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Coluna do dia: Ataque americano no Iraque – Bem-vindo ao mundo real

08/04/2010

Por Felipe Liberal*

Bastards, rebels and terrorists são as palavras que me fizeram chorar ontem à noite. Essas imagens acima são o reflexo de tudo que escrevi até hoje e que tento expressar, ostentando dias melhores.

É contra tudo isso que luto, que lutamos, nós, de esquerda, ultrapassados, retrógrados e “comedores de criancinhas”. É por conta disso que ainda insisto, que ainda sinto vontade de estar aqui, gritando nesse vazio interminável e denso onde estamos metidos 24 horas, todos os dias.

Essas imagens são de um helicóptero Apache estadunidense, em Bagdá, de onde se comunicam os bravos soldados democráticos e libertadores com a torre em terra. Através do rádio, os soldados avisam: “Have five or six individuals with AK 47s” e daí pedem permissão para atirar, pois eles disseram que os “tais” carregavam fuzis e lançadores de granada.

A permissão foi dada e junto com ela surgiram tiros e uma nuvem de fumaça e sangue. A fumaça suja de sangue vinha de dois civis, jornalistas da Reuters, Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh, mortos pelo exército norte-americano. Um deles ainda tenta, se arrastando, chegar a uma van preta que tenta também ajudá-lo, mas uma nova rajada de tiros detona o veículo, que possuía duas crianças no seu interior, que, por sorte, saíram apenas feridas.

Essa é só uma amostra do que acontece no Iraque. Milhares de vídeos como esse não são divulgados, por se tratarem as vítimas de civis anônimos e invisíveis.

O imperialismo é isso, para quem o defende. Os Estados Unidos da América são isso, para quem os defende. A democracia e a liberdade americanas são isso, para quem as cultua. Tudo que escrevo não é apenas raiva ou ódio do capitalismo ou imperialismo, mas indignação e tristeza com o que eles geram como consequência inevitável.

O maldito sistema pede sangue, morte e desprezo pela vida humana. Ninguém em sã consciência pode negar que isso é uma prática do capitalismo, e não apenas dos EUA. A guerra é um fator econômico, que compra vidas através da morte.

Declaração Universal dos Direitos Humanos? ONU? A maior democracia do mundo? Respeito pela dignidade humana? Paz? Tudo isso parece piada diante das imagens da verdade.

A mentira nos condena à moderação, aos caminhos da aceitação, à burra imparcialidade e à venenosa omissão. Essa é a verdade, meus amigos e amigas, essa é a mais pura verdade do que acontece todos os dias no planeta Terra.

Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad e Fidel Castro são criancinhas, comparados a pessoas como Reagan, Bush ou Obama.

O mundo precisa entender quem são os verdadeiros culpados pela nossa terrível situação como seres humanos. Saiamos desse conto de fadas falado em inglês e comprado em dólar. Precisamos entender e combater os verdadeiros Bastards, rebels and terrorists do mundo real.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: O Brasil e os preços de um erro diplomático

05/04/2010

Por Arthurius Maximus*

O presidente Lula se prepara para sua vista ao Irã com o objetivo de firmar parcerias comerciais e na área nuclear com o país dos Aiatolás. Navegando a pleno vapor contra a maré mundial, o Brasil está para entrar no seleto grupo de nações atingidas pelas sanções do Conselho de Segurança da ONU.

No exato momento em que nosso governo estreita seus laços com o Irã e oferece cooperação para um programa nuclear carregado de nebulosidade e suspeitas, até aliados históricos dos iranianos ficam com “um pé atrás” em relação ao país e rumam na direção da formalização de sanções contra a nação islâmica.

Se isso realmente ocorrer, o Brasil terá o mesmo êxito que obteve ao apoiar Zelaya e participar de um dos maiores vexames que a diplomacia brasileira já protagonizou. Será deixado “falando sozinho” e terá de recuar de suas posições, humilhado e acuado, para não sofrer o mesmo destino de seu novo e polêmico amigo.

Se insistir em seu apoio ou fornecer “por debaixo dos panos” tecnologia ou qualquer tipo de assistência ao Irã, nosso “País do futuro” será apresentado à cruel realidade de tornar-se um pária frente à comunidade internacional.

É claro que ninguém espera que o Itamaraty vá “pagar o preço” por manter uma aliança com o Irã, no caso da aprovação das sanções. No entanto, isso mostra como é equivocada a ideia de “aceitar de peito aberto” a palavra de determinados governos que primam pela nebulosidade e pela repressão férrea a seu próprio povo e a qualquer informação.

Quando os aliados de primeira hora do Irã e “inimigos” de sempre das posições americanas se unem aos EUA (Rússia e China) para tentar dar um fim nas pretensões iranianas no campo nuclear, é porque algo muito “estranho” está mesmo acontecendo por lá.

Basta uma pequena olhada nas atitudes do governo iraniano para que um alarme soe na cabeça de qualquer simpatizante: a descoberta de instalações secretas (não relacionadas para os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica), a criação de usinas no interior de montanhas, o desenvolvimento (cada vez mais intenso) de mísseis de longo alcance e a presença (cada vez mais incisiva) de elementos da Guarda Revolucionária na tomada de decisões e controle das ações internas e externas do governo iraniano.

Além de correr o risco de se ver apanhado no meio do tiroteio das sanções, o recuo diplomático (promovido à força) sempre causa um certo “gosto de cabo de guarda-chuva” na “boca” de qualquer nação.

É muito mais importante analisar o que o Brasil teria a ganhar com a venda de urânio e de tecnologia ao Irã, nesse momento, além de pesar as péssimas experiências que já tivemos ao negociar com países da região (Iraque e Arábia Saudita).

