçados a reconhecer a surrealidade da crença na Igualdade, tentam salvar o Mito transplantando-o retoricamente para o âmbito do ‘dever-ser’.

Esse afastamento metafísico da Igualdade, que constitui verdadeira sacralização, possui o interessante condão de nos revelar as autênticas origens desse curioso Mito.

Tendo sido apresentado ‘filosoficamente’ ao Ocidente por meio da tradição iluminista, a qual supostamente deveria ser superior à tradição medieval por ser ‘racionalista’ e ‘atéia’, o Mito de Igualdade parece possuir algum tipo de ‘aura de respeitabilidade’, como se o fato desse Mito se originar de uma tradição racionalista o tornasse ‘real’, ou ‘mais real’.

O Mito da Igualdade, desconhecido na Antiguidade, está originariamente enraizado, porém, exatamente na tradição teológica da cristandade medieval e são exatamente as ciências empíricas as fontes dos principais ‘embaraços’ constrangedores dos seguidores dessa teologia contemporânea. Aparentemente, os iluministas e todos os seus herdeiros simplesmente rejeitaram aquilo que há de mais acessório no Cristianismo, a crença em Deus, permanecendo profundamente supersticiosos e cristãos em tudo aquilo que é filosoficamente relevante.

Constantemente, porém, nós somos colocados frente à realidade da profunda e radical desigualdade entre todos os homens em suas aptidões, e com o ‘problema’ de que, inevitavelmente, haja homens mais capazes do que outros.

Não digo apenas homens capazes em uma certa atividade, e outros homens capazes em outras, mas sim homens absolutamente mais capazes do que muitos outros em todas as áreas. Poucos exemplos são tão simples e claros, como o da criança que consegue notas excelentes sem estudar, enquanto seu colega se esforça profundamente em seus estudos conseguindo no máximo apenas resultados medianos.

Como subterfúgio covarde, os igualitaristas então são obrigados a recorrer a uma variação da ‘igualdade metafísica’ da teologia cristã. Segundo a teologia cristã, os homens são ‘iguais diante de Deus’, possuem exatamente ‘almas idênticas’, e, portanto, todas as diferenças entre os homens são apenas contingentes, relativas e efêmeras. Os homens seriam iguais no Paraíso, na Eternidade.

Analogamente, os igualitaristas que reconhecem a desigualdade natural entre os homens, afirmam que por sua vez existe algum nebuloso tipo de ‘igualdade moral’, que reside em algum ‘plano abstrato’ e que, por isso, os homens deveriam ser ‘tratados’ com igualdade, formulações metafísicas estas que eles são incapazes de explicar e justificar. Em verdade, dificilmente alguém verá um (pseudo) filósofo ou pensador igualitarista até mesmo se dispor a justificar suas crenças. Nem Rousseau, nem qualquer dos iluministas fez algo similar, para além de balbuciarem algumas semi-explicações insatisfatórias.

Em geral, tais justificativas tentam se apoiar na noção de uma ‘Razão’ como faculdade abstrata e universal. Ocorre que a tal ‘Razão’ como faculdade abstrata tampouco existe. O que existe é a ‘Razão’ como instrumento cognitivo prático, a qual é tão universal aos homens quanto sua ‘Altura’. Todos possuem alguma ‘Altura’. Também, todos possuem algo como uma ‘Razão’. Porém, assim como os homens possuem alturas variáveis, a qualidade desse instrumento cognitivo chamado ‘Razão’, também é absolutamente individual e variável entre os homens.

Não há, portanto, qualquer parâmetro possível para um estabelecimento de uma Igualdade entre os homens, a não ser recorrendo-se às superstições teológicas. Repetindo mais claramente: A Igualdade é uma mentira, uma farsa, um engodo, uma trapaça, uma tramóia. Não possui qualquer fundamento real, jamais teve, nem jamais poderá ter. Quem crê na ‘Igualdade’, ou está fingindo, ou simplesmente sofre de dissonância cognitiva. As sociedades modernas estão, então, fundadas numa farsa e são, consequentemente, eminentemente decadentes e filosoficamente ‘más’.

Continua na semana que vem…

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: O politicamente correto, o marxismo cultural e as suas origens comuns

03/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

Feminismo, “movimento” gay, “movimento” negro. Parece que, quanto mais o tempo passa, mais brotam esses grupos de interesse, ditos minoritários, cuja única e exclusiva finalidade é extrair vantagens e benefícios da sociedade como um todo, esmagando, legalmente ou não, toda e qualquer oposição queapareça.

Em verdade, a proliferação desses lobbies das “minorias vitimizadas” é de tal monta que, contraditoriamente, às vezes chega a ser possível supor que essas tais minorias, dignas de adulação, são majoritárias. Subitamente, todos começam a se sentir no direito de fazer exigências absurdas para assim satisfazerem seu patético senso de auto-importância.

A existência desses grupos minoritários, dignos de vantagens e benefícios, por conta de alguma suposta injustiça histórica a qual os “dignifica” moralmente a tal ponto de ser impensável criticá-los, é parte essencial do fenômeno aberrante do Politicamente Correto, uma praga ideológica totalitária que tomou o Ocidente de assalto, submetendo-o de tal modo a até mesmo paralisar suas forças.

Mas será esse fenômeno um desenvolvimento natural e espontâneo de nossa civilização, ou terá seu surgimento tido um caráter intencional? Pois bem, o conhecimento do histórico dessa ideologia só poderá fazer com que nos inclinemos à segunda opção.

Ocorre que, o próprio termo ‘Politicamente Correto’ é demasiado recente, e surgiu como uma espécie de ‘sarcasmo’ com relação às incongruências irracionais e aberrantes geradas pela referida ideologia. Seu nome original era ‘Marxismo Cultural’, ou seja, Marxismo transplantado da economia para o âmbito da cultura. Isso pode ser confirmado tranquilamente caso se realize uma comparação entre os elementos fundamentais do Marxismo Ortodoxo e os do ‘Politicamente Correto’. As analogias são claras.

Em primeiro lugar, ambas ideologias possuem confiança em um único fator como sendo supostamente capaz de explicar o todo da História. Para o Marxismo Ortodoxo, todo o devir histórico é determinado pela posse dos meios de produção, e apenas por isso. Para o Marxismo Cultural, apenas a noção de ‘poder’ é capaz de explicar a história. Tudo se remete a ‘quem tem poder sobre quem’, ‘quem submete quem’. Tudo na história deve ser entendido com base nesse conceito superficial.

Em segundo lugar, assim como no Marxismo Ortodoxo alguns grupos são, a priori, absolutamente bons, como o campesinato e o proletariado, enquanto outros são absolutamente maléficos, como os burgueses e os donos dos meios de produção, no Marxismo Cultural alguns grupos também são absolutamente bons, como as mulheres feministas, os negros e os homossexuais. Esses ao construírem artificialmente para si o papel de ‘vítimas históricas’, automaticamente se convertem em ‘bons’ e todos os seus atos são excusáveis, não importa quais sejam, já que, o que quer que eles façam é feito apenas em ‘reação aos opressores’. No Politicamente Correto, portanto, homens brancos e heterossexuais são a personificação do Mal, sendo o equivalente cultural da Burguesia.

Em terceiro lugar, tanto a prática comunista ortodoxa como a prática marxista cultural se dão por meio da expropriação. Os comunistas em todos os países em que eles chegaram ao poder se impuseram por meio da expropriação forçada dos bens de praticamente todas as classes, incluindo até mesmo os dos camponeses. A expropriação do Politicamente Correto, por sua vez, se dá por meio das ‘ações afirmativas’. Quando um aluno branco, superiormente qualificado, tem sua admissão a uma universidade negada em razão de cotas ele está sendo expropriado de um direito seu.

A expropriação do Marxismo Cultural pode se dar ainda por meios mais maléficos e sorrateiros. Quando acadêmicos acéfalos ou lobbies de minorias histéricas impõem a demonização do suposto ‘opressor’, por meio da distorsão da história, da invenção de vitimizações e sofrimentos míticos e pela falsa representação de aspectos e características de um povo, o que está ocorrendo é uma autêntica expropriação histórico-cultural. O ‘opressor’ tem sua história e sua cultura roubadas de si, e passa a ser obrigado a aceitar a versão de sua própria história construída pela ‘vítima’, não importando o quanto esta versão seja distorcida, e se submeter a martírios e auto-flagelos de arrependimento e culpa, entregando voluntariamente toda forma de vantagens e benesses às vítimas como forma de ‘compensação’ por ‘crimes desumanos’. Nesse aspecto, a lavagem cerebral completa exercida contra o povo alemão após 1945 é o melhor exemplo.

Outras analogias podem ser encontradas, como o fato de ambas ideologias utilizarem métodos de ‘análise’ designados para apresentarem apenas os resultados já previamente esperados, ou de ambas ideologias serem eminentemente totalitárias e seus adversários serem perseguidos, mesmo no âmbito do ‘Estado Democrático de Direito’, haja vista a crucificação moral e profissional nos altares totalitários do Politicamente Correto de James Watson, um dos maiores biólogos do século XX, ganhador do Nobel, apenas pelo mesmo ter feito afirmações completamente factuais e comprovadas a respeito do QI.

As analogias, porém, não são coincidências, mas sim completamente intencionais. Mais: O Marxismo Cultural é a evolução do Marxismo Ortodoxo, tendo sido exatamente o meio pelo qual o Marxismo alcançou sua vitória absoluta sobre o mundo.

Tudo deriva do fato de que o Marxismo Ortodoxo estava eivado de incontáveis falhas, principalmente no que concerne sua previsão do futuro. Supostamente, as guerras geradas pelo imperialismo europeu levariam necessariamente a uma revolução mundial. A guerra veio em 1914, a revolução russa em 1917. Mas a Revolução Mundial nunca veio. O proletariado escolheu o Nacionalismo, ao invés de míticas elocubrações falsas e abstratas a respeito de internacionalismos e ‘solidariedade de classe’. Marx estava, como em quase tudo o mais, redondamente enganado.

Que fizeram então os Marxistas mais inteligentes, como Antonio Gramsci? Chegaram à conclusão de que o proletariado jamais visualizaria seus interesses até que fosse ‘libertado das amarras da Cultura Ocidental’.

Começa assim a defesa e propagação intencional de todos os ímpetos antagônicos em relação ao superior Espírito da Civilização Ocidental. Por meio da fusão alquímica entre Marx e Freud, os teóricos do Marxismo Cultural começam seu ataque sobre as instituições tradicionais do Ocidente.

O Marxismo Cultural entende que todos os laços identitários involuntários, como sexo, raça ou nação, são ‘tirânicos’ e que, portanto, esses laços devem ser ‘desconstruídos’.

A Identidade sexual, por exemplo, por meio da invenção de um antagonismo entre os sexos, por meio da defesa do homossexualismo, pelo incentivo à promiscuidade (‘liberação sexual’) e pela inversão dos papéis sexuais tradicionais. Temos aí a “grande” contribuição de Sigmund Freud para a Humanidade.

Inúmeras outras formas de estratégias de destruição foram desenvolvidas para desintegrar as diversas formas de Identidade: incentivo à imigração, à miscigenação e ao multiculturalismo; defesa de um promíscuo ‘ecumenismo’ religioso, de bizarrices esotéricas new age e do ateísmo materialista; defesa de um ‘mundo sem fronteiras’ e do ‘fim dos Estados-Nações’; defesa do aborto; defesa do pacifismo e do desarmamento civil; assim como várias outras estratégias cuja única finalidade é dissolver as instituições tradicionais, enfraquecer a resolução, os ímpetos e instintos dos ocidentais e lhes empurrar semi-voluntariamente na direção do ‘Paraíso Marxista’.

Esse é exatamente o nosso statu quo ideológico. Pior: A maior parte dos itens acima são hoje vistos como parte de um ‘senso comum’, para o horror, estupefação e gargalhadas histéricas de nossos ancestrais, os quais sabiam mui acertadamente que cada um dos pontos acima é radicalmente anti-natural, anti-produtivo e completamente contrário à manutenção de sociedades estáveis, saudáveis, fortes e civilizadas.

A maior glória e a maior prova do sucesso estratégico marxista é que o Marxismo Cultural é absolutamente compatível com o Capitalismo. É exatamente essa a Síntese Hegeliana que supostamente colocará um ‘Fim na História’. O Marxismo Político-Econômico está completamente morto. Existe apenas em suas formas tribalistas nos sub-mundos bárbaros da América Latina e da África.

Enquanto ‘direitistas’ tolos se preocupam com o pateta Chávez, Hollywood realiza bombardeios contínuos de material Marxista Cultural, desde que Theodor Adorno, um dos principais ideólogos do neo-marxismo, se tornou ‘Consultor’ na Babel do Cinema na década de 30.

Em verdade, a atuação dos marxistas apenas eleva o poder e os lucros dos Grandes Capitalistas já que a dissolução dos laços identitários contribui enormemente para a formação de uma horda de escravos-consumidores completamente maleáveis, sensíveis a quaisquer estímulos propagandísticos, e que não se recusam a comprar um certo produto pelo mesmo ser ‘estrangeiro’.

A Tirania tem muitas faces. Não é por não cometer genocídios ou por ser ‘libertária’ que ela deixa de ser uma Tirania.

Basta apenas que ela esteja fundada na Ilusão.

*Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Reflexões sobre o politicamente correto e a liberdade da palavra

24/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Todo pensar se dá por meio da Linguagem. Ao longo dos tempos o ato de ‘dar nome aos entes’ tem sido o meio pelo qual o Homem integra um dado ente à sua Macro-Estrutura Cultural. Assim, as coisas existem para o Homem na medida em que elas possam ser representadas por signos linguísticos. A apropriação do ente pelo Homem por meio da Linguagem possui necessariamente um caráter coletivo, como o próprio Homem, o qual é reforçado pelas instituições sociais responsáveis por integrar um indivíduo na Macro-Estrutura Cultural.

A partir de então, todo o pensar do Homem sobre um ente integrado na Macro-Estrutura Cultural jamais será um pensar sobre o próprio ente, mas sobre a ‘Palavra’, o ‘termo’, o ‘signo’, o qual representa o ente, e que é apreendido culturalmente pela coletividade ao longo das gerações. Os limites do pensar humano são, portanto, os limites de sua linguagem. A Linguagem, por isso, não é apenas resultado de uma construção cultural coletiva, mas é ela própria fator de orientação e determinação da Cultura e Destino de um Povo, na medida em que representa absolutamente determinados valores, ideais, inclinações e aspirações.

Altera-se a Linguagem de um Povo, seja pela adição ou supressão de certas palavras, ou pela alteração das semânticas das palavras, e todo seu pensar, sentir e viver se verão radicalmente alterados. A Linguagem não é um mero instrumento de trocas, como sem dúvida supõem todos os pragmáticos, materialistas e racionalistas, mas mais do que os outros elementos culturais, é ela a própria fundação sobre a qual se ergue uma Civilização. Como afirmava Heidegger: ‘A Linguagem é a casa do Ser.’

Ab initio, por isso, toda iniciativa de se realizar qualquer alteração na Linguagem de um Povo, qualquer intromissão em seu ‘dicionário oficial’, já deveria ser vista com a mais intransigente e provinciana suspeita e aversão. Só deveria ser permissível uma tão audaciosa e perigosa iniciativa, após a realização e a autorização de um ‘Conselho de Sábios’, composto por filósofos, psicólogos, teólogos, sociólogos, antropólogos e todos os maiores especialistas do ‘Espírito’ humano, onde se verificaria com anos e anos de estudo exatamente que efeitos teriam tais alterações sobre a totalidade das experiências existenciais humanas.

Infelizmente, porém, isso é inconcebível quando os povos são governados por trôpegos e abismados proletários, ou por burgueses usurários e glutões. É completamente evidente que alterações com vistas a ‘simplificar’ uma Linguagem, ou ‘integrar e aproximar os povos’ terão inevitavelmente como efeitos a própria mediocrização do pensamento e o desenraizamento cultural dos povos vítimas dessa violência humana, demasiado humana.

Mas há males muito mais insidiosos na manipulação da Linguagem, principalmente no que concerne à semântica das palavras. Ocorre que, se as palavras por sua natureza como representativos símbolicos de entes, inclusive de Idéias, é garantidamente possível se realizar uma pesada e totalitária doutrinação ideológica por meio de alterações da Linguagem.

Se os limites da Linguagem, são os limites de nosso pensamento, então basta uma palavra representativa de uma Ideologia ‘tabu’ ou ‘perseguida’ ser riscada do dicionário e das menções oficiais, principalmente nos meios escolares e acadêmicos, para que aquela Visão de Mundo particular deixe de existir em algumas gerações, simplesmente por não poder mais ser ‘pensável’, ‘concebível’, ‘falável’.

Orwell, então, só pode ser visto como um verdadeiro visionário ou profeta. Ele com extrema argúcia descreveu esse instrumento do mais diabólico totalitarismo, o qual prescinde absolutamente de autoritarismos políticos, e que pode conviver tranquilamente com sistemas demo-liberais. A prova disso é que exatamente essa é a realidade em que vivemos, e são as instituições mais centrais do establishment demo-liberal as propagandistas mais fanáticas da ‘novilíngua’ politicamente correta, e os maiores inimigos das ‘verdades desagradáveis’, já desde os fins do século XIX, e mais aberta e fanática desde a década de 60 nos EUA e na Europa Ocidental.

Não há Liberdade quando se pré-determina que palavras podemos usar, que ideias podemos ter. A escravidão é absoluta quando certos elementos parasitários da sociedade realizam sua subversão por meio de distorsões semânticas. A ofensa, a rejeição, a raiva, a aversão, a diferenciação, o alto e sonoro NÃO!, são partes integrantes e essenciais da Vida e da Liberdade.

Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Terceiro Reich, havia dito em uma entrevista a um repórter americano que ele não se importava com as crenças e opiniões pessoais dos alemães, mesmo as contrárias, desde que essas discordâncias não se expressassem de modo aberto a ponto de atrapalhar a condução do Reich pelos Nacional-Socialistas. Para ele, líder da Gestapo e das SS, os alemães podiam ser livres para pensarem o que quisessem.

Na Modernidade Totalitária Demo-Liberal, a última trincheira de combate, nosso interior, nosso ‘Eu’, fonte de todas as Liberdades, foi tomado de assalto pelas distorsões históricas e pelas semânticas subversivas, cuja finalidade é fazer com que a ‘Revolução’ desabroche naturalmente a partir da própria ‘consciência’ das pessoas. Na Modernidade Totalitária ninguém é livre para pensar o que quiser. Aquele que pensa os ‘tabus’ é convencido a se submeter a um sentimento de culpa e vergonha, cuja única expiação é realizar a auto-violência mental de destruir a própria Identidade, os próprios ‘preconceitos’.

Todo discurso sobre ‘Liberdade’ em uma Tirania como a do Politicamente Correto, a qual governa todos os países do Ocidente, não passa de uma farsa quando a Liberdade Original, aquela que se origina da Ideia, do Logos, foi banida para ‘campos de reeducação’ ou calada violentamente por ser ‘fascista’ demais.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Uma crítica da “civilização” americana

10/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Ao se falar em Civilização Ocidental, é demasiado comum fazer-se referência aos Estados Unidos da América como o ente paradigmático e simbólico desta Civilização. Não são apenas os americanófilos que exaltam os EUA como os guardiões dos “valores” do Ocidente, mas mesmo seus opositores utilizam os termos “EUA” e “Civilização Ocidental”, como se fossem termos intercambiáveis; como se fossem sinônimos. Essa semântica caduca origina-se na Guerra Fria, a qual é representada por muitos historiadores e analistas como uma oposição entre um “Oeste” e um “Leste”, ou seja, entre um “Ocidente” e um “Oriente”.

