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2ª Coluna do dia: Lula e a incrível arte de cometer gafes

15/03/2010

Por Arthurius Maximus*

Que Lula se acha o “protagonista universal” ninguém duvida disso. Dotado de uma soberba que não se justifica, nosso Presidente tem a incrível habilidade de meter os pés pelas mãos e de mostrar todo o seu desconhecimento no quesito ética e sobre o que realmente significa ser o mandatário de uma nação importante a todo o momento.

Embevecido pelos prêmios oferecidos por banqueiros que tiveram seus bolsos recheados “como nunca antes na história desse País” e por jornais que se deixaram enganar pela sua aparente boa imagem, Lula tem o ego constantemente acariciado por uma legião de aduladores e “baba-ovos” que o acompanha para onde quer que vá.

Não satisfeito em apoiar genocidas, intolerantes e ditadores condenados pelas cortes internacionais e pelas entidades de direitos humanos, Lula ainda pretende ser uma figura importante na esperança de diálogo entre palestinos e israelenses.

Contudo, do alto de sua pequenez e de seu pensamento ideológico estático, que ainda vê na “Guerra Fria” e no anti-americanismo uma condição válida para reafirmar sua “biografia revolucionária”, Lula protagoniza uma das maiores gafes diplomáticas já cometidas por um Presidente brasileiro no exterior.

Ao recusar-se a comparecer à realização de uma cerimônia em homenagem a Theodor Herzl, o jornalista austro-húngaro fundador do movimento sionista, que levou à criação do Estado de Israel, Lula já “de cara” elimina suas parcas possibilidades de ocupar um protagonismo na região.

Afinal de contas, ao recusar-se a comparecer a uma importante cerimônia do lado israelense e abraçar de bom grado o equivalente do lado palestino, Lula dá um recado claro de que nutre simpatias por um dos lados da questão e de que não tem condições de atuar com imparcialidade na questão. Isso, por si só, já o desqualifica como negociador (principalmente para Israel).

Isso, para o Brasil, é muito ruim, pois, como no caso de Honduras, perdemos relevância na mediação de um conflito que poderia nos render muitos dividendos internacionais e mostramos toda a nossa face “terceiro-mundista”, que é incapaz de separar visões ideológicas de posições internacionais que nos podem ser vantajosas, ou seja, Lula demonstra que não tem o cacoete necessário para ser um estadista e afirma sua condição de político “chinfrim”.

Infelizmente, para uma primeira visita de um Presidente brasileiro a Israel, o estrago feito por Lula (no que diz respeito a Cuba, às ditaduras e a Israel) dificilmente será esquecido pela comunidade internacional, pelo povo israelense (que considerou a recusa um insulto) e poderá manchar para sempre a reputação de nosso País no cenário local e internacional.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Coluna do dia: “Nenhuma delas é cubana”

12/03/2010

Por Yashá Gallazzi*

Certa vez, numa discussão um tanto acalorada com alguns conhecidos, perguntaram-me quando exatamente eu me tornei um “porco direitista”. Na ocasião, ri da pergunta e nem dei muita importância, afinal estamos em um País onde qualquer um que critique o socialismo é automaticamente chamado de “direitista”.

Mas eis que hoje descobri quando me tornei um “porco direitista”. Foi no momento exato em que compreendi que Alexander Soljenitsin não é igual a Marcola; que Wladmir Herzog não é igual a Fernandinho Beira-Mar; e que Nelson Mandela não é igual a Elias Maluco. Em outras palavras, diferentemente dos esquerdistas que hoje governam o Brasil, este “porco direitista” aqui sabe bem a diferença entre um preso político e um delinquente vagabundo.

Lula, que assentou boa parte de sua mitologia pessoal na personagem do operário perseguido pela ditadura militar, resolveu mostrar ao mundo sua verdadeira face. Munido de seu cinismo sem limites, rasgou as vestes elegantes do “pobre-coitado-que-bebia-água-com-caramujo-e-virou-Presidente”, olhou na cara dos jornalistas e disse, “sem medo de ser feliz”, que Cuba tem direito de ter suas próprias leis e que o Brasil não se meterá nos assuntos internos daquela ilha.

