Por Raphael Machado Silva*
Todo Tirano, seja ele liberal ou marxista, teme o espectro sombrio da possibilidade de revoluções, venham elas das massas ou de elites. Até os primórdios do século XX, a solução para tal possibilidade sempre se fundou na repressão pela força bruta a cada vez que havia a suspeita de dissidência, ou quando se publicava “livros proibidos”, ou quando se fazia discursos públicos de teor “anti-social”, ou quando se praticava qualquer ato que fizesse os Tiranos se sentirem ameaçados.
A ingenuidade dos Tiranos, portanto, foi a causa geradora de inúmeras agitações políticas ao longo dos séculos. A instrumentalidade da Tirania, quando atua de modo visível e direto, quando ela mostra sua face horrenda desavergonhadamente para todos, quando a mesma representa um regozijo aberto da opressão, possui exatamente o efeito contrário do que seria a intenção dos Tiranos. Quando a instrumentalidade da Tirania assim opera, ela endurece os corações dos dissidentes, gera mártires e empurra o apoio popular na direção dos revolucionários.
Com o passar do tempo, porém, vem a experiência. E a experiência ensinou aos Tiranos toda a sorte de sutilezas, diplomacias e lisonjas. Aprenderam, então, que para que uma Tirania se perpetue na história, e afaste completamente o espectro da Revolução, a melhor estratégia de atuação é fazer com que as massas concordem com a permanência da Tirania.
Se nos casos mais primitivos essa concordância se dava pela oferta de segurança frente a alguma ameaça externa, em pouco tempo os Tiranos passaram a adotar novas táticas. A primeira é convencer as massas de que sua escravidão constitui a maior das liberdades. A segunda é a mais eficaz: apaziguar os ímpetos das massas por meio da afluência de objetos materiais e do entretenimento. E é exatamente essa função a que os esportes ocupam na contemporaneidade.
Os antigos romanos, povo muito sábio, já haviam reduzido essa verdade a uma máxima muito conhecida: “panem et circenses”. À época imperial, a agricultura familiar tradicional dos romanos já havia sido esmagada pelos oligarcas, e todas as terras pertenciam a um número muito reduzido de indivíduos, forçando uma enorme massa humana a ocupar a cidade.
Para apaziguar os ânimos e evitar o caos social obviamente causado por tal situação, as massas eram divertidas com fantásticos jogos públicos, realizados em diversos anfiteatros, o mais famoso sendo o Coliseum. Em seu ápice, o Coliseu chegou mesmo a abrigar batalhas navais. As multidões ficavam completamente hipnotizadas pelos jogos, e durante muito tempo eles tiveram a eficácia desejada.
Um dos principais efeitos dos esportes é o de infantilizar as massas, por meio de sua identificação simbólica com equipes ou atletas, os quais simplesmente não se importam minimamente com seus fãs, posto estarem completamente integrados em uma relação industrial fetichista, como commodities, meros produtos geradores de lucros para seus donos.
Assim, as massas idiotizadas por meio de uma identidade artificial são levadas a se submeterem a toda forma de paixões e exaltações por eventos os quais simplesmente não possuem qualquer efeito ou significação efetiva sobre sua realidade pessoal. As massas chegam a ser levadas mesmo à violência física por conta de pseudo-rivalidades construídas por ricos “cartolas” e pela propaganda midiática.
Um hilário exemplo histórico ocorreu no Império Bizantino, quando houve uma autêntica revolta popular porque o ‘time vermelho’ havia vencido o ‘time verde’ na corrida de bigas, ou vice-versa. Quem se importa? Interessantemente, é um caso em que “o tiro saiu pela culatra”, afinal, aparentemente até o desporto pode gerar suficiente insatisfação a ponto de causar revoluções.
Todo o dispêndio de energia gera exaustão. E é exatamente isso o que ocorre às massas por meio da sacralização do esporte, e sua transformação em entretenimento. As massas são exauridas intelectual e emocionalmente. Assim, são nulificadas as potências revolucionárias que poderiam derivar dos ímpetos e paixões dos homens, caso essas fossem dirigidas à política e ao pensamento. A facticidade da referida afirmação pode ser verificada por uma singela análise de qual a importância dada pelas massas ao esporte e à política em suas vidas pessoais.
Colocando em termos mais simples, as massas são simplesmente distraídas pelos esportes, para que elas não prestem atenção e nem deem tanta importância aos eventos políticos, econômicos e sociais de sua pátria, todos os quais sempre as afetam. Justifica-se pateticamente a atenção dada aos esportes (ao futebol, por exemplo) com a falácia do “povo sofrido”. O “povo brasileiro”, por ser “sofrido”, deve ter suas dores e tristezas anestesiadas pela panacéia da histeria coletiva do esporte?
Pois é exatamente essa anestesia, assim como a exaltação do prazer lascivo e da materialidade em geral, que ao afastar o homem do sofrimento, o afasta da consciência da necessidade de tomar nas próprias mãos as rédeas de seu destino político, e de derrubar das alturas todas as Tiranias que o esmagam e subjugam na pior das misérias: a Miséria do Não-Pensamento.
Não se trata aqui de desvalorização do esporte como atividade física ou da vontade natural do humano de pertencer a um grupo que pode, muito bem, ser representado pelos torcedores de um “time”. O que se quer ressaltar é o quanto prejudicial é o fanatismo e valorização, por exemplo, de um “clube de futebol” em detrimento do próprio futuro e da própria família. O quanto é nocivo o fato de serem preferidas mesas redondas sobre futebol em comparação com as que discutem a política mundial e nacional, a economia e a sociedade. O quanto é condenável que se deixe um debate filosófico por conta de um debate a respeito de qual jogador atua melhor na posição de ponta-esquerda.
Que caiam todos os disfarces com que são enfeitadas as desgraças, e que o homem encare de frente o próprio sofrimento. Aí então, os que tiverem valor tornar-se-ão livres.
*Raphael Machado Silva, excepcionalmente escrevendo em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.










