Noticia o Estadão:
“A líder do Partido Kadima, Tzipi Livni, que espera ser indicada como premier de Israel, disse hoje que o país precisa desistir de uma parte considerável de território em troca da paz com os palestinos, cravando uma distinção clara em relação a seu rival Benjamin Netanyahu, líder do Partido Likud. ‘Nós precisamos desistir de metade da Terra de Israel’, disse ela, durante uma convenção de líderes de organizações judaicas norte-americanas, usando um termo que se refere às fronteiras bíblicas de Israel, que incluíram, durante períodos na Antiguidade, o atual território e a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
Livni afirmou que essa retirada dos territórios ocupados será vantajosa para Israel, para que permaneça um Estado de maioria judaica. Ela disse aos líderes da comunidade judaica nos Estados Unidos que Israel precisa tomar a iniciativa e apresentar seu plano de paz. ‘Qualquer plano que coloquem sobre a mesa não será em nosso interesse.’
O Kadima, partido centrista de Livni, venceu as eleições parlamentares em Israel por apenas uma cadeira de vantagem sobre o rival Likud, de direita. Netanyahu se opõe a concessões territoriais aos palestinos. Ambos proclamaram vitória nas eleições da semana passada e cada um espera ser indicado pelo presidente do país, Shimon Peres, para formar o próximo governo.
Eu realmente não posso afirmar que seja necessário aos judeus abrir mão de metade da chamada “Terra de Israel”, porém, para mim chega a ser óbvio que a solução pacífica para a disputa de Israel e Palestina tangencia a cessão consensual de territórios. Por mais que pareça difícil para as nações envolvidas, muito por força das divergências históricas, é preciso aprender a ceder.
É por essas e por outras que na postagem “Israel e o perigo do radicalismo” defendi o Kadima. O partido de centro israelense me parece mais sensato. A cessão de certos territórios de Israel para a Palestina e o mesmo movimento da Palestina em direção a Israel, na busca pela criação de duas nações, é a solução mais plausível. Ser radical e não negociar com os árabes não fará bem a nenhum israelense. Por isso não simpatizo muito com as propostas do Likud.
Alguns poderiam dizer que eu não sei exatamente o que se passa lá e que os israelenses já obtiveram o direito de serem radicais após diversos ataques de cunho terrorista incentivados pelos árabes. Ok. Pode ser. E até concordo que Israel tem o direito de se defender e, dependendo do caso, até mesmo de maneira desproporcional. Porém, sem aprender a ceder, Israel provará um ponto de vista de uma parcela da população mas não obterá a tão sonhada paz, tão necessária para o desenvolvimento da economia e para a felicidade da população. Cabe aos que enxergam os árabes como coitadinhos saber que Israel não pode, nem deve, ser um “oito”. Cabe aos que defendem um Israel vingativo saber que não se pode ser “oitenta”.
É realmente difícil distinguir entre certo e errado na disputa entre isralenses e palestinos. Ambos os lados já foram vítimas de ataques injustificáveis, já foram os agressores e têm os seus acertos e os seus erros, além das suas legitimidades e faltas de legitimidade.
Sendo assim, ninguém está totalmente certo, ou totalmente errado. Estão errados os palestinos em criarem emboscadas para israelenses e depois pedirem para a comunidade internacional criticar ataques desproporcionais de Israel. Estão errados os israelenses ao incentivarem assentamentos judeus em áreas que provavelmente deveriam vir a ser palestinas.
A solução mais correta parece ser mesmo a de dois estados soberanos. Cada um com seu território bem delimitado através de acordos sólidos e duradouros. Por isso, radicalismos e repúdios às negociações e ao diálogo não levam a nada.
Em tempos de guerra, a mentalidade bélica tomou a população e permitiu a vitória da direita mais radical, com votações expressivas do Likud e do Yisrael Beitenu, defensores do não-diálogo. Porém, se eu fosse israelense, votaria para dar o poder ao Kadima de Tzipi Livni e sua proposta de “parte considerável de território em troca da paz”.
O grande problema é que Israel não pode fazer tudo sozinho, e nem deve. Como pode alguém pedir que os israelenses cedam territórios para palestinos que, muitas vezes, praticam o terrorismo? A solução pacífica cabe aos dois grupos e eu estaria com Livni se fosse israelense por achar que não se pode descartar, como faz o Likud, o diálogo. Porém, Israel não deve também ser generoso sem receber nada em troca. Para que Israel acertadamente abra mão de territórios, devem os palestinos também aprenderem a ceder. Devem abrir mão do terrorismo.
O que complica essa troca na maioria dos casos é que Israel, até certo ponto, deseja apenas um território mais vasto, domínio de certas riquezas naturais, etc, embora também cometa seus abusos. Enquanto isso, algumas facções palestinas desejam, por motivos religiosos, que Israel suma do mapa, e não apenas dos seus territórios de direito. Como pedir que Israel ceda nessas condições?
Realmente está certa a proposta de “parte considerável de território em troca da paz”. Mas cabe à Palestina apresentar a compensação. Israel abre mão de terras, a Palestina abre mão do terror. Esse seria o caminho para a paz. A dificuldade de realização deste não faz dele a resposta errada.