Por Eduardo Schneider*
Na verdade os piratas existem desde que o homem pratica o comércio marítimo e o provável é que eles nunca deixem de existir. As primeiras pilhagens piratas de que se tem notícia ocorreram por volta dos séc. VII ou VIII a.C., quando gregos atacavam navios mercantes fenícios e assírios.
Vale ressaltar, que Homero, em sua obra Odisséia, foi o responsável por cunhar o termo “pirata”. O tempo passou, os ataques continuaram. Durante o Império Romano, lá estavam os piratas. Idade Média? Lá estavam os normandos e muçulmanos praticando pilhagens.
Chegaram então os tão romantizados “Piratas do Caribe”. Fonte interminável de roteiros para Hollywood e desenhos da Disney, eles não são nada diferentes dos piratas somalis atuais, não passam de saqueadores (ou seqüestradores na maioria dos casos modernos). Todos os elementos estão lá: Barcos rápidos, armas pesadas e vontade de enriquecer facilmente. Agora, 3 séculos depois do famoso Pirata Barba Negra, a atenção do mundo está de volta para os piratas e seu novo Caribe, o Chifre da África.
Assim como no século XVII, a pirataria moderna é reflexo do caos existente em terra firme. Com o fim da ditadura marxista de Mohamed Siad Barre (durou de 1969 a 1991), o território somali foi fatiado por clãs rivais, que vão desde milícias islâmicas, ao sul, a províncias que se declaram independentes, ao norte, clãs estes que foram armados pela Etiópia para combater a ditadura de Barre. Como era de se esperar, estes grupos tão heterogêneos não se entenderam na hora de formar um novo governo e deu-se início à guerra civil, à missão de paz da Organização das Nações Unidas (que levou a outro filme hollywoodiano “Falcão Negro em Perigo”) e, é claro, à pirataria.
Com a ascensão ao poder da União das Cortes Islâmicas (UCI), em maio de 2006, a pirataria na região entrou em hiato, retomando suas atividades no fim do mesmo ano, após a invasão do exército etíope. Com a intensificação da pirataria na costa somali, no ano de 2008, a ONU aprovou por unanimidade uma declaração que autorizava nações a fazerem acordos com o Governo Federal de Transição e entrar em águas somalis. Diversos países já possuem forças navais na região, principalmente depois que o Escritório Marítimo Internacional (IMB) descreveu a situação da pirataria como “fora de controle”.
Mas por que tantos países iriam se importar com um país que sofre com a fome e o caos político há pelo menos 40 anos? É fácil responder a esta pergunta. Aproximadamente 90% do comércio mundial é realizado por meio de transporte marítimo e o Golfo de Áden liga o Canal de Suez ao Oceano Índico, ou seja, é a rota mais rápida entre a Ásia e os países europeus, fazendo desta uma das regiões mais importantes para o comércio internacional. Fato este é comprovado pela ação realizada, na semana passada pela tropa de elite dos fuzileiros navais americanos, os seals. Em uma operação que mais parece ter sido retirada de algum filme de “Rambo”, os seals saltaram com seus paraquedas de um avião, caíram no mar, nadaram até o vaso de guerra americano Bainbridge e de lá, com seus fuzis de precisão acertaram 3 tiros certeiros e simultâneos nos piratas que tinham como refém o capitão do navio cargueiro Maersk Alabama, que transportava donativos para a África Oriental.
Operações como esta podem ser um marco na forma como os países vão tomar a questão da pirataria, pois na equação lucro e risco (que é levada em consideração para qualquer negócio, seja ele legal ou não), o risco para os piratas ainda é muito baixo se levada em consideração a altíssima lucratividade de suas ações, assim como ocorria com os piratas caribenhos antes que os reinos europeus os tomassem a sério e os combatessem veementemente. Se tal combate não ocorrer, os piratas continuarão a desfilar impunemente e sem pudor em seus carros de luxo e construindo suas mansões em Harardhere, a Isla de La Tortuga moderna.
Atenção roteiristas: A Somália está bombando!
* Eduardo Schneider é colunista do Perspectiva Política às quintas.










