Postagens com a palavra-chave ‘Literatura’

Morre Saramago

18/06/2010

Morreu o escritor e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago.

O português tinha 87 anos e faleceu nas Ilhas Canárias, Espanha.

Fica o registro da partida do escritor que ficou famoso não só por seus livros e artigos, mas também por suas posições políticas de cunho socialista.

Artigo do leitor: O corcel branco

11/06/2010

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto, de autoria do leitor Fábio Liberal, construído após uma sessão do filme ”Viajo porque preciso, volto porque te amo”:

Fábio Liberal*

Ontem, depois de assistir um filme, lembrei do dia em que meus avós dançavam no quarto às vésperas do São João. O rádio tocava baixinho ‘Riacho do Navio’ de Luis Gonzaga.

Guardo essa cena como quem guarda o melhor pedaço da vida. Por sorte eu usufruía de um ângulo que impossibilitava o flagrante. Fiquei ali até que a música findasse. Eram dois velhos movendo seus corpos sem a mínima fração de ânsia, duas pessoas que dificilmente teriam ainda o que dizer um ao outro.

Lembro que poucos meses depois eu estava encarregado de dirigir o carro do velho, um corcel branco enfurnado de baratas, caindo os pedaços. Um câncer comia-lhe as tripas e eu fora designado a dar assistência à família.

A tarefa consistia em levar e trazer minha avó, minhas tias e minha mãe à UTI de um hospital na Ilha do Leite. Assim como aquele velho corcel, meu avô não tinha direção hidráulica, era bruto como uma caixa de ferramentas e talvez por isso mesmo capaz de surpreender as todos com os gestos mais singelos.

No quinto dia de sua internação, como ninguém quisesse entrar na UTI, por desejo do meu próprio avô, pediram que eu fosse porque ainda não tinha o visto em tal situação. Talvez ele estivesse fadigado por ver as mesmas expressões nas mesmas caras, pensavam. Ninguém aceitava que ele estava morrendo.

O mito do último contato, da última palavra, quando o sujeito se encontra desvelado de suas máscaras sempre percorreu o imaginário coletivo. Dizem que Goethe clamava por “mais luz!”; Tomas Hobbes dizia-se “diante de um terrível salto nas trevas”; até Nietzche temia publicamente: “Se realmente existe um Deus vivo, sou o mais miserável dos homens”.

Eu me sentia culpado por estar violando o desejo daquele homem de não ser importunado com a piedade alheia. Entrei a contragosto. Tentei não notar a infinidade de tubos que lhe desfiguravam o rosto; cumprimentei-o de maneira ridícula; segurei-lhe a mão e, covardemente, esperei pela iniciativa de um resquício de ser vivo que agonizava na cama.

Os poucos segundos que passaram foram os mais mórbidos que já presenciei. Quando então percebi que a boca dele estava prestes a se mexer, curvei-me para ouvi-lo. “A correia do carro precisa ser trocada”, ele me disse baixinho.

Foram as suas únicas palavras, as últimas dele para mim. Um dia depois ligaram do hospital de manhã cedo. Aposto que Goethe, Hobbes, Nietzche e a maioria dos grandes homens invejariam a incorruptibilidade daquela frase: “a correia do carro precisa ser trocada”.

Prometi a mim mesmo que passadas as resoluções funerárias eu iria a um mecânico.

*Fábio Liberal é jornalista e leitor do Perspectiva Política

Coluna do dia: Yoani Sanchéz, Fausto e o Diabo

29/04/2010

Por Felipe Liberal*

FAUSTO:

Se podes me enganar com coisas deliciosas, doçuras a sentir, prazeres! Alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas, que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo.

MEFISTÓFELES:

Aprovo. Pensa bem no que dizes. Diabo tem memória.

Este é o momento exato em que Fausto aceita a proposta do Diabo (Mefistófeles) e vende sua alma. Para quem não conhece “Fausto”, uma das maiores obras literárias e teatrais da história da Humanidade, escrita por Goethe, recomendo a ida a qualquer livraria mais próxima e a compra hoje mesmo, leiam e contem-me depois qual a sensação de devorar uma obra-prima.

Esta cena explodiu na minha mente essa semana, quando li a entrevista que a famosa blogueira cubana Yoani Sánchez concedeu ao jornalista francês Salim Lamranium. Entrevista que foi indicada pelo meu leitor e colega Alan de Freitas. Agradeço publicamente.

Já era lógico que existia alguma coisa estranha em toda essa raiva de Yoani contra Fidel e Raul. Já era óbvio que toda essa gritaria e pânico tinham alguma coisa de errado. Já era claro que toda essa “liberdade” de pensamento virtual não passava de mais uma criação americana, como na Guerra Fria, lembram? Aquela política de fabricar pensadores e intelectuais? Pois é, isso nunca acabou. A Guerra da Mentira continua quente e viva.

Só tem um problema: a “cria” foi mal treinada. Não suportou o bombardeio de perguntas do jornalista francês e entrou em contradição várias vezes durante a entrevista. Temas como censura, repressão, polícia cubana, Fidel, Raul, EUA, Obama e internet, foram abordados incansavelmente por Salim diante da blogueira, que não conseguia responder e algumas vezes entrava em contradição com suas próprias palavras ditas anteriormente.

Sabemos que dentro do seu blog existem reclamações pertinentes e válidas, sendo inclusive indagações da maioria esmagadora do povo cubano, mas o que me deixa triste são as mentiras contadas por ela contra seu próprio país. Mentiras essas que ferem a imagem e a identidade do seu povo, de seus irmãos. E tudo isso tendo ampla publicidade das grandes empresas jornalísticas em todo o planeta, mostrando o quanto é frágil esse dinamismo virtual e cibernético, o quanto é frágil a informação verdadeira.

Yoani Sanchéz vendeu a alma ao Diabo em troca de fama, prestígio e premiações internacionais. O Diabo azul e vermelho. O Diabo que fala inglês.

Yoani Sanchéz não é a primeira e nem será a última a interpretar Fausto na vida real. Muitos conseguiram esse papel no teatro do bem e do mal. E agora consigo lembrar-me qual foi o fim de outro que empreendeu interpretação do personagem há bem pouco tempo atrás: morte na forca, em Bagdá. Lembram?

Nem sempre o final é feliz.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Artigo: Luiz Felipe Pondé – De 1984 a 2010

10/04/2010

Não poderia este que vos fala, de forma alguma, deixar de reproduzir o texto a seguir, de autoria do colunista Luiz Felipe Pondé, publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Decidi disponibilizá-lo para os leitores do Perspectiva assim que o li.

Pondé trata, neste texto, da antes até compreensível, mas agora terrível, ditadura do politicamente correto, que se intensificou e piorou ao longo do tempo.

O que antes representava um certo cuidado e uma certa cautela no momento de escolher as palavras a serem ditas ou escritas tornou-se uma detestável camisa de força, que afeta a literatura, a música, o humor, enfim, toda a produção intelectual.

Sugiro fortemente a leitura deste texto que trata de um fenômeno que, se por um lado, desperta a ira de alguns dos colunistas do Perspectiva, por outro, já irritou até mesmo este tolerante editor.

De 1984 a 2010

Luiz Felipe Pondé*

No romance “1984″, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos “mais bem- intencionados”.

Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil “Idéias Políticas na Era Romântica” (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade.

A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal. O furor coletivo de “verdades do bem” deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável. E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente.

Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores “amantes da liberdade” quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da “comunidade intelectual” da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores “do bem”.

O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo. Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor. Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe.

Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do “novo Saci”. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco.

Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o “atirei o pau no gato” deve virar “não atire o pau no gato” para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo “verde” chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos.

Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas.

O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas). Sim, 1984 é agora.

*Luiz Felipe Pondé é filósofo e professor

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 4

25/03/2010

Deus e criações

Por Felipe Liberal*

Deus é o criador de todas as coisas, onipotente, onipresente e onisciente. Deus é tudo, definitivamente tudo.

Deus criou o diabo, o inferno e a matemática. Deus criou o universo, o mundo e os africanos Adão e Eva. Criou a África. Esqueceu a África e criou os outros continentes que foram povoados por imigrantes da África. Deus criou a cor branca, posteriormente à cor negra. Deus inventou o vinho e depois a cerveja, ou foi a cerveja e depois o vinho? Brancos e negros bebiam vinho, e brancos e negros bebiam cerveja.

Deus criou os outros deuses: Osíris, Ísis, os gregos, os romanos, Odin, os corvos da putrefação Huguin e Munin, as valquírias da morte entre os vikings, Javé, Alá, os deuses amarelos da Ásia, a indiana Mitra e etc. Deus criou todos eles e declarou guerra entre eles, várias vezes, infinitas vezes. Deus criou uma seleção natural entre os deuses, onde o mais forte vence e transforma o outro em pó, em páginas de livros de História.

