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Coluna do dia: A Guerra como lógica da sobrevivência

29/10/2009

Por Felipe Liberal*

É muito cansativo ver o planeta Terra do jeito que está. É muito árduo ver guerras e políticas dementes sendo apoiadas por massas populacionais, como se tudo fosse um jogo de tabuleiro. Eu não tenho raiva do meu planeta, eu sinto apenas tristeza. A raiva já passou, o sentimento agora é o misto de “depressão” e impotência diante das inexistentes ações.

A Guerra está se tornando cada vez mais inevitável. O “fazer guerras” no século XXI é mais do que uma ação estratégica ou uma política de dominação econômica, mas também é uma ação de sobrevivência da lógica neoliberal e do próprio capital.

Quando falamos da Colômbia, por exemplo, podemos lembrar o que acontece dentro do país e que pouca gente conhece. Muito dos lucros colombianos existem, justamente, porque trata-se, praticamente, de um país permanentemente em guerra. Durante os últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria se fez com uma guerra. Se não fosse assim, não teria sido possível expropriar as terras de milhões de camponeses e fazer uma reforma agrária “às avessas”, na qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de seis milhões de hectares de terra. E tem gente que acha que os conflitos na Colômbia se resumem ao tráfico de drogas.

O surgimento das Companhias Militares Privadas (CMPs) nos EUA é a evidência de quanto a Guerra está atrelada aos lucros imediatos e permanentes de várias empresas que sobrevivem (ou vivem?) da manutenção de uma guerra ou da dominação militar em um determinado país.

Essas empresas fornecem vários tipos de serviços militares que o exército regular já não possui, por exemplo: a aplicação de armas sofisticadas (como aviões não tripulados, radares ou mísseis de navios americanos), na primeira onda de ataques ao Iraque, foi realizada por especialistas de empresas privadas. Entre outras coisas: distribuem a correspondência, cozinham ou lavam a roupa dos soldados, montam os acampamentos militares, as prisões. Praticamente todo o setor de transporte do exército americano é terceirizado.

No caso da prisão de Abu Ghraib, abafaram o julgamento de vários soldados americanos e ingleses. A verdade é que a prisão era administrada em todas as suas funções por duas empresas privadas: CACI e Titan.

Por serem funcionários civis (mercenários) e terem belos contratos com o Pentágono, esses “soldados” das CMPs quase não vão a julgamento, criando uma teia de imunização e impunidade. A maioria é contratada de países asiáticos e europeus, por serem locais de tradição mercenária e que têm trabalhadores com maior mobilidade.

Mas como fazer a Paz, se essas empresas militares (possuem ações na Bolsa de Valores e circulam cerca de 200 bilhões de dólares ao ano) sobrevivem por conta da Guerra? A lógica neoliberal, capitalista, liberal ou qualquer nome que queiram dar à ideologia americana impede qualquer processo pacifista e democrático. Essas são a democracia e a realidade que são exemplos? Esse é o modelo que tem que ser globalizado?

Prefiro continuar “depressivo”, a aceitar o inaceitável.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal