Postagens com a palavra-chave ‘Moral’

Coluna do dia: Desrespeito, descaso e a estratégia dos covardes de fugir dos debates

26/07/2010

Por Arthurius Maximus*

Para que uma eleição seja justa, os eleitores devem conhecer as propostas e a capacidade individual dos candidatos de executá-las. Devem estar atentos à personalidade do político, aos seus deslizes e às suas ousadia e inteligência.

Mas, como se consegue isso?

Conseguimos através de um cuidadoso acompanhamento da vida pregressa de cada candidato, suas realizações, seus posicionamentos éticos e morais – ao longo de toda a sua carreira pública – e nos debates.

Esses são os elementos que transformam factóides em fatos reais e a propaganda, meramente populista, em algo voltado para iludir o eleitor. Tudo isso contribui para transformar informações em meios palpáveis para o eleitor formular uma opinião e escolher o melhor candidato para um cargo eletivo.

Mas, no Brasil, vemos uma atitude totalmente antidemocrática ser tolerada pelo eleitorado e acalentada por muitos políticos que desejam enganar a população, temendo o confronto de ideias por saberem-se incompetentes para tal e passíveis de serem desmascarados.

A postura de diversos candidatos, tanto à Presidência quanto aos governos estaduais, de fugir dos debates é, no mínimo, um sinal ao eleitorado de que eles se preparam para aplicar o contumaz golpe do estelionato eleitoral. Sem “colocarem a cara pra bater”, os políticos derramam suas promessas vazias sobre o populacho sedento e esperam que o uso da máquina, o forte apoio financeiro ou mesmo as verdadeiras fantasias que são tecidas na época das eleições façam o trabalho de enganar o eleitor e para que este vote no candidato fujão.

Numa nação composta em 74% por adultos analfabetos funcionais e 54% do eleitorado sem ter sequer o primeiro grau (números do MEC e do IBGE), a ausência dos debates é a estratégia dos covardes incapazes para manipular a massa ignorante e garantir o posto de “salvador da pátria”.

O eleitor, por sua vez, mostra-se impassível e indiferente diante das falcatruas éticas, das imoralidades eleitorais e da tibieza de propostas, que sequer resistiriam a um contraditório sério. Muito embora o colégio eleitoral brasileiro seja um dos mais vastos do mundo, certamente também é um dos mais alienados e desestimulados. Pesquisa recente revelou que, se o voto fosse facultativo, cerca de 44% do eleitorado simplesmente não compareceriam às urnas.

Essa é uma constatação aterradora quando a comparamos, por exemplo, com os índices dos dois principais candidatos nas pesquisas de opinião. Nenhum deles atingiu sequer um patamar próximo a esse índice de rejeição.

Mas, o que podemos entender desses números?

Muito simples: No Brasil, quem decide o voto é a massa desinteressada que, muitas vezes, vota sem qualquer análise e sem qualquer percepção do desastre que pode estar contido em seu próprio descaso.

Daí, a estratégia de fugir dos debates e de expor-se o menos possível para o eleitor, acaba rendendo frutos e garantindo que a propaganda da máquina governamental ou o poderio financeiro cumpram o seu “dever” de imprimir a marca do candidato na mente desse eleitorado. Assim, vota-se em “qualquer um” porque “tudo é a mesma coisa”  ou “não tem jeito” e acaba-se esquecendo que as eleições são o momento para o eleitor premiar quem atuou dentro da ética e da observância das leis e fez um bom trabalho e punir aqueles que agiram de forma contrária aos anseios da nação.

O resultado óbvio pode ser visto, ano após ano, expresso nos escândalos, nos hospitais sucateados, na corrupção desenfreada, nas ilicitudes variadas e perversamente perdoadas pelo eleitor. Cabe, a cada um de nós, repudiar a inação e assumir a responsabilidade que nos cabe, cobrando do candidato que ele compareça aos debates e exponha suas propostas ao crivo do contraditório.

Só assim saberemos se, antes de tudo, ele tem “peito” e condições para levar os seus projetos mesmo contra interesses nefastos que queiram se locupletar do poder. E, em caso de erro, saberemos que votamos naquele que apresentava as melhores condições no momento e aprenderemos com o erro cometido, refinando nossa prática eleitoral e depurando nossas escolhas a cada nova oportunidade.

E você leitor, o que pensa disso?

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Coluna do dia: Chega de “campanha de alto nível”!

23/07/2010

Por Por Yashá Gallazzi*

O PT processou Índio da Costa, Serra, o DEM, o PSDB e mais meio mundo, só porque os petistas não estão acostumados a ouvir a verdade. Não gostaram que o Vice de José Serra dissesse, com todas as letras, que Dilma, por ser petista, é aliada dos terroristas narcotraficantes das FARC, aquele grupo paramilitar que pretende criar o “outro mundo possível” por meio do sequestro, do estupro, da tortura e do assassinato.

Mas o processo em si, a judicialização do debate eleitoral por si só, nem é a pior parte. O mais ridículo mesmo é ver gente como José Dirceu pedindo uma “campanha de alto nível”. É… Vai ver ele prefere todo mundo quietinho, cuidando apenas de juntar dinheiro para comprar apoio parlamentar no Congresso. Ou ainda bolando maneiras de pagar os serviços de publicidade por meio de contas fantasmas no exterior. Discutir ideologia e moral? Ah, isso é “jogo sujo” para essa gente.

Eu estou convencido que a “síndrome do alto nível” é responsável por boa parte do desastre democrático que assola “essepaiz”. De uns tempos pra cá, criou-se o mito de que todo o debate eleitoral deve se dar em torno da gestão e da economia, deixando de lado os chamados temas polêmicos. A ideia era evitar os tais ataques pessoais entre os candidatos, direcionando a campanha apenas para aquilo que o marketing convencionou chamar de “aspectos propositivos”.

Besteira! Eu quero ver sangue! O povo quer ver sangue! Essa ladainha de ficar disputando quem é o gerentão mais sério já cansou. Estamos escolhendo um Presidente, não um síndico de prédio. É evidente que as escolhas ideológicas e morais dos postulantes devem, sim, ser objeto de profunda investigação e debate.

Não sou lá muito velho. A primeira eleição que lembro com mais detalhes foi a de 1998. Meu primeiro voto foi só em 2000, nas municipais daquele ano. Mas gosto do assunto. E procurando vídeos, reportagens e coisa do tipo, concluí há algum tempo que a melhor campanha eleitoral do Brasil desde a redemocratização foi a de 1989. Ou alguém vai negar que era divertido ver Lula dizer que Maluf era competente porque “compete, compete, compete, mas nunca ganha”? Ou ver Collor dizendo que Lula era o “candidato do bloco comunista”? Ou ver Covas e Brizola dizendo que “Collor era só um moleque mimado”? Bons tempos aqueles, quando um candidato podia dizer na cara do outro o que pensava sobre ele. Hoje, o TSE estaria em polvorosa, pressuroso de julgar os milhares de pedidos de resposta, interpelações judiciais e chicanas jurídicas afins.

Por que é “baixo nível” evidenciar a real ligação ideológica que existe entre o PT e as FARC? Ora, a turma da esquerda não vive forçando a mão para ligar Índio da Costa à ditadura? E fazem isso mesmo sabendo que o cara era pouco mais que um moleque na época do regime militar! Por que então não se pode apontar uma relação política e moral que existe de fato entre o partido do atual Presidente da República, e um grupo terrorista?

“Ah, mas as FARC não são terroristas!”, gritará o esquerdista mais radical. Ok. É um ponto de vista. E um ponto de vista que decorre de uma opção ideológica e moral de mundo. E isso precisa, sim, ser discutido numa campanha. Que Dilma se levante, pegue o microfone, e explique por que diabos as FARC não são uma associação criminosa. Defenda seus amigos, oras!

E por que não ir mais além? Por que tanto medo de discutir escolhas morais? Por que ninguém se interessa por temas como o aborto, a eutanásia, o casamento gay e a pena de morte? Essas coisas pautam campanhas em todo o mundo civilizado, mas aqui são tratadas como algo secundário, que pode levar a questionamentos de cunho pessoal e, portanto, recair no chamado “jogo sujo”. Ora, por que é jogo sujo dizer que Dilma e o PT são favoráveis ao aborto? Não é, pois, verdade que o são?! E se o são, por que não defendem isso abertamente, como escolha moral e de partido? Por que ficar tergiversando de forma reiterada, escondendo-se atrás da resposta padrão (“podemos fazer um plebiscito”…)?

O problema é que engessaram as campanhas eleitorais brasileiras, e muito disso é culpa da crise institucional pós-Collor. Como a eleição de 1989 deu no que deu, tudo aquilo ligado a ela foi considerado lixo. A partir de 1994, com o advento vitorioso do Plano Real, passou-se a considerar que a única agenda permitida na campanha era formada pelo binômio gestão-economia. E isso, diga-se, com o aval do PSDB e de FHC, então favoritos à vitória final. As campanhas perderam, assim, qualquer toque de Machado de Assis, e passaram a ser enfadonhas narrações bem ao estilo Sarney.

A justiça eleitoral, sedenta de um poder cada vez mais absoluto, entrou no jogo, engessando cada vez mais as campanhas eleitorais. Não tardará a chegar o dia em que Serra será obrigado a pedir voto para Dilma – e vice-versa – só para que não haja “desigualdade” nas eleições…

A sanha reguladora e controladora do Estado é assustadora. Se um candidato “A” diz que o seu adversário, o candidato “B”, é pior, a justiça considera isso “propaganda negativa”. Ora, mas se um político não puder falar que seu adversário é pior que ele mesmo, para quê a disputa? Se Índio da Costa aponta uma ligação de fato entre o PT e as FARC, a justiça, em vez de permitir e até estimular o debate, silencia as partes por meio de sua clava totalitária, cerceando o debate e prejudicando, assim, a sociedade.

De resto, por que me surpreendo com esse cenário eleitoral absurdo criado pelas instituições brasileiras? Vivemos em um País onde o direito de exercer a democracia foi transformado, pela voracidade controladora do Estado, em “obrigação de votar”. Fere-se de morte, assim, o princípio mais básico de uma sociedade civilizada: a liberdade individual. A partir do momento em que do cidadão é tirado o direito de simplesmente ficar em casa, cortando a grama no domingo eleitoral, sem tomar partido do processo, a democracia já está tecnicamente morta. Nenhum direito é direito quando somos obrigados a exercê-lo.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Política e manipulação moral

21/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

Pessoas em geral, independentemente da classe social e do nível educacional, são praticamente como robôs. Basta saber ‘que botões apertar’, que elas reagem exatamente da maneira como se pretendia inicialmente. E para saber ‘quais botões apertar’, basta sermos bons observadores dos homens e termos uma alta dose de frieza analítica. Obviamente, uma faculdade de psicologia ajuda muito.

É essa noção de que os homens, sujeitos a certos tipos de impressões sensíveis, sugestões e símbolos, podem ser levados a atuar de maneiras específicas, ou a comprar um objeto, ou então a endossar fanaticamente um certo projeto ou opinião, que alimenta áreas como o marketing, o jornalismo e, em uma democracia, inevitavelmente a política.

Em uma democracia, a massa manda. É ela que escolhe que homens deverão ocupar os cargos governamentais, para que estes homens satisfaçam os desejos egoístas dos componentes dessa massa. Ocorre, porém, que os candidatos a serem selecionados pela massa não permanecem inertes aguardando a boa vontade das massas.

O que fazem os políticos, então?

Apresentam racionalmente suas propostas e ideias às massas, para que elas possam fazer uma reflexão crítica, compará-las com as dos oponentes, pesar os prós e os contras, e tomar uma decisão?

Sejamos sinceros, a massa é simplesmente desinformada e acomodada demais. A inteligência de uma massa é sempre equivalente ao menor denominador comum da inteligência de seus componentes.

Se muitos têm dificuldade em se planejar economicamente de um mês a outro sem gastar tudo com bobagens e não conseguem traçar nem mesmo o número de filhos que terão, quanto mais conseguir fazer silogismos e juízos analíticos para se chegar a uma boa opção política.

Também não é interessante para o político ser objeto de reflexão crítica. É algo arriscado demais. O político simplesmente está interessado em receber o apreço das massas, que possa ser traduzido em votos, para que ele possa chegar ao poder, se perpetuar nele, e assim fazer carreira para si. Os políticos, em geral, simplesmente não têm mesmo quaisquer propostas razoáveis a oferecer. E mesmo que tenham boas propostas, boas ideias e uma visão de mundo acertada, as massas são tão ignorantes e egoístas que são capazes de não gostar ou de ignorar um ótimo político, preferindo os que a manipulam.

Não é uma questão de ‘educação’, como os apóstolos da engenharia social adoram pregar, como se fosse possível moldar os homens ao nosso bel-prazer. Também não estou me referindo ao ‘Brasil’. Isso não é um ‘problema nacional’. Esse é um problema institucional estrutural inato ao modelo político escolhido pelas sociedades ocidentais modernas. De Paraguai e Bolívia à Islândia e Suécia, é exatamente assim que funciona. Nesse elemento particular, as diferenças nacionais são mínimas, porque massa é massa onde quer que seja.

Afinal, existe algum exemplo que se encaixe melhor no fenômeno que eu estou descrevendo do que o comportamento robótico e fanático, reminiscente desses cultos messiânicos obscurantistas, ou dessas seitas haitianas de vodu e Santería, do que o dos adeptos políticos e do eleitorado de Barack Hussein Obama? O eleitorado americano se assemelha a uma horda aborígene perante um totem sagrado, o qual possui a propriedade mágica de revelar a ‘verdade’ e a ‘vontade dos deuses’.

Obama é o reductio ad absurdum da hipnose moral e psicológica característica das democracias pós-modernas. Enquanto, costumeiramente, a hipnose residia no subtexto do discurso político, com Obama e a nova geração de líderes políticos mundiais, deixou de haver qualquer subtexto e a hipnose e a repetição de ‘mantras’ se tornou o próprio discurso.

O discurso político na pós-modernidade se mediocrizou ainda mais, para assim poder melhor acompanhar a decadência intelectual das gerações humanas viciadas em televisão. Tendo em vista que a capacidade de atenção e concentração das massas se reduziu drasticamente, a eficiência hipnótica de um discurso composto de trechos longos e encadeados em formato narrativo seria ridiculamente baixa hoje. Oratórias como a de Fidel Castro são apenas resquícios paleoantropológicos.

O orador pós-moderno não discursa, no sentido autêntico da palavra, ele cospe ‘palavras-chave’ de modo pausado, para assim permitir os aplausos ou outras reações populares pré-planejadas, ligadas entre si por uma quantidade minúscula de pronomes, porém cercadas por quantidades gigantescas de adjetivos e advérbios.

A maior eficiência do discurso político e, também, o ponto no qual ele alcança o ápice da baixeza e da abjeção, está na falácia mágica de se traçar linhas morais entre o ‘Bem’ e o ‘Mal’ e se utilizar desses pseudo-conceitos esotéricos para se mobilizar as massas e as convencer a dar apoio a algum projeto político. A finalidade dessa forma falaciosa de discurso é a de basicamente construir alguma legitimidade para um projeto espúrio, quando simplesmente não há nenhum outro argumento que as massas poderiam considerar plausível.

Não é realmente difícil convencer as massas da ‘intrínseca malignidade’ de qualquer povo, ideologia ou conceito, basta despertar nas massas dois instintos básicos, o ‘medo do desconhecido’ e o instinto de auto-preservação. Basta convencer as massas de que esse algo ‘estranho’ representa uma enorme ameaça, ainda que esse algo seja um povo desprovido de armas nucleares habitando uma ilha vulcânica do outro lado do mundo.

Quem enxerga para além das aparências, porém, sabe que ‘Mal’ é apenas aquilo que se desenrola no sentido contrário de nossas expectativas e interesses.

Agora, quem tem qualquer esperança de que algum dia esse modus operandi se altere, pode as perder imediatamente. É assim que a política democrática funciona, é assim que tem sido desde sempre, e as coisas só tendem a piorar, como sempre.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

2ª Coluna do dia: Quando a paz não passa de uma utopia moral

07/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.

Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: O mito da igualdade (Parte II)

23/03/2010

Continuando o texto iniciado na coluna passada. Confira-o aqui

A ‘Igualdade’ é uma impossibilidade ontológica. Um ente é ele mesmo por conta de suas características individualizadoras. Eu sou ‘eu’, por conta daquilo que me diferencia de tudo que é ‘não-Eu’.

Toda a multiplicidade de entes se realiza como multiplicidade pela Diferença, pela Individualidade. Assim, retirando-se os elementos individualizadores, a ‘Diferença’, que é o meio de alcançarmos a ‘Igualdade’, a partir do momento que tivermos dois entes idênticos, não teremos mais dois entes, mas apenas um.

Se a Diferenciação é o que gera a multiplicidade de entes, ou seja, aquilo a que chamamos ‘Universo’, ‘Realidade’, a desconstrução das diferenças entre os entes só pode ser vista como uma tentativa de se engajar em um processo de destruição do Universo. O ‘Igualitarismo’, é uma teologia ‘Anti-Vida’, uma teologia da destruição.

Não possuindo base natural, ou seja real, o Mito da Igualdade só pode se sustentar por meio da coação oficial do Estado, ou por meio das formas difusas de coação, originadas da infra-estrutura social, principalmente dos meios de comunicação e da educação. A principal demência derivada do Mito da Igualdade consiste exatamente na crença de que ‘se não há igualdade, isso é um erro, pois deveria haver’, e agir com base nesse preceito teológico, sustentando e tentando impor a ‘Igualdade’ frente a uma Realidade indiferente e hostil aos retardos supersticiosos dos homens.

‘Se não há igualdade, deveria haver’. Por quê? Por quê deveria haver igualdade? De onde se pode retirar a legitimidade para se estabelecer como Juiz da Natureza? Não se pode. Isso não existe onde há qualquer tipo de reflexão autêntica. E como se pode derivar um ‘dever ser’, de um ‘não ser’? Não se pode. Não há qualquer elo de necessidade, seja lógico, ontológico ou existencial, entre esses dois juízos.

Inevitavelmente, a única fundação possível, a única fonte de legitimidade para esse juízo falso, é novamente a teologia cristã, a superstição bárbara. Se os homens possuem uma ‘essência’ igual.

Se todos os homens são iguais em um plano abstrato, seja teológico, seja racional, então deve-se fazer o possível para atualizar essa potência igualitária metafísica na realidade, como se estivesse a criar um ‘Paraíso na Terra’, como se quisesse promover a materialização da ‘Jerusalém Celeste’.

Vê-se, portanto, que o ‘Mito da Igualdade’ possui fortes características messiânicas e escatológicas, principalmente por estar intimamente associada a outro Mito, o do ‘Progresso’.

As consequências sociais dessa teologia anti-humana são evidentes. Todos os entes só podem ser aquilo que são, e nada mais. Sendo as diferenças entre os entes ontológicas e essenciais, qualquer tentativa de se gerar igualdade só pode ser efetuada nos entes que se diferenciam nos graus de uma mesma qualidade.

Ocorre, porém, que o que é inferior em grau em uma certa característica, não pode se elevar para além dos limites da própria capacidade. Ao contrário, o que é superior em grau, pode se rebaixar, pois já guarda consigo, a priori,  todas as gradações que lhe são inferiores.

Isso significa basicamente que todo processo de equalização se realiza exclusivamente mediante uma ‘nivelação por baixo’, por uma mediocrização imposta ao que é superior, para que ele se aproxime do que é inferior.

Pensemos um cavalo de corrida e um ‘burrico’. Queremos torná-los iguais. ‘É injusto que o cavalo de corrida possa correr mais que o burrico! O burrico não merece isso!’. Que faremos então?

Poderemos tentar ‘educar’ o burrico a correr como um cavalo de corrida.

Logo perceberemos, porém, que isso é impossível.

O ‘burrico’ poderá correr um pouco mais do que já corre, mas apenas dentro das limitações apriorísticas já contidas nas próprias potencialidades dele mesmo.

Se ao invés de nesse momento percebermos que a ‘Igualdade’ é um engodo e resolvermos sabiamente que o cavalo de corrida e o ‘burrico’ devem ser utilizados naquilo que cada um tem de seu, ao invés de equalizados, quisermos continuar nesse projeto igualitário demente, qual será a opção restante? Aleijar o cavalo de corrida. Apenas assim será conquistada a Igualdade.

Parece, porém, que a maioria das pessoas crê em algo que não só é impossível, como também prejudicial para a sociedade. As razões para essa crença são duas apenas.

A primeira é a soma do ressentimento e da inveja daqueles que enxergam a si mesmos como incapazes frente a semelhantes mais afortunados. O desejo pela ‘Igualdade’ nesse caso não passa de manifestação de um medíocre sentimento vingativo.

A segunda, o desejo por ‘Igualdade’ dos que não são incapazes, surge a partir de um auto-destrutivo senso de ‘piedade’, e de uma deficiência mental, uma ‘dissonância cognitiva’.

Inevitavelmente, esse Mito levará o Ocidente à ruína. Será uma ruína merecida, porém. Restará, para os que sobrarem, a missão de construir uma nova civilização sobre fundações mais sólidas.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças

Coluna do dia: Aos libertários – Liberdade sem regras é escravidão

12/02/2010

Por Yashá Gallazzi*

Há algumas semanas, conversava com um amigo sobre a realidade política brasileira. Ele me perguntava como era possível que as pessoas encarassem o PSDB como sendo de direita. Lembro que ele disse algo mais ou menos assim:

“De direita? O partido das agências reguladoras? Dos programas assistencialistas? Do SUS? Francamente.”

De fato, só mesmo no Brasil, onde o quadro político-partidário é caótico e absolutamente ilógico, é que alguém poderia considerar uma agremiação autodenominada social-democrática como de direita. Meu diagnóstico para isso é simples e linear: falta uma direita de verdade no Brasil. Uma direita séria, democrática e propositiva, não esses sectários filofascistas, como o PRONA de Enéas, que, por sinal, se extinguiu ao formar o PR em aliança com o antigo PL.

Ao serem corrompidos pela ligeireza do discurso político promovida pelas esquerdas brasileiras, os eleitores acabaram comprando a tese absurda de que qualquer um que renegue o socialismo é, necessariamente, de direita. E mais: no Brasil, criou-se o corolário de que toda a direita é sempre má. Mas eu pergunto: toda a esquerda é sempre boa? Desnecessário dizer que ao comparar a herança de ambas em cadáveres, o legado da esquerda é infinitamente mais deletério.

Com o surgimento de expoentes radicais de esquerda, como o PSOL, o PSTU e o PCO, o PT ganhou o direito de se apresentar como moderado; moderno até. Assim, Lula pode falar em estabilidade econômica e controle inflacionário, pois cabe a gente como Heloísa Helena a defesa da “ruptura com tudo isso que está aí”.

Não é de estranhar que o petismo tenha experimentado um crescimento importante nas últimas décadas: a esquerda radical avocou para si o papel de besta-fera dos moderados, brandindo as bandeiras ultrapassadas do socialismo e do comunismo. Ao PT coube apenas ocupar o espaço destinado aos moderados, fazendo, ainda que indiretamente, um “aggiornamento” de sua figura. Em outras palavras, a turma da estrelinha pode se declarar moderna, sem ser obrigada a explicar o inacreditável paradoxo que a expressão “socialismo democrático” representa.

E os tucanos? Bem, se a esquerda radical é representada pelas várias “Heloísas Helenas”, ao passo que o PT é o moderado, resta aos adversários das esquerdas a… direita! Assim, pouco importam os atos e os programas de PSDB e DEM, pois a máquina de propaganda do PT já decidiu: “São nossos inimigos. São a direita!” Claro que isso seria muito diferente se existissem partidos verdadeiramente direitistas no Brasil, afinal, eles próprios cuidariam de “empurrar” o PSDB mais para a esquerda.

Pois eis que há coisa de dois dias atrás, aquele mesmo amigo citado ao início mandou-me um e-mail que trazia em anexo o manifesto de um novo partido, o Libertários – ou Líber. Ao final da mensagem, ele arrematou: “Surgiu finalmente uma alternativa séria à direita?”

Se considerarmos a direita liberal, sim, sem dúvida. Li rapidamente as propostas dos Libertários e pude notar que eles pregam a desregulação completa da economia, a redução drástica do Estado e a consolidação plena do mercado livre. Sem dúvida trata-se de uma novidade no mínimo curiosa dentro da política brasileira, sempre tão estatizante. Fico sinceramente curioso para saber como o novo partido será recebido pelos eleitores, mesmo prevendo que a aceitação – pelo menos a inicial – não será lá muito entusiasmada… Os brasileiros, meus caros, adoram a figura do Estado-pai.

De minha parte, posso dizer que não me reconheço no tal partido. O Brasil, aliás, não me inspira muita esperança… Quando o mundo civilizado mostra ter sepultado coisas arcaicas como o comunismo, percebemos que aqui ele ainda é reverenciado publicamente. Da mesma forma, quando finalmente surge uma alternativa séria à direita, percebe-se que é aquela menos confiável. Pelo menos aos meus olhos.

Ora, claro que eu concordo com o livre mercado e com uma considerável redução no tamanho do Estado brasileiro. Mas o Libertários está propondo, a meu ver, uma espécie de anarcocapitalismo, coisa que considero absolutamente inviável na prática. Imaginar que a ausência quase que completa de regras e normas levaria, por si só, a um equilíbrio social é, na melhor das hipóteses, ingenuidade. E isso não melhora apenas porque se propõe tal sistema no bojo de uma sociedade capitalista. “O homem é lobo do homem”, lembrem. Por isso a mediação feita por meio do Estado é indispensável.

O lado – como direi? – “social” do programa dos Libertários também não me seduz nem um pouco. Para ser breve, posso mencionar duas divergências inconciliáveis que me distanciariam demais deles: 1) o apoio à legalização do aborto; 2) o apoio à legalização das drogas.

Dizer o quê? No meu mundo moral, não há sistema de liberdades capaz de justificar o assassinato. A ideia de que a liberdade ideal confere à mulher o direito de escolher o que fazer do seu corpo colide de forma frontal com o direito do bebê à vida. No mais, desafio qualquer liberal clássico a me mostrar em qual plano de valores absolutos o direito à vida não é, de per si, a expressão máxima do direito à liberdade.

Não, meus caros. Sem a existência de imperativos morais e éticos, não há maneira de ver uma sociedade prosperar. A sociedade de mercado, indiscutivelmente a melhor parceira até hoje encontrada para a democracia, não nasceu apartada dos chamados valores morais – hoje erroneamente associados aos chamados conservadores. Pelo contrário: ela foi dada à luz por aqueles.

Foram as instituições próprias da democracia que criaram os fundamentos inerentes ao capitalismo, não vice versa. E a democracia, queiram ou não os direitistas mais liberais – ou os esquerdistas mais extremos -, traz em sua essência um conjunto de postulados éticos e morais sem os quais a sociedade livre simplesmente não conseguiria sobreviver. Vou até um tantinho além, no afã de provocar – quem sabe? – um futuro aprofundamento do debate: a democracia tal qual a conhecemos hoje é, no plano político, herdeira da tradição ética e moral desenvolvida, no plano filosófico-humanístico, pela cultura judaico-cristã. Mas esse último aspecto, reconheço, mereceria um artigo próprio. Ou até uma tese, mais longa e abrangente.

O fato é que o livre mercado praticado sem democracia, acaba em totalitarismo. E a democracia, está posto, só sobreviveu em sociedades onde uma profunda ética sempre esteve arraigada nos cidadãos.

O mercado não proporciona liberdade. Ele depende dela. E uma sociedade escrava das drogas, por exemplo, jamais será livre. Da mesma forma, uma sociedade que minimiza a vida humana e permite o assassinato de bebês, escolhe vilipendiar a essência do ser humano. Como poderá, pois, ocupar-se dos negócios?

O Libertários, uma novidade interessante na política nacional, não passa de um PSOL à direita. Ou, em outras palavras, de um grupo radicalmente favorável ao Estado mínimo, da mesma forma que a esquerda conta com grupos radicalmente favoráveis ao Estado paquidérmico. Um erra porque entrega o livre mercado a uma comunidade desregrada. O outro, porque entrega o livre mercado a um Estado totalitário. Ambos, cada um à sua maneira, sucumbirão aos vícios próprios de seus sistemas.

Não consigo ser otimista com o futuro do Brasil. As opções políticas que nos são dadas acabam por ser flagrantemente ruins. Não bastasse a infinidade de partidos de esquerda filosoviéticos, agora a direita também resolve entrar em campo com aquilo que tem de pior a oferecer.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Protógenes, enfim, se une aos “bandidos”

18/12/2009

Por Yashá Gallazzi*

Protógenes Queiroz é um sujeito curioso. Segundo consta, ele foi convidado a assumir um cargo dentro do Ministério dos Esportes do governo Lula. Governo Lula? Sim, isso mesmo! O mesmo governo que, segundo o próprio “dotô” estava no “pay roll” de Daniel Dantas.

O homem que seduziu Paulo Henrique Amorim e fez sonhar Luiz Nassif é mesmo um portento da ética, da moralidade e da lógica. Segundo sua própria descrição, feita em um site pessoal, Protógenes se inspirou em Jesus, em Buda, nos Vedas e em Ghandi.

Não se brinca com alguém capaz de fazer tamanha salada principiológica… É nitroglicerina pura!

A moral do justiceiro-mor da República é, pois, maleável, exatamente igual sua convicção filosófico-religiosa. O mesmo sujeito que denunciou Lula a Barack Obama, pedindo ajuda ao governo americano para combater a corrupção “nessepaiz”, é capaz, agora, de aceitar um cargo à direita do denunciado. Sim, está bastante claro que eu não nutro qualquer simpatia pelo delegado. Mas digam vocês: é um primor da coerência moral, não?

Protógenes, os leitores sabem, é filiado ao PC do B, um dos partidos mais fiéis ao lulismo. Aliás, corrijo-me: trata-se do partido mais fiel ao governo. Mais até que o PT, segundo o histórico das votações realizadas no Congresso Nacional. O que pouca gente conhece, porém, é a natureza originária dos – como é mesmo? – “Comunistas do Brasil”. O PC do B é um partido stalinista, e isso quer dizer que ele aceita, defende e apóia o assassinato de cerca de 30 milhões de pessoas. Por que é assim? Porque o PC do B não reconhece as críticas a Stálin feitas por Krushev, no começo do processo de desmantelamento daquela máquina de matar que foi a União Soviética.

Eis aí. O novo herói da República, o queridinho do “pogreçismo” politicamente correto do Brasil não passa de um facínora que aceitou ser cúmplice moral do assassinato. Isso diz muito acerca da inversão de valores que se presencia nos dias de hoje. Lembro que logo que esse sujeito ganhou as páginas do jornais, desfraldando a bandeira do combate à corrupção, eu o contestei. Apontei, dentre outras coisas, que ele queria, na verdade, “justissa cás pópria mão”, não justiça de verdade. E, desde sempre, afirmei que ele simbolizava parte desse “pogreçismo” bananeiro que tomou conta da esquerda mais radical brasileira. Os fãs do homem logo trataram de me contestar: “O seu ódio da esquerda o está cegando”, diziam. Mas eis que ele desembarcou no PC do B – o partido que defende Stálin – e resolveu me dar razão…

Sou um vidente? Um adivinho? Não. Simplesmente gosto de usar a lógica, esta besta que costuma assustar a turma do “outro mundo possível”. Mas eu vos garanto: ela pode ser bem mansinha. Querem ver como é fácil caminhar ao lado dela? Pois vamos: Se o governo Lula estava mesmo na folha de pagamento de Dantas – como afirmou Protógenes -, o delegado, ao aceitar o tal cargo, torna-se um… bandido! Se, porém, Protógenes errou no passado e Lula não tem nada que ver com o “banqueiro bandido”, então praticou calúnia e pode ser chamado de… bandido! Não é mesmo fantástico? Como todo bom stalinista, Protógenes acaba sempre sendo bandido, não importa qual caminho se tome. E sabem por quê? Ora, porque o sujeito é um… bandido!

A esperteza desse sujeito foi ter criado a “moeda Dantas de compensação criminal”. Trata-se de uma engenharia político-financeira bastante simples: se você avilta as leis, mostre que o faz a fim de combater Daniel Dantas. Para tal fim, qualquer trapaça pode ser tolerada aos olhos dessa “nova ética”.

Logo, se o “dotô” delegado grampeou metade do Brasil ilegalmente, contratou particulares para espionar pessoas inocentes e permitiu o vazamento de dados sigilosos para a imprensa, deve-se entender que tudo isso foi feito para garantir a prisão de Dantas. E Dantas, vocês sabem, é o bandido maior “dessepaiz”, não é? Sem falar que é inimigo declarado de alguns dos aliados atuais de… Protógenes! Alguns dos quais – atenção agora! – estão oferecendo emprego ao moço no Ministério dos Esportes. Ou a ética dessa gente é tão nova e complicada, que se torna difícil compreendê-la, ou a trapaça promovida por eles é tão evidente, que só não a compreende quem não quer.

Eu, abraçado à minha única moral, digo que Protógenes seria um perfeito companheiro de cela para Daniel Dantas. Quem estupra a ordem democrática e avilta as leis vigentes, não o faz em nome de um bem maior, simplesmente porque são coisas – e sempre serão – antagônicas.

Segundo alguns dos que me criticam, eu seria um reacionário. Será? Por quê? Simplesmente porque acho que na prisão há lugar para Protógenes e para Dantas? Ou então, que os fãs do delegado me demonstrem, com base nas leis vigentes – e na lógica – que o delegado não cometeu crimes.

“Ah, mas Dantas queria apenas roubar, e Protógenes tentava promover o bem.” Pois é… Aqui mora todo o perigo. Não preciso fazer um digressão histórica para lembrá-los dos inúmero crimes que foram praticados a fim de “promover o bem”, não é? Temos exemplos bem vivos hoje em dia, em uma singela ilhota aqui das Américas, onde vivem alguns vagabundos ditadores muito amigos do PC do B de Protógenes…

Eu espero que algum dia os Estados Unidos decidam combater a corrupção no Brasil e lancem umas “bombinhas democráticas” de efeito moral sobre as cabeças dos que se aboletaram no poder. E, quando esse dia chegar, espero que Protógenes, assim como Dantas, seja um dos alvos.

O Brasil só poderá almejar ser grande quando deixar de amar os seus bandidos. Não existem criminosos do bem, é preciso que se entenda. Ou, em outras palavras, há que se ensinar, de uma vez por todas, que é impossível possuir bandidos de estimação. Como? Bem, é fácil. Basta que se tenha apenas uma única moral sempre.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: A corrupção de Arruda e a arte de se ter apenas uma moral

04/12/2009

Por Yashá Gallazzi*

FORA ARRUDA! FORA MENSALEIROS!

Não quero parecer ambíguo, por isso comecei o texto com as frases acima. Quero que os leitores saibam, desde já, que qualquer mensaleiro, se dependesse de mim, iria para a cadeia. Simples, não? Bem, mais ou menos… Aqui, “nestepaiz” esquisito, algumas coisas óbvias não parecem assim tão simples.

Os leitores sabem que sou considerado por alguns como um conservador. Outros – estes mais diretos – preferem dizer que sou reacionário. A maioria, porém, não tem dúvidas: “Esse sujeito é um direitista!” O problema é que essa turma tem o péssimo hábito de medir os outros pela sua própria régua. Assim, se eles decidiram, por exemplo, que ser “pogreçista” é aprovar o aborto, qualquer um que seja contrário ao assassinato dos bebês será um… direitista!

No caso do mensalão do Arruda – ou do DEM, como queiram -, se comportam da mesma forma. Como eles – os “pogreçistas” – defenderam com unhas e dentes as trapaças de Lula, Dirceu e companhia, cobram que “a direita” faça o mesmo agora e abrace Arruda. Sai pra lá! No meu colo vocês não jogam esse cadáver, não!

Quando, há alguns anos, fui acusado de ser “de direita” pela primeira vez, respondi ao interlocutor: “Depende. Se você está falando de Lincoln, Churchill e Thatcher, tudo bem.” Ao que o outro retrucou: “E Hitler?! E Mussolini?!” Entenderam o truque desses valentes? Sabem o que é mais curioso? Essa gente é a mesma que, até hoje, renega sua “herança maldita”. Qual? Bem, os mais de 100 milhões de mortos legados ao mundo por “humanistas” como Lênin, Stálin, Mao, Pol-Pot, Castro e afins.

Por que não defendo Arruda? Bem, porque só tenho uma única moral, sempre constante e certa. Sim, eu sei que isso pode soar um tanto aborrecido, ainda mais em um Brasil onde o Presidente se gaba de ser uma “metarmofose ambulante”… Mas é assim. E, abraçado à minha única moral – e à lógica, como sempre -, só posso condenar Arruda e toda aquela canalha que estuprou a democracia.

Quem tem duas morais – deve ser fruto da tal dialética, lembram? – é a gente “pogreçista”, a turma do “outro mundo possível”. Foram eles que, entre 2004 e 2005, praticaram contorcionismos retóricos os mais absurdos a fim de justificar o mensalão lulo-petista. Aliás, não! Eles fazem isso até hoje! Experimentem tratar do assunto com aquele amigo petista e verão: “Mensalão? Isso nunca existiu! Tudo invenção da imprensa golpista e da elite conservadora e preconceituosa!” E assim eles seguem exercitando a arte de ter uma moral própria, diferente da nossa – que eles chamam de “burguesa”.

Eu? Ora, eu quero que todo mensaleiro vá pro diabo! E que se note: eu disse todo! Quero que os democratas envolvidos sejam punido, da mesma forma como defendo, até hoje, punição para os petistas. Quero que Arruda sofra impeachment, da mesma forma como defendo o mesmo fim para Lula. Perceberam? É essa simplicidade de propósitos, essa lógica moral evidente que deixa os “pogreçistas” ouriçados. Eles não se conformam com isso, e insistem em medir seus adversários – que chamam indistintamente de conservadores – pela própria régua. Por isso vêm até mim, perguntando: “E aí? Não vai defender o Arruda?” Eu?! Eu, não! E você, petralha? Vai continuar defendendo o Dirceu?

Sim, podem apostar que eles continuarão exercitando a ética maleável: defenderão o lulismo e seus desmandos e, com o mesmo vigor, pedirão punição para os demais. Um dos tantos pedidos de impedimento de Arruda – pasmem! – foi apresentado pelo PT! Isso para não mencionar os tais “movimentos sociais”, esbirros do petismo, que já se apressaram em cobrar “ética”. Cobraram de quem? Bem, dos outros… Afinal, eles são a “vanguarda transformadora”, não é? Eles não precisam perder tempo com coisas pequeno-burguesas como a lei e o direito. Só o que importa para eles são “ozoprimido”.

Eu sei que estou dizendo algo até bastante evidente, mas é que vivemos tempos um tanto sombrios. Hoje, defender a liberdade de expressão de um ex-petista é ser “de direita”. Fácil compreender por que essa gente estranha não consegue chamar bandido de… bandido! Para eles, só “os outros” são bandidos. Quais? Bem, os que não roubam pela “causa”. Pode parecer novidade, mas é só a repetição de um triste padrão. Os que justificam o mensalão lulista, mas condenam o de Arruda, são os mesmos que criticam Hitler, mas conseguem justificar Lênin e Trotsky. É sempre a velha história das duas morais…

Eu não defendo os envolvidos no mensalão do distrito federal porque não tenho bandidos de estimação. Quero é que todo o bandido seja processado, condenado e encarcerado. Simples assim. Logo, quero que Arruda e sua corja sejam atirados num calabouço, de preferência junto com Lula, Dirceu e companhia. Quem tem bandidos – terroristas e ditadores também – de estimação são os “pogreçistas”, que conseguem condenar o regime militar brasileiro, ao mesmo tempo em que tecem honras a Fidel Castro, o maior assassino da história das Américas. Eu? Bem, “conservador” que sou, quero mais é que todos sejam atirados na lata de lixo da história!

Acreditem: Não há nada mais libertador do que se deixar nortear por princípios que não precisam justificar o assassinato, nem condescender com a corrupção. Sabem, porém, o que é mais curioso? Isso, no Brasil de hoje, tem sido sinônimo de ser “conservador e de direita”. Bom, se é assim… Que assim seja!

No mais, eu não poderia defender o DEM em nenhuma hipótese. Nem mesmo em razão de uma suposta afinidade ideológica. O ex-PFL, afinal, está muito à esquerda para o meu gosto pessoal.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Dia da Consciência Negra – Quem dera ele fosse desnecessário

29/11/2009

Por Jessica Riegg*

O Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, foi comemorado em todo o País. A data faz referência à morte de um dos líderes mais famosos dos escravos: Zumbi dos Palmares.

Como sou jornalista, fui cobrir a data conversando com a assessora de educação do movimento negro de Divinópolis e ela me disse coisas que me espantaram.

Quando perguntei a ela se a data era importante para os negros, ela me respondeu que é muito triste pensarmos que precisamos de um dia para lembrar à população que o racismo é um crime. E a assessora estava certa! Essa data deve ser lembrada todos os dias, pois os negros são enorme parte da essência desse País, eles nos ajudaram a construir a nossa história.

Esse dia pode, possivelmente, aumentar a diferença entre negros e brancos, afinal, não existe o Dia da Consciência Branca. Esse feriado pode institucionalizar uma suposta diferença entre as pessoas, diferença essa que não existe.

Os negros são discriminados, e isso não é nenhuma novidade. Mas eu pergunto a vocês: Como um País que é, em sua maioria, negro ou misto, pode permitir esse tipo de situação? Isso é um absurdo!

Independentemente da cor, todos somos iguais e deveríamos ser tratados de forma igual. Mas aí é que surge a questão: Como retirar da população um preconceito que vem sendo embutido há séculos? Como obrigar o governo a aplicar penas mais efetivas aos autores dos crimes de racismo? Como ensinar tudo isso à população?

A resposta dada pela assessora foi simples e ao mesmo tempo eficaz: Devemos ensinar isso às crianças, tanto nas escolas quanto em casa.

O governo já orientou para que as escolas desenvolvam matérias que dizem respeito à cultura negra, e isso está acontecendo, mas em pequena escala. Torço para que as escolas realmente implementem essa matéria de suma importância aos alunos, ensinando valores éticos e morais que as crianças estão perdendo atualmente.

Valores que deveriam ser ensinados pelos pais, mas que vem sendo deixados de lado.

O Dia da Consciência Negra é feriado ou ponto facultativo em oito Estados e em setecentas e cinquenta e sete cidades do País, conforme levantamento da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), ligada à Presidência da República.

Bom, enquanto tudo o que defendi acima não acontece, essa data talvez continue sendo apenas um feriado…

*Jessica Riegg escreve no Perspectiva Política todos os domingos

2ª Coluna do dia: Sociedade, Centros Sociais e Clientelismo

27/11/2009

Por Bruno Medina*

O interfone toca:

- Tio, tem alguma coisa para dar?
- Não, não…
- É que minha mãe não pode trabalhar…
- Sinto muito.
- bom, obrigada.

E então a menina toca o interfone da casa ao lado. Talvez, com alguma sorte, caso o morador se sensibilize com a situação, dê algum pedaço de pão ou as sobras da comida da noite anterior. Em geral, as pessoas não gostam de ajudar pedintes nesse tipo de situação, baseados na justificativa de que “uma vez que você , eles não param de pedir de novo” – o que não é uma total inverdade.

Considerando-se que a história da menina seja verdadeira – e não uma mentira que a mãe ensinou à criança para comover as pessoas –, aquele que, podendo, nega ajuda a alguém que está passando por dificuldades, comete uma falta de dever ético, porque deixa de praticar uma conduta boa para o indivíduo e para a sociedade. Mas o problema é que não se tem como saber se a menina mente ou diz a verdade. Na dúvida, nega-se.

E não se pode, neste caso, recriminar o sujeito que deixa de ajudar. Há diversas justificativas para esse comportamento negativo, como, por exemplo, o estímulo à mendicância, implicando uma situação confortável aos pais que ficam em casa e também à menina, que vai se acostumar a receber comida ou dinheiro gratuitamente sem o esforço necessário que o restante da sociedade emprega, fazendo da mendicância um meio de vida.

Para evitar isso, muitas pessoas preferem fazer doações a centros sociais mantidos e organizados pela sociedade civil – com o apoio da assistência social (art. 203, CF) -, o que é uma atitude louvável que vai ao encontro dos objetivos da Constituição cidadã, já que dessa forma ajudam na construção de uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I, CF). E não somente fazendo doações de mantimentos ou roupas, mas também participando da organização, promovendo encontros literários, musicais, esportivos, etc. Enfim, promovem ações sociais que visam ajudar o desenvolvimento e a integração das crianças, dos jovens, dos adultos e dos idosos à sociedade.

Mas como nem tudo são flores, o populismo político acaba se instalando nesses centros sociais. É comum a existência de centros mantidos por deputados e vereadores. Infelizmente, não por generosidade ou caridade (como fazem os cidadãos “comuns”, segundo o Presidente Lula), mas com o objetivo de garantir a destinação daquele direito (!?) político e universal que todo cidadão reclama e “faz questão” de exercer: o voto.

Como os frequentadores de centros sociais são, em geral, pessoas com pouca cultura e que necessitam de ajuda para viver, os políticos, considerados como “muitos bons” por essas pessoas, se valem da ignorância alheia e esclarecem que se não fosse por eles, aquela instituição, que provê roupas, comida e até mesmo onde dormir, não teria como existir.

Aqui em Canoas, no Rio Grande do Sul, tem um político que ora se elege vereador ora não. Desconheço seu nome real, mas sei que o chamam de “Xirú” (PTB). Ele mantém um ônibus que volta e meia leva as pessoas a “passeios culturais” pelo Estado, ou então é disponibilizado para a comunidade para que possam visitar a Expointer, feira agropecuária que se realiza em Esteio, aqui no Rio Grande do Sul. Há outro cujo apelido é “Pateta” (PTB). Ninguém conhece o rosto dele, mas todos sabem quem é o “Pateta”, porque durante as eleições um artista vestido de Pateta passeia pela cidade. Ele também tem um carro, com motorista, que leva as velhinhas da comunidade ao hospital ou aos centros sociais. Afinal, prestar um serviço social aos idosos é humanitário, não?

Um exemplo: Ano passado, a candidata Franciane (PMDB), esposa do Deputado Estadual Paulo Melo (PMDB), que mantinha um centro social, perdeu a eleição para o cargo de Prefeita, em Saquarema-RJ. No dia seguinte à eleição, o centro social amanheceu de portas fechadas. Motivo? “O centro social foi fechado porque eu perdi a eleição”, conforme a candidata. Tem prova mais contundente do que essa justificativa de que a manutenção dos centros sociais por políticos tem cunho puramente demagógico e eleitoral? Clientelismo escrachado!

Os cidadãos “comuns” têm cumprido com suas obrigações morais e com os objetivos estabelecidos em nossa Constituição, provavelmente, porque acreditam no futuro da nação. Já os representantes do povo…

*Bruno Medina é colunista do Perspectiva Política às sextas