É um democrata, esse Lula! Respeitador da tal autonomia dos povos, desde que – é claro! – os povos em questão sejam esquerdistas… Afinal, quando se tratou de defender a democracia de Honduras, Lula preferiu se alinhar aos golpistas, na esperança de criar mais uma “republiqueta bolivariana”, onde há mais igualdade, fraternidade e justiça social, mas falta sabonete e papel-higiênico…

Eu, como todo “porco direitista” que se preza, dou a maior importância para produtos de higiene pessoal. A civilização deles – dos esquerdistas – é aquela que pretende criar o “outro mundo possível”, o “novo homem”, a “igualdade plena”. A nossa civilização, por outro lado, é aquela dos antibióticos, da água encanada, da escrita e da literatura. Por isso somos incompatíveis, da mesma forma que nossas visões de mundo jamais poderão conviver pacificamente.

Mas há outra variante de tal “pensamento”. A “lógica” de Lula poderia servir para justificar até mesmo o horror nazista! Imaginem um repórter entrevistando Lula nos idos da década de 1930: “Senhor Presidente, dizem que há judeus sendo presos, torturados e mortos na Alemanha. O que o Sr. tem a dizer?”

E Lula, do alto de sua sabedoria de boteco, mandaria ver: “Veja bem, meu caro: eu estou convencido de que cada país tem direito a ter suas leis, e nenhum outro deve ficar dando pitaco de fora. Ou seja, quem sabe da situação da Alemanha direito é o meu querido Hitler, e só ele pode dizer com precisão as razões das medidas que ele toma. Eu só acho que se as leis da Alemanha estão sendo respeitadas, não cabe ao Brasil dizer o que é certo fazer, da mesma forma que o técnico do São Paulo não pode dizer pro meu querido Mano Menezes que esquema tático ele deve usar num jogo do Corinthians.”

Exagero? Não creio… Alguns dos leitores, conhecendo Lula e tendo lido o que ele disse sobre o regime cubano, não conseguem imaginá-lo dizendo o que vai acima? Eu consigo. E consigo por um motivo simples: é algo perfeitamente coerente com o caráter pedestre dele. Com sua moral maleável. Ou, melhor dizendo: com suas várias morais.

Morais, eu disse? Sim. Costumo dizer que tenho apenas uma moral, ainda que isso possa soar um tanto aborrecido ao leitor. Os “esquerdistas modernos”, como Lula, são melhores que eu: têm várias morais! Querem ver? Pois bem, se os presos políticos cubanos são iguais aos assassinos, sequestradores e traficantes presos em São Paulo, a “lógica” lulista me leva a concluir que Lula, Dilma e os demais presos políticos subjugados pelos militares brasileiros eram, também, iguais aos bandidos paulistas. Há alguma falha lógica nisso?

Mas isso valeria se essa gente tivesse uma moral só – como nós, os “porcos direitistas”. Como, porém, eles possuem várias, cada uma aplicável a um determinado caso específico, dirão que não! Os esquerdistas tupiniquins aprisionados pelos militares eram homens bons. Humanistas, dispostos a – como é mesmo? – “dar a vida em nome da democracia”. Em outras palavras, eles dividem os presos entre os que têm “pedigree” esquerdista, e os demais.

Quando você aceita a tese de Lula, aceita que um homem como Mandela pode ser, eventualmente, igualado a um vagabundo como Elias Maluco. Isso porque, segundo a “moral” torta desses “humanistas”, qualquer um que ouse se levantar contra a “revolução socialista” tem mais é que ser preso mesmo! Lênin, um dos maiores facínoras que o mundo já conheceu, não era menos sutil: todos precisam tomar parte na revolução. E quem não quiser? Simples: passa-se fogo!

Eu, não! Não aceito que Soljenitsin seja igualado a Marcola. Não admito que Herzog seja tratado como um Fernandinho Beira-Mar. De acordo com a minha única moral de “porco direitista”, uma pessoa aprisionada apenas por suas ideias políticas não é apenas um atentado à democracia: é uma humilhação para a espécie humana! Quem condescende com isso empresta justificativas para a barbárie mais abjeta. Flerta com a escória do mundo!

Hoje, os esquerdistas que defendem a maior e mais sangrenta tirania das Américas podem livremente pregar seu “outro mundo possível”, amparados pelas garantias do Estado democrático de direito que eles tanto abominam. Em Cuba, a ilha-prisão dos irmãos Castro, quem ousa contestar o regime assassino é preso e torturado. Isso se tiver sorte! Caso contrário, pode acabar sumariamente fuzilado.

Eis aí a diferença essencial entre nós – que eles chamam de “burguesia” – e eles, os esquerdistas: abraçamos a democracia e a liberdade como valores básicos, perenes e inegociáveis. Não consideramos as instituições democráticas meras “invenções da classe dominante”. Sabemos, ao contrário, que são criações da sociedade civilizada, aquela que tem por obrigação conter os bárbaros revolucionários.

Me tornei um “porco direitista”, aos olhos da realidade política brasileira, a partir do momento em que compreendi que as garantias e liberdades do indivíduo estão acima de qualquer distopia coletivista pregada por uma manada acéfala. Por isso acho que nenhum cidadão deve ser tolhido em seu legítimo direito de protestar contra qualquer governo. Mesmo quando se arvora a criticar os irmãos Castro, aqueles redentores que querem apenas nos salvar do jugo capitalista.

Meu – se me permitem a construção – “porco-direitismo” nada tem a ver, pois, com crenças econômicas. No caso específico do Brasil, você será automaticamente um “porco direitista” sempre que se recusar a igualar bandidos comuns a pessoas que pregam, pacificamente, o fim de uma ditadura sanguinária e a instalação de um regime democrático. E, acreditem: isso é libertador! Esqueçam o consenso progressista e politicamente correto que tomou conta “dessepaiz”: a sensação de defender quem combate os tiranos é revigorante. Não quer ser chamado de “porco direitista”? Ah, deixe disso! “O que é um nome?”, diria Shakespeare? “Aquilo que chamamos de rosa, caso tivesse outro nome, guardaria o mesmo perfume.”

Há milhares de ativistas políticos espalhados pelo mundo militando em favor da democracia. Estão na Europa, na Ásia e na Oceania. Nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, na Argentina e na Venezuela. Onde há liberdade – ainda que um filete dela apenas -, há um ser humano exercendo seu direito legítimo de contestar o governo. Há pessoas de várias nacionalidades, crenças, etnias e religiões protestando livremente por todo o globo.

E, como diria Fidel Castro em sua frase célebre, “nenhuma delas é cubana”.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: Desumanidade no Caribe – Lula e os Castro ignoram o sangue

26/02/2010

Por Yashá Gallazzi*

Os leitores sabem o que é a Comunidade de países Latino-Americanos e do Caribe? Não? Bom, não tem muito problema. Mesmo os criadores dela não saberiam explicar com precisão o que ela representa, ou quais os seus objetivos práticos.

Assim, de bate pronto, eu poderia dizer que se trata de mais um fórum “pobrista” e terceiro-mundista, destinado a emprestar apoio político a facínoras como Hugo Chávez, Cristina Kirchner, Evo Morales e Rafael Correa. Uma espécie de lupanar do atraso latino, onde um bando de gente empoeirada pelos escombros do Muro de Berlim se rende a convescotes com os irmãos Castro, os dois maiores assassinos da história das Américas, ao mesmo tempo em que cobram mais democracia da democrática Honduras.

Mas essas seriam apenas elucubrações minhas. Na realidade, a tal comunidade serviu apenas para referendar o regime sanguinário de terror que matou Orlando Zapata Tamayo. Por enquanto, entenda-se… Em pouco tempo, é bem provável que a escória das Américas – com raríssimas exceções – precise se juntar para justificar as mortes provocadas por Chávez e por Morales. Afinal, sabemos que a utopia preferida dessa gente sempre foi construir o “novo homem” por meio do homicídio desenfreado.

Orlando Zapata era aquilo que se convencionou chamar de “preso de consciência”, ou seja, foi encarcerado pelos Castro porque se declarava contrário ao regime comunista que oprime aquela pobre ilha há décadas. Os irmãos assassinos, seguindo o exemplo de todos os regimes comunistas que os antecederam, trataram de pegar Zapata e de atirá-lo na prisão, ao lado de outros tantos “contra-revolucionários burgueses”. Julgamento? Devido processo legal? Ah, isso é invenção da “classe dominante”, não é? Os humanistas da “causa libertadora”, sabemos, preferem coisas mais rápidas, como os expurgos.

Zapata deu início a uma greve de fome, em protesto contra sua prisão e contra os maus tratos que os prisioneiros estavam recebendo. Privado até mesmo da água, Zapata viu seus rins entrarem em colapso e condenarem seu corpo ao apodrecimento ainda em vida. Ele morreu na última terça-feira, exatamente quando Lula partia para a Ilha dos Castro, a fim de bajular um pouquinho a múmia de Fidel Castro.

Por que Zapata protestou contra os “libertadores de Cuba”? Por que se recusou a ver as maravilhas que aquele paraíso da igualdade fornecia a toda a população? Bem, provavelmente porque é um desses “sujeitos burgueses” que gosta de zelar pela própria higiene pessoal…

Em Cuba, costumo dizer, há duas prisões: uma, administrada pelos Estados Unidos, onde os presos recebem papel higiênico regularmente; a outra, que corresponde exatamente ao restante da ilha, onde o único papel fartamente à disposição do povo é aquele usado para imprimir os discursos de Fidel Castro.

O socialismo, assim como o comunismo, é assim: começa prometendo salvar o homem, e termina negando ao homem o direito de cuidar do próprio asseio…

Ao ser questionado sobre o assassinato de Zapata, Raúl Castro saiu-se com o seguinte – se me permitem – “raciocínio” (do Estadão Online):

“‘Lamentamos muitíssimo (a morte). Isso é resultado dessa relação com os Estados Unidos’, disse Castro, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que visita Cuba. Castro disse ainda que muitos outros cubanos também haviam morrido vítimas do que chamou de ‘terrorismo de Estado’, que seria, segundo ele, praticado pelo governo americano”.

Pois é… Um sujeito é preso – e acaba morto! – só por discordar do regime castrista, e a culpa é de quem? Dos americanos, é claro! Sim, vocês entenderam direito. Os americanos, esses demônios do mundo. Segundo o assassino cubano, o país onde os adversários de Bush podiam protestar sem serem presos, onde os “Tea Party” podem protestar sem serem presos, é culpado pela prisão dos oposicionistas de… Cuba!

Não fica difícil entender por que essa canalha é aliada de Hugo Chávez, afinal, o venezuelano acusa os americanos de terem uma “máquina de provocar terremotos”… Sim, é isso! Varram os EUA do mapa, e pronto: o mundo ficará livre de problemas, e seres pacíficos e humanos como Chávez e os Castro poderão ditar as regras. Que tal?

É esse sujeito que Lula foi paparicar quando da criação daquela comunidade vagabunda e filoterrorista! É com essa escória que o governo petista obriga o Brasil a se relacionar, estuprando os princípios da liberdade e vilipendiando os valores democráticos. São o lixo da Humanidade! O que há de pior e de mais rasteiro dentro da cadeia alimentar.

Como é possível que, ainda hoje, grande parte dos políticos brasileiros – e considerável parte da imprensa nacional – ainda consiga tratar com condescendência o regime cubano? Estamos falando de uma ditadura que matou diretamente cerca de 17 mil pessoas!

Isso, meus caros, faz os militares brasileiros parecerem moleques travessos… E nem estou mencionando os 83 mil que morreram tentando fugir daquele “paraíso terrestre”, afinal, deixar a ilha sem autorização d’O Partido é algo punido com a pena de morte! Lembro de Kennedy: “Podemos ser culpados de construir muros para manter nossos inimigos de fora. Mas não precisamos construir muros para manter nossos cidadãos presos aqui dentro.” Brilhante!

Em qualquer democracia séria, a amizade entre Lula, o PT, Dilma Rousseff e Franklin Martins com os irmãos Castro seria motivo suficiente para o desaparecimento político deles. Aqui, ao contrário, o PT tem boas chances de fazer o próximo Presidente, na esteira da popularidade estupenda que o Presidente atual, um esteio moral do castrismo, ostenta.

Somos uma vergonha para as democracias do mundo. Não apenas o governo Lula. Não apenas a esquerda rasteira e terrorista que até hoje vegeta no Brasil. Mas o País todo! Os cidadãos que votaram em Lula duas vezes e que, não satisfeitos, concedem a ele uma aprovação indecente, suja pelo sangue de Zapata – e de outras 100 mil vítimas inocentes. Deus tenha piedade de nossas almas…

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Perspectiva: Hugo Chávez – Início do fim?

01/02/2010

Os últimos acontecimentos políticos da América Latina podem ter decretado o fim da expansão do bolivarianismo na região. Os recentes fatos políticos venezuelanos, por sua vez, podem representar mais: A derrocada de Hugo Chávez. Externa e internamente o semi-ditador enfrenta graves dificuldades de ordem socio-político-econômica.

No que diz respeito à América Latina, o bolivarianismo recebeu, recentemente, três golpes duros:

A vitória de Sebastián Piñera nas eleições presidenciais chilenas, através de um discurso anti-Chávez e da defesa de um projeto de centro-direita.

A resolução pacífica do impasse hondurenho, com a confirmação de perda do poder e ida para o exílio de Manuel Zelaya, representante da ideologia chavista no País, e subida à presidência de Pepe Lobo, conservador e defensor de um discurso de conciliação que agradou os hondurenhos.

E a atuação humanitária ampla e elogiadíssima dos Estados Unidos no Haiti, recuperando para os americanos um pouco da imagem de benfeitores que já existiu em algumas épocas passadas e enfraquecendo o argumento bolivariano de que os EUA são os vilões e malfeitores da América Latina.

No que concerne o cenário político-econômico interno da Venezuela, a conjuntura também não é nada animadora para os chavistas:

Uma crise cambial séria atinge o país, trazendo inflação, desabastecimento e recessão. Desvalorizações monetárias desastradas, planos econômicos pouco eficientes e fixação de preços têm sido o caminho de combate não muito eficiente escolhido.

Sucessivos cortes de energia elétrica se dão nas cidades venezuelanas. Há racionamento intenso e agressivo. Uma crise energética clara está completamente instalada. Também existe falta d’água em algumas torneiras, além de uma seca que afeta a agricultura já enfraquecida pelos anos de desatenção chavista.

E o regime de Chávez, afetado por isso tudo, está em baixa significativa. O Vice-Presidente renunciou. A Ministra do Ambiente, esposa deste, também. Deixou igualmente o governo o Presidente do Banco da Venezuela. Há definitivamente algo de podre no reino chavista dos bolivarianos.

Diante de toda esta situação político-econômica difícil, Hugo Chávez perdeu de vez o controle. Decidiu, como os piores ditadores, responder aos pedidos de mais liberdade com mais repressão, devolver as críticas com justificativas absurdas e risíveis e ameaçar os opositores internos e externos com bravatas.

Enquanto Chávez afirma ridiculamente que os Estados Unidos causaram um terremoto que atingiu a Venezuela, a criminalidade no país dispara, chegando a níveis recordes.

Ao mesmo tempo em que o líder venezuelano desafia a oposição a afastá-lo e repete o enfadonho, mofado e equivocado discurso de que os protestos populares recentes são obras de conspirações oligarcas e burguesas, sua popularidade despenca entre a população e as mobilizações contrárias ao regime e defensoras de mais liberdade, principalmente de opinião e de imprensa, proliferam.

Ao passo que a influência externa de Hugo Chávez vai minguando, seu poder também se reduz internamente. Seu governo começa a ser questionado com mais atrevimento, fato típico do ocaso das ditaduras e das gestões autoritárias.

- Se Chávez está acabado, bem, me afastem! Com toda a energia gasta nessa loucura, toda tinta e papel, que organizem um grupo, peçam o referendo. Vamos ver se dizem mesmo que estou acabado. Ninguém vai impedi-los — foi o que disse o Presidente venezuelano à sua oposição.

Claramente, esperneira e desafia para se afirmar. Líderes personalistas sempre reagem mal às quedas de popularidade e aos questionamentos de suas qualidades. Comprova-se até psicologicamente que o caudilho está em maus lençóis.

Em resumo, temos hoje um cenário de vantagem da democracia liberal sobre o chavismo na América Latina e uma conjuntura socio-político-econômica completamente prejudicial aos planos condenáveis de Chávez no mundo próprio da Venezuela.

Será o início do fim?

Honduras acerta: Pedida a prisão de cúpula militar que deportou Zelaya

08/01/2010

Informa o Estadão:

“O procurador-chefe de Honduras, Luis Alberto Rubi, pediu ontem à Suprema Corte que emita mandados de prisão contra comandantes militares do país por abuso de poder. A infração ocorreu, segundo Rubi, quando a cúpula militar retirou o então presidente Manuel Zelaya do poder e o expulsou do país, em 28 de junho. A corte terá três dias para decidir se aceita ou não o pedido do procurador.

[...]

Se a Suprema Corte indiciar as lideranças militares, o caso deve ser ouvido por um dos 16 magistrados desse tribunal. Entre os listados pelo procurador estão o chefe das Forças Armadas, general Romeo Vásquez, e cinco outros oficiais, incluindo o chefe da Aeronáutica, general Javier Prince, e o comandante da Marinha, general Juan Pablo Rodriguez. Caso condenados, eles podem pegar entre três a quatro anos de prisão.”

A Suprema Corte hondurenha não pode tomar outra decisão que não seja iniciar os processos visando a prisão daqueles que deportaram Zelaya. Seria um exemplo para o mundo, além de uma interessante e devida complicação para a retórica dos que insistem em dizer que houve um terrível golpe em Honduras.

Este que vos fala afirmou à época do rebuliço hondurenho e afirma novamente, sem medo de causar polêmica: Em Honduras houve um abuso por parte dos militares que expulsaram Zelaya do país, já que essa não era a punição prevista legalmente para o crime cometido por ele ao tentar modificar à força a Constituição hondurenha, desafiando ordem expressa da justiça daquele país, porém, golpe não houve.

Não houve golpe por dois motivos simples:

Primeiramente porque Zelaya deixou de ser o Presidente ao tentar aprovar, por via de plebiscito proibido, a sua tentativa de reeleição, afinal, a punição prevista para quem se porta desta forma é, segundo a carta magna hondurenha, a perda imediata do mandato.

Em segundo lugar, porque foi empossado no lugar de Zelaya o sucessor constitucional, o Presidente do Congresso, e não um militar.

Tanto é assim que a população hondurenha não apoiou maciçamente  a tentativa de Zelaya de tentar retomar o poder e compareceu fortemente às urnas para eleger um novo Presidente legítimo, tendo vencido as eleições Porfírio Lobo. As eleições e um novo Presidente com legitimidade são a melhor saída para o impasse hondurenho e o povo do país, sábio, sabe disso.

Contudo, nada disso quer dizer que o abuso dos militares não deve ser punido. É claro que deve. É óbvio que deve. Zelaya deveria ter sido deposto legalmente, com aval do Parlamento hondurenho, e ponto final. Tendo cometido arroubos desnecessários e completamente condenáveis, os que ordenaram e os que empreenderam a deportação do ex-Presidente no meio da madrugada precisam, como Zelaya, sofrer as consequências legais de seus atos.

Defendo isso desde o início e, neste momento, aproveito para reproduzir trechos escritos por mim em 29 de junho de 2009:

Estando configurada a tentativa de Zelaya de ir contra todo o ordenamento jurídico hondurenho e de deixar que um líder estrangeiro influenciasse uma questão de soberania nacional, o equivalente ao STF determinou a prisão dele. Com isso, Zelaya apresentou sua renúncia à presidência.

Pela manhã, o Congresso aceitou a renúncia e nomeou Presidente o presidente do Congresso, Roberto Micheletti. Zelaya foi detido pelo exército e transferido para a Costa Rica. Nesse momento, curiosamente, Zelaya negou a renúncia.

[...]

As Forças Armadas hondurenhas, juntamente com a oposição ao governo, cometeram certos abusos inegáveis e que são condenados por este blogueiro. Manuel Zelaya não deveria ter sido retirado do poder sob armas e levado para fora do país.

Porém, os abusos são compreensíveis. Afinal, havia o receio totalmente correto de que Zelaya fizesse Honduras ser mais um país a trilhar o caminho do bolivarianismo. O que ele tentava empreender era exatamente isso.

Em suma, Zelaya realmente não deveria ter sido deposto pelo exército,  e sim, por pressão do Congresso, eleito pelo povo e legítimo, que aceitou sua renúncia.

[...]

O que o exército hondurenho fez foi muito errado no modo, mas não, na essência. Não deveria ter sido o exército a retirar Zelaya do poder, porém, aceita a renúncia deste pelo Congresso e nomeado o novo Presidente, Manuel Zelaya deveria sim, no fim das contas, deixar o governo. Melhor que tivesse sido voluntariamente.

A mesmíssima posição firme da época continua valendo. Zelaya errou feio e os militares que o deportaram também. Mas Zelaya errou no modo e na essência. Os militares só erraram no modo. O que eles fizeram é compreensível, entende-se o que os motivou, mas não justifica-se.

Deposto do poder Zelaya deveria ter sido realmente, afinal, não era mais Presidente. Deportado, não!

Espero com ansiedade a decisão da Corte Suprema hondurenha.

Se a denúncia for aceita e os militares indiciados, será um caso raro de um país que puniu os que mereciam em ambos os lados da contenda em questão. Será uma demonstração de justiça, de sensatez, de coerência. Valores muito caros ao Perspectiva e a este que vos fala e por isso defendidos neste espaço diariamente.

Corre o boato de que o pedido de prisão poderia ser só fachada. Torço para que não.

Se não for, Honduras irá ter acertado. E muito.

Análise: Política externa brasileira – É possível questionar as prioridades

16/12/2009

Durante os últimos meses, mais do que antes, a política externa do Brasil, comandada pelo governo Lula e, especificamente, por Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, foi extremamente criticada.

Por mais que episódios como a tomada de refinarias da Petrobras pelo governo boliviano, que se deu sem que o Brasil recebesse as devidas indenizações, fossem sempre lembrados há muito tempo, de uns tempos para cá a condução da diplomacia nacional tem sido cada vez mais questionada.

O que acontece é que os episódios onde o Brasil, teoricamente, não se comportou da melhor forma, se sucedem muito rapidamente neste momento. Temos a intromissão em Honduras, temos o caso de Cesare Battisti, temos a aproximação com o bolivarianismo e temos ainda a recente visita ao País de Mahmoud Ahmadinejad, Presidente iraniano.

Em todas as situações listadas, diversos especialistas em política internacional afirmam que o Itamaraty não coordenou o comportamento brasileiro da maneira mais apropriada. São atitudes da política externa nacional questionadas fortemente, sucessivamente, em um curto espaço de tempo. Daí o foco recente no tema que, se antes já era destaque, hoje mais ainda.

Dito tudo isso, gostaria este que vos fala de explicitar sua modesta opinião: Acredito que todos os supostos erros brasileiros na condução de sua política externa dizem respeito a uma espinha dorsal, a escolha das prioridades.

Fica nítido que Celso Amorim, e principalmente o famigerado Marco Aurélio Garcia, que nunca poderia ser condutor de política externa alguma em um País ideal, carregam uma ideologia de fatias do governo para a diplomacia brasileira. Isso faz com que tenhamos uma política externa de governo, e não de Estado.

Uns acreditam que a política externa deve mesmo ser de governo. Outros defendem a política externa de Estado. De qualquer forma, ambas as vertentes primam pela política externa apropriada para o caso concreto. Pois bem. A diplomacia de governo que Amorim e Garcia têm trazido erra, se equivoca, e isso é suficiente para questionarmos não só seus nomes e o fato de a política externa ser de governo, como também, justamente, as prioridades elencadas.

Pois então quais são as prioridades eivadas de ideologia que podem ser observadas? Ora, temos a aproximação com o chavismo, temos a visita de Ahmadinejad, temos a defesa de Zelaya e temos a proteção de Cesare Battisti. Alguém duvida que todas essas atitudes partem da mesma espinha dorsal? Alguém duvida que os posicionamentos do Brasil poderiam ser diversos se não fossem Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia os nossos condutores? E digo mais: Alguém em sã consciência não percebe o alinhamento com os entendimentos de Hugo Chávez?

