Pouco a pouco, Ciro Gomes vai mudando o tom e as atitudes e mostrando que está de acordo com os conselhos que aqueles que desejam vê-lo como protagonista na corrida presidencial de 2010 lhe dão.
O ex-candidato a Presidente e ex-Governador do Ceará, atual Deputado Federal, começa a colocar as manguinhas de fora e aparecer mais, trabalhando, de certa forma, contra o plano de Lula de unir toda a base aliada em torno de Dilma.
De passagem por Natal, capital do Rio Grande do Norte, Ciro Gomes concedeu entrevista ao jornal Diário de Natal, o chamado “Poti”. Na entrevista, Ciro dá o tom do que parece ser seu plano de ação para os próximos meses, além de explicitar algumas de suas opiniões sobre o cenário para 2010.
O pré-candidato do PSB chega a comentar, inclusive, sobre a, para ele, inexistência de um “sistema governista” cuja existência poderia se supor observando a vontade de Lula de unir a base aliada em 2010. Fala ainda, nas entrelinhas, sobre José Serra, demonstrando que tem uma gana de concorrer para poder evitar que esse seu inimigo de longa data chegue ao Planalto.
A entrevista constitui importante fonte de informação sobre o que Ciro quer de 2010. Sendo assim, seguem abaixo os trechos mais relevantes da longa entrevista:
Qual o projeto do PSB e do senhor, pessoalmente, para 2010?
Eu disse aos companheiros – eles estão preocupados com essa precipitação do debate da sucessão do Lula, eu tenho uma vivência de 30 anos na política, e isso me dá um olhar mais sereno – time que não joga não ganha torcida. Eu acho que o partido devia disputar a presidência da República e todos os governos estaduais possíveis. Eu fiquei muito chateado com o que aconteceu aqui em Natal. Eu queria que o partido disputasse a prefeitura com candidatura própria.
Foi o senhor, inclusive, que lançou o deputado Rogério Marinho num encontro do PSB em Natal.
Claro. O Rogério Marinho é um cara qualificado, respeitado no partido, a gente com prefeitura de Natal, com governo do estado bem avaliado.
Essa semana, ele conseguiu autorização do TSE para deixar o PSB sem perder o mandato.
É lamentável. Mas, como eu ia dizendo, eu defendo que o partido tenha candidato em qualquer circunstância. Eu estou muito preocupado com o futuro do Brasil. Não é porque eu estou vendo uma tragédia no futuro. Basta que eu perceba a tragédia crônica que é o viver da média do povo brasileiro para ficar preocupado com o futuro do Brasil. Qual é a minha preocupação política mais grave hoje? Nós perdermos os inimigos caricatos. A ditadura, hoje não há um só político que não seja eleito pelo voto e há uma gravíssima, especialmente entre jovens, perda de confiança na política e na sua representação. Isso é muito grave. A inflação, antigamente nós tínhamos uma inflação de 84% ao mês. Então, tinha aquele debate todo que tinha que ser a emergência a ser combatida. Isso acabou. E não temos mais o inimigo, a ameaça da esquerda no poder. O Lula mata esse mito. E, às vezes, até mais realista que o rei. Ninguém pode mais duvidar de que a esquerda pode governar com muita responsabilidade e melhorar a vida do povo. Mas também não trouxe o paraíso para a terra. Existe uma frustração perigosa aí: acabou a inflação, mas e a vida do povo? A classe média, especialmente, onde a consciência crítica é maior, paga dobrado para viver no Brasil. Morre com o Imposto de Renda retido na fonte – não tem nem como escapulir – e paga plano de saúde porque a rede pública de saúde é uma vergonha, paga mensalidade escolar porque a rede pública de educação é uma vergonha, a despeito do esforço dos médicos e professores, a segurança pública não funciona e frequentemente as famílias têm custo com segurança privada. E você tem a questão do futuro. Seis de cada 100 garotos e garotas, apenas, têm acesso ao ensino superior público. Que é o único que ainda tem alguma qualidadezinha. O resto fica condenado a pagar uma faculdade privada que, via de regra, é uma arapuca. Vai virar um desempregado de nível superior. As pessoas estão se comportando meio como se não tivesse saída para isso. E eu sei que há.
O senhor está falando como candidato a presidente.
Eu já fui candidato a presidente duas vezes. Não fui a terceira para ajudar o Lula. Então, eu não posso estar mentindo para o povo e dizer que eu não quero ser. Evidente que quem já foi já revelou que quer ser. Agora, não é candidato de si mesmo. Eu quero ver o seguinte: qual a discussão que vai dar no bloco de esquerda que está incomodado com essa onda conservadorismo que, aliás, o PMDB e o PT estão impondo ao país. Se você vir o que eu estou vendo na Câmara Federal, você vai se arrepiar, você não vai acreditar o que o PMDB está patrocinando.
O senhor acha que o Congresso está regredindo?
Não, não está regredindo. Mas nenhum político brasileiro, do mais modesto vereador ao mais graduado presidente da República, hoje está aí sem ter sido eleito pelo povo. Tem alguma coisa errada nas instituições políticas, mas tem alguma coisa errada na desvalorização da política como linguagem. E, infelizmente, para o bem ou para o mal, é a política, e só ela, quem dita o destino da nação. Se você é displicente, descrente, se você aceita essa generalização reacionária que a grande imprensa do sul faz de dizer que política é uma coisa imunda, é sujeira, e o jovem especialmente se desencanta, chega o dia da eleição com toda a displicência, com todo o descuido, não reflete, e se livra da obrigação.
O senhor acha que o presidente Lula fez certo de se comprometer antecipadamente com a candidatura da ministra Dilma Roussef?
O presidente Lula é um político intuitivo brilhante. Eu conheço bem o presidente Lula, tenho por ele grande estima, e eu já vi como com muita audácia e brilho ele antecipa certas situações. Ele conhece melhor do que todo mundo o PT. Se ele não põe a mão num quadro petista que ele possa, sobre esse quadro, fazer um plano tático, inclusive para mudar de candidato ou manter o candidato, se ele não antecipa essa indicação informal, uma hora dessas vocês iriam ver a maior troca de dossiês e de canelada entre petistas. Porque aquilo lá às vezes é um ninho de rato. Uma hora dessas, Tarso Genro, Patrus Ananias, Jacques Wagner, Marta Suplicy, que seriam os pretensos candidatos, uma hora dessas estariam se tratando muito bem, aqui por cima da mesa e em baixo, canelada. E o governo ia pagar o pato disso. Não duvide que uma parte daquela esculhambação do mensalão foi guerra de petista.
Em relação a essa decisão antecipada do presidente somada à aliança mais estreita com o PMDB, o senhor enxerga que a tendência é que o sistema governista tenha múltiplas candidaturas à presidência da República?
Veja bem. Não existe sistema governista. Eu compreendo o que você está querendo dizer. Mas as forças que apóiam o governo Lula são tão heterogêneas, que eu vejo como absolutamente improvável que esta heterogeneidade que tem uma coesão nacional na sustentação do governo pelas razões mais variadas, desde afinidades históricas e ideológicas à fisiologia mais desbragada e a expectativa de meter a mão no cofre público. Então, não precisa estar junto, não deve estar junto, o povo aguardar atenciosamente que isso não esteja junto. Porque se não, não é o povo que escolhe, é meia dúzia de gente importante em Brasília.
Como fica o Brasil com a crise econômica?
Graças ao que nós fizemos no primeiro governo do Lula, pela primeira vez num século e meio, em função de uma crise internacional, o Brasil não vai sofrer graves consequências. O governo do Lula fez superávit nas transações do Brasil com o estrangeiro no primeiro mandato, usou esse superávit para fazer reservas cambiais. O déficit chegou e o Brasil quebraria. Mas nós estamos fechando esse buraco tirando um pouco da nossa caderneta de poupança. Então, vai depender um pouco da extensão dessa crise que, na minha opinião, sob o ponto de vista internacional, demora mais uns dois anos o epicentro dela. E nunca mais o sistema será o mesmo. O efeito prático no Brasil é que nós vamos cair de um pico de crescimento econômico ao redor de 6% ao ano, de setembro de 2007 a setembro de 2008, para, na melhor hipótese, algo em torno de 1,5% esse ano. Tudo começa a andar um pouco para trás. O que é lamentável. E não precisava ser assim. Se não fosse o ato de conservadorismo do Banco Central que errou feio, criminosamente no olhar dessa crise, quando o mundo inteiro praticou as mais drásticas reduções das taxas de juros, inacreditavelmente o Banco Central brasileiro subiu cavalarmente essa taxa, acrescentando sem razão uma causa interna a uma crise que de fora já traria consequências ao país.
O presidente Lula tem o melhor índice de aprovação de todos os tempos, jamais visto. O senhor acha que essa crise econômica vai afetar?
Vai. Mas existem duas questões centrais. A primeira é que o Brasil só melhorou. Não sou solidário só porque sou amigo. Eu acompanho e brindo dizendo que só tem um número que piorou que foi o da dengue. O juro é alto? É. Mas na média é o mais baixo juro real da história recente do país, sendo o mais alto do mundo. A outra razão intrínseca ao presidente Lula. Ele carrega a carga simbólica e no imaginário popular é a demonstração de que o filho do pobre mais humilhado pode vencer os seus desafios. Porque ele é filho de pobre que sofreu todas as humilhações que essa sociedade injusta, besta e doente que o Brasil ainda tem, elitista, e virou o presidente da República de sucesso internacional.
O presidente Lula tem uma candidata a presidente. Como é que se é candidato contra o governo que o senhor admira?
Eu não sou candidato contra. O Lula é o presidente do Brasil, não é o imperador que escolhe o sucessor e pronto. E eu não sou candidato. Posso ser, não posso negar que desejo ser, mas não serei a qualquer custo, não serei em nenhum a circunstância para atrapalhar o passo adiante que o país precisa ter. Eu acho que o que está em jogo não é conservar o governo Lula, o que está em jogo é não deixar andar pra trás, porque o nosso principal adversário é do PSDB, era da equipe econômica do governo Fernando Henrique, era ministro do Planejamento, todo o descalabro da privataria que aconteceu foi essa turma que fez e a concentração de poder, riqueza e informação na oligarquia em São Paulo. Segundo, não é conservar o governo do Lula. O governo do Lula é um avanço? Sim. Mas acho que o Brasil precisa avançar mais. O Lula fez a parte dele brilhantemente e, agora, vamos parar? É isso que nós queremos para o nosso povo? O que está aí? Não. Nós queremos melhorar muito mais e podemos fazer.