Deus criou Johann Friedrich Blumenbach, zoólogo que reuniu 245 crânios humanos, comprovando que a raça branca provinha da região do Cáucaso e tinha o direito de se assumir superior à raça negra. Deus também criou o norte-americano James Watson, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, que afirmou em suas teses, em 2007, que os negros são menos inteligentes que os brancos. Mas nós todos fomos negros, temos os dois pés na África e somos fisiologicamente idênticos, mas é claro, Deus também inventou a ironia e o paradoxo.

Deus também criou um assistente, ou melhor, um grande assistente para auxiliar em suas invenções: a China. Os chineses, com o dom de Deus, inventaram praticamente tudo de que se tem notícia: chá; bússola; papel; seda; extração de sal, petróleo e gás; moinhos de água; imprimiram livros seis séculos antes que Gutenberg; pólvora; timão; roca; acupuntura; porcelana; futebol; baralho; lanterna mágica; pirotecnia; sismógrafo; pipa; papel-moeda; relógio mecânico; laca; pintura fosforescente; carrinho de mão; guarda-chuva; leque; estribo; ferradura; chave; escova de dentes e mais algumas coisinhas. Deus também inventou a mentira, que alguns países contaram sobre essas invenções.

Inventou, em 1492, um novo continente, que seria fruto de experimentos humanos por 500 anos. O continente da morte e das contradições.

Deus sozinho criou Kafka, Dostoiévski, Maiakovski, Tom Jobim, Chico Buarque, Villa-Lobos, Monet, Picasso, Gandhi, Nijinski, Jesse Owens, Juan Rulfo, Fidel Castro, Che Guevara, Mao, Stalin, Lênin, Roosevelt, Hitler, Napoleão e outras figuras também moldadas pelas mãos iluminadas.

Deus inventou a escravidão, os campos de concentração e as guerras. Deus criou o ódio e o amor. Criou também a pistola, a espingarda, as bombas, o fuzil e outros modos de mostrar quem manda e tem poder. Deus criou o conformismo, a alienação e tudo que faz o ser humano não ser humano. Deus criou Hiroshima, depois destruiu Hiroshima. Criou o Vietnã, depois destruiu o Vietnã. Criou o Iraque, depois destruiu o Iraque. Deus inventou Bush, e também o ataque terrorista de Nova York e Washington. Inventou Bin Laden e criou uma justificativa para tudo que somos hoje.

Deus criou tudo, absolutamente tudo.

Mas e se Deus não existir? Quem criou tudo isso? O que existe e o que não existe? O que nós somos? O que nós sentimos? Quem explicaria tudo?

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: A justificação da moderna inconsequência adolescente e a morte de J. D. Salinger, o reacionário

29/01/2010

Por Yashá Gallazzi*

O escritor Jerome David Salinger morreu ontem, quinta-feira, aos 91 anos. Morreu exatamente da mesma forma que sempre viveu: ocupado apenas consigo mesmo e com o pequeno mundo dentro do qual resolveu habitar.

Salinger sempre foi considerado um ídolo por aqueles estranhos profissionais que passarei a chamar de “modernos psicólogos”. Sua obra mais famosa, “O apanhador no campo de centeio”, sempre foi encarada como sendo uma espécie de tratado sobre a rebeldia na adolescência. Não que a adolescência tenha nascido com o livro de Salinger. Longe disso. É que foi a partir dele que se começou a cultuar a ideia de que há, necessariamente, uma fase da vida na qual a rebeldia e a contestação são aceitáveis.

A verdade é que Salinger acabou morrendo sem conseguir mandar para o diabo todos os imbecis que utilizaram sua obra de arte para abafar as palmadas que várias gerações de moleques deixaram de levar em seus traseiros rebeldes.

Não que ele tivesse vontade de desmentir, recriminar ou mandar pro diabo quem quer que fosse. Salinger era, antes de qualquer outra coisa, um indivíduo pleno em sua individualidade. Em uma das raríssimas entrevistas que concedeu, ao “The New York Times”, perguntado sobre o que tentava passar aos seus leitores, o escritor respondeu assim: “Não dou muita importância ao sentimento do leitor. Eu amo escrever, mas só escrevo para mim mesmo. Faço isso para meu prazer pessoal.”

Trata-se da síntese daquilo que considero a essência de uma boa relação entre escritor e leitor. É muito melhor ler as grandiosidades escritas por “um Salinger”, que não está nem aí pra você, do que se debruçar sobre as escoiceadas de “um Saramago”, sempre em busca de catequizar o mundo.

Salinger foi grandioso por ter escrito com extrema simplicidade o óbvio. Ele deixou de lado qualquer recurso a mensagens subliminares ou morais escondidas e ocupou-se apenas da fria narrativa dos acontecimentos. Por isso sua obra parece tão emocionante e envolvente. Paulo Coelho precisa rabiscar uma “lição de vida” diferente a cada três linhas de texto para conseguir emprestar alguma profundidade àquilo que produz. Salinger só precisava escrever para ele mesmo, nada mais.

“O apanhador no campo de centeio” é um livro fascinante porque se ocupa do que é prático. Ali, Holden Caulfield divaga tentando compreender a si mesmo, desafiado cada vez mais pelas nuances do seu próprio individualismo. A obra não poderia jamais ser vista como uma ode à rebeldia adolescente, simplesmente porque Caulfield, o contestador de Salinger, é o vilão da trama! Antes de ser um salvo-conduto para as trapalhadas dos moleques, o livro é, pois, uma sonora bofetada na cara espinhenta de todos eles.

A personagem principal do livro realmente enfrenta dramas e tormentos pessoais, mas em nenhum momento o autor os relativiza em razão da idade do atormentado. Muito menos tenta justificar as idiotices cometidas por Caulfield – e foram muitas! – valendo-se do discurso vitimista. Assim, se o moleque bombou na escola e foi expulso – por três vezes! -, fica claro que o problema é ele, não uma suposta “incompreensão do mundo exterior”. Em outras palavras, quando cada estranho na rua olha Caulfield como se este fosse uma aberração, Salinger deixa claro o óbvio: Não será ele, de fato, uma aberração?

Salinger morreu. Mas não ontem, numa quinta-feira fria de janeiro. Morreu há muitos anos, na primeira vez em que um “moderno psicólogo” subjugou sua obra prima e a seviciou intelectualmente, usando-a para molestar adolescentes ávidos por justificar suas irresponsabilidades.

O vilão criado por Salinger foi, assim, alçado à condição de mocinho-vítima, cujos atos destrambelhados deveriam sempre ser creditados a uma suposta revolta com um mundo e com uma escala de valores opressiva. Desta feita, quando Caulfield conseguiu ser expulso de três diferentes escolas, os “modernos psicólogos” passaram a questionar as políticas de ensino, deixando de lado o mais evidente: o moleque não queria estudar!

Foi de perversões assim que nasceram absurdos como a tal “avaliação no processo”, o “ensino voltado a formar cidadãos” e o culto à aprovação desmedida – mesmo sendo imerecida. Ao ler “O apanhador no campo de centeio”, os pensadores pegaram o caminho errado da interpretação: o pobre adolescente tem tantas dúvidas, tantos transtornos, que precisa ser acarinhado e protegido do mundo e de si mesmo, inclusive garantindo-lhe o direito à rebeldia. Na verdade, a escolha certa seria exatamente a oposta: o vagabundo precisa tomar uns tabefes o mais rápido possível! Ele que pare de se preocupar com os olhos do tal “mundo exterior” e se concentre nos livros. Simples assim.

Salinger morreu quando notou que “o mundo exterior” transformou seu romance em um livreco de auto-ajuda, bem ao melhor – pior? – estilo Paulo Coelho. O mais dramático, porém, talvez nem tenha sido isso, mas a enormidade de livrecos de auto-ajuda que nasceram sob a pretensão de explicar o livreco de auto-ajuda, que a estupidez moderna pensou ter sido escrito por Salinger. Aí a coisa ficou realmente crítica: caímos de Paulo Coelho para Chico Buarque, apanhados por histórias ridículas.

Não é de se estranhar que Salinger tenha vivido por décadas como um eremita, isolado da imprensa e negando-se a escrever continuações do livro. Quem poderia suportar a obra de sua vida sendo espancada, assassinada e, por fim, vilipendiada de forma tão cruel?

Nas últimas décadas – em especial nesta última -, presenciamos um exército de “experts” sustentando que a rebeldia e a contestação dos adolescentes são algo “bom e normal”, sempre a partir de uma psicologia que parece ter sido inventada no bar. Essa gente corrompeu toda uma leva de pais e de jovens, que cuidaram de se acomodar diante de sua própria estupidez e ignorância, encarando-as como “uma fase”, “um sinal da idade”.

Tomaram um romance brilhante sobre a conduta do ser humano e suas consequências, e transformaram-no em uma ode à irresponsabilidade sem causa. Fizeram de Holden Caulfield uma vítima do mundo, quando, na verdade, Salinger o descreveu como um vilão, causador de toda a sua mesquinharia interior.

Enquanto o “mundo moderno” se derrete pela rebeldia adolescente, encarada como uma espécie de revolução contra os “costumes caretas”, Salinger pintou o adolescente rebelde perfeito: aquele que merece levar uma boa surra, sofrer um castigo exemplar e, por fim, ser urgentemente obrigado a deixar de lado as baboseiras da contestação e se dedicar aos livros. Contra os “modernos psicólogos” revolucionários, Salinger foi, pois, um reacionário.

Aliás, não! Isso é o que eu acho que Salinger foi. Afinal, como dito, ele escrevia apenas para ele, não para passar mensagens secretas e libertadoras ao leitor. Por isso sua obra é tão brilhante. Por isso sua perda deve ser tão sentida.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 3

26/11/2009

A minha parede

Por Felipe Liberal*

Olhava pra parede da minha frente, em frente à minha casa. Vidas estão nela. Amores, esperanças e desgraças estão ocorrendo, na minha frente, em frente à minha casa. A parede fala.

Proletários de todo o mundo, uni-vos. (último aviso)

Estava escrito no meu 2º passo, por algum socialista louco, pirado e precavido. As pessoas passam e não percebem a urgência do recado, que ultimamente estava avisado. Avisam-nos desde 1848, não acredito que agora vá adiantar.

Por que o Natal é na neve, se Jesus nasceu num deserto? E Papai Noel é pai de quem?

No meu 5º passo me deparei com as maiores das perguntas, que são aquelas que não sei responder, aquelas perguntas que dão vontade de fazer pra todo mundo que passa, mas as pessoas não dão atenção à parede falante.

Napoleão não era francês, Che Guevara não era cubano, Stalin não era russo e Jesus não era cristão.

Oito passos depois do início da minha caminhada pude ver que minha professora era mentirosa.

Por que os EUA podem produzir bombas atômicas, e o Irã não pode? O que os japoneses têm a dizer?

Quais? Os que morreram? Ou os cancerígenos?

O que é pior: mudar de nome ou mudar de alma?

No meu 11º passo lembrei-me de Hokusai, que mudou de nome sessenta vezes, e morreu depois de ter dado vida ao inanimado, com uma das melhores almas que o Japão já sentiu.

Bem-aventurados os bêbados, porque verão Deus duas vezes.

No meu 15º passo, perguntei-me: e os bêbados ateus?

Depois de tanto caminhar por paredes vivas e pessoas mortas, entrei num táxi, amarelo, como todos aqui de Nova York. O taxista chorava e lamentava em um leve sotaque caribenho, que sua mulher havia o abandonado.

- Não é culpa dela. Ela nunca gozou – Disse-me.

Fiquei sem palavras, a única mulher com quem conversei sobre sexo foi minha mãe, quando me deu de presente uma caixa de preservativos.

- Vai pra onde, caro amigo? – Perguntou-me soluçando.

- Pra casa. Ali, depois dessa grande parede.

Não conseguia voltar andando, eram muitas dúvidas e verdades que preferia evitar naquela parede. Porém, mais tristeza tinha encontrado dentro do táxi, dentro daquele homem berrante. Tristeza tinha encontrado naquelas pessoas andantes, mortas-vivas ao lado da grande parede.

Uma namorada sem tetas é, mais que namorada, um amigo.

Foi a última frase que li na parede ainda dentro do táxi, valeu a pena, arrancou um leve sorriso no rosto do taxista, que não parava de berrar.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

5ª Coluna do dia: Bibliotecas estão para chicórias, assim como “xópins” estão para sorvetes

23/11/2009

Por Tiago Franz*

Informou Lísia Gusmão, repórter da Agência Brasil, na manhã de ontem:

Brasileiro lê um livro por ano, revela pesquisa

Um levantamento do Instituto Pró-Livro confirma que o brasileiro lê pouco. São 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos. Já os leitores, que somam 95 milhões, leem, em média, 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7 – ainda assim baixo. Os dados estão na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita com 5.012 pessoas em 311 municípios de todos os estados em 2007. [...] Leia a íntegra aqui.

Estes números não me causam surpresa alguma. Ao contrário, refletem a realidade nua e crua tal qual me bate à porta. Há pessoas próximas de mim habituadas à leitura frequente, mas também conheço pessoas que concluíram o Ensino Médio sem ter lido, em toda a vida, um livro do começo ao fim. E não são poucos os “não leitores” – para usar o termo da pesquisa supracitada – que conheço.

Qual a relação entre essa realidade e a política do País?

Pelo menos algo é coerente: na hora de definir o orçamento público, as autoridades “representam muito bem” a população, pois destinam à educação e à leitura recursos proporcionais ao interesse dos brasileiros pelos livros.

Na semana que passou, a Biblioteca Municipal de Chapecó, cidade catarinense onde resido, completou seu 69º aniversário. Um pedacinho da imprensa local, provavelmente motivado por um release oficial, publicou o fato. Uma matéria informou que a biblioteca já conta com 17 mil cadastros de pessoas (a cidade têm cerca de 180 mil habitantes) e cerca de 40 mil volumes no acervo. Um dos 17 mil cadastrados sou eu. Visitei a biblioteca na tarde de sexta-feira e lá estavam os surrados 40 mil volumes.

O acervo da biblioteca é atualizado principalmente com doações de livros. Quando entro lá, tenho a impressão de estar em um depósito de livros indesejados por quem os doou. Mas e daí? O que importa não é o acesso ao conhecimento? Afinal, não são 17 mil pessoas que pelo menos uma vez já se beneficiaram daquele material? E quantos municípios não têm nem uma pequena parte daquilo?

Eu mesmo já li muitos livros emprestados da biblioteca… Uma edição de mais de 40 anos de Os Miseráveis, de Victor Hugo; um exemplar de um volume da série O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, praticamente se desintegrando; uma edição de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, comida pelas traças; e tantos outros. Apesar das condições, eu gosto daquele lugar.

Muito mais comentada e comemorada em Chapecó neste mês de novembro foi a inauguração de um super mercado e atacado, juntamente com o anúncio de que vai sair em breve o tão aguardado e primeiro “Xópin Center” da cidade. “Até que enfim! A gente merece!”, estão a dizer muitos dos chapecoenses. É para atender a esse tipo de anseio que os políticos locais movem seus “pauzinhos”.

É. As bibliotecas competem com os “xópins” tal qual um pé de chicória compete com um sorvete à preferência de uma criança. E a questão fica: se investe pouco em leitura porque não há interesse popular ou não há interesse popular porque não se investe corretamente?

Mais uma vez – como fiz em outras edições da minha coluna, sobre temas semelhantes – ressalto: a responsabilidade é sempre coletiva; indivíduos e instituições precisam estar interessados. Contudo, o Estado (em todas as suas instâncias), para corresponder à sua razão de ser, precisa assumir a frente. A Constituição determina que o Poder Público deve garantir o acesso ao conhecimento e promover a difusão de bens culturais.

São 180 mil habitantes no município, 40 mil volumes no acervo da biblioteca, 17 mil pessoas cadastradas, sabe-se lá quantos frequentadores. Para quem achou até razoável, dado o resultado da pesquisa referenciada acima, vou dar um salto de Chapecó para Nova Mutum, no Mato Grosso, onde morei dos 3 aos 18 anos de idade. Nova Mutum tem apenas 20 anos contra os 92 de Chapecó, mas tem um índice de crescimento dos maiores do País. A população do município está próxima dos 30 mil habitantes.

Sempre que visito a cidade, pelo menos uma vez por ano, dou uma passada na Biblioteca Pública Municipal. No início da década de 90, a biblioteca ocupava um prédio próprio e muito espaçoso. Em 2003, quando me mudei da cidade, a biblioteca já havia sido transferida para um local pelo menos três vezes menor que o anterior. Na minha última visita à cidade, em janeiro deste ano, encontrei a biblioteca “instalada” em uma sala de aula de uma escola pública desativada, em situação de total descaso. Não há bibliotecário com formação específica e o atendimento é péssimo. O acervo está mal cuidado e mal organizado. Havia no local dois ou três estudantes de escola pública, que utilizavam computadores destinados à pesquisa.

Naqueles dias, um conhecido meu que trabalha em uma das três emissoras de televisão da cidade me perguntou se eu por acaso tinha uma sugestão de pauta para uma reportagem. Sugeri: que tal uma matéria sobre a situação de abandono da Biblioteca Municipal? E ele: Onde fica mesmo a Biblioteca?

*Tiago Franz, escrevendo excepcionalmente em uma segunda-feira, é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

3ª Coluna do dia: “Proclamarim” a República!

15/11/2009

Por Tiago Franz*

Ainda acho que não sei escrever. Quando me meti a tentar os primeiros “textinhos”, há pouco mais de dois anos, eu definitivamente não sabia. Revirando escritos – ou melhor, tentativas de escritos – desse meu anteontem, encontrei algo que me fez parar e pensar profundamente. O quanto caminhamos quando praticamos!

O texto que encontrei foi escrito há dois anos – para ser mais exato, no dia 17 de novembro de 2007 – e aborda o mesmo assunto da minha coluna do último domingo, que tratou dos 120 anos da Proclamação da República no Brasil, completos no dia de hoje, 15 de novembro.

O enfoque da coluna passada foi a ausência de participação popular que marcou o fato histórico e o atual desinteresse das pessoas para com a data comemorativa: praticamente o mesmo enfoque do texto que escrevi na ocasião do 118º aniversário da República. Notei também que alguns elementos permaneceram. O estilo, por outro lado, está bem diferente. O novo está bem menos “solto” e muito mais ponderado ideologicamente que o velho.

Pode-se dizer que, conforme os gêneros de jornalismo opinativo, o velho está mais para crônica e o novo mais para ensaio ou artigo. Nada disso quer dizer que eu ache um estilo melhor que o outro. Adoro crônicas. A diferença é mesmo a experiência de quem, tentando, aprende um pouco mais a cada dia.

Pois bem. Já que a data tem tudo a ver e já que estamos na 30ª edição da minha coluna aqui no Perspectiva, resolvi resgatar esse passado não tão distante da minha curta vida de “escrevedor”. A vontade de alterar todo o texto é grande, mas me contive. Segue o original. A personagem é criação minha, porém os fatos comentados por ela são reais. Quanto às passagens polêmicas ou confusas, creio que estou preparado para explicá-las. Fiquem à vontade para me questionar.

Enfim, essa iniciativa de expor meu aprendizado e amadurecimento é para mim um exercício e tanto.

“Proclamarim” a República!

Tiago Franz

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia se lamenta por não ter lido nada durante a folga. O desânimo aumenta quando pensa no tempo que passou assistindo TV. Que tarde de sábado! Depois do Caldeirão do Huck – mais um carro velho que fica novinho em folha emociona o Brasil -, um filminho pra relaxar – pra variar, uma “nobre” missão norte-americana no Vietnã.

Nada disso a agrada, mas a garota é positiva. Sua consciência melhora quando percebe que está sempre a refletir sobre o que vê. Orgulha-se disso. Ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. E volta a pensar no que o Prates disse, sexta, no jornal da RBS. Até que ele tinha razão… As pessoas ficam em casa e não sabem nem ao menos o porquê! Sabem que não precisam trabalhar, e mais nada! Dessa vez Sophia teve que concordar com o comentarista – aquele arrogante “moralistazinho” com postura de “sou Deus e estou aqui para julgar os homens”. Pelo menos ele a fez pensar se as pessoas realmente conhecem o significado do feriado que acabaram de passar. Será que as pessoas sabem conjugar o verbo proclamar? Parece ser um verbo regular.

República… Nacionalismo… Patriotismo… Soberania nacional… Todos esses “velhos conceitos modernos” voltam a atormentar a cabeça da jovem universitária, que já leu e releu mil coisas a respeito.

Esparramada no sofá, com o corpo inerte, na sensação de anestesia geral, Sophia continua seu exercício mental de encontrar algum proveito em tudo que acompanhou pela TV durante seu feriado de ressaca das madrugadas boêmias. Devia ter lido alguma coisa. Que merda! Pelo menos eu pude sair pra beber com o pessoal. Amanhã vou recuperar uma parte do tempo…

Agora seus pensamentos são “invadidos” pelo rosto que mais a perseguiu, da tela da televisão, nas últimas horas: Roberto Jefferson. Hummm… Propaganda política partidária em horário nobre… Já perdi a conta de quantas vezes repetiu… Coitado do povo… Para todas as noites para se deleitar com a novela das oito e ainda é tentado pelo “belo” palavreado do “senhor presidente” do PTB. Ta aí! Outra coisa que talvez noventa por cento desse povo não saiba é que o “T” da sigla do partido não faz mais sentido, e o “B” então… Deixa pra lá. O Getúlio e o Brizola já foram enterrados mais de uma vez! Não se faz mais políticos como antigamente… Pelo menos não no Brasil.

Olha só! Não acredito que ele disse aquilo do Evo Morales… Esse índio é um herói!!! Quando foi que ele expulsou os brasileiros da Bolívia? Que calúnia! Só porque alguém finalmente conseguiu enfrentar a exploração abusiva, esse Jefferson vem dizer aí que o Brasil precisa recuperar a “soberania nacional”… Que náusea!!!! E ainda usa Bush e Blair como exemplos… “Eles invadiram o Iraque para conseguir petróleo”. Ou seja, o Brasil precisa invadir a Bolívia e recuperar o Gás, pois o atual governo não está dando a mínima para a “perda” que sofreu.

Palhaço! Invadiu minha casa pela TV falando esse monte de bosta. Mas ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. Sophia pausa, suspira e cai na gargalhada. Ahahahahahah! Mas o Jornal Nacional deu na cara do Jefferson… Ou será que foi o jornal da Record? Não lembro agora, é tudo parecido… Adorei a matéria… “Milhares de brasileiros atravessam a fronteira com a Bolívia em busca de atendimento de saúde gratuito”. Ahahahahahah! Essa é boa. Não foi esse “miserável país” aí que expulsou o Brasil de suas terras? Que coincidência! Não temos nem o gás, e nem um serviço público de saúde melhor que o dos “vizinhos pobres”. Mas que nada… A copa do mundo é nossa. O circo está garantido para 2014. Viva Morales! Viva viva viva! Ahahahahahah!

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia lembra que na segunda, apesar de não ser feriado, comemora-se mais uma data importante para o Brasil: o Dia da Bandeira. Novamente aqueles “velhos conceitos modernos” atormentam sua cabeça, que dói por causa da ressaca e das gargalhadas incontroláveis. Preciso ler alguma coisa. O Hino da Bandeira sempre foi seu favorito. Que melodia! Que glória! Que tudo! “Salve lindo pendão da esperança / Salve símbolo augusto da paz……”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

Amizade, por Bruno Kazuhiro

08/11/2009

Recentemente, o colunista Felipe Liberal iniciou a série de colunas “Tumbas da Contemporaneidade”. O sucesso dos textos entre os outros colunistas e entre os leitores provou que, no Perspectiva, também há espaço para o que é, praticamente, mais verso do que prosa. Resumindo, ficou comprovado que podemos, neste blog, também, arriscar escritos mais poéticos e subjetivos.

Nessa linha, resolvi me aventurar também. Observando que há demanda para tal tipo de texto decidi, assim como Liberal, exercitar outro lado da minha escrita. Como editor e autor do blog vou me permitir este arroubo.

Espero não ser enfadonho. Vejamos no que dá. Vou falar sobre amizade em uma espécie de crônica. Dependendo da recepção, ou seja, caso eu não afugente os inúmeros leitores do Perspectiva com minhas palavras vãs, repetirei a dose em futuro breve.

Amizade

Por Bruno Kazuhiro*

O que é amizade senão aquela essência que sabemos que, quando verdadeira, permanecerá.

O que é amigo senão aquele homem que sabemos que, quando verdadeiro, perdurará.

Ora, meus caros, amizade e amigo são palavras que remetem ao companheirismo, à união, enfim, ao apoio mútuo.

Acontece que, em alguns casos, essas palavras remetem a mais do que isso, se conectam com uma eternalidade que não é efêmera.

O que quero dizer?

Quero dizer que é companheirismo firme, união forte, apoio mútuo de verdade.

Quero dizer que não é amizade fugaz, amigo passageiro, eternidade de conveniência.

Quero dizer que participa-se de um grupo sabidamente unido até o fim, e não finito em sua união fútil.

No amor e na família escutamos muito o “para sempre”.

Pois no amor o “para sempre”é o infinito enquanto dure.

E na família o “para sempre” é compulsório.

Na amizade, o “para sempre” é voluntário, a família é escolhida e o amor é fraternal.

Diz-se que na vida tudo passa. Uma efemeridade sem fim. Uma fugacidade que assusta.

É nesse momento que o homem se acalma ao lado dos amigos, se renova com as ideias dos amigos, se diverte com o riso dos amigos e se apóia, quando ele mesmo já se via sem chão, no ombro dos amigos.

Divide-se a amargura e a alegria, a vitória e a derrota.

Porque amargura do lado deles, dura pouco, e alegria com eles a tiracolo se multiplica.

Porque derrota com esse apoio é apenas tropeço, e vitória representa muito mais.

Resumo dizendo que qualquer coletivo de amigos sinceros é um grupo normal, um grupo de gente simples, um grupo humano.

Normalidade extraordinária, daquelas invejadas pelos que não a tem.

Simplicidade singela, daquelas necessárias para a vida tranquila.

Humanidade verdadeira, daquelas que só aparecem no apoio incondicional.

É melhor viver a vida com os amigos e a força deles ao seu redor, do que não tê-los para subtrair problemas e adicionar soluções, para dividir agruras e multiplicar gargalhadas.

Simples assim.

*Bruno Kazuhiro é autor, editor e administrador do Perspectiva Política