Porém, seria tão ignóbil chamarmos o mundo soviético de “Civilização Oriental”, como o é chamarmos o mundo americano, o mundo americanizado e globalizado, pós-Guerra Fria, de algo como uma “Civilização Ocidental”. A noção dos EUA, ou do Oeste geográfico, como representante ou parte daquilo que autenticamente pode se chamar de Civilização Ocidental não passa de uma grave falácia, derivada da total ausência de consciência histórica que aflige os intelectuais modernos.

Inicialmente, pode-se dizer que esse grave equívoco possui como uma de suas raízes a falsa questão da concepção linear-progressiva da história. Os adeptos das religiões ideológicas da modernidade possuem a utópica e patológica tendência de assumir que há um sentido moral positivo na mera sucessão de momentos fáticos, ou seja, a passagem do tempo histórico representa um “progresso” ou “evolução”, uma continuidade absoluta a qual tende à perfeição da inércia absoluta, ou seja, ao “Fim da História”. Uma genealogia dessa concepção ridícula facilmente demonstra que ela se origina da concepção religiosa judaico-cristã da história, a qual é fundamentalmente messiânica. Liberais e marxistas são idênticos nessa crença. Em verdade, segundo muitos liberais nós já estamos muito próximos desse momento.

À parte o fato de que qualquer análise rigorosa da História demonstra sem sombra de dúvidas que os fatos e entes históricos se manifestam em movimentos cíclicos, os quais sempre possuem uma tendência decadencial, e que a noção de “progresso”, portanto, não passa de uma medíocre mitologia, o que se pode afirmar é que entende-se que a “Civilização” Americana é a Civilização Ocidental, simplesmente pelo fato de que a primeira sucedeu temporalmente a segunda no mesmo espaço geográfico anteriormente ocupado por esta.

Um estudo das origens e fundações dos EUA revela com clareza, porém, que ao invés de representar uma continuidade e, posteriormente sucessão, o surgimento dos EUA representa em verdade um rompimento absoluto com o Ocidente de até então. Se, portanto, as raízes filosóficas e ideológicas dos EUA são anti-ocidentais, só se pode concluir que o Mundo Americano, ou seja, o Mundo Contemporâneo, talvez seja um Anti-Ocidente.

Os EUA e o Mundo Contemporâneo, com seus valores iluministas e humanistas, não são um “desenvolvimento” das fundações civilizacionais ocidentais, as quais residem no Mundo Greco-Romano e na Idade Média. Ao contrário, não passam do fruto de uma caducidade patológica espiritual, essencialmente movidas por uma lógica de degeneração, cuja finalidade só pode ser a auto-destruição.

Não é ao menos possível dizer que o Mundo Americano constitua realmente uma Civilização, (por isso as aspas no título), pela total ausência de uma autêntica Ordem em seus desdobramentos históricos. A “Civilização” Americana não representa Ordem alguma, ao contrário, ela é exatamente a ausência de qualquer Ordem. Mais do que isso, a “Civilização” Americana é a ausência de todo e qualquer sentido não-material da existência. A “Civilização” Americana é, essencialmente, a “Civilização” da Ausência. A Modernidade (ou Americanidade; são sinônimos) constitui exatamente aquilo contra o quê Nietzsche alertou e que ele batizou de “Niilismo Passivo”.

A Modernidade é a rejeição de todos os valores autênticos, ou seja, Tradicionais e Orgânicos. Porém,  ela não é sua substituição por Ideais superiores, mas sim a ausência de qualquer proposta de superação, e até mesmo da própria possibilidade de se conceber a proposição de Ideais civilizatórios normativos. Sem sentido para a própria existência, a não ser a da própria perpetuação, a “Civilização” Americana é uma “Civilização” fadada ao fracasso, à ruína e ao esquecimento. Em troca dos Velhos Ideais, pelos quais acreditava-se valer a pena matar e morrer, ganhamos apenas uma “Tábua Moral” de valores negativos.

Não é à toa, portanto, que o homem moderno seja um completo covarde. Mesmo quando ele faz a guerra, ele não a faz como guerreiro, mas como mercenário. O homem moderno só crê na guerra e só a abraça, quando ele já se visualiza como absolutamente superior ao inimigo. Apenas quando ele sabe que o inimigo não tem chances, é que ele luta, a exemplo dos israelenses, que se regozijam massacrando palestinos armados com pedras, mas que choram quando são imigrantes na Europa e se veem sob a ameaça de nacionalistas.

É esse sentido pervasivo de Ausência, de Perda, que gera aquela constante sensação de angústia, da qual padece a maioria dos indivíduos nesse contexto. Essa é a razão pela qual o homem moderno está em uma constante busca do prazer. Por meio do bombardeio de estímulos sensoriais, o homem moderno busca anestesiar o sofrimento existencial generalizado da Modernidade. Não fosse isso, ele se atiraria de uma ponte, tornar-se-ia um louco (para ser internado por psicanalistas freudianos), ou viraria um revolucionário com sede de Sangue. Será coincidência o fato de que nunca tanta gente viveu à base de remédios?

Mas não é exatamente a maior parte da Humanidade ocidental que se encontra doente. É sua “Civilização” que é doentia. Ela não passa de um inverno, de um longo processo de agonia que antecede um ocaso, a qual, se houver homens de Valor, será sucedida por uma nova primavera, e uma nova civilização, a qual realmente representará um resgate de Velhos Ideais, que criem um novo Sentido para a Existência.

Já sei então como devo chamar a partir de agora aquilo que até então eu chamava “Civilização” Americana. A chamarei de “Patologia Americana”.

Pena faltarem, aparentemente, os Médicos adequados…

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva às terças

Coluna do dia: Porte de armas – Autodefesa ou Perigo? (Parte III)

22/12/2009

Por Raphael Machado Silva*

O cerceamento, e consequente proibição, do porte de armas é uma das muitas manifestações modernas da destruição do Homem frente a um Ente Absoluto, Universal, Genérico, Total, o Estado-Deus.

Que fique entendido aqui que não sou um Liberal e nem um Individualista. Apenas exponho os fatos como eles o são.

Muito acertadamente, Carl Schmitt afirmou, em ‘Teologia Política’, que todos os conceitos políticos são ideias teológicas secularizadas.

O Estado Moderno é o repositório de todas as aspirações humanas, e portanto, cabe a ele, por meio de sua “intervenção divina” “salvar” a todos os seus “filhos”. A atitude que se espera que o cidadão tenha frente ao Estado é a mesma que se espera que o Homem tenha frente ao Deus Abrahâmico. O Homem deve permanecer em um perpétuo estado de perplexidade passiva, impotente para realizar o que quer que seja sem as bênçãos de seu Senhor, adorando-o como única fonte de solução para todos os problemas, e amaldiçoando-o por todos os males pessoais. É o paternalismo.

Já vimos a importância do porte de armas para a defesa nacional e para a defesa pessoal. Ora, leitores, as últimas considerações já feitas nos revelam uma terceira importância, a qual ouso dizer ser a principal (não esconderei minhas ligeiras simpatias anarquistas).

Como muito bem sabia Thomas Jefferson, um dos Pais Fundadores dos EUA e, indubitavelmente, um grande militante pela autêntica Liberdade, o Homem deve poder portar Armas, para que ele possa se defender do próprio Estado, quando este se transforme em Tirania e se volte contra a própria Sociedade.

Não há qualquer exceção ao longo da História. Todo Estado Moderno ou Contemporâneo a banir Armas, ou era uma Tirania ou está/estava em vias de se tornar uma Tirania. Toda Tirania proíbe o porte de Armas. E sim, incluo nessas relações a Grã-Bretanha e os demais países da União Europeia, pois os que acompanham os desenvolvimentos sociais europeus não podem negar que a Europa caminha na direção de uma tirania abjeta.

Aos que duvidam, me expliquem as onipresentes câmeras de vídeo. Me expliquem as prisões dos que não acreditam no Holocausto. Me expliquem a perseguição arbitrária de partidos nacionalistas. Me expliquem a entrada de vários países na União Européia após plebiscitos nos quais os habitantes desses países rejeitavam a entrada (como nos países escandinavos, por exemplo). Me expliquem a ratificação do Tratado de Lisboa contra a vontade de boa parte da população de vários países (como por exemplo dos portugueses).

Porém, só posso parafrasear Jefferson novamente e dizer: “A árvore da Liberdade deve ser regada de tempos em tempos, tanto com o sangue de patriotas como de tiranos”.

Ah! E aos pequeno-burgueses alienados e pacifistas, que defendem a destruição do Homem frente ao Estado por meio da proibição do porte de Armas, sob a desculpa sofística e esfarrapada de que tal medida serve para diminuir a violência, me explicai então porque os dois países com o maior percentual de civis com porte de Armas são exatamente Suíça e Finlândia, e não África do Sul e Haiti.

Sem mais.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Porte de armas – Autodefesa ou Perigo? (Parte II)

15/12/2009

Por Raphael Machado Silva*

A Arma é o Instrumento por meio do qual o Mundo é Domado e Pacificado pela Força, de modo a que se possa organizá-lo segundo a Vontade de um Homem, ou de um Povo.

Em geral, essa Pacificação, assim como a Segurança da Comunidade dependerão do uso de Armas para travar combate a Inimigos Externos. Quantas vezes o Ocidente não foi ameaçado? E quantas vezes ele não foi salvo única e exclusivamente graças às Virtudes Guerreiras de Homens-de-Armas. Os Espartanos e os Atenienses resistiram aos Persas. Romanos e Visigodos resistiram aos Hunos. Alemães, Húngaros e Poloneses resistiram aos Mongóis. Espanhóis e Portugueses resistiram aos Mouros. Sérvios, Romenos, Búlgaros e Austríacos resistiram aos Turco-Otomanos. E o Ocidente em conjunto resistiu à União Soviética.

Em cada um desses casos foi o valor individual do homem comum, o qual era possuidor de armas, que fez a diferença. Foram os civis, convocados para assumir sua função ancestral de Guerreiro. Pois a vida em Sociedade não elimina o Guerreiro, mas o transforma em Guardião. Do mesmo modo que é Lei Natural e, portanto, Dever Inato de cada Homem defender a si mesmo e a sua Família, é Dever de cada Homem capaz defender sua Comunidade Identitária, a qual não passa de uma extensão do conceito de Família.

Ocorre que as transformações sociais e a passagem do tempo possibilitaram que certas deturpações entrassem em efeito. A principal deturpação se dá a respeito das funções, dos papéis e do sentido do Estado.

A ideologia do Contrato-Social como mito fundador do Estado Moderno pressupõe que um grupo de indivíduos voluntariamente abra mão de um certo número de prerrogativas e direitos pessoais em prol do Estado, para que se possa evitar o chamado “Estado de Natureza”, ou a “Guerra de Todos contra Todos”.

Eu rejeito absolutamente a noção de Contrato-Social, mas mesmo assim podemos continuar a usar essa noção, ao menos para que eu possa mostrar como a Ideologia do Desarmamentismo Escravagista se dá por uma extrapolação das prerrogativas estatais, e por uma exacerbação da transferência de direitos do indivíduo para o Estado.

Entende-se acertadamente que o Estado possui o Monopólio do Poder Punitivo. Essa é uma pré-condição para que a Sociedade não regrida na direção do Estado de Natureza. Por meio desse Poder é que o Estado, através do Juiz, julgará e punirá os infratores penais, em substituição à Auto-Tutela, na qual cada um é completamente responsável pela punição daqueles que atravessem a sua esfera pessoal de direitos. Entende-se, também, que o Estado é o responsável pela manutenção da Segurança da Sociedade e de seus Membros.

O problema está em que certas forças influentes, que se beneficiam com o crescimento do Leviatã (e com a esperança do estabelecimento de um único Leviatã Global), consideram falaciosamente que por meio do Contrato-Social as prerrogativas e direitos individuais que são transferidas para o Estado, o são in totum.

Ora, o que é o Desarmamento Civil senão a transferência total da possibilidade de auto-defesa e auto-preservação ao Estado, para que o mesmo seja o único e exclusivo encarregado e responsável pela segurança de todos?

Se a manifestação da individualidade se dá por meio do uso das prerrogativas pessoais, as quais são inatas (como a auto-preservação), a transferência completa dessas prerrogativas pessoais constituem verdadeira desintegração do “Eu”, da Individualidade, do Homem mesmo, frente à omnipotência do Leviatã.

Continua na próxima semana…

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Porte de armas – Autodefesa ou Perigo? (Parte I)

02/12/2009

Por Raphael Machado Silva*

“Leis que proíbem o porte de armas desarmam apenas aqueles que não estão inclinados ou determinados em cometer crimes. Tais leis tornam as coisas piores para o atacado e melhores para o atacante; elas servem mais para encorajar do que prevenir homicídios, pois um homem desarmado pode ser atacado com maior confiança do que um homem armado.” – Thomas Jefferson

“A maior razão para que o povo retenha o direito de possuir e portar armas é, como último recurso, para que se defendam contra a tirania no governo.” – Thomas Jefferson

Alguns anos atrás, neste nosso País, o Estado, os jornais, as empresas, os partidos políticos, as ONGs e os intelectuais marxistas se uniram para arrancar de nossos cidadãos, como vampiros ao sangue de uma vítima, o direito de portar armas. Como todo tirano, buscaram eles legitimidade para seu comportamento escravagista por meio de uma consulta popular, um plebiscito.

Os que possuem boa memória se lembrarão da pesada propaganda pró-escravidão que foi veiculada incessantemente por todos os meios possíveis. As mentiras. A difusão de pânico. O sensacionalismo. Atrizes tentando seduzir as massas para que entregassem seus meios de defesa ao onipotente Estado. Poucas vezes vi uma disputa pública tão unilateral. Ter que ver a propaganda escravagista constantemente em jornais e televisões me causava náuseas e até ira.

O povo, porém, contra todas as expectativas dos pretensos tiranos, votou contra a escravidão e a favor da liberdade. Sinceramente, um resultado surpreendente, levando-se em conta não só a pesada propaganda, como também a suscetibilidade das massas às propagandas em geral.

A Liberdade venceu a Tirania uma vez mais. Porém, ainda hoje, os mesmos personagens permanecem em sua peleja incessante contra o direito de autodefesa, inato a todo ser-vivo. Não só no Brasil, mas em todo o Ocidente, personagens análogos mobilizam todos os seus esforços para conseguir desarmar todos os homens, sob argumentos absolutamente ridículos que só recebem créditos de pessoas desprovidas de qualquer contato com a realidade. Grupos de pacifistas, utopistas, etc, são campos férteis para o plantio de toda a sofística do desarmamento civil.

Não é curioso o que ocorre quando a democracia resulta de modo que desagrada aos seus representantes e ícones? Ainda que a Autodefesa tenha prevalecido, as mesmas forças conseguiram cercear e limitar ainda mais as possibilidades de porte de armas no País.

Portar armas no Brasil não é proibido, mas é quase impossível conseguir uma licença. Ou seja, atropelando e esmagando a decisão plebiscitária, arrancou-se o porte de armas do cidadão comum (instrumentos do Estado e agentes corporativos ou tem o direito garantido, ou enormes facilidades para o conseguir), e transformou-se o mesmo em uma eterna criança, à qual não é dada absolutamente nenhum crédito, que deve ser tutelada para sempre, em todos os âmbitos de sua existência, até mesmo no instinto inato de autopreservação.

Vale a pena fazer algumas breves observações a respeito do relacionamento entre um Homem e sua Arma, ao longo da história. Faço apenas a ressalva de que minhas observações se aplicam exclusivamente ao Ocidente e suas Culturas. Sou ocidentalista, e sinceramente não dou importância para a sorte ou azar da maioria dos povos não-ocidentais. Ainda assim, duvido que tenha havido qualquer cultura ou civilização que contrarie essas observações, à exceção das pouquíssimas sociedades matriarcais, as quais não aprovo (mas isso fica para outro dia).

A autopreservação, ou autodefesa, é um instinto mais antigo do que a Humanidade. De tão intrínseca à própria noção de existência, ela poderia ser dita uma Lei Natural. Todos os animais a possuem, e é graças a esse instinto que as espécies que hoje aqui estão ainda existem. Para além do indivíduo, o instinto de preservação do Homem se estendeu para abarcar toda a sua família, assim como a Comunidade da qual ele é membro, e cuja Identidade ele partilha.

Considerando que as próprias capacidades biológicas do Homem não lhe são suficientes para realizar sua defesa, ele se utiliza de instrumentos, as Armas. Primordialmente, as Armas eram tanto meio de Defesa como garantia de Subsistência.

A Antropologia nos ensina que a espiritualização de um objeto, de uma pessoa ou de um fenômeno da natureza, está diretamente ligada à importância de referido ente na comunidade em questão. Por isso, por exemplo, tinham os Gregos um Deus para o vinho e a uva.

Ora, a posse de uma Arma ao longo do tempo se mostrou como essencial para a sobrevivência dos indivíduos e dos grupos. A Arma é a diferença entre a vida e a morte, entre vitória e derrota, entre liberdade e escravidão. Daí verifica-se a Espiritualização das Armas, ao longo da História do Ocidente (os japoneses possuem ainda mais fortemente esse aspecto). A Arma é fator central de preservação de todas as virtudes sociais, assim como da autonomia individual e da segurança pessoal e coletiva.

A História das Grandes Civilizações, como Roma, as cidades gregas e os reinos Medievais, demonstra, sem sombra de dúvida, que toda Civilização é fundada única e exclusivamente por Guerreiros, ou seja, pelos homens especializados em usar as Armas como instrumento da Vontade do Povo.

A preservação da Civilização também é tarefa que cabe exatamente aos Guerreiros. Todos os homens cultos das eras áureas das Civilizações eram Guerreiros, os quais em tempos de paz se voltavam para atividades culturais.

Nunca, porém, uma civilização foi erguida por sofistas, por dialetas, por diletantes, por pacifistas ou por universitários pequeno-burgueses desconectados da realidade.

Continua na próxima semana…

* Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta-feira, é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: O Estado de bem-estar social e o Estado neoliberal – Breves comparações

28/11/2009

Por Matheus Passos*

Tendo explicado sumariamente os funcionamentos e as ideologias que sustentam os dois modelos estatais analisados nessa série de artigos, cabe-nos agora responder a uma pergunta: o Estado neoliberal é uma “evolução” do Estado de bem-estar social? Ou, colocando-se a dúvida em outras palavras, será que toda organização estatal baseada no modelo do Estado de bem-estar social rumará em direção a uma organização dos moldes do estado neoliberal?

Muitos pensadores e teóricos gostariam de responder “sim” a todas estas perguntas. Para estes, a “vitória americana” na Guerra Fria conduziu-nos a um estágio no qual o que existe é o “capitalismo democrático” típico dos países do Ocidente. Mais ainda, esses teóricos dizem que não há outra opção a não ser a aceitação dos modelos político e econômico ocidentais. Desta forma, vários teóricos afirmam que a única saída é a adoção do modelo neoliberal de organização estatal.

É neste contexto que as ideias de Friedman ganharam importância, pois seus conceitos e suas propostas servem de base para o pensamento neoliberal “prático” surgido nos anos 1980. Estimulado pela crise capitalista dos anos 1970, o “novo” modelo de organização estatal – o neoliberalismo – surgiu recorrendo aos conceitos clássicos da teoria liberal, que já haviam sido “resgatados” por Friedman. Assim, o neoliberalismo passou a criticar o que chama de “excessivo intervencionismo estatal”, no qual o Estado – baseado na teoria keynesiana – seria o responsável por intervir na economia e regular as relações entre as pessoas. Mais ainda, os neoliberais passaram a afirmar que o Estado, ineficiente, burocrático e autoritário, deveria ser substituído pelo mercado, sendo este “a última garantia da liberdade e do progresso de nossas sociedades” (BORÓN, 1994, p. 186).

Aparentemente, a tendência mundial é de negação do Estado do bem-estar social. As ações tomadas pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido na década de 1980 levaram à consolidação da ideia “anti-Estado do bem-estar social”, situação na qual o importante era a máxima redução da influência do estado na economia e na sociedade. Esse modelo ganhou ainda mais força com a recuperação econômica presenciada pelos países capitalistas na década de 1980, em comparação com a década de 1970, e ainda mais na década de 1990. Dessa forma, a aparência passada era a de que os estados – principalmente os latino-americanos, que passavam por processos de redemocratização – deveriam se abrir para o comércio exterior, buscar controlar suas dívidas interna e externa e, principalmente, cortar gastos públicos – vistos como o “vilão” responsável pela falência do modelo do Estado do bem-estar social.

O corte nos gastos públicos era argumentado não só em termos econômicos, no sentido de se diminuir o déficit público e o endividamento estatal, mas também pelo fato de que a ajuda dada a determinadas classes sociais, por meio desses gastos públicos, ia contra a ideologia neoliberal.

Ultimamente, um ponto de vista específico tem obtido cada vez maior aceitação – o de que os altos funcionários das grandes empresas e os líderes trabalhistas têm uma “responsabilidade social” para além dos serviços que devem prestar aos interesses de seus acionistas ou de seus membros. Esse ponto de vista mostra uma concepção fundamentalmente errada do caráter e da natureza de uma economia livre. Em tal economia, há uma e só uma responsabilidade social do capital – usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a aumentar seus lucros até onde permaneça dentro das regras do jogo, o que significa participar de uma competição livre e aberta, sem enganos ou fraude. De modo semelhante, a “responsabilidade social” dos líderes do trabalho é a de servir aos interesses dos membros de seus sindicatos (FRIEDMAN, 1984, p. 122).

Há poucas coisas capazes de minar tão profundamente as bases de nossa sociedade livre do que a aceitação por parte dos dirigentes das empresas de uma responsabilidade social que não a de fazer tanto dinheiro quanto possível para seus acionistas. Trata-se de uma doutrina fundamentalmente subversiva. Se homens de negócios têm outra responsabilidade social que não a de obter o máximo de lucro para seus acionistas, como poderão eles saber qual seria ela? Podem os indivíduos decidir o que constitui o interesse social? Podem eles decidir que carga impor a si próprios e a seus acionistas para servir ao interesse social? É tolerável que funções públicas (…) sejam exercidas pelas pessoas que estão no momento dirigindo empresas particulares, escolhidas para estes postos por grupos estritamente privados? (FRIEDMAN, 1984, p. 123).

Desta forma, os neoliberais aceitam e defendem a ideia de que as funções de distribuição de renda e de garantia de um nível mínimo de vida não são função do Estado, e sim do mercado. O Estado não é capaz de solucionar estes problemas, já que tenta fazê-lo por meio de coerção. Já o mercado permitiria a distribuição “natural” da renda, pois cada indivíduo receberia de acordo com seu trabalho – se uma pessoa resolvesse trabalhar pouco, consequentemente ganharia pouco, mas a escolha foi dela própria. Friedman chega ao ponto de afirmar que os mecanismos distributivos adotados pelo Estado de bem-estar social não são éticos – já que o Estado tiraria de uns, que trabalharam por aquilo que receberam, para dar a outros, que não mereciam porque não trabalharam.

Essas teorizações acerca da economia se refletem na política. Ao limitar a expansão governamental, o mercado impediria a concentração do poder político em poucas mãos. De acordo com os neoliberais, isto favoreceria a democracia de modo indireto, porém eficaz, já que o mercado estimularia a criação de vários núcleos de poder, sem haver a predominância de um único poder coercitivo, o que acontece se o Estado for demasiado “grande” e controlar a economia das sociedades.

Outro ponto muito criticado pelos neoliberais é a questão dos gastos públicos excessivos do Estado de bem-estar social. Para eles, a crise do petróleo mostrou a falência deste modelo de organização estatal, inclusive no que diz respeito à área econômica. Os excessivos gastos do Estado com os diversos programas sociais – como programas de habitação, a previdência, impostos progressivos de acordo com o aumento da riqueza, e a criação de um salário mínimo – seriam os responsáveis pelos déficits públicos estatais que levaram à “quebra” das contas públicas.

Baseando-se nesses princípios, houve a sua aplicação prática na década de 1980, nos governos de Ronald Reagan nos Estados Unidos e de Margaret Thatcher no Reino Unido. No Brasil, a onda neoliberal ganhou força a partir de 1990, com a eleição de Fernando Collor de Melo. A medida mais visível ocorrida em nosso País foi a abertura do mercado brasileiro ao capital estrangeiro. No decorrer da década, o neoliberalismo se fortaleceu, devido às diversas privatizações, à retirada do Estado de diversas áreas da economia, à criação de agências nacionais reguladoras das áreas privatizadas e também ao corte de investimentos públicos em várias áreas, na “esperança” de que algum investidor privado nacional ou não se interessasse por estas áreas.

Com todas essas propostas, poderíamos ser levados a crer que a influência excessiva do Estado na economia seria, realmente, a responsável pela atual situação do modelo do Estado de bem-estar social, na qual o próprio Estado – que se diz de bem-estar social – não consegue fornecer o mínimo desse bem-estar à população. Ao mesmo tempo, fenômenos como a globalização e o desinteresse das pessoas pela política também confirmam, aparentemente, a tese de que é apenas por meio do mercado que os cidadãos conseguiriam atingir os seus objetivos e que a política estaria invariavelmente “perdida”, sem condições de oferecer nada à população. Assim, a aplicação do modelo neoliberal justificar-se-ia por si próprio.

Porém, os princípios neoliberais não são completamente aplicados, mas sim apenas uma “parte” dos mesmos. No que se refere a propostas de desregulamentação, de perda do monopólio estatal e de privatizações, os estados ocidentais – e alguns não-ocidentais, como a Rússia – estão seguindo o caminho neoliberal. Se pegarmos o Brasil, vemos a abertura ao capital estrangeiro, a venda de estatais de todos os portes, a perda de antigos monopólios – como na área do petróleo – e, ainda, ações no sentido de se desregulamentar diversas áreas e conceder-lhes autonomia, como é o caso da tão controversa autonomia universitária. O tão desejado equilíbrio fiscal também está sendo buscado a qualquer custo, como parte de todo um programa destinado a reduzir o papel do Estado na economia – se o Estado não tem déficits, é porque está gastando menos (já que a receita é constante), ou seja, está atuando menos de forma direta na economia.

O “calcanhar-de-aquiles” dos neoliberais, contudo, é a questão dos gastos públicos. Visto pelos neoliberais como a origem dos problemas do Estado de bem-estar social, os gastos públicos – sociais ou não – não diminuíram nos governos de Reagan nos Estados Unidos e de Thatcher no Reino Unido; ao contrário,

(…) entre 1980 e 1983, em plena fase ascendente da “revolução neoconservadora” do presidente Reagan, a porcentagem dos gastos estatais subiu de 36% para 39,2% do PIB, enquanto se prometia ao eleitorado norte-americano acabar com o big spending. Do outro lado do Atlântico, a senhora Thatcher oferecia, desde 1978, a mesma política: o resultado foi um incremento do gasto estatal de 45,1% a 49,3% do PIB em 1983 (BORÓN, 1994, p. 201-2).

Nos chamados “países de capitalismo avançado”, onde aparentemente os conceitos neoliberais estão mais solidificados, o que se viu após o surgimento de governos ditos neoliberais foi o aumento dos gastos públicos. Portanto, por mais que tenha sido proclamada a necessidade de diversos ajustes no Estado de bem-estar social, entre eles o do déficit público, a realidade é que a expansão do gasto público nos países desenvolvidos continuou – mais em alguns casos, menos em outros.

Assim, é possível dizer que atualmente o Estado de bem-estar social está tão sólido quanto nos vinte e cinco “anos de ouro do capitalismo”, entre 1948 e 1973. Porém, o atual modelo estatal existente em alguns países – entre eles o Brasil – pode ser considerado como uma “mistura” do Estado do bem-estar social e do Estado neoliberal.

No caso do Brasil, por exemplo, vemos o governo privatizando empresas estatais – medida neoliberal – mas ao mesmo tempo lançando programas de cunho assistencial – ação típica de um Estado de bem-estar social. O governo implanta medidas neoliberais, por um lado, mas ainda mantém firme o propósito de assistência social, por outro. Talvez seja até mesmo possível afirmar que os gastos públicos crescentes dos governos neoliberais sejam justificados como um ressarcimento por algum prejuízo causado por alguma política neoliberal implantada. Por exemplo, o enxugamento da máquina administrativa deixa várias pessoas desempregadas; o governo lança, então, um programa de requalificação profissional, para a reabsorção dessas mesmas pessoas. Os gastos sociais se justificariam para corrigir problemas criados pelas próprias políticas neoliberais.

Outro problema grave advindo da utilização desse modelo “misto” é o fato de que as perdas dos empresários são divididas com toda a sociedade, enquanto os lucros ficam apenas com os empresários e não é dividido. A lógica é semelhante à lógica do próprio Estado de bem-estar social: o governo faz investimentos em áreas não aproveitadas pela iniciativa privada (mas importantes para o desenvolvimento do país). Com a infraestrutura pronta (construída com dinheiro público), a iniciativa privada se interessa por aquela área, e a explora – ficando com os lucros. O gasto, portanto, é social, enquanto que o lucro é privado. A diferença, porém, é que, enquanto no Estado de bem-estar social os investimentos são feitos primordialmente com o objetivo de dar assistência aos cidadãos – com investimentos, por exemplo, em saúde e educação –, no modelo “misto” os investimentos são feitos tendo-se em vista a atração de recursos – nacionais ou estrangeiros. Assim, quando o Estado investe em educação primária, por exemplo, esse investimento não é aproveitado pelos empresários – pois é um investimento em longo prazo. Mas quando o governo reduz impostos para atrair uma indústria automobilística, os empresários aproveitam a chance, pois é a sociedade quem paga os custos – a diminuição de recursos arrecadados, decorrente da diminuição dos impostos –, mas são os empresários os beneficiados – com imposto menor, o lucro é maior.

É de suma importância, portanto, que os estados definam qual modelo irão utilizar – se serão estados de bem-estar social ou se serão estados neoliberais. É interessante que o modelo seja o Estado de bem-estar social, já que o Estado neoliberal não consegue atender às demandas da população. Como diz Borón (1994, p. 204), “o mercado demonstrou ser completamente inútil para resolver estes problemas [do Estado de bem-estar social] e não porque funcione mal, mas porque sua missão não é a de fazer justiça, mas a de produzir lucros”. Falando da situação latino-americana, continua Borón (1994, p. 204-5): “(…) necessitamos do Estado de bem-estar social: porque diante do agravamento das condições sociais imperantes na América Latina [o Estado de bem-estar social] nos garante não só a cobertura – mesmo que seja parcial e insuficiente – de necessidades humanas, mas porque, também, favorecerá o robustecimento de nossas frágeis transições democráticas”.

Vale aqui fazer uma ressalva. Assim como a posição neoliberal, que deseja ver a máxima redução do Estado, é equivocada, também o outro extremo – de que não há nada para mudar – não deve ser aceito. Novos mecanismos reguladores da economia devem ser criados, em substituição aos atuais; novos mecanismos e instrumentos democráticos que aumentem e/ou melhorem a capacidade de controle social sobre a burocracia e sobre os atores privados são necessários; novas formas de equalização dos conceitos de liberdade e de igualdade devem ser pensadas. O “novo” Estado de bem-estar social deve ser aquele que consiga oferecer garantias fundamentais à população não só nas áreas econômica e social, mas também – e principalmente – na área política, ampliando o atual modelo democrático da democracia formal até chegarmos à democracia substantiva.

Referências:

BORÓN, Atílio. Estado, capitalismo e democracia na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.