Na época, o Brasil era o terceiro maior produtor mundial de tecnologia militar e tinha produtos invejados  e temidos (até pelos EUA) como o lançador de mísseis Astros II (visto como arma perigosíssima pelos americanos durante a Primeira Guerra do Golfo e na Guerra Irã – Iraque).

Ao “negociarmos” esses produtos por lá, o resultado foi um enorme calote e a negativa de aval para financiamentos prometidos que levaram a nossa indústria bélica à falência e à extinção em matéria de poderio e de negócios internacionais.

Cuidar para que a história não se repita, agora com reflexos ainda mais graves, é o que se espera do Itamaraty e do governo brasileiro. Muito mais do que simpatias ideológicas, o Brasil deve sempre primar por seus interesses como nação e pesar se o relacionamento com esse ou outro País nos trará reais benefícios ou meramente dores de cabeça.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

2ª Coluna do dia: As verdades não ditas da história

26/02/2010

Por Felipe Liberal*

O Negro:

Em 1936, o país natal do todo poderoso Adolf Hitler foi derrotado pela seleção peruana de futebol. Três gols peruanos foram anulados e também a partida, no dia seguinte. No fim de tudo a Áustria ficou com a prata e a Itália, de Mussolini, com o ouro. O Peru voltou pra casa. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

O Latifúndio:

No rio chamado Massacre, que divide a República Dominicana do Haiti, aconteceu o maior dos espetáculos. Em 1937, caíram assassinados a golpes de facão milhares de negros haitianos, que estavam trabalhando no lado dominicano. Quem mandou matar? O generalíssimo, branco, com cara de rato, Rafael Leónidas Trujillo. Após 73 anos, a empresa dominicana ainda não ficou sabendo. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

Mapa- múndi:

Yalta, fevereiro de 1945. Churchill, Roosevelt e Stálin decidiram o futuro de vários países que levaram anos para ficar sabendo. Três grandes homens, a santíssima trindade do pós-guerra. Ainda bem que isso não acontece mais hoje em dia.

Natureza:

Tem um provérbio que diz que ensinar a pescar é melhor que dar o peixe. O bispo Pedro Casaldáliga, que vive na região amazônica, diz: “A ideia é genial, mas o que acontece se alguém compra o rio, que era de todos, e nos proíbe de pescar? Ou se o rio se envenena, e assim se envenenam seus peixes, pelos tóxicos que jogam nele? Ou seja: o que acontecerá se acontece o que está acontecendo?”

Tó:

Em 2003, os Estados Unidos da América dizimaram milhares de famílias no Iraque. Tudo por culpa de um erro divino, que colocou o petróleo sob os pés dos árabes. Mas não foram só vitimas de carne e osso: Várias relíquias arqueológicas foram transformadas em areia fina após os bombardeios. Entre elas, algumas tábuas de barro. Uma destas tabuas dizia: Somos pó e nada. Tudo que fazemos não é mais que vento.

*Felipe Liberal, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Inacreditável: O que levou a Inglaterra ao Iraque

10/12/2009

Confiram trecho de reportagem de O Globo que traz a explicação, praticamente inacreditável, de como foram construídos os argumentos do governo inglês que justificaram o envio de tropas ao Iraque:

“A informação divulgada pelo serviço secreto britânico de que Saddam Hussein poderia lançar um ataque químico em questão de 45 minutos a partir do momento em que a ordem fosse dada foi obtida através de um taxista que teria ouvido a conversa de dois soldados iraquianos, informou nesta terça-feira um parlamentar conservador.

Apesar de o governo britânico ter admitido, em outubro de 2004, um ano e meio após a invasão do Iraque, que a informação era falsa, a descoberta sobre a fonte original da informação aumenta a impressão generalizada de que o ex-primeiro-ministro Tony Blair exagerou em relação ao perigo que Saddam representava para fazer o público britânico apoiar a invasão.

A informação foi divulgada pelo jovem parlamentar britânico Adam Holloway, 44 anos, um especialista em defesa, muito próximo do líder conservador, David Cameron.

Segundo ele, o motorista, que trabalhava perto da fronteira com a Jordânia, disse ter ouvido algo sobre Saddam Hussein ter adquirido mísseis de longa distância que poderiam disparar armas químicas contra alvos britânicos em questão de 45 minutos. A informação foi usada pelo MI6 na construção de um caso para justificar a invasão.

O governo ignorou os avisos dos serviços de inteligência, que questionaram a confiabilidade das informações e não fez nada para corrigir equívocos da mídia, que reproduziram a informação à exaustão.”

É claro que, na realidade, o Reino Unido tinha o interesse político, e até financeiro, de acompanhar os Estados Unidos na investida contra o Iraque e, sendo assim, a robustez dos argumentos não seria, de qualquer forma, muito investigada.

Porém, isso não muda o fato de que é ridículo que as insinuações de um taxista tenham fundamentado as alegações do famoso MI6.

Lembro-me, neste momento, dos personagens Fucker and Sucker, do programa Casseta e Planeta, que, quando necessitados de informações quentes, procuravam os taxistas.

Ora, quando o governo britânico procede da mesma forma que Fucker and Sucker, algo não anda bem.

Coluna do dia: História, democracia plena e outras mentiras

10/09/2009

Por Felipe Liberal*

Nada mudou. Os bandidos continuam sendo os de barbas longas ou algum mestiço metido a independente, quaisquer que sejam seus países. Já os heróis se vestem de vermelho e azul, que são as cores de Deus, um Deus americano, feito de Coca-Cola Zero misturada a uma boa dose de anabolizantes feitos na Marvel. Nunca se esqueçam caros colegas, que Deus escreve certo por linhas tortas, e não vejo nada mais torto do que tudo que os EUA fizeram no século XX.

Muita gente afirma que os americanos são democráticos. E é verdade, são sim. São tão democráticos que todas as ditaduras latino-americanas e asiáticas tiveram participação decisiva do Tio Sam. O derramamento de sangue que vigora hoje no Iraque e Afeganistão é consequência da implantação da democracia sem nenhum planejamento ou estudo, como se a população desses países fosse formada por animais que não sabem decidir seu próprio futuro.

As eleições americanas, por sua vez, são fruto de um bipartidarismo ditatorial, onde os demais partidos têm que viver sob a clandestinidade, rodeados de “vigilantes democráticos”. Hoje, o Partido Comunista dos Estados Unidos possui mais espiões infiltrados do que filiados. Essa é a grande democracia americana.

Na América Latina é a mesma coisa. Tudo o que não cheira a hambúrguer queimado e ketchup é abominável. Hoje os demônios falam espanhol, odeiam ser explorados, mascam folha de coca ou perderam o dedo mínimo trabalhando em uma fábrica democrática. Aqui no Brasil, estatal é sinônimo de corrupção e improdutividade, o louvável é privatizar, “neoliberalizar”, americanizar, etc. O interessante é que, segundo o IPEA, as estatais produziram mais que as empresas privadas entre 1995 e 2006. Mas isso só pode ser mentira dos demônios que sempre mentem.

O nosso Deus agora quer implantar bases na Colômbia, para se proteger de alguma coisa. Que coisa? Dos anjos decaídos? Não consigo enxergar coisa mais antidemocrática que invadir um país com seu exército e ocupá-lo. Mas isso sempre aconteceu. É a guerra preventiva, lembram? Deus sempre foi prevenido durante todo o século XX e início do XXI também. E hoje é a mesma coisa, como será amanhã e depois de amanhã novamente.

Infelizmente, desconhecemos o que se passa dentro do país mais rico e democrático do mundo. Existem algumas coisas que são escondidas, não por maldade, e sim, por prevenção. Mas vou citar algumas, que Deus me perdoe:

1 – Apenas os democratas e republicanos participam de grandes debates. Super democrático.

2 – A clássica eleição de Bush em 2000 foi fraudada, alguém duvida? Super democrático.

3 – O governo americano está retirando dinheiro dos fundos de pensão dos trabalhadores da GM (General Motors) para pagar as dívidas com o Citibank e o JPMorgan. Super democrático.

4 – Apenas neste ano, Obama já atacou duas vezes o Oriente Médio, com o resultado de 250 mortes entre civis. E mais: Vendem armas para todos os países que eles mesmos criticam pela “falta de paz”. Super democrático.

5 – O governo atual é a favor do 3º mandato de Álvaro Uribe, da Colômbia, mas é contra o de Chávez, na Venezuela. Super democrático e coerente.

Ficando apenas nesses cinco segredos sagrados do nosso glorioso Deus azul e vermelho, percebemos que a realidade nua e crua embaralha toda a concepção da nossa realidade. A visão sem manchas, fumaças ou mentiras é muito dura de ser enxergada. E quando sabemos que a diferença entre Deus e o Diabo está apenas no diâmetro de um fio de cabelo, descobrimos que a História e o presente são bombas de ilusões que nos inundam até morrermos afogados.

Fukuyama disse que a História acabou. Meu caro filósofo, a História nunca existiu.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: Incompetência na política externa

29/08/2009

Por Matheus Passos*

Nesta semana, meu colega colunista Raphael Machado Silva escreveu a respeito da falta de experiência dos EUA em lidar com sua atual política externa. O autor cita como exemplos o apoio americano às Forças Armadas da Geórgia, há apenas um ano da guerra entre esta e a Rússia; a falta de tato americano em perceber que não há mais como pressionar o Irã a respeito de armas nucleares; e ainda a atual incapacidade americana em “manter a ordem” no Iraque e no Afeganistão. Sua coluna termina com a seguinte frase: “Talvez seja hora dos EUA começarem a aprender que o mundo mudou e que não lhe é mais possível, hoje, se envolver e interferir em eventos múltiplos ao redor do globo de modo a garantir sua hegemonia [...]“. Podendo cometer o erro da super-simplificação, eu diria que meu colega quis transmitir, com outras palavras, a seguinte ideia: Os EUA estão metendo demais o bedelho onde não são chamados e intervêm de menos onde efetivamente deveriam.

O Brasil é o maior país da América do Sul, disso todos sabemos. Mas talvez o que não tenhamos muito clara é a dimensão de nosso país nesta América do Sul – e não me refiro aqui à dimensão territorial, mas sim, em termos de função política, econômica e até mesmo social. Temos a mania de nos acharmos “subdesenvolvidos” e “atrasados”, pensando que somos os “coitadinhos” que são explorados pelos “malvados” europeus e americanos, mas a realidade é bem diferente: Exercemos, na América do Sul, o mesmo papel de “exploradores” e de “imperialistas” que acreditamos ser da Europa e dos EUA. Para nossos vizinhos, somos os “EUA do Sul”, como me disseram alguns argentinos e uruguaios com quem tive a oportunidade de conversar quando estive nestes países há um ano.

A pequena introdução anterior, com dois temas aparentemente desconexos, tem por objetivo fundamentar a ideia principal da coluna de hoje, qual seja, a de que é uma pena que aquilo que os EUA exercem demais, nas palavras de meu colega Raphael, o Brasil exerça de menos – ou até mesmo não exerça. E claramente não me refiro aqui ao papel imperialista “negativo”, de “explorador”, mas sim ao papel que foi desempenhado por muito tempo pelos EUA (e que acredito que continue sendo desempenhado), ou seja, o papel de liderança e de “guia” a respeito de qual rumo seguir.

Não quero aqui debater a respeito do acordo entre EUA e Colômbia em si – se ele é bom ou ruim para o Brasil e para os demais países da América do Sul. Também não pretendo falar acerca do equilíbrio de poder existente na América do Sul e da distorção que a presença americana em qualquer país da região traz a tal equilíbrio. Tampouco pretendo questionar se a Colômbia tem ou não o direito de permitir a presença dos militares americanos em seu território – tal debate só é feito por aqueles que não tiverem o mínimo de conhecimento a respeito do conceito de soberania. Mas me importa mostrar alguns pontos daquilo que considero como fraqueza da diplomacia brasileira sobre o assunto.

Todos devem ter acompanhado a viagem que Álvaro Uribe, Presidente da Colômbia, fez há duas semanas, por todos os países da América do Sul, para explicar o tal acordo. Os leitores devem ter acompanhado também as últimas tagareladas dos presidentes de três de nossos vizinhos ao norte – Bolívia, Equador e Venezuela – sobre o tão falado acordo entre Colômbia e EUA a respeito da presença de militares americanos em território colombiano para se lutar contra o narcotráfico.

Hugo Chávez e seus filhotes Evo Morales e Rafael Correa soltaram diversos impropérios a respeito da situação. Como exemplo, no dia 26 de agosto Evo Morales sugeriu a realização de um referendo sul-americano sobre as bases na Colômbia, argumentando que tal processo garantiria a “soberania da América do Sul” (parece que o Presidente boliviano não sabe o que significa “soberania”). Rafael Correa também não ficou atrás, afirmando em plena Unasul que a implantação das bases na Colômbia corresponde à transformação da América do Sul no “quintal dos EUA”. Contudo, Hugo Chávez continua sendo o campeão de patacoadas: Ele afirmou que caso o acordo fosse assinado (o que já aconteceu), a Venezuela poderia até mesmo entrar em guerra com a Colômbia, e esta última seria “a única responsável” (parece que Chávez se esqueceu de que comprou diversos armamentos russos nos últimos tempos, militarizando a região). Ele disse ainda que o acordo seria “a semente da guerra” – esta última frase em plena Unasul.

E o Brasil, o que faz nessa situação? Absolutamente nada. Defende a soberania colombiana, mas diz que é necessário debater a eficácia da cooperação entre EUA e Colômbia. E isso é o máximo da política externa brasileira sobre o assunto. O Brasil não tem tomado nenhuma ação contundente na situação e age sempre de maneira reativa, esperando que os outros tomem a iniciativa primeiro para depois se posicionar. Nossos “líderes” se esquecem de que o Brasil é, sim, o País mais importante da região e que a palavra do Brasil tem força. Neste sentido, nosso País poderia efetivamente ser o líder na América do Sul, mostrando o rumo a ser seguido.

Mas não é isso que acontece: Nossa diplomacia deixa a faca e o queijo nas mãos de Hugo Chávez e companhia – não é à toa que o Presidente venezuelano foi visto como o líder mais importante da América do Sul em pesquisa recente, à frente de Lula.

E eu termino a coluna deixando uma pergunta no ar: Até quando continuaremos com uma diplomacia reativa, que espera os acontecimentos internacionais para depois tomar decisões – que, geralmente, se fundamentam em elementos ideológicos, e não, pragmáticos? Enquanto continuarmos assim, continuarei envergonhado da diplomacia do meu País.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

Coluna do dia: EUA – Quando a experiência faz falta

25/08/2009

Por Raphael Machado Silva*

Conforme passa a euforia popular e a razão volta a operar na mente dos americanos, um número cada vez maior de pessoas chega, muitas vezes timidamente, à seguinte conclusão: Cometeram um erro ao eleger Barack Obama. Caíram em um conto de vigário. Agiram previsivelmente como uma massa faria. Abraçaram um símbolo de caráter religioso, pronto para distribuir epifanias e êxtases, entoando mantras politicamente corretos, sem nunca antes ter ouvido falar no indivíduo, já que o mesmo possui um histórico político extremamente medíocre.

Obama foi escolhido como candidato pelos democratas por pura estratégia de imagem, não por qualquer conteúdo. Não afirmo que o candidato republicano era muito melhor. Não era mesmo. Em verdade, não vejo qualquer futuro para o “bipartidarismo” do sistema americano.

Se um dos muitos argumentos contrários à escolha de Obama como Presidente dos EUA era sua total inexperiência, esse fato fica mais patente na política externa americana. Se a vitória de Obama melhorou a imagem dos EUA ao redor do mundo, foi porque as pessoas ao redor do mundo, e isso inclui a Europa e o Brasil, simplesmente são alienadas e distantes da realidade. A mídia, com seu posicionamento radicalmente pró-Obama – a ponto do site de certa grande emissora brasileira ter bloqueado a postagem de comentários à época da contagem dos votos das eleições americanas 5 minutos após eu ter postado alguns comentários anti-Obama -, também parece não se preocupar muito com sua suposta função de nos transmitir a realidade, já que tal é a última coisa a nos ser informada e isso só quando lhes interessa.

A diplomacia é uma verdadeira arte na qual os países europeus possuem uma maestria absoluta. Os países asiáticos, historicamente acostumados com burocracias de bajuladores, também aprenderam a negociar. Países comunistas, independentemente da geografia, apesar de preferirem o uso da força, também com o tempo aprenderam a utilizar-se dela em conjunto com a astúcia. Os EUA, por sua vez, que também tinham possuído um histórico de diplomacia inteligente que se estende desde que John Adams conseguiu convencer a França a lhes prestar auxílio na Revolução, parecem estar perdendo suas perícias na área.

Cada vez mais, os EUA parecem estar desesperados, tentando “abocanhar” bem mais do que lhes seria possível. As contendas internacionais crescem, sem que as anteriores sejam definitivamente resolvidas. Os EUA, no plano internacional de hoje, parecem com uma criança que, diante de muitos brinquedos, não sabe bem com o quê brincar.

Os EUA decidiram voltar a treinar as forças armadas da Geórgia, ainda não muito tempo após uma guerra do país contra a Rússia e ainda sem que os problemas ente ambas as nações sejam resolvidas. Quanto tempo levará até que a paciência da Rússia se esgote? E o que acontecerá quando isso acontecer?

Por sua vez, o Irã decidiu permitir que suas instalações nucleares recebessem visita de inspetores da ONU. Mas isso não é nenhuma novidade. Quem tem medo de permitir visitas às suas instalações é Israel e não o Irã. Porém, esta pode ser considerada uma vitória americana? Não é isso que quer os EUA. E mostrando suas instalações à ONU, o Irã consegue dificultar qualquer apoio formal que se possa dar aos EUA no caso de guerra, já que se não há armas nucleares sendo produzidas, não há motivo justificável para a guerra. Ao mesmo tempo, a mal fadada tentativa de uma “revolução” no Irã não saiu do papel.

Enquanto isso, no Afeganistão e no Iraque, um número cada vez maior de atentados desestabiliza a região e começa a tornar qualquer vitória improvável. E a única solução que se considera é enviar ainda mais tropas, como se o problema fosse quantitativo e não estratégico. Os governos estabelecidos são incapazes de garantir um funcionamento normal às instituições  e durarão pouco após a eventual saída do exército americano.

Ao mesmo tempo, e de um modo bastante irracional, os EUA e seu principal aliado, a Grã-Bretanha, continuam em uma política irrestrita de imigração que facilita a penetração de extremistas em seus solos, dificultando qualquer combate eficaz ao terrorismo internacional.

Talvez seja hora dos EUA começarem a aprender que o mundo mudou e que não lhe é mais possível, hoje, se envolver e interferir em eventos múltiplos ao redor do globo de modo a garantir sua hegemonia. O resto do mundo aprendeu muitas lições durante a Guerra Fria. Já os EUA parecem ter parado, ou mesmo regredido.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Enola, a malvada – 64 anos da bomba de Hiroshima

07/08/2009

Por Yashá Gallazzi*

Quando esta coluna for publicada, já estaremos na sexta-feira, dia 7 de agosto. Mas eu esclareço que escrevi estas linhas um dia antes, quinta-feira, dia 6 de agosto. O dia em que o mundo relembra aquela que considero a pior e mais macabra homenagem que um filho já fez a uma mãe.

Os leitores mais atentos já entenderam que me refiro ao aniversário do ataque atômico desferido contra Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, já no final da segunda grande guerra mundial. Há exatos sessenta e quatro anos o mundo conheceu um horror até então inédito, diferente de tudo o que já fora experimentado pela humanidade. Quando a malfadada bomba, composta por cerca de 60Kg de urânio, foi arremessada sobre aquela cidade japonesa, o que se viu foi um breve esboço do armagedon, com o fogo consumindo tudo e todos que estavam no lugar. E todo esse cenário de destruição serviu para prestar honras a Enola, mãe do piloto que atirou a arma nuclear. E ele, imbuído por sabe-se lá qual espírito, achou por bem batizar aquela que então era a mais poderosa arma de destruição com o nome da mãe. Enola… Uma americana que, como tantas outras, viu seu filho partir para a guerra. Não acredito que ela esperasse semelhante presente. Penso que teria se dado por satisfeita apenas recebendo seu filho de volta dos campos de batalha, preferencialmente livre dos conhecidos transtornos pós-traumáticos que o acometeram.

Como alguém que se orgulha de prezar a democracia e o sistema de liberdades individuais, não posso deixar de me confessar triste ao lembrar o que se passou naquele longínquo 6 de agosto de 1945. É impossível se regozijar com aquilo que aconteceu em Hiroshima, onde milhares de inocentes foram tragados pela onda violenta formada a partir de anos de guerra. Uma guerra sangrenta e dura. Talvez a mais dura que o mundo já conheceu. Mas o pior, confesso, é pensar naqueles inocentes que sequer estavam lá em 1945, mas que foram perseguidos e capturados pelos tentáculos atômicos da bomba. Descerebrados, alienados, mutilados… Homens, mulheres e crianças… Todos igualmente vítimas de Enola e seu poder de devastação inigualável. É sem dúvida um dos episódios mais sombrios da história humana, que diminui a todos nós. É uma data que viverá na infâmia, como disse o Presidente Roosevelt sobre… o ataque a Pearl Harbor! Aos que pensam que me perdi em divagações, tranquilizo: Estou apenas cuidando de rememorar um contexto histórico especialmente conturbado, a fim de construir uma análise sóbria que passe ao largo de alguns lugares-comuns assaz conhecidos.

Não estou entre aqueles que se deixam seduzir pelo antiamericanismo bocó, típico do terceiro-mundismo primitivo. Pelo contrário até: sou bel “filoamericano” mesmo. Para que tenham uma ideia, reconheço-me naquele estreito grupo de pessoas que entendem a importância dos Estados Unidos para o resto do mundo civilizado, especialmente a partir da segunda grande guerra. Não fossem os americanos – e o sempre importante Winston Churchill, Hitler teria marchado sobre toda a Europa, subjugando os valores morais sobre os quais o Ocidente se erigiu. Ainda hoje, por exemplo, custo a compreender o sentimento antiamericano dos franceses, que devem sua liberdade ao desembarque na Normandia. Por que esta tergiversação agora? Porque recuso-me a comprar a teoria que classifica o ataque atômico a Hiroshima como uma maldade do império americano contra um pobre povo indefeso. Isso é apenas tolice provinciana, nada mais!

A segunda guerra mundial foi um conflito com dois lados bem definidos: o bem, representado pelo ocidente democrático, e o mal, incorporado pelo nazismo e pelo fascismo. Qualquer um com dois neurônios e um pouco de senso lógico sabe que não há escolha possível entre tais campos. A escolha está feita de per si: cumpre alinhar-se com o bem. E qual era o objetivo do Ocidente democrático? Derrotar aquele que até então era o mal absoluto, eliminando-o da face da terra. Estados Unidos, Inglaterra e todos os demais países que representaram o bem pegaram em armas porque era preciso defender os valores que fazem da nossa civilização uma civilização! O inimigo, encarnado por Hitler e pelos fascismos italiano e japonês, representava a morte do mundo tal qual o conhecemos hoje. Nenhuma guerra é boa, dizem os pacifistas. E estão certos. Mas algumas são imprescindíveis! A segunda guerra mundial foi uma delas.

O horror havido em Hiroshima foi, a meu aviso, um erro de análise militar. Acredito que a força do exército americano – e dos demais aliados – poderia vencer o Império Japonês sem o recurso àquela bomba, injustamente chamada de Enola. Principalmente, estou convencido de que a guerra midiática teria sido vencida com enorme facilidade, caso Truman não tivesse lançado mão da tal arma. Guerra midiática, eu disse? Sim, isso mesmo. Os americanos e seus aliados venceram a guerra militar, para nossa sorte e para sorte de todo o mundo civilizado. Já aquela da propaganda, sabe-se, foi vencida pelo antiamericanismo – que muitas vezes se confunde com o pacifismo.

Muitos especialistas no assunto, por exemplo, sustentam ainda hoje que o ataque atômico acabou sendo a solução militarmente mais adequada. Eu, que não entendo muito de táticas militares, só posso ler as várias interpretações e construir minha própria análise a partir delas. Diz-se, por exemplo, que o número de mortos no caso de uma invasão por terra ao Japão seria muito superior aos cerca de cem mil mortos provocados por Enola. Sustenta-se, com base em estudos empíricos, que a duração do conflito poderia se estender por pelo menos mais uma década, caso fosse feita a escolha pela ocupação do território inimigo. E a história nos conta que Truman teve todos esses cenários à mesa antes de decidir que rumo tomar. Escolheu, como sabemos, a solução mais rápida, mas que só os canalhas podem considerar mais fácil. Não havia bandidos genocidas daquele lado – o lado do bem -, mas homens honrados tentando encontrar uma forma de salvar o nosso mundo. Eu, hoje, posso dizer que a escolha deles foi dolorosa. Mas não posso dizer que, fazendo outra, a coisa teria sido mais fácil.

A guerra da propaganda, estimulada pelo antiamericanismo do mundo, tratou de inverter a realidade e colocar os Estados Unidos na posição do império assassino, que subjugou com força desproporcional – eles adoram essa expressão – um inimigo muito mais frágil. Nada mais falso! O império do mal era o Império Japonês e seu fascismo assassino, que promovia expansão militar e territorial por meio de campanhas dignas de fazer inveja aos bárbaros de outrora. O ranço que certo pacifismo “woodstockiano” promoveu contra a América criou uma relação de causa e efeito entre Pearl Harbor e Hiroshima, coisa que não passa de trapaça retórica e moral. Mesmo porque – e aqui vai uma constatação muito importante – o ataque dos kamikazes foi moralmente muito pior do que a bomba chamada Enola. E eu não estou aqui falando apenas de aritmética, mas de valores, de ética. Uma ética que até nas guerras sempre existiu, mas que o fascismo, com sua obsessão por tudo o que é mais abjeto, tratou de violar.

O ataque japonês a Pearl Harbor foi aquilo que hoje se poderia chamar de terrorismo. Os japoneses de então estão para aquela guerra como os assassinos da Al Qaeda estão para o 11/9. E Hiroshima? Bem, como todos sabemos o lançamento da bomba não foi uma tática para dar início a um combate. Foi, antes, a maneira que se achou de por fim a ele, forçando à rendição o último arrimo de sustentação do forte fascista, que insistia em não ceder. Não preciso aqui lembrar, por exemplo, que o governo americano exortou os japoneses a pôr fim às hostilidades, inclusive advertindo que poderia lançar mão de uma arma muito poderosa. Ainda assim, o Império resistiu. Durante quanto tempo os Estados Unidos tentaram vencer de outra forma? Foram quatro anos! Quatro anos entre o atentado terrorista a Pearl Harbor – que não pode ser justificado sob nenhum ponto de vista moralmente aceitável – e o lançamento de Enola. Quatro anos! Digam o que quiserem, mas é impossível classificar o que houve em Hiroshima como vingança, ou como retaliação. Foi, isso sim, uma manobra militar e, como tal, deve ser encarada e julgada.

Eu a condeno, hoje, porque hoje me é dado conhecer todos os seus reflexos. Hoje sei as sequelas que centenas de milhares de inocentes tiveram – e tem – que suportar. Hoje sei que isso alimentou – e alimenta até hoje – o antiamericanismo rasteiro que tanto atrasa o mundo. Mas isso eu sei hoje, depois de consumados os fatos. Da mesma forma que sei o quanto era imprescindível vencer aquela guerra, colocando fim ao jugo nazista e fascista. Da mesma forma que critico a guerra do Iraque em razão de sua estratégia patética de ação, orquestrada por um presidente Bush que acreditou em uma vitória rápida e fácil. Mas não posso – e não consigo – criticar a guerra contra o terror, porque o terrorismo praticado pelo fascismo islâmico precisa ser detido hoje, da mesma forma que o fascismo do Império Japonês precisava ser detido então.

Não se trata, como percebem, de ser contra ou a favor da bomba atômica. Como já disse: ninguém com algum senso democrático e de humanidade pode ser a favor de semelhante massacre. Trata-se, isso sim, de olhar a história com olhos sérios, julgando homens e fatos a partir dos valores que temos e sobre os quais nossa história de civilização foi construída. Essa mesma civilização que os aliados lutaram vigorosamente para salvar na segunda grande guerra. Sob tal ótica, digo que vencer a guerra era um imperativo moral e categórico, mesmo porque os nossos valores, uma vez preservados do inimigo, nos permitem analisar as ações pretéritas, condenando aquilo que de errado foi cometido por nós ou por nossos antepassados. Os valores deles, caso tivessem prosperado – caso Pearl Harbor tivesse sido vitorioso – não seriam assim tão complacentes para conosco. Basta ver o que foi o nacional-socialismo de Hitler, moldado às custas de campos de concentração e de limpezas étnicas. De todas as infindáveis vítimas que aquela guerra fez – e foram inúmeras – confesso que uma das que mais me comove é Enola. A mãe, não a bomba. Ela não merecia isso.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: O Taliban

10/07/2009

Por Yashá Gallazzi*

taliban

Em mais de uma ocasião acabei provocando alguma polêmica ao defender de forma veemente a civilização ocidental e seus valores, notadamente a democracia e o sistema de liberdades individuais. No mais das vezes, as discordâncias giram em torno da suposta intolerância que me caracterizaria ao falar dos que considero inimigos da nossa civilização e, se querem saber, acho que meus críticos estão mesmo cobertos de razão. Eu realmente não tolero os valores que se mostram antagônicos aos nossos, porque – e aqui levanto mais uma polêmica – o Ocidente é moralmente superior aos seus algozes. Simplificando, posso dizer sem medo de errar: ou lutamos pela hegemonia dos nossos valores, ou teremos a barbárie. E ao longo deste texto explicarei o porquê disso.

Li na Folha de São Paulo que o grupo terrorista Taliban, não satisfeito em promover aquilo que – se me permitem – passo a chamar de “terrorismo convencional”, explodindo inocentes em nome do propósito supostamente divino de destruir os infiéis ocidentais, decidiu descer ainda mais baixo, a ponto de chegar às portas do inferno, adentrar o reino de Lúcifer e, uma vez ali, assumir o lugar de Hasmodeu. O que houve, afinal? Segundo o que foi noticiado no jornal paulista, os fascinorosos terroristas estão comprando crianças – algumas de onze anos apenas! – para usá-las como instrumento de sua guerra teratológica. Explico melhor: pagando em média seis mil dólares por cada infante, a canalha adquire carne fresca para sacrificar em nome de sua “causa” sociopata. As crianças que, envoltas em bombas, explodem a fim de matar os cães do ocidente, não passam de mercadoria, pertences aos Taliban.

Eu, que sempre cultivei os mesmos valores éticos e morais aborrecidamente imutáveis, não preciso de mais argumentos para ter certeza do óbvio: somos moralmente superiores a essa gente torpe! E por uma razão bem simples: aqui, no ocidente, a regra geral é proteger e amar as crianças, garantindo-lhes a vida, o mais basilar de todos os direitos individuais. Por mais mazelas sociais que ainda enfrentemos, por mais injustiças que sejam cometidas diariamente contra nossas crianças, violadas e escravizadas, ninguém pode nos acusar de não alimentar os princípios e os valores certos e humanamente melhores. Pode parecer pouco, mas é o fundamental, afinal, os homens – que subvertem a ordem e a legalidade – passam, ao passo que os valores permanecem, simbolizando um inteiro povo.

Não há maneira de tergiversar. Aqui, o nosso norte moral nos impõe o dever de proteger nosso futuro, representado por aqueles que darão sequência à obra por nós iniciada. Não há nenhuma causa ou objetivo capaz de nos levar a sacrificar nossas próprias crianças. Já no Oriente, refém do fascismo islâmico, a causa principal que os move é a destruição da besta ocidental e, para tanto, se pode lançar mão de qualquer recurso, por mais espúrio que seja. Já não era segredo que o terrorismo encontra muita desenvoltura para assassinar inocentes – inclusive crianças – do “lado de cá”, afinal, eles não fazem distinção: somos todos infiéis. A novidade agora é perceber que eles também não hesitam em sacrificar seus próprios inocentes. Suas crianças. Seus filhos. Essa gente representa o mal absoluto e precisa, sim, ser detida. É imperativo que o Ocidente imponha, de fato, a supremacia dos seus valores, para escorraçar os bárbaros que tentam buscar a hegemonia no mundo.

Está evidente que me refiro à necessidade de se combater e vencer a chamada guerra contra o terror. Impedir que a escória do mundo continue sacrificando crianças inocentes em nome de uma “guerra santa” é um verdadeiro imperativo moral para nossa civilização. E para quem ainda não acredita em superioridade de uma cultura sobre outra, proponho um exercício revelador: Lembram de George Bush, o ex-Satã de todo o mundo progressista, humanista e pacifista? Pois bem, o Republicano, tão reacionário, tão conservador e tão belicista, não arregimentou uma única criança para mandar ao Afeganistão e ao Iraque, lutar pelos Estados Unidos e pelo Ocidente. Isso porque aqui nós escolhemos proteger nossas crianças, não assassiná-las. Se algo assim não for suficiente para demonstrar o quanto a nossa escala de valores é superior às demais, espero que alguém me diga o que seria.

Custa-me, por exemplo, entender a abjeta condescendência que alguns ocidentais insistem em nutrir para com os seus algozes, os islamofascistas. Basta lembrar que, quando da ação americana no Afeganistão, os pacifistas de um lado só se apressaram em condenar Bush, denunciando sua – como era mesmo? – “política imperialista” e advogando em favor da tal “autodeterminação” dos povos, que garantiria a qualquer grupo o direito de ter seus próprios imperativos éticos e morais. O ponto é que, nestes tempos sombrios de inversão dos valores mais basilares da civilização, essa tal “autodeterminação” deve ser entendida como o direito que cada povo tem de amarrar bombas às suas crianças, usando-as como armas de guerra. Isso, caros, não pode – e não deve – ser aceito por nós, ocidentais.

Cruzar os braços diante de horrores como os perpetrados pelos Taliban é permitir que os portais do inferno sejam escancarados e que os demônios ditem as regras destinadas a reger nossas vidas. Assistir de forma passiva às atrocidades que o fascismo islâmico pratica, em nome de sua cultura e de sua moral, é concordar com o fato de que a nossa moral já capitulou e nada mais pode. Isso é falso! Urge resistir e prosseguir no único caminho possível quando o assunto é o combate ao terrorismo: caçar o inimigo, encontrar o inimigo e matar o inimigo. Devemos destruí-los não apenas para garantir o futuro de nossas crianças, mas para permitir que as deles também possam viver para, ao menos, sonhar com um. Hoje, sabemos, elas têm a vida ceifada pelos fascínoras que lhes impõem a obrigação de carregar bombas presas ao corpo.

Lembro-me de Sir Winston Churchill, um dos grandes baluartes da defesa do mundo ocidental. Criticado pelo imperialismo das potências europeias, o britânico dizia: “não há mal que o Império Britânico supostamente tenha feito aos colonos, que não possa ser, em muito, superado pelo mal que os próprios colonos praticam uns contra os outros.” E isso vem resumir com especial grandiloquência o argumento central articulado ao longo deste texto. Ou temos a hegemonia dos nossos valores éticos e morais, ou só restará a barbárie.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Mais um passo estratégico em relação ao Irã

07/07/2009

Por Raphael Machado Silva*

Este colunista falou duas semanas atrás, sobre a posição que ocupam essas agitações no Irã dentro da estratégia geopolítica dos EUA em relação ao mesmo. Apenas recapitulando, considerando que há atualmente um “overstretching” das Forças Armadas americanas, as quais estão envolvidas em várias operações militares, de ocupação, de apoio e de logística ao redor do mundo, não é viável que as mesmas se envolvam diretamente em qualquer outro conflito nesse momento.

Mas isso não significa que o objetivo americano de subjugar o Irã não possua outras possibilidades de realização. Por isso, segundo o já usado modelo de financiar “revoluções coloridas” como executado na Ucrânia e na Geórgia, no cerco estabelecido contra a Rússia, a CIA está financiando uma tentativa de golpe contra o governo legítimo do Irã. Para justificar “moralmente” esse golpe, a mídia “ocidental” (que é anti-ocidental) usa a desculpa esfarrapada de que houve “fraudes” nas eleições, o que até agora não foi provado.

Pois bem. Mas e se essa estratégia falhar? Pois isso, senhores, pode muito bem acontecer. O atual governo pode suprimir os golpistas, o dinheiro da CIA pode parar de fluir, o interesse dos jovens mudar conforme mudam as estações do ano, e o “ardor revolucionário”, artificialmente insuflado, pode arrefecer. Então acontece o quê? Certamente que isso não põe fim às estratégias americanas. Apenas significa a necessidade do uso de uma estratégia menos sutil e mais dura.

No início dessa semana, o vice-presidente da Terra da Liberdade, do Bem, da Justiça e da Felicidade, vulgo EUA, Joe Biden, anunciou que Israel possuía “Carta Branca” para atacar Irã caso isso fosse necessário. Ora pois, Biden é um comediante, parece. Não é Israel quem precisa de permissão para atacar seus vizinhos de modo selvagem e neurótico. Israel nunca precisou de permissão para fazer o que bem entendesse, nem nunca precisou pedir desculpas e muito menos obedecer às normas do Direito Internacional. Todos já estamos cansados de saber que Israel está isento dessas “amarras”. Elas são apenas para os “pobres mortais” dos outros países.

Biden provavelmente falou coisas que não eram para ser ditas em público, e elas não fazem muito sentido sob um ponto de vista realista, levando em consideração o relacionamento entre EUA e Israel. Se levarmos em consideração os fatos, Biden sem querer indicou que os EUA já consideram os próximos passos contra o Irã, porque já consideram as operações recentes no Irã como havendo falhado. Mas…e as negociações de Obama? Obama disse que continuaria negociando com o Irã até o fim deste ano. Obama, o Grande Pai dos Povos, Senhor da Paz e da Sabedoria, Sumo-Sacerdote do Politicamente Correto e das “Vítimas”; ele está apenas a ganhar tempo, porque sabe que os EUA não podem se envolver em uma guerra. Se não, os EUA jamais se dariam ao trabalho de se envolverem nesses “joguinhos diplomáticos”.

Os EUA ainda precisam de um “Casus Belli”, ou seja, de uma justificativa de ataque. Historicamente, os EUA sempre forjaram ou provocaram esses “Casus Belli”, então é de se esperar que ocorra a mesma coisa nessa situação. Talvez, a grande frota de navios americanos ancorados no Golfo Persa possua qualquer relação com isso? E não é fato que Israel necessita de acesso livre ao espaço aéreo iraquiano, controlado pelos EUA, para atacar o Irã? Obama ganha tempo até que se esgotem as possibilidades de subjugação não-militar do Irã, ao mesmo tempo se aguarda o surgimento de um “Casus Belli”, assim que se estiver garantido que não há estratégia possível além de uma intervenção militar.

Enquanto isso o país mais beligerante e perigoso do Oriente Médio, Israel, permanece livre para aterrorizar seus vizinhos, usando até mesmo armamento proibido em conflitos, sem que haja qualquer palavra de desaprovação por qualquer governo ou mídia Ocidental. Como sempre, os mesmos tolos de sempre, cairão nas mesmas mentiras de sempre, sobre a “retidão moral” e a “luta pela liberdade e democracia”. Mas invadir o Irã é muito diferente de invadir Iraque e Afeganistão. Será que Israel e EUA conseguem enxergar isso?

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.