Por Yashá Gallazzi*
Os leitores do blog devem saber que sou um grande fã de São Paulo, o apóstolo. Fã? Sim, fã. Costumo dizer que qualquer ensinamento necessário para a vida de cada um de nós está lá, nas epístolas escritas por ele. Ali aprendemos, por exemplo, que é preciso combater o bom combate ao longo da vida (I Timóteo 6,12), defendendo a verdade e as liberdades.
E por que essa introdução um tanto religiosa? Bem, este blog de vanguarda, a partir de onde vos escrevo semanalmente, está há um ano combatendo o bom combate. E eu, como integrante da equipe de colunistas dele, sinto o regozijo próprio de quem sabe que também combate, com afinco, do lado do bem. Bem, eu disse? Sim, disse. Pode parecer simplório e maniqueísta falar de “bem e mal” hoje em dia. Mas não nos deixemos enganar: há, sim, um lado do “bem”, onde impera a verdade e a liberdade. E há o “mal”, que vive a atacar aquilo que é bom e justo. Já chego ao ponto.
Como os leitores devem saber, eu moro em Macapá, capital do Amapá. Aqui, um rincão apequenado e apartado da civilização, prerrogativas basilares de uma sociedade livre e democrática ainda nos são tolhidas diuturnamente, como se cidadãos não fossemos. Este estado, é sabido, só acabou por existir a fim de garantir a José Sarney um lugar perpétuo no Senado Federal. E vem cumprindo com impressionante zelo tal tarefa, reelegendo o maranhense pleito após pleito, tomando sempre a mesma direção, independentemente da quantidade de caminhos existentes – como um grupo de equinos que trota por automação, preso aos limites de seus antolhos.
Neste lugar, a liberdade de expressão é algo que jamais se fez presente. Sempre que alguém tentou criticar as autoridades políticas do Amapá, precisou enfrentar os “rigores da lei”. Quais? Bem, nas eleições de 2006 – últimas vencidas por Sarney -, mais de 100 pessoas foram processadas pela coligação do autor de “Brejal dos Guajas”. Ofenderam o imortal Senador? Que nada! Apenas se manifestaram, dizendo que não o queriam mais como representante do Amapá no Legislativo, questionando seu legado como Presidente e seu passado estreitamente ligado à ditadura militar. Tudo dentro do óbvio jogo democrático, onde o cidadão descontente é livre para questionar seus representantes. Mas isso, caros, não se aplica ao Amapá.
Este escriba, ao final das eleições municipais de 2008, escreveu um pequeno artigo criticando a situação sócio-política do estado. Na ocasião, afirmei algo que muitas ilustres figuras consideram demasiado ofensivo: disse que a única saída para o Amapá seria uma invasão americana. Em tal caso, a exemplo do que aconteceu no Iraque, sofreríamos com os bombardeios iniciais, mas terminaríamos conhecendo as luzes do mundo civilizado. Haveria, é claro, inúmeras baixas civis, mas, como diria Bush, tratar-se-ia de algo aceitável. A coisa toda, é óbvio, não passa de uma metáfora. Uma construção textual destinada a evidenciar meu profundo pessimismo com relação ao futuro deste lugar. Mas a tara autoritária que acomete o Amapá não tolerou a crítica e a divergência.
Numa ação sem precedentes, a Advocacia-Geral da União decidiu, a pedido do então Presidente do Tribunal Regional Eleitoral, me interpelar judicialmente sobre o referido texto. Sim, vocês leram direito: a AGU, órgão mais importante de assessoria e consultoria da Presidência da República, achou por bem movimentar o aparelho judiciário do Estado contra um indivíduo. E tudo em razão de uma opinião pessoal, nada mais. Trata-se de algo sem precedente jurídico, sem mencionar que constitui uma flagrante aberração democrática. Trocando em miúdos, temos que o Estado, em vez de garantir as liberdades individuais, se ocupou de questioná-las, levando um cidadão aos tribunais.
Não vou tergiversar sobre nenhum drama pessoal, mesmo porque a ação proposta pela AGU era juridicamente deprimente. Imaginem que chegaram a embasar todo o petitório na malfadada Lei de Imprensa, condenada há muito à inconstitucionalidade. Eu me ocupei de apontar isso ao Juízo, além de lembrar que a tal ação fora ajuizada sem que qualquer precedente existisse no direito brasileiro. Experimentem pesquisar e verão: “nunca antes na história deste País” a AGU, a pedido de um tribunal judiciário, movimentou o aparelho jurídico-punitivo do Estado contra um indivíduo. Na ocasião, brinquei: eu era o Larry Rohter do Amapá.
Mas por que isso é importante? Bem, porque enfrentar a censura, a perseguição do Estado e a falta de discernimento democrático que ainda vigora em alguns rincões do Brasil é, sim, combater o bom combate. E é isso que se faz, diariamente, aqui no Perspectiva Política. Quando fui convidado por Bruno Kazuhiro – a quem tenho a audácia de chamar de “amigo”, mesmo sem conhecer pessoalmente – para ser um colunista do blog, senti que me era dada a chance de perseverar no bom combate. Torno a citar São Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem” (Romanos 12, 21).
Rogo aos leitores que não me tomem por um “carola” de primeira hora. Longe disso. Admiro, antes, o São Paulo teólogo, estudioso. Aquele que, como dito antes, compilou em suas cartas as regras basilares de conduta que, a meu aviso, nos distinguem da barbárie. E, sim, estou entre os que acreditam que os ensinamentos cristãos foram responsáveis por unir o Ocidente e permitir que crescesse como civilização – mas tal tema, sei disso, é um tanto mais polêmico e fica, pois, para outra ocasião.
A cada semana, quando chega a hora de escrever minha coluna semanal, sinto-a como uma nova chance de vencer o mal com o bem. Sinto que sou empurrado a continuar combatendo o bom combate, erguendo minhas armas em favor da democracia e do sistema de liberdades individuais. E isso só é possível porque há cerca de um ano o meu jovem amigo Bruno Kazuhiro– e aqui torno a chamá-lo assim por minha própria audácia – decidiu, também, que era chegada a hora de combater o bom combate e de vencer o mal com o bem. Qual bem? Aquele que prima pela tolerância, pelo debate, pelo contraditório e pela pluralidade. Aquele que tem por fim elevar a sociedade, fornecendo a ela os meios necessários para aperfeiçoar ainda mais os valores fundamentais, como a liberdade de expressão, a democracia, o respeito, a justiça e a sensatez.
E aqui reside todo o meu regozijo e minha esperança: para cada tentação autoritária que se ergue contra o indivíduo e a sociedade – como acontece rotineiramente no Amapá -, há que surgir uma trincheira de liberdade e democracia, como o Perspectiva Política. Focos de liberdade como este blog são, em sua essência, a viga mestra de sustentação de uma civilização livre, que se mostra disposta a enfrentar os inimigos.
Ruy Barbosa, objeto da admiração de Bruno e de todo homem de bem, costumava citar esta famosa frase: “No império dos homens, a pena é mais forte que a espada.” Ele estava, como sempre, correto. Um espaço amplo, livre e democrático como o Perspectiva Política vale por mil exércitos juntos, se o objetivo é defender a primazia das liberdades, a começar pela liberdade de expressão. E eu me sinto orgulhoso e grato por ter o privilégio de erguer minha pena junto com o restante da equipe deste blog, em defesa daquilo que faz de nós uma civilização verdadeira e grandiosa.
Às vésperas do primeiro aniversário do blog – o primeiro de muitos, estou certo -, concluo que o grande presenteado sou eu, que posso tomar parte neste projeto audacioso. Que assim seja: continuemos todos a combater o bom combate!
* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento