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Coluna do dia: Reflexões sobre o politicamente correto e a liberdade da palavra

24/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Todo pensar se dá por meio da Linguagem. Ao longo dos tempos o ato de ‘dar nome aos entes’ tem sido o meio pelo qual o Homem integra um dado ente à sua Macro-Estrutura Cultural. Assim, as coisas existem para o Homem na medida em que elas possam ser representadas por signos linguísticos. A apropriação do ente pelo Homem por meio da Linguagem possui necessariamente um caráter coletivo, como o próprio Homem, o qual é reforçado pelas instituições sociais responsáveis por integrar um indivíduo na Macro-Estrutura Cultural.

A partir de então, todo o pensar do Homem sobre um ente integrado na Macro-Estrutura Cultural jamais será um pensar sobre o próprio ente, mas sobre a ‘Palavra’, o ‘termo’, o ‘signo’, o qual representa o ente, e que é apreendido culturalmente pela coletividade ao longo das gerações. Os limites do pensar humano são, portanto, os limites de sua linguagem. A Linguagem, por isso, não é apenas resultado de uma construção cultural coletiva, mas é ela própria fator de orientação e determinação da Cultura e Destino de um Povo, na medida em que representa absolutamente determinados valores, ideais, inclinações e aspirações.

Altera-se a Linguagem de um Povo, seja pela adição ou supressão de certas palavras, ou pela alteração das semânticas das palavras, e todo seu pensar, sentir e viver se verão radicalmente alterados. A Linguagem não é um mero instrumento de trocas, como sem dúvida supõem todos os pragmáticos, materialistas e racionalistas, mas mais do que os outros elementos culturais, é ela a própria fundação sobre a qual se ergue uma Civilização. Como afirmava Heidegger: ‘A Linguagem é a casa do Ser.’

Ab initio, por isso, toda iniciativa de se realizar qualquer alteração na Linguagem de um Povo, qualquer intromissão em seu ‘dicionário oficial’, já deveria ser vista com a mais intransigente e provinciana suspeita e aversão. Só deveria ser permissível uma tão audaciosa e perigosa iniciativa, após a realização e a autorização de um ‘Conselho de Sábios’, composto por filósofos, psicólogos, teólogos, sociólogos, antropólogos e todos os maiores especialistas do ‘Espírito’ humano, onde se verificaria com anos e anos de estudo exatamente que efeitos teriam tais alterações sobre a totalidade das experiências existenciais humanas.

Infelizmente, porém, isso é inconcebível quando os povos são governados por trôpegos e abismados proletários, ou por burgueses usurários e glutões. É completamente evidente que alterações com vistas a ‘simplificar’ uma Linguagem, ou ‘integrar e aproximar os povos’ terão inevitavelmente como efeitos a própria mediocrização do pensamento e o desenraizamento cultural dos povos vítimas dessa violência humana, demasiado humana.

Mas há males muito mais insidiosos na manipulação da Linguagem, principalmente no que concerne à semântica das palavras. Ocorre que, se as palavras por sua natureza como representativos símbolicos de entes, inclusive de Idéias, é garantidamente possível se realizar uma pesada e totalitária doutrinação ideológica por meio de alterações da Linguagem.

Se os limites da Linguagem, são os limites de nosso pensamento, então basta uma palavra representativa de uma Ideologia ‘tabu’ ou ‘perseguida’ ser riscada do dicionário e das menções oficiais, principalmente nos meios escolares e acadêmicos, para que aquela Visão de Mundo particular deixe de existir em algumas gerações, simplesmente por não poder mais ser ‘pensável’, ‘concebível’, ‘falável’.

Orwell, então, só pode ser visto como um verdadeiro visionário ou profeta. Ele com extrema argúcia descreveu esse instrumento do mais diabólico totalitarismo, o qual prescinde absolutamente de autoritarismos políticos, e que pode conviver tranquilamente com sistemas demo-liberais. A prova disso é que exatamente essa é a realidade em que vivemos, e são as instituições mais centrais do establishment demo-liberal as propagandistas mais fanáticas da ‘novilíngua’ politicamente correta, e os maiores inimigos das ‘verdades desagradáveis’, já desde os fins do século XIX, e mais aberta e fanática desde a década de 60 nos EUA e na Europa Ocidental.

Não há Liberdade quando se pré-determina que palavras podemos usar, que ideias podemos ter. A escravidão é absoluta quando certos elementos parasitários da sociedade realizam sua subversão por meio de distorsões semânticas. A ofensa, a rejeição, a raiva, a aversão, a diferenciação, o alto e sonoro NÃO!, são partes integrantes e essenciais da Vida e da Liberdade.

Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Terceiro Reich, havia dito em uma entrevista a um repórter americano que ele não se importava com as crenças e opiniões pessoais dos alemães, mesmo as contrárias, desde que essas discordâncias não se expressassem de modo aberto a ponto de atrapalhar a condução do Reich pelos Nacional-Socialistas. Para ele, líder da Gestapo e das SS, os alemães podiam ser livres para pensarem o que quisessem.

Na Modernidade Totalitária Demo-Liberal, a última trincheira de combate, nosso interior, nosso ‘Eu’, fonte de todas as Liberdades, foi tomado de assalto pelas distorsões históricas e pelas semânticas subversivas, cuja finalidade é fazer com que a ‘Revolução’ desabroche naturalmente a partir da própria ‘consciência’ das pessoas. Na Modernidade Totalitária ninguém é livre para pensar o que quiser. Aquele que pensa os ‘tabus’ é convencido a se submeter a um sentimento de culpa e vergonha, cuja única expiação é realizar a auto-violência mental de destruir a própria Identidade, os próprios ‘preconceitos’.

Todo discurso sobre ‘Liberdade’ em uma Tirania como a do Politicamente Correto, a qual governa todos os países do Ocidente, não passa de uma farsa quando a Liberdade Original, aquela que se origina da Ideia, do Logos, foi banida para ‘campos de reeducação’ ou calada violentamente por ser ‘fascista’ demais.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.