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Coluna do dia: Imagine

20/08/2010

Por Yashá Gallazzi*

Imaginem um presidente brasileiro conservador. Aliás, mais do que isso: imaginem um presidente de extrema-direita. Sim, eu sei que não é fácil, afinal o Brasil está acostumado a ter há décadas, uma disputa entre as várias matizes da esquerda, sem que haja um representante sequer da direita.

Mas, ainda assim, peço um esforço a vocês. Tentem imaginar, apenas por um momento, que o Brasil tem um presidente extremista de direita. Feito isso, imaginem que o sujeito tenha escrito uma carta mais ou menos nos seguintes termos:

“Queridas Companheiras e Companheiros

Há 20 anos, 42 partidos e movimentos conservadores da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo – convidados por nós – para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

Vivíamos tempos difíceis no início dos anos noventa.

Em muitos países começava a ganhar força um discurso radical de esquerda, alimentado por líderes oposicionistas carismáticos, como Lula da Silva e Hugo Chávez, inspirados no exemplo do tirano homicida chamado Fidel Castro. Esses caudilhos ameaçavam as democracias vigorosas e dificultavam a luta dos trabalhadores.

Pairava sobre nosso Continente a ameaça de um novo espectro comunista.

(…) A predominância dessas idéias de extrema-esquerda, era reforçada pela profunda crise das referências tradicionais da direita radical. Suas políticas não permitiam explicar a realidade mundial mas, sobretudo, mobilizar as grandes massas.

A reunião de São Paulo e tantas outras que se seguiram nestes 20 anos tiveram como mérito fundamental criar um espaço democrático de conhecimento e de discussão das extremas-direitas. Esse espaço não existia, muitas vezes, nem mesmo em nossos países.

(…) Hoje, nossa região vive uma situação radicalmente diferente daquela de vinte anos atrás. Muitos dos que nos encontramos no passado nas reuniões do Foro de São Paulo como forças de oposição, hoje somos Governo e estamos desenvolvendo importantes mudanças em nossos países e na região como um todo.

(…) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma esquerda que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos de extrema-direita do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(…) O Brasil mudou e vai continuar mudando nos próximos anos.

Mudou junto com seus países irmãos do Continente.

Mudou como está mudando a Argentina que agora acolhe mais este encontro do Foro de São Paulo.

Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro”

Continuando o nosso exercício de imaginação, considerem que os destinatários da carta acima, assinada pelo presidente brasileiro de extrema-direita, sejam integrantes de partidos com inspiração em Mussolini, Pinochet, Franco, bem como em herdeiros políticos dos militares que governaram Brasil e Argentina durante décadas de ditadura. Imaginem, assim, que tais movimentos políticos sejam as forças políticas integrantes do tal Foro de São Paulo.

Ah, quase esqueci! Considerem também que, além dos movimentos políticos acima mencionados, essa entidade representativa das extremas-direitas da América Latina contasse, ainda, com a participação de um grupo paramilitar, conhecido internacionalmente por sequestrar, torturar, estuprar, matar e traficar drogas.

Como a opinião pública reagiria diante de semelhante organismo internacional? O que diriam a OAB, a CUT, o MST e a CNBB? Qual seria o posicionamento da imprensa e dos intelectuais brasileiros a respeito? Como se comportaria a academia brasileira? Gente como Emir Sader, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim diriam o quê?

Ora, não é difícil concluir que o mundo desabaria sobre a cabeça do tal presidente brasileiro de extrema-direita, não é mesmo? E com razão! Um fórum com clara inspiração fascista e totalitária, formado por movimentos cujo ideário descende de tiranias assassinas, não mereceria mesmo respeito algum! Vou além: não mereceria sequer existir! A democracia não pode, por amor aos seus princípios, tolerar a existência daqueles que, se pudessem, os destruiriam.

Agora, diante de tudo o que vai acima, considerem que o tal Foro de São Paulo realmente existe, e que não é apenas fruto de um exercício de imaginação proposto por mim. Considerem ainda que ele realmente é composto por partidos e movimentos políticos de inspiração ditatorial, e que tem entre seus membros um grupo paramilitar como o descrito ao alto. Mas atentem para o seguinte: considerem que ele não é de extrema-direita, mas de esquerda.

O que custo a entender, o que não me parece nada lógico, é o seguinte: por que repudiamos – acertadamente, diga-se! – um Foro de São Paulo de extrema-direita, mas aceitamos um de extrema-esquerda? Por que seria escandaloso um presidente brasileiro mantendo relações com partidos inspirados em Mussolini e Franco, mas não causa escândalo algum ver Lula sentando à mesa com gente que se espelha em Stalin e Mao Tse-Tung? Por que seria inadmissível ver o governante do país chamando um grupo paramilitar de direita de “companheiro”, mas é aceitável que o presidente atual derrame abertamente seu amor pelas FARC?

Que deturpação descabida de valores morais é essa, capaz de nos levar a rejeitar o nazismo e o fascismo, ao mesmo tempo em que ainda nos faz parecer aceitável conviver com o socialismo e com o comunismo? Se concordamos todos em rejeitar uma das faces do horror, por que não concordamos também em rejeitar o horror por inteiro? Por que o totalitarismo de esquerda é tolerado no Brasil, a ponto de termos no poder um presidente que mantém relação pessoal de amizade com Fidel Castro? Por que o “terrorismo progressista” é tolerado no Brasil, a ponto de termos um presidente que se senta à mesa com as FARC?

Ou, para colocar as coisas de uma outra forma, a ponto de termos uma candidata que militou em grupos paramilitares, aqui mesmo no Brasil, com grandes chances de se tornar presidente?

Esta é, enfim, a curiosidade antropológica que mais me instiga no momento presente. Sei que o povo mais pobre, aquele sustentado pela bolsa-esmola oficial, não dá a menor importância para escolhas políticas e ideológicas. Escolheria um tirano (de esquerda ou de direita, tanto faz), se este garantisse o saldo do cartãozinho de benefício social ad eternum. Mas e a porção “pensante” do país? E a academia? E o jornalismo? Por que ainda há gente que não se escandaliza ao perceber que o principal partido do Brasil – assim como o principal líder político da atualidade – tem, sim, bandidos de estimação?

Não me assusta que o PT tente esconder o Foro de São Paulo, ou, por vias oblíquas, diminuir a importância dele. Não me assusta que marqueteiros de plantão se ocupem em fazer apenas a tal “campanha positiva”, exaltando até aquilo que nunca foi feito. Isso é do jogo. O que me assusta é notar que o mesmo país capaz de se escandalizar com o Fiat Elba de Collor, com os dólares de Roseana ou com a cueca daquele petista, não veja nada de errado em uma carta na qual Lula confessa sua relação direta (e antiga!) com a escória da América Latina.

Temos, assim, a prova de que o terror foi relativizado, criando-se, assim, o terrorismo – e o totalitarismo – “do bem”. Como é pra ajudar “ozoprimido”, na tentativa de construir o tal “outro mundo possível”, então tá tudo certo.

Em qualquer sociedade minimamente civilizada, aquela carta de Lula seria motivo para “impeachment”. Entraria para a história como “a carta testamento” do petista: aquilo que acabou com sua presidência e com as chances do seu partido de continuar no governo. Mas o Brasil atual, de civilizado, tem muito pouco.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Quando uma espécie de neonazismo é praticada pelo PT

02/04/2010

Por Yashá Gallazzi*

Há duas semanas, escrevi sobre a greve dos “professores” de São Paulo. Notem que a palavra não está grafada entre aspas sem motivo: eu definitivamente não consigo considerar aquelas pessoas como parte da categoria que deveria educar nossas crianças.

A foto que ilustra o presente texto é emblemática: essa gente sempre foi particularmente eficaz quando se tratou de incendiar livros. Notem, aliás, o semblante dos neonazistas arregimentados pelo petismo. Digam aí: há algum traço de remorso? Algum sinal de que promover a destruição do patrimônio público é algo doloroso para eles? Não. Ali, diante daquele fogueira, os terroristas estão em seu estado puro.

Neste ponto, lembro de algo que sempre repito para os que tentam jogar Hitler no colo da direita: nazismo é a sigla – ou o apelido carinhoso, se preferirem – de nacional-socialismo. A história está aí para quem quiser averiguar os fatos: Hitler, um dos maiores assassinos da história, só poderia ter encontrado inspiração nas obras de grandes assassinos que o precederam. É, por exemplo, ponto pacífico que o Führer tinha simpatia por Marx e Lênin. E, se quisermos traçar um paralelo, é muito mais fácil identificar o nazismo com o comunismo soviético – basta substitui os judeus pelos burgueses e os arianos pelo proletariado -, do que com qualquer governo de cunho liberal.

Por que falar de Hitler e do nazismo? Bem, o que vem à mente quando se trata de promover queima de livros? É marcante notar como a turba acéfala arregimentada pela Apeoesp consegue reproduzir em detalhes todos os traços típicos de um grupo fascistóide, desde o aparelhamento completo de movimentos sociais, até a violência contra o Estado democrático de direito. Deixados livres para cometer seus delitos, os milicianos do PT rapidamente transformariam a fogueira de livros em um altar onde seriam oferecidos em holocausto os tucanos neoliberais…

Os terroristas empregam termos como “quebrar a espinha dorsal” do PSDB, prometendo “varrer da face da terra” os tucanos e José Serra. Pergunto: em quê isso se diferencia das palavras de ordem de Hitler? Qual a diferença entre essas frases e os slogans de Mussolini? Aliás, nem precisamos recuar tanto no tempo: Mahmoud Ahmadinejad, o fascista islâmico, também ficou mundialmente famoso depois de prometer “varrer do mapa” uma outra nação.

Não estamos diante de coincidências, mas da repetição histórica de um método de terror. Não se enganem: os milicianos da Apeoesp não construíram suas próprias caldeiras porque não podem. Isso não quer dizer que não queiram fazê-lo… Exagero? Que nada! Basta lembrar que essas mesmas pessoas agrediram o ex-Governador Mário Covas em praça pública, diante de várias câmeras. Quem atira paus, pedras e cadeiras sobre uma autoridade legalmente constituída em nome da “causa”, iria muito além se pudesse.

O mais marcante sinal do caráter fascista dessa gente é o atrelamento descarado a um partido – “O Partido”. Os grevistas de hoje são como os camisas-negras de Mussolini: espalham o terror em nome dos delírios de poder do líder. Quem é o líder? Bem, vejam o que os próprios disseram: “Já estamos em campanha, e vamos fazer um campo de batalha no campo pró-Dilma.”

Essa associação criminosa entre pretensos professores e o PT não é recente. Pelo contrário até: na época do governo Covas, quando os nazistas lançavam cadeiras impunemente à luz do dia, José Dirceu, o chefe do maior esquema de corrupção da história do Brasil, era quem os incitava à barbárie. Dizia o Richelieu de Lula: “Eles têm de apanhar nas ruas e nas urnas.” E o sujeito foi obedecido cegamente pelos milicianos, tal como a SS seguia sem pestanejar as ordens de Hitler.

Que tal um pequeno exercício de imaginação? Suponham que, em vez do “progressista” Dirceu, aquele que “lutou contra a ditadura” e quer criar o “outro mundo possível”, aquelas palavras tivessem sido pronunciadas por alguém identificado com a direita. Imaginem, por exemplo, que Ronaldo Caiado dissesse algo assim… Ou mesmo Kátia Abreu… Vamos um pouco além: imaginem que, alguns dias depois de dita tal frase, partidários dos “direitistas” agredissem fisicamente um político do PT – que tal Marta Suplicy? Fica fácil imaginar o que aconteceria…

Mas é que “direitistas” são maus! Bons mesmo são os “progressistas”, que mandam bater nos adversários porque defendem a tal “educação pública, gratuita e de qualidade”. Ainda que ela precise ser conquistada por meio da violência. Ainda que para se chegar ao ideal deles seja preciso queimar livros.

É essa gente que se pretende a vanguarda de um amanhã glorioso. São os nazistas do PT que falam em justiça social e igualdade. Nada de novo: Hitler também adotava o mesmo discurso. E na ação prática é possível perceber que também não se diferenciam lá muito…

Eis aí a única tônica de campanha que Serra precisa usar: o confronto de civilizações. O povo precisa saber que em outubro estarão em disputa os que leem livros, contra os que os queimam. Os que não podem ser comparados ao nazismo, contra aqueles que agem como verdadeiros herdeiros de Hitler. Só isso basta. Economia? Programas sociais? Política externa? Que nada! Isso é secundário. Considerando-se o estado adiantado das coisas, cumpre decidir, antes, entre o mundo civilizado e a barbárie. E nem é necessário bolar campanhas publicitárias grandiosas. Basta mostrar, repetidamente, a queima de livros escolares e as agressões a Mário Covas. E deixemos, pois, que essa gente explique, publicamente, como tais barbaridades podem ser consideradas parte de um programa de governo.

Há duas candidaturas principais à Presidência. Uma representa o campo democrático. A outra, arregimenta terroristas para agredir e queimar livros em praça pública. Custo a acreditar que no Brasil haja um número tão elevado de néscios, capaz de coroar a candidata dos neonazistas. Ainda aposto que a maioria do povo é formada por gente civilizada, que rejeita os modernos hitlers.

Em tempo: Vale conferir vídeo divulgado no blog Imprensa Marrom, que relembra as agressões contra o então Governador paulista Mário Covas e demonstra a diferença entre professores reivindicando melhores condições de trabalho e salários e militantes partidários movidos por interesses políticos diversos.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: “Nenhuma delas é cubana”

12/03/2010

Por Yashá Gallazzi*

Certa vez, numa discussão um tanto acalorada com alguns conhecidos, perguntaram-me quando exatamente eu me tornei um “porco direitista”. Na ocasião, ri da pergunta e nem dei muita importância, afinal estamos em um País onde qualquer um que critique o socialismo é automaticamente chamado de “direitista”.

Mas eis que hoje descobri quando me tornei um “porco direitista”. Foi no momento exato em que compreendi que Alexander Soljenitsin não é igual a Marcola; que Wladmir Herzog não é igual a Fernandinho Beira-Mar; e que Nelson Mandela não é igual a Elias Maluco. Em outras palavras, diferentemente dos esquerdistas que hoje governam o Brasil, este “porco direitista” aqui sabe bem a diferença entre um preso político e um delinquente vagabundo.

Lula, que assentou boa parte de sua mitologia pessoal na personagem do operário perseguido pela ditadura militar, resolveu mostrar ao mundo sua verdadeira face. Munido de seu cinismo sem limites, rasgou as vestes elegantes do “pobre-coitado-que-bebia-água-com-caramujo-e-virou-Presidente”, olhou na cara dos jornalistas e disse, “sem medo de ser feliz”, que Cuba tem direito de ter suas próprias leis e que o Brasil não se meterá nos assuntos internos daquela ilha.

É um democrata, esse Lula! Respeitador da tal autonomia dos povos, desde que – é claro! – os povos em questão sejam esquerdistas… Afinal, quando se tratou de defender a democracia de Honduras, Lula preferiu se alinhar aos golpistas, na esperança de criar mais uma “republiqueta bolivariana”, onde há mais igualdade, fraternidade e justiça social, mas falta sabonete e papel-higiênico…

Eu, como todo “porco direitista” que se preza, dou a maior importância para produtos de higiene pessoal. A civilização deles – dos esquerdistas – é aquela que pretende criar o “outro mundo possível”, o “novo homem”, a “igualdade plena”. A nossa civilização, por outro lado, é aquela dos antibióticos, da água encanada, da escrita e da literatura. Por isso somos incompatíveis, da mesma forma que nossas visões de mundo jamais poderão conviver pacificamente.

Mas há outra variante de tal “pensamento”. A “lógica” de Lula poderia servir para justificar até mesmo o horror nazista! Imaginem um repórter entrevistando Lula nos idos da década de 1930: “Senhor Presidente, dizem que há judeus sendo presos, torturados e mortos na Alemanha. O que o Sr. tem a dizer?”

E Lula, do alto de sua sabedoria de boteco, mandaria ver: “Veja bem, meu caro: eu estou convencido de que cada país tem direito a ter suas leis, e nenhum outro deve ficar dando pitaco de fora. Ou seja, quem sabe da situação da Alemanha direito é o meu querido Hitler, e só ele pode dizer com precisão as razões das medidas que ele toma. Eu só acho que se as leis da Alemanha estão sendo respeitadas, não cabe ao Brasil dizer o que é certo fazer, da mesma forma que o técnico do São Paulo não pode dizer pro meu querido Mano Menezes que esquema tático ele deve usar num jogo do Corinthians.”

Exagero? Não creio… Alguns dos leitores, conhecendo Lula e tendo lido o que ele disse sobre o regime cubano, não conseguem imaginá-lo dizendo o que vai acima? Eu consigo. E consigo por um motivo simples: é algo perfeitamente coerente com o caráter pedestre dele. Com sua moral maleável. Ou, melhor dizendo: com suas várias morais.

Morais, eu disse? Sim. Costumo dizer que tenho apenas uma moral, ainda que isso possa soar um tanto aborrecido ao leitor. Os “esquerdistas modernos”, como Lula, são melhores que eu: têm várias morais! Querem ver? Pois bem, se os presos políticos cubanos são iguais aos assassinos, sequestradores e traficantes presos em São Paulo, a “lógica” lulista me leva a concluir que Lula, Dilma e os demais presos políticos subjugados pelos militares brasileiros eram, também, iguais aos bandidos paulistas. Há alguma falha lógica nisso?

Mas isso valeria se essa gente tivesse uma moral só – como nós, os “porcos direitistas”. Como, porém, eles possuem várias, cada uma aplicável a um determinado caso específico, dirão que não! Os esquerdistas tupiniquins aprisionados pelos militares eram homens bons. Humanistas, dispostos a – como é mesmo? – “dar a vida em nome da democracia”. Em outras palavras, eles dividem os presos entre os que têm “pedigree” esquerdista, e os demais.

Quando você aceita a tese de Lula, aceita que um homem como Mandela pode ser, eventualmente, igualado a um vagabundo como Elias Maluco. Isso porque, segundo a “moral” torta desses “humanistas”, qualquer um que ouse se levantar contra a “revolução socialista” tem mais é que ser preso mesmo! Lênin, um dos maiores facínoras que o mundo já conheceu, não era menos sutil: todos precisam tomar parte na revolução. E quem não quiser? Simples: passa-se fogo!

Eu, não! Não aceito que Soljenitsin seja igualado a Marcola. Não admito que Herzog seja tratado como um Fernandinho Beira-Mar. De acordo com a minha única moral de “porco direitista”, uma pessoa aprisionada apenas por suas ideias políticas não é apenas um atentado à democracia: é uma humilhação para a espécie humana! Quem condescende com isso empresta justificativas para a barbárie mais abjeta. Flerta com a escória do mundo!

Hoje, os esquerdistas que defendem a maior e mais sangrenta tirania das Américas podem livremente pregar seu “outro mundo possível”, amparados pelas garantias do Estado democrático de direito que eles tanto abominam. Em Cuba, a ilha-prisão dos irmãos Castro, quem ousa contestar o regime assassino é preso e torturado. Isso se tiver sorte! Caso contrário, pode acabar sumariamente fuzilado.

Eis aí a diferença essencial entre nós – que eles chamam de “burguesia” – e eles, os esquerdistas: abraçamos a democracia e a liberdade como valores básicos, perenes e inegociáveis. Não consideramos as instituições democráticas meras “invenções da classe dominante”. Sabemos, ao contrário, que são criações da sociedade civilizada, aquela que tem por obrigação conter os bárbaros revolucionários.

Me tornei um “porco direitista”, aos olhos da realidade política brasileira, a partir do momento em que compreendi que as garantias e liberdades do indivíduo estão acima de qualquer distopia coletivista pregada por uma manada acéfala. Por isso acho que nenhum cidadão deve ser tolhido em seu legítimo direito de protestar contra qualquer governo. Mesmo quando se arvora a criticar os irmãos Castro, aqueles redentores que querem apenas nos salvar do jugo capitalista.

Meu – se me permitem a construção – “porco-direitismo” nada tem a ver, pois, com crenças econômicas. No caso específico do Brasil, você será automaticamente um “porco direitista” sempre que se recusar a igualar bandidos comuns a pessoas que pregam, pacificamente, o fim de uma ditadura sanguinária e a instalação de um regime democrático. E, acreditem: isso é libertador! Esqueçam o consenso progressista e politicamente correto que tomou conta “dessepaiz”: a sensação de defender quem combate os tiranos é revigorante. Não quer ser chamado de “porco direitista”? Ah, deixe disso! “O que é um nome?”, diria Shakespeare? “Aquilo que chamamos de rosa, caso tivesse outro nome, guardaria o mesmo perfume.”

Há milhares de ativistas políticos espalhados pelo mundo militando em favor da democracia. Estão na Europa, na Ásia e na Oceania. Nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, na Argentina e na Venezuela. Onde há liberdade – ainda que um filete dela apenas -, há um ser humano exercendo seu direito legítimo de contestar o governo. Há pessoas de várias nacionalidades, crenças, etnias e religiões protestando livremente por todo o globo.

E, como diria Fidel Castro em sua frase célebre, “nenhuma delas é cubana”.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Moral única – Uma boa resolução de ano novo

01/01/2010

Por Yashá Gallazzi*

Alguém aí faz resolução de ano novo? Sim?! Ótimo! Querem uma sugestão? Lá vai: não tenham bandidos de estimação!

Trata-se do melhor – e mais útil – conselho que eu poderia dar a vocês, leitores. Acreditem: é libertador encarar o mundo e os fatos com olhar altivo e com a consciência limpa. É fascinante poder enfrentar qualquer debate, qualquer discussão, sem precisar fazer contorcionismo a fim de defender este ou aquele meliante.

Antes, porém, cumpre fazer uma pequena advertência: ao abdicar de defender bandidos, o leitor estará se afastando de forma inequívoca e definitiva dos extremos político-ideológicos. A esquerda e a direita mais radicais, portanto, não poderão ter mais vez.

Sabem o que aconteceu no STJ, há coisa de alguns dias? Por meio de uma decisão liminar, a chamada “Operação Satiagraha” foi suspensa. E daí? Daí que Daniel Dantas, aquele mesmo que foi escolhido como símbolo maior dos males brasileiros, vai se safar de todas as acusações.

Culpa da corrupção? Da morosidade do Judiciário? Das leis brasileiras? Que nada! A culpa, meus caros, é de Protógenes Queiroz, aquela “otoridade”, que achou por bem estuprar uma infinidade de garantias individuais previstas na Constituição, a fim de fazer “justissa cás pópria mão”.

Protógenes, que chegou a dizer que queria ser carcereiro de Dantas, ficaria muito melhor do lado de dentro da cela, ao lado do bandido. Não há diferença essencial entre os dois: ambos subjugaram as leis e atacaram o Estado de direito, promovendo a infração e a injustiça. Aliás, neste aspecto, há, sim, uma diferença fundamental entre eles: Protógenes cometeu seus crimes com a desculpa de que lutava por um “bem comum”.

O STJ cuidou apenas de aplicar a lei, jogando por terra uma investigação que nasceu viciada por ilegalidades. “Ah, mas era contra o Dantas!” E daí? Fosse contra o demônio, eu estaria aqui dizendo o mesmo: não se pode fazer concessões à ilegalidade em nome de nenhuma “causa” supostamente redentora. Protógenes violou a lei – e desafio qualquer um a demonstrar que não a violou – para prender o bandido? Pouco importa. Todo fascismo começou prometendo caçar delinquentes.

“Então você defende Dantas!”, gritam aqueles que têm duas morais. Eu? Eu quero mais é que ele vá pro diabo! Que seja preso, processado e condenado! Mas – atenção agora! – tudo de acordo com as leis e o direito, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo? Saibam, meus caros, que ninguém precisa piscar um olho para a ilegalidade a fim de defender a justiça.

Lembram que eu mencionei bandidos de estimação? Pois é, não os tenho. Afirmei de forma categórica que Dantas merece a cadeia, de preferência pelo resto da vida. Da mesma forma, afirmo que Protógenes merece o mesmo destino, afinal, assim como o tal “banqueiro bandido”, o “dotô” delegado também violou leis e fez vítimas inocentes.

Viram que coisa mais libertadora? Eu, apoiado apenas em minha moral única e franca, posso defender a prisão para todo tipo de bandido, sem fazer concessões de ordem ideológica. O mesmo acontece no caso dos vários mensaleiros. Impeachment e cadeia para Arruda! E o mesmo para Lula, Dirceu, Genoino, Azeredo e companhia.

Os radicais da esquerda não poderão jamais me acompanhar, afinal, eles condenam Arruda com a mesma facilidade com que defendem Lula. Se formos um pouco além, veremos que essa mesma turma consegue defender, até hoje, regimes assassinos como os de Stálin, Mao e Castro.

Os extremistas da direita, de igual forma, estão presos às carcaças de gente espúria como Hitler, Mussolini, Pinochet e Franco. Eles precisam defender seus bandidos, e o fazem ao mesmo tempo em que condenam os bandidos dos outros…

Eu? Bem, eu sou um tantinho mais livre que essa turma toda. E sabem como isso funciona? Simples: basta ter apenas retidão moral e de princípios. Em outras palavras, é preciso chamar bandido de… bandido! Seja ele um banqueiro fraudador e corruptor, ou um delegado que se vale do aparelho do Estado para vilipendiar garantias individuais.

Eu prometo que neste novo ano continuarei apontando o dedo para todos os bandidos, sem exceção. Continuarei condenando a todos de forma igual e determinada, defendendo apenas a verdade.

Será que os extremistas – de esquerda e de direita – topam fazer a mesma promessa?

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Crônica – A teletela, a verdade e a mentira

08/10/2009

Por Felipe Liberal*

Lá pelos idos de 1948, um “feiticeiro” inglês de nome mentiroso chamado George Orwell, escreveu um livro que abalou o mundo e pouca gente conhece. A obra 1984 parece ser um livro de magia, uma previsão de um tempo triste, onde nós somos dominados por um regime invisível chamado de Grande Irmão (Big Brother) e vigiados por uma caixa de madeira que dita ordens, a Teletela. Apelidada por nós, humanos e mortais, de televisão, a caixa de madeira ganhou força, move montanhas, abre mares e define quem vive e quem morre.

Deus inventou a mediocridade humana e o Diabo inventou a televisão (ou foi o contrário?), esta que caminha de mãos dadas com a publicidade e a propaganda. Mas a televisão mata? A publicidade assassina?

Alguém sabe que a empresa inglesa Hugo Boss vestiu o exército nazista no front de batalha e nos campos de concentração? Você sabia que os prisioneiros dos campos de concentração nazistas trabalharam – de graça – nas fábricas da Volkswagen, BMW, Siemens, Bosch e Krupp? E que os aviões nazistas voavam com o combustível da Standard Oil e seus soldados viajavam em caminhões e jipes da Ford? Não sabia? Claro que não! A publicidade escondeu tudo e comprou todos, levando ao saldo de cinco milhões de vidas queimadas, torturadas e humilhadas nos campos de extermínio.

A televisão não mostrou quando, em 1979, o arcebispo de El Salvador, Oscar Romero, viajou para o Vaticano mendigando uma audiência com o Papa João Paulo II para denunciar as atrocidades que o regime militar de direita estava fazendo com a população salvadorenha. Ninguém ouviu nada. Oscar também bateu na porta de várias emissoras de televisão da Itália, mas ninguém ligou. Sem falar das omissões das emissoras brasileiras durante o nosso regime militar, favorecendo todas as torturas e desaparecimentos.

Em 1984, ninguém ouviu e nem soube dos “gritos de pavor” de Leonardo Boff dentro dos calabouços do Vaticano, quando a Santa Inquisição (agora com um nome mais discreto – Congregação para a Doutrina da Fé) o chamou para indagar sobre sua tentativa de salvar os pobres da América Latina. A Igreja do Medo e a televisão vivem ansiosas para cravar na cruz qualquer “filho de carpinteiro”, desses que andam pelo mundo influenciando pessoas e chateando impérios.

Quando a televisão e a Renault, na década de 90 do século XX, esconderam os níveis de poluição em Paris (causados principalmente pela emissão de gases dos carros), morreram dezenas de pessoas por problemas respiratórios. Se a mídia mostrasse todas as atrocidades cometidas contra os palestinos nas redondezas do Estado de Israel, milhões de vítimas poderiam ser evitadas.

O novo EUA, versão 2009, já fez três intervenções militares, onde causou mais de 200 mortes, em apenas cinco meses de governo do Presidente muçulmano Barack Obama. Sem esquecer as 73 intervenções que fez o “Presidente da paz”, Bill Clinton, durante seu governo. Apenas duas de todas essas intervenções foram divulgadas. Sobre Bush, prefiro não comentar, pois nem a TV conseguiu esconder as milhões de vítimas no Oriente Médio.

A “caixa de madeira” não mostrou nem metade das atrocidades que estão sendo cometidas em Honduras, pela extrema-direita que tomou o poder. Líderes contrários ao golpe estão sendo torturados em galpões nos arredores de Tegucigalpa. Há fortes acusações de pessoas ligadas aos militares, de que integrantes do novo governo estariam enviando maletas de dinheiro para as emissoras de televisão dos países vizinhos e de dentro de Honduras, para amenizar as notícias sobre a matança e as torturas dentro do país.

São inúmeras as notícias que não existem, ficaria eu o dia todo escrevendo, que mesmo assim não teria fim. Não existem, porque não são transmitidas pela caixa de madeira. Vivemos em um mundo virtual, camuflado e mentiroso. O mundo real e verdadeiro está em outro lugar, inacessível e desconhecido.

Se você, caro leitor, for ao lugar mais distante, remoto e pobre do planeta, provavelmente encontrará um televisor, erguido como um troféu nas casas de barro de pessoas famintas, e nas telas, aparecerá a liberdade que é você escolher entre Johnnie Walker rótulo preto e Chivas Regal. A Coca-Cola mostra o caminho da felicidade. O leite artificial da Nestlé oferece saúde eterna. As camisas da Hugo Boss, distinção e charme. Os carros da Volkswagem dão uma nova vida e os cartões Master Card, riqueza.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

2ª Coluna do dia: As Olimpíadas e a essência da democracia

03/10/2009

Por Matheus Passos*

Geralmente, o chamado “senso comum” associa democracia a eleições. Assim, se um país tem eleições regulares, o mesmo seria democrático, já que permitiria ao povo expressar suas opiniões a respeito de que grupo político deve governar o país.

Logicamente, o conceito de democracia vai muito além de eleições. Tendo como base as ideias de Bobbio, expressas em seu Dicionário de política, vemos que a democracia pressupõe a presença dos seguintes itens: 1) Membros dos poderes Legislativo e Executivo eleitos direta ou indiretamente pelo povo; 2) Todos os maiores de idade devem poder votar, sem distinção de raça, de religião, de sexo ou de renda; 3) O voto deve ter o mesmo peso para todos; 4) Todos devem escolher suas opções de maneira livre; 5) Devem haver no mínimo duas alternativas distintas ao eleitor; 6) Aquele partido que obtiver maioria vence; 7) Nenhuma decisão tomada por maioria deve limitar os direitos da minoria, de um modo especial o direito de tornar-se maioria, em paridade de condições.

Além dos itens acima – que correspondem a uma definição bastante formal de democracia –, eu incluiria outro item, que é bastante subjetivo: o respeito à opinião do outro. Esta ideia não está associada à ideia de garantir que o outro se expresse, ou seja, não se refere apenas à ideia de liberdade de expressão: está relacionada a um elemento que, na disciplina de Antropologia, é chamado de relativismo cultural. Neste sentido, deve-se ter em mente que não existem sistemas sociais (jurídicos, políticos, econômicos…) melhores ou piores, superiores ou inferiores: existem sistemas sociais (jurídicos, políticos, econômicos…) diferentes.

A liberdade de expressão não deve ser entendida como “tolerar a opinião do outro”, porque quando eu afirmo que tolero o que o outro pensa ou o que o outro tem a dizer, estou implicitamente me colocando como superior ao outro – e não devemos imaginar que o sistema social (jurídico, político, econômico…) no qual vivemos é, necessariamente, o melhor, o mais correto, o mais avançado.

É nesse sentido que a definição das Olimpíadas como tendo lugar no Rio de Janeiro em 2016 serve como um exemplo para mostrar o quanto nosso País ainda precisa avançar em seu elemento democrático. Para provar tal argumento, faço apenas uma única pergunta: Foi bom o Rio de Janeiro ser escolhido como sede das Olimpíadas?

Haverá aqueles que dirão que não, e alguns argumentos para se ser contra as Olimpíadas poderiam ser os que se seguem. O orçamento está previsto em R$ 25 bilhões e é muito dinheiro para apenas um evento. Provavelmente, tal orçamento acabará ficando maior, seja por superfaturamento, seja por corrupção, seja por atraso das obras, o que leva a um gasto excessivo. Serão construídos estádios, salas de imprensa e uma vila olímpica que ficarão para a posteridade e não serão usadas para nada. O País tem outras prioridades e o dinheiro poderia ser investido em outras áreas que são mais importantes. O tráfico no Rio irá se esbaldar com os turistas estrangeiros. E por aí vai.

Por outro lado, haverá aqueles que defenderão as Olimpíadas. Poderão argumentar que parte dos R$ 25 bilhões previstos como gastos já estavam orçados e seriam utilizados de qualquer jeito – o que as Olimpíadas fazem é apenas acelerar o processo. Ou então que os R$ 25 bilhões correspondem a apenas 1% do PIB atual e que este valor será diluído em sete anos – portanto, o impacto em termos de gastos será pequeno. Ou que o projeto olímpico, em termos de melhorias de infra-estrutura, é realmente necessário, e que as mudanças na área de transportes, por exemplo, irão melhorar a vida dos cariocas. Ou ainda que a decisão nada mais é do que o reconhecimento internacional do Brasil e que a sede, sendo aqui, trará mais visibilidade – e consequentemente investimentos – em nosso País.

Qual visão é a certa e qual é a errada? Ambas podem estar certas e ambas podem estar erradas e minha pergunta é apenas retórica porque, no contexto de um pensamento efetivamente democrático, não poderíamos perguntar “qual é a certa e qual a errada”. No contexto democrático, haverá pessoas que concordarão que as Olimpíadas trarão mais prejuízos que benefícios, enquanto outras defenderão o inverso.

Contudo, independentemente da defesa de uma ou outra opinião, o indivíduo realmente democrático deve ter em mente que não pode menosprezar a opinião do outro, nem mesmo “tolerar”, no sentido afirmado anteriormente.

O indivíduo realmente democrático deve apresentar suas ideias, ouvir as ideias do outro e enxergar nas ideias deste outro algo diferente, mas não inferior ou superior – pois o pensamento de que algo é melhor do que outro dá ao primeiro, consciente ou inconscientemente, legalmente ou não, legitimamente ou não, o direito de achar que, por ser melhor, pode subjugar o pior, em uma espécie de “messianismo auto-declarado”.

A História nos mostra que tal superioridade auto-atribuída não leva a outro lugar que não seja a desunião, a discórdia e o extermínio. Deixo aqui uma pergunta no ar: Ao sermos democráticos, podemos realmente acreditar que existam os “mocinhos” e os “bandidos” no mundo?

Se sim, isto nos dá o direito de usar quaisquer meios para exterminar os “bandidos”? Não nos esqueçamos de que este pensamento dicotômico, que enxerga o “meu” como melhor e que enxerga o “outro” como pior e que, consequentemente, não respeita o outro por ele ser “pior”, deu origem ao nazismo e ao Holocausto, bem como ao pensamento recente de George W. Bush de que “nós somos os bonzinhos e eles são os malvados” – com todas as consequências negativas que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento sobre o assunto pode observar.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

Coluna do dia: A preguiça ideológica

11/08/2009

Por Raphael Machado Silva*

O discurso político-ideológico do mundo contemporâneo é monopolizado por dois termos que servem para definir campos de afinidades e oposições. Me refiro às categorias “Direita” e “Esquerda”. Mas terão essas categorias existência real, ou serão meras ficções abstratas que, ao invés de nos auxiliar a compreender o debate político, apenas superficializam o mesmo?

Quando um homem trava contato com uma ideologia, movimento ou partido novos, seu primeiro questionamento é: “É de esquerda ou de Direita?”. Isso quer dizer que esse homem abre mão da responsabilidade de fazer uma avaliação autêntica dessa ideologia, ou seja, de julgá-la a partir do que ela mesma possui em si. Ao invés, ele se posiciona passivamente se ocupando apenas da atividade de saber que relações essa ideologia estabelece com outras e sob qual categoria política, direita ou esquerda, ele deve “arquivá-la”.

Nessa tarefa de tentar associar uma ideologia a essas categorias, as quais foram solidificadas e cristalizadas por bombardeios midiáticos e acadêmicos, o resultado é sempre a distorção e mutilação da ideologia em questão. Isso ocorre porque essas categorias são compostas por notas comuns o mais mínimas possíveis, exatamente estruturadas de modo a abarcar a totalidade de possibilidades do campo político. Assim, nesse processo de subsunção da ideologia na categoria, “força-se” a associação de tal forma que a própria essência da ideologia é ignorada em prol de sua capacidade de ser equiparada às notas comuns da categoria. Os elementos internos não concordantes são inconscientemente modificados e deturpados, exatamente para garantir a categorização.

Assim, o homem acaba com uma imagem falsa da ideologia, e de semelhanças apenas superficiais com a ideologia mesma, a qual é arquivada sob uma categoria fixa e total. Após simular haver descoberto o que é essa ideologia, resta ao homem assumir uma posição diante dela. Esse posicionamento também irá, necessariamente, se dar de forma passiva e covarde, já que será sempre um posicionamento moral fixo, derivado não da ideologia, e nem de sua imagem falsa, mas sim, da categoria da qual ela participa. Ou seja, dependendo das lealdades ideológicas do homem, ele irá derivar seu posicionamento diante de outras ideologias. Não a partir de uma análise delas, mas apenas a partir do estabelecimento de relações morais falsas, as quais já lhe foram “dadas” por instâncias “superiores”. Esse é um resumo grosseiro da formação do juízo político no homem de massa, o qual transfere de si para uma instância sacralizada o poder de conhecer e se posicionar politicamente no mundo.

Ao fim, temos como resultado a mediocridade. Ideologias políticas são decompostas em palavras-chave, como se vivêssemos em um eterno pré-vestibular. “Nazismo = Nacionalismo + Racismo” ; “Liberalismo = Propriedade Privada + Individualismo” ; “Marxismo = Coletivismo”. Ponto Final. Mesmo por que, muitos pensam: “Para quê me dar ao trabalho de ler alguma coisa escrita pelos próprios representantes das inúmeras ideologias políticas? Não há tempo para isso e esses livros costumam ser grandes, chatos e difíceis. O melhor mesmo é eu entrar para um clubinho que já me dê de brinde todos os juízos a respeito de todas as outras ideologias. É mais prático”.

E ai de quem se recusa a se submeter à falácia de que você TÊM que se enquadrar em uma das duas ideologias dominantes. Serás fulminado por todos os lados, por fanáticos incapazes de realizar o fato de que fazer avaliações políticas com base no modo como uma ideologia se relaciona com a economia é o cúmulo da obtusidade, ainda mais se pensarmos que tanto um como o outro lado são absolutamente recentes na história das civilizações.

Um marxista pode tolerar um capitalista, mesmo porque é uma ideologia que depende necessariamente de um “inimigo opressor”, mas alguém que se recusa a ser uma coisa ou outra é absolutamente intolerável, pelo menos do ponto de vista intelectual. Porque alguém que não é nem uma coisa nem outra está se posicionando fora do discurso político dado pelas instâncias “superiores” e é, portanto, alguém incompreensível. E isso com certeza incomoda muita gente.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Enola, a malvada – 64 anos da bomba de Hiroshima

07/08/2009

Por Yashá Gallazzi*

Quando esta coluna for publicada, já estaremos na sexta-feira, dia 7 de agosto. Mas eu esclareço que escrevi estas linhas um dia antes, quinta-feira, dia 6 de agosto. O dia em que o mundo relembra aquela que considero a pior e mais macabra homenagem que um filho já fez a uma mãe.

Os leitores mais atentos já entenderam que me refiro ao aniversário do ataque atômico desferido contra Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, já no final da segunda grande guerra mundial. Há exatos sessenta e quatro anos o mundo conheceu um horror até então inédito, diferente de tudo o que já fora experimentado pela humanidade. Quando a malfadada bomba, composta por cerca de 60Kg de urânio, foi arremessada sobre aquela cidade japonesa, o que se viu foi um breve esboço do armagedon, com o fogo consumindo tudo e todos que estavam no lugar. E todo esse cenário de destruição serviu para prestar honras a Enola, mãe do piloto que atirou a arma nuclear. E ele, imbuído por sabe-se lá qual espírito, achou por bem batizar aquela que então era a mais poderosa arma de destruição com o nome da mãe. Enola… Uma americana que, como tantas outras, viu seu filho partir para a guerra. Não acredito que ela esperasse semelhante presente. Penso que teria se dado por satisfeita apenas recebendo seu filho de volta dos campos de batalha, preferencialmente livre dos conhecidos transtornos pós-traumáticos que o acometeram.

Como alguém que se orgulha de prezar a democracia e o sistema de liberdades individuais, não posso deixar de me confessar triste ao lembrar o que se passou naquele longínquo 6 de agosto de 1945. É impossível se regozijar com aquilo que aconteceu em Hiroshima, onde milhares de inocentes foram tragados pela onda violenta formada a partir de anos de guerra. Uma guerra sangrenta e dura. Talvez a mais dura que o mundo já conheceu. Mas o pior, confesso, é pensar naqueles inocentes que sequer estavam lá em 1945, mas que foram perseguidos e capturados pelos tentáculos atômicos da bomba. Descerebrados, alienados, mutilados… Homens, mulheres e crianças… Todos igualmente vítimas de Enola e seu poder de devastação inigualável. É sem dúvida um dos episódios mais sombrios da história humana, que diminui a todos nós. É uma data que viverá na infâmia, como disse o Presidente Roosevelt sobre… o ataque a Pearl Harbor! Aos que pensam que me perdi em divagações, tranquilizo: Estou apenas cuidando de rememorar um contexto histórico especialmente conturbado, a fim de construir uma análise sóbria que passe ao largo de alguns lugares-comuns assaz conhecidos.

Não estou entre aqueles que se deixam seduzir pelo antiamericanismo bocó, típico do terceiro-mundismo primitivo. Pelo contrário até: sou bel “filoamericano” mesmo. Para que tenham uma ideia, reconheço-me naquele estreito grupo de pessoas que entendem a importância dos Estados Unidos para o resto do mundo civilizado, especialmente a partir da segunda grande guerra. Não fossem os americanos – e o sempre importante Winston Churchill, Hitler teria marchado sobre toda a Europa, subjugando os valores morais sobre os quais o Ocidente se erigiu. Ainda hoje, por exemplo, custo a compreender o sentimento antiamericano dos franceses, que devem sua liberdade ao desembarque na Normandia. Por que esta tergiversação agora? Porque recuso-me a comprar a teoria que classifica o ataque atômico a Hiroshima como uma maldade do império americano contra um pobre povo indefeso. Isso é apenas tolice provinciana, nada mais!

A segunda guerra mundial foi um conflito com dois lados bem definidos: o bem, representado pelo ocidente democrático, e o mal, incorporado pelo nazismo e pelo fascismo. Qualquer um com dois neurônios e um pouco de senso lógico sabe que não há escolha possível entre tais campos. A escolha está feita de per si: cumpre alinhar-se com o bem. E qual era o objetivo do Ocidente democrático? Derrotar aquele que até então era o mal absoluto, eliminando-o da face da terra. Estados Unidos, Inglaterra e todos os demais países que representaram o bem pegaram em armas porque era preciso defender os valores que fazem da nossa civilização uma civilização! O inimigo, encarnado por Hitler e pelos fascismos italiano e japonês, representava a morte do mundo tal qual o conhecemos hoje. Nenhuma guerra é boa, dizem os pacifistas. E estão certos. Mas algumas são imprescindíveis! A segunda guerra mundial foi uma delas.

O horror havido em Hiroshima foi, a meu aviso, um erro de análise militar. Acredito que a força do exército americano – e dos demais aliados – poderia vencer o Império Japonês sem o recurso àquela bomba, injustamente chamada de Enola. Principalmente, estou convencido de que a guerra midiática teria sido vencida com enorme facilidade, caso Truman não tivesse lançado mão da tal arma. Guerra midiática, eu disse? Sim, isso mesmo. Os americanos e seus aliados venceram a guerra militar, para nossa sorte e para sorte de todo o mundo civilizado. Já aquela da propaganda, sabe-se, foi vencida pelo antiamericanismo – que muitas vezes se confunde com o pacifismo.

Muitos especialistas no assunto, por exemplo, sustentam ainda hoje que o ataque atômico acabou sendo a solução militarmente mais adequada. Eu, que não entendo muito de táticas militares, só posso ler as várias interpretações e construir minha própria análise a partir delas. Diz-se, por exemplo, que o número de mortos no caso de uma invasão por terra ao Japão seria muito superior aos cerca de cem mil mortos provocados por Enola. Sustenta-se, com base em estudos empíricos, que a duração do conflito poderia se estender por pelo menos mais uma década, caso fosse feita a escolha pela ocupação do território inimigo. E a história nos conta que Truman teve todos esses cenários à mesa antes de decidir que rumo tomar. Escolheu, como sabemos, a solução mais rápida, mas que só os canalhas podem considerar mais fácil. Não havia bandidos genocidas daquele lado – o lado do bem -, mas homens honrados tentando encontrar uma forma de salvar o nosso mundo. Eu, hoje, posso dizer que a escolha deles foi dolorosa. Mas não posso dizer que, fazendo outra, a coisa teria sido mais fácil.

A guerra da propaganda, estimulada pelo antiamericanismo do mundo, tratou de inverter a realidade e colocar os Estados Unidos na posição do império assassino, que subjugou com força desproporcional – eles adoram essa expressão – um inimigo muito mais frágil. Nada mais falso! O império do mal era o Império Japonês e seu fascismo assassino, que promovia expansão militar e territorial por meio de campanhas dignas de fazer inveja aos bárbaros de outrora. O ranço que certo pacifismo “woodstockiano” promoveu contra a América criou uma relação de causa e efeito entre Pearl Harbor e Hiroshima, coisa que não passa de trapaça retórica e moral. Mesmo porque – e aqui vai uma constatação muito importante – o ataque dos kamikazes foi moralmente muito pior do que a bomba chamada Enola. E eu não estou aqui falando apenas de aritmética, mas de valores, de ética. Uma ética que até nas guerras sempre existiu, mas que o fascismo, com sua obsessão por tudo o que é mais abjeto, tratou de violar.

O ataque japonês a Pearl Harbor foi aquilo que hoje se poderia chamar de terrorismo. Os japoneses de então estão para aquela guerra como os assassinos da Al Qaeda estão para o 11/9. E Hiroshima? Bem, como todos sabemos o lançamento da bomba não foi uma tática para dar início a um combate. Foi, antes, a maneira que se achou de por fim a ele, forçando à rendição o último arrimo de sustentação do forte fascista, que insistia em não ceder. Não preciso aqui lembrar, por exemplo, que o governo americano exortou os japoneses a pôr fim às hostilidades, inclusive advertindo que poderia lançar mão de uma arma muito poderosa. Ainda assim, o Império resistiu. Durante quanto tempo os Estados Unidos tentaram vencer de outra forma? Foram quatro anos! Quatro anos entre o atentado terrorista a Pearl Harbor – que não pode ser justificado sob nenhum ponto de vista moralmente aceitável – e o lançamento de Enola. Quatro anos! Digam o que quiserem, mas é impossível classificar o que houve em Hiroshima como vingança, ou como retaliação. Foi, isso sim, uma manobra militar e, como tal, deve ser encarada e julgada.

Eu a condeno, hoje, porque hoje me é dado conhecer todos os seus reflexos. Hoje sei as sequelas que centenas de milhares de inocentes tiveram – e tem – que suportar. Hoje sei que isso alimentou – e alimenta até hoje – o antiamericanismo rasteiro que tanto atrasa o mundo. Mas isso eu sei hoje, depois de consumados os fatos. Da mesma forma que sei o quanto era imprescindível vencer aquela guerra, colocando fim ao jugo nazista e fascista. Da mesma forma que critico a guerra do Iraque em razão de sua estratégia patética de ação, orquestrada por um presidente Bush que acreditou em uma vitória rápida e fácil. Mas não posso – e não consigo – criticar a guerra contra o terror, porque o terrorismo praticado pelo fascismo islâmico precisa ser detido hoje, da mesma forma que o fascismo do Império Japonês precisava ser detido então.

Não se trata, como percebem, de ser contra ou a favor da bomba atômica. Como já disse: ninguém com algum senso democrático e de humanidade pode ser a favor de semelhante massacre. Trata-se, isso sim, de olhar a história com olhos sérios, julgando homens e fatos a partir dos valores que temos e sobre os quais nossa história de civilização foi construída. Essa mesma civilização que os aliados lutaram vigorosamente para salvar na segunda grande guerra. Sob tal ótica, digo que vencer a guerra era um imperativo moral e categórico, mesmo porque os nossos valores, uma vez preservados do inimigo, nos permitem analisar as ações pretéritas, condenando aquilo que de errado foi cometido por nós ou por nossos antepassados. Os valores deles, caso tivessem prosperado – caso Pearl Harbor tivesse sido vitorioso – não seriam assim tão complacentes para conosco. Basta ver o que foi o nacional-socialismo de Hitler, moldado às custas de campos de concentração e de limpezas étnicas. De todas as infindáveis vítimas que aquela guerra fez – e foram inúmeras – confesso que uma das que mais me comove é Enola. A mãe, não a bomba. Ela não merecia isso.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Jorge Semprún, que lutou contra Franco, diz não ser vítima do franquismo

10/07/2009

Jorge Semprún, para quem não sabe, é espanhol e foi membro da resistência francesa durante a ocupação nazista, tendo sido detido e sobrevivendo ao Holocausto.

Mais tarde,  continuou na luta e passou a ser ativista contra o regime de Franco na Espanha, participando, na clandestinidade, do Partido Comunista espanhol.

Pois bem. Em uma entrevista recente, Semprún foi perguntado a respeito de se sentir, ou não, uma vítima do franquismo.

A resposta foi a seguinte: “Não me considero vítima do franquismo. As vítimas são aqueles que sofreram a repressão com passividade. É uma distinção que faço… mas, como lutei contra, não me considero vítima, mas ator nesse período histórico. A reconstrução da democracia na Espanha fez triunfar os valores democráticos que eram os dos vencidos na Guerra Civil.”

Faço este registro por um simples motivo: É um ótimo exemplo para aqueles que lutaram com coragem contra a ditadura brasileira, se opondo corretamente e heroicamente à repressão, mas que, mais tarde, entendendo que deveriam ser recompensados financeiramente, e não apenas  com a gratidão de todo um País, por uma batalha que empreenderam voluntariamente e por um ideal, requereram a “Bolsa-Ditadura”.

A pergunta que me vem à cabeça é sempre a mesma: Se a luta dos que batalharam contra o regime militar no Brasil era pela democracia e pelo nosso País, porque pedem compensação financeira? A abertura política, a democracia brasileira e a liberdade de expressão, conseguidas, não eram os objetivos da luta?

Entendo e defendo os que requerem indenização por terem perdido parentes, ficado inválidos ou sido torturados.

Mas não compreendo os que, por apenas terem participado de grupos clandestinos, ou até algo mais brando, querem ser sustentados pelo Estado brasileiro.

Vocês lutaram por algo e conquistaram. Sintam-se felizes e satisfeitos. Verdadeiros heróis. Mas não tentem levar vantagem, já na terceira idade, com isso.

Aprendam com Semprún.