Afinal, Chávez também auxilia economicamente a Bolívia e o Equador, assumindo prejuízos que serão suportados pela população venezuelana, em benefício dos seus interesses políticos; também é próximo de Ahmadinejad, alimentando o estúpido anti-americanismo; também defendeu Zelaya, pretendendo espalhar o modelo chavista de perversão da democracia pelas mãos da democracia; e também acolheria Cesare Battisti, por conta, puramente, de ser, este, um assassino de esquerda.

Perceberam? Basta não ser torcedor do PT Futebol Clube para assimilar estas conexões. Aliás, não é necessário, afirmo, ser torcedor do PSDB Futebol Clube para dizer o que estou dizendo. Até porque, eu mesmo, não sou partidário, embora não seja, claro, alguém sem posicionamentos políticos pessoais.

As notícias recentes comprovam que as prioridades eleitas pela diplomacia nacional, principalmente nos últimos tempos, dão o tom que explica o porquê das recentes críticas.

Enquanto o Brasil fecha acordo para pagar US$ 1,2 bi a mais por gás boliviano, colocando o prejuízo na conta dos brasileiros, pelo simples motivo de querer ajudar politicamente Evo Morales, além de ter o seu Senado aprovando a entrada da Venezuela no Mercosul, o que não é de todo errôneo mas, no mínimo, questionável, é o Chile que é aceito na OCDE.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) confirmou, nesta terça-feira, em Paris, a aprovação do Chile como membro permanente da instituição.

Com a adesão, o Chile será o primeiro país da América do Sul a integrar a OCDE, definida como “clube dos países ricos e desenvolvidos” e que reúne as nações mais industrializadas do mundo.

Ora, por que não é o Chile o país atraído para o Mercosul? Por que esse país, onde as eleições presidenciais trazem a noção madura para a população de que qualquer candidato que vencer manterá o que tem caminhado de forma correta, não é aquele que miramos para estreitar relações?

Resposta: Prioridade.

É por isso que digo que é possível questionar as prioridades do governo brasileiro no que tange a política externa.

Digo isso porque temos Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia no comando da área.

Digo isso pois parece que mais vale a política pró-ideologia do que a economia e a importação de experiências bem-sucedidas.

Digo isso por conta de o Brasil querer ser, hoje, mais Chávez do que Bachelet.

Artigo do leitor: A realidade do governo Lula

06/12/2009

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto do leitor Paulo Palito:

A realidade do governo Lula

Paulo Palito*

Há uns meses atrás, li uma crônica de um famoso cientista político dizendo que o Brasil nunca teve uma Diplomacia tão exuberante: Asilo a um Presidente deposto em Honduras, asilo a um condenado na Itália, defesa de homens como os Presidentes da Venezuela, de Cuba, da Bolívia e do Irã. O Presidente dos EUA chamando Lula de “o cara”. E o Presidente Lula viajando pelo Mundo elevando o nome do Brasil, etc.

Sinceramente fiquei balançado. Será que Lula e os petistas é que estariam certos?

Esqueci do Presidente Kadafi e de Omar Hassan Ahmad al-Bashir, condenado pela ONU. E existem outros.

O Presidente Lula realmente nunca desceu do palanque. Discursa aqui no Brasil e no Mundo todo emocionando as pessoas. Seu Governo está com 80% de aprovação.

Mas vamos analisar as coisas.

Hitler também emocionava as pessoas e teve o seu Governo com 100% de aprovação do povo alemão.

A situação econômica do Brasil está boa hoje porque o Plano Real acabou com a inflação e as medidas econômicas do Governo anterior foram seguidas. É claro que a aprovação popular tem que estar elevada.

O Presidente de Honduras, que está asilado na Embaixada do Brasil, foi deposto pelo Congresso Hondurenho, por ele querer modificar a Constituição daquele país, visando perpetuar-se no poder. No seu lugar assume a autoridade indicada pela Constituição e garante a eleição de novembro que já estava marcada. Essa eleição transcorreu com uma participação popular recorde na história daquele país, apesar do boicote pregado pelo Presidente deposto. O povo hondurenho deu uma verdadeira demonstração de democracia ao verdadeiro golpista. Sobