Por Yashá Gallazzi*
Há algumas semanas, conversava com um amigo sobre a realidade política brasileira. Ele me perguntava como era possível que as pessoas encarassem o PSDB como sendo de direita. Lembro que ele disse algo mais ou menos assim:
“De direita? O partido das agências reguladoras? Dos programas assistencialistas? Do SUS? Francamente.”
De fato, só mesmo no Brasil, onde o quadro político-partidário é caótico e absolutamente ilógico, é que alguém poderia considerar uma agremiação autodenominada social-democrática como de direita. Meu diagnóstico para isso é simples e linear: falta uma direita de verdade no Brasil. Uma direita séria, democrática e propositiva, não esses sectários filofascistas, como o PRONA de Enéas, que, por sinal, se extinguiu ao formar o PR em aliança com o antigo PL.
Ao serem corrompidos pela ligeireza do discurso político promovida pelas esquerdas brasileiras, os eleitores acabaram comprando a tese absurda de que qualquer um que renegue o socialismo é, necessariamente, de direita. E mais: no Brasil, criou-se o corolário de que toda a direita é sempre má. Mas eu pergunto: toda a esquerda é sempre boa? Desnecessário dizer que ao comparar a herança de ambas em cadáveres, o legado da esquerda é infinitamente mais deletério.
Com o surgimento de expoentes radicais de esquerda, como o PSOL, o PSTU e o PCO, o PT ganhou o direito de se apresentar como moderado; moderno até. Assim, Lula pode falar em estabilidade econômica e controle inflacionário, pois cabe a gente como Heloísa Helena a defesa da “ruptura com tudo isso que está aí”.
Não é de estranhar que o petismo tenha experimentado um crescimento importante nas últimas décadas: a esquerda radical avocou para si o papel de besta-fera dos moderados, brandindo as bandeiras ultrapassadas do socialismo e do comunismo. Ao PT coube apenas ocupar o espaço destinado aos moderados, fazendo, ainda que indiretamente, um “aggiornamento” de sua figura. Em outras palavras, a turma da estrelinha pode se declarar moderna, sem ser obrigada a explicar o inacreditável paradoxo que a expressão “socialismo democrático” representa.
E os tucanos? Bem, se a esquerda radical é representada pelas várias “Heloísas Helenas”, ao passo que o PT é o moderado, resta aos adversários das esquerdas a… direita! Assim, pouco importam os atos e os programas de PSDB e DEM, pois a máquina de propaganda do PT já decidiu: “São nossos inimigos. São a direita!” Claro que isso seria muito diferente se existissem partidos verdadeiramente direitistas no Brasil, afinal, eles próprios cuidariam de “empurrar” o PSDB mais para a esquerda.
Pois eis que há coisa de dois dias atrás, aquele mesmo amigo citado ao início mandou-me um e-mail que trazia em anexo o manifesto de um novo partido, o Libertários – ou Líber. Ao final da mensagem, ele arrematou: “Surgiu finalmente uma alternativa séria à direita?”
Se considerarmos a direita liberal, sim, sem dúvida. Li rapidamente as propostas dos Libertários e pude notar que eles pregam a desregulação completa da economia, a redução drástica do Estado e a consolidação plena do mercado livre. Sem dúvida trata-se de uma novidade no mínimo curiosa dentro da política brasileira, sempre tão estatizante. Fico sinceramente curioso para saber como o novo partido será recebido pelos eleitores, mesmo prevendo que a aceitação – pelo menos a inicial – não será lá muito entusiasmada… Os brasileiros, meus caros, adoram a figura do Estado-pai.
De minha parte, posso dizer que não me reconheço no tal partido. O Brasil, aliás, não me inspira muita esperança… Quando o mundo civilizado mostra ter sepultado coisas arcaicas como o comunismo, percebemos que aqui ele ainda é reverenciado publicamente. Da mesma forma, quando finalmente surge uma alternativa séria à direita, percebe-se que é aquela menos confiável. Pelo menos aos meus olhos.
Ora, claro que eu concordo com o livre mercado e com uma considerável redução no tamanho do Estado brasileiro. Mas o Libertários está propondo, a meu ver, uma espécie de anarcocapitalismo, coisa que considero absolutamente inviável na prática. Imaginar que a ausência quase que completa de regras e normas levaria, por si só, a um equilíbrio social é, na melhor das hipóteses, ingenuidade. E isso não melhora apenas porque se propõe tal sistema no bojo de uma sociedade capitalista. “O homem é lobo do homem”, lembrem. Por isso a mediação feita por meio do Estado é indispensável.
O lado – como direi? – “social” do programa dos Libertários também não me seduz nem um pouco. Para ser breve, posso mencionar duas divergências inconciliáveis que me distanciariam demais deles: 1) o apoio à legalização do aborto; 2) o apoio à legalização das drogas.
Dizer o quê? No meu mundo moral, não há sistema de liberdades capaz de justificar o assassinato. A ideia de que a liberdade ideal confere à mulher o direito de escolher o que fazer do seu corpo colide de forma frontal com o direito do bebê à vida. No mais, desafio qualquer liberal clássico a me mostrar em qual plano de valores absolutos o direito à vida não é, de per si, a expressão máxima do direito à liberdade.
Não, meus caros. Sem a existência de imperativos morais e éticos, não há maneira de ver uma sociedade prosperar. A sociedade de mercado, indiscutivelmente a melhor parceira até hoje encontrada para a democracia, não nasceu apartada dos chamados valores morais – hoje erroneamente associados aos chamados conservadores. Pelo contrário: ela foi dada à luz por aqueles.
Foram as instituições próprias da democracia que criaram os fundamentos inerentes ao capitalismo, não vice versa. E a democracia, queiram ou não os direitistas mais liberais – ou os esquerdistas mais extremos -, traz em sua essência um conjunto de postulados éticos e morais sem os quais a sociedade livre simplesmente não conseguiria sobreviver. Vou até um tantinho além, no afã de provocar – quem sabe? – um futuro aprofundamento do debate: a democracia tal qual a conhecemos hoje é, no plano político, herdeira da tradição ética e moral desenvolvida, no plano filosófico-humanístico, pela cultura judaico-cristã. Mas esse último aspecto, reconheço, mereceria um artigo próprio. Ou até uma tese, mais longa e abrangente.
O fato é que o livre mercado praticado sem democracia, acaba em totalitarismo. E a democracia, está posto, só sobreviveu em sociedades onde uma profunda ética sempre esteve arraigada nos cidadãos.
O mercado não proporciona liberdade. Ele depende dela. E uma sociedade escrava das drogas, por exemplo, jamais será livre. Da mesma forma, uma sociedade que minimiza a vida humana e permite o assassinato de bebês, escolhe vilipendiar a essência do ser humano. Como poderá, pois, ocupar-se dos negócios?
O Libertários, uma novidade interessante na política nacional, não passa de um PSOL à direita. Ou, em outras palavras, de um grupo radicalmente favorável ao Estado mínimo, da mesma forma que a esquerda conta com grupos radicalmente favoráveis ao Estado paquidérmico. Um erra porque entrega o livre mercado a uma comunidade desregrada. O outro, porque entrega o livre mercado a um Estado totalitário. Ambos, cada um à sua maneira, sucumbirão aos vícios próprios de seus sistemas.
Não consigo ser otimista com o futuro do Brasil. As opções políticas que nos são dadas acabam por ser flagrantemente ruins. Não bastasse a infinidade de partidos de esquerda filosoviéticos, agora a direita também resolve entrar em campo com aquilo que tem de pior a oferecer.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento