Por Matheus Passos*
Após uma pequena “parada técnica” durante o carnaval, período em que aproveitei para visitar minha família em Minas Gerais (já que esta é praticamente a única época do ano em que posso visitá-los com tempo), retorno ao Perspectiva Política com minha segunda postagem sobre minha viagem ao Egito. Para aqueles que ainda não leram, a primeira postagem pode ser vista aqui.
O primeiro ponto que gostaria de destacar se refere aos aspectos econômicos do dia a dia do Egito.
Nós, brasileiros, quando comparados com os egípcios, somos ricos. É claro que existe pobreza aqui no Brasil, da mesma forma que existe riqueza no Egito. Contudo, a impressão que tive no dia a dia da viagem é a de que eles vivem com muito menos do que a classe média brasileira.
Por exemplo: comer em uma filial do McDonald’s por lá é coisa “de rico”, foi o que me falaram várias pessoas. Imagino ser necessário “dar um desconto” a respeito de tal informação, mas na prática o que vi foram egípcios com sapatos fechados (tênis, sapatos ou algo do tipo) no McDonald’s, enquanto a maioria dos transeuntes usava uma sandália de couro nas ruas. O que vi foram pessoas vestidas com tecidos e cortes melhores em comparação com aqueles que estavam do lado de fora.
Outro exemplo: quando conversei com o capitão de uma felucca em Aswan e disse ao mesmo que estava gastando por volta de dez dólares por dia com alimentação (incluído nesse valor almoço e jantar/lanche, pois o café da manhã estava incluído na diária do albergue), o mesmo disse que eu era rico e que devia estar comendo nos lugares errados, pois estava muito caro. Alguns dirão que Aswan é uma cidade “pequena”, “do interior”, e que por isso os preços são baratos mesmo. O que dizer então do Cairo, capital do Egito e uma das maiores cidades do mundo, na qual eu gastava por volta de quinze dólares por dia indo a restaurantes egípcios?
Mais um exemplo: os táxis no Egito são extremamente baratos quando comparados com o preço dos do Brasil (ou, pelo menos, com os daqui de Brasília). Quando visitei Dahshur e Saqqara, contratei um táxi pelo dia inteiro para fazer uma viagem de mais ou menos 120 km naquele dia, com o táxi ficando à minha disposição o dia inteiro, e paguei o equivalente a cinquenta reais. Aqui em Brasília, dependendo do trânsito, uma ida da rodoviária ao aeroporto custa trinta reais, em um trajeto de 15 km.
O segundo ponto diz respeito à política egípcia e à idolatria que eles têm em relação ao atual Presidente, Hosni Mubarak. Não tive muito contato com a mídia egípcia, até porque a maioria está em árabe, mas pelo pouco que percebi nos jornais impressos e televisivos em inglês, não há absolutamente nenhuma crítica ao Presidente. Da mesma forma, as poucas pessoas que aceitaram conversar sobre Mubarak comigo foram “só elogios” ao mesmo, afirmando sempre que ele está fazendo o melhor para o país e que se não fosse por ele a situação egípcia seria muito pior. Neste sentido, é difícil para eu chegar a uma conclusão pois sabe-se que o Egito, apesar de ter formalmente um sistema democrático – com a possibilidade de existência de vários partidos e com a possibilidade de vários candidatos à Presidência – é, na prática, uma ditadura, o que, somado com o curto período de estadia, dificulta a observação efetiva da realidade política do país.
O terceiro ponto de destaque diz respeito ao aspecto religioso – que, na verdade, me pareceu dominar os dois anteriores. Como se sabe, o Egito é um país islâmico, com mais de 90% de sua população se identificando como muçulmanos, e os princípios desta religião ditam o dia a dia do egípcio. Cinco vezes ao dia ouve-se o chamado às orações islâmicas – com a primeira delas acontecendo geralmente ainda de madrugada. O resultado disso é que tais chamados acabam por estruturar e regular tudo, desde os negócios – não foram poucas as vezes em que uma lanchonete estava fechada no meio da tarde para que os trabalhadores rezassem – até o divertimento – não pude visitar certas áreas do templo de Kom Ombo, por exemplo, porque os guardas responsáveis por tais áreas estavam rezando.
A religião tem papel fundamental também na arquitetura egípcia: para todo lugar que se olha, há um minarete. Especificamente no Cairo, há a área chamada de “Cairo Islâmico” – a parte antiga da cidade – na qual estão presentes mais de 800 monumentos históricos, grande parte deles mesquitas com seus inúmeros minaretes. Estar nessa região no momento das orações é algo completamente diferente daquilo que eu estava acostumado no que se refere a “orações”, porque todas as mesquitas soam ao mesmo tempo, tornando a área realmente ensurdecedora.
A religião desempenha, ainda, importante papel na definição das relações sociais entre homens e mulheres. No metrô do Cairo, dois vagões de cada composição são exclusivos para mulheres, e nos demais vagões as mulheres deveriam entrar apenas acompanhadas (digo “deveriam” porque, na prática, isso não aconteceu o tempo todo). Como se sabe, o Islamismo define que as mulheres andem pelas ruas com os cabelos envoltos em um véu, com a justificativa de que isto impede os homens de terem pensamentos libidinosos e cometerem alguma besteira. Assim, era extremamente interessante (e diferente) ver mulheres andando completamente cobertas nas ruas – cheguei a ver algumas que estavam de óculos escuros, impedindo-me de ver até mesmo os olhos – em pleno sol de meio-dia –. Apesar de em janeiro ser inverno no Egito, as temperaturas de dia chegavam aos 25, 28 graus.
É necessário falar também sobre a importância da religião no que diz respeito aos crimes de rua. Tenho uma câmera digital semi-profissional e andei com a mesma pendurada no pescoço durante todo o período em que estive no país. Logicamente, isto não significa andar com a câmera em uma rua sem iluminação às 2 h da manhã, mas quero dizer que podia ir a qualquer lugar sem correr nenhum perigo de ser assaltado. Senti-me muito mais seguro ao caminhar em Aswan ou mesmo nas partes mais pobres do Cairo com a câmera no pescoço do que me sentiria aqui em Brasília de dia. Sem dúvida a presença policial – constante em todos os lugares turísticos – ajudava a coibir qualquer tentativa de roubo, mas a religião também tem esse papel, como pude perceber em diversas conversas a naturalidade com que eles diziam que não se deve furtar porque Alá não permite e/ou porque no Corão está escrito que isto não deve ser feito.
Por fim, gostaria de destacar uma última impressão que tive no que diz respeito à união destes três itens – economia, política e religião: parece-me que o Egito está em uma encruzilhada. Por um lado há a forte presença dos princípios islâmicos em todas as esferas sociais, mas por outro o país precisa ser receptivo aos turistas – uma das suas maiores fontes de renda – e, para isso, às vezes é necessário passar por cima de alguns princípios. Notei uma tensão extrema entre os princípios religiosos, por um lado, e os interesses mundanos, por outro, e talvez seja isso que torne o Egito um país extremamente interessante de ser visitado.
*Matheus Passos, escrevendo excepcionalmente em um domingo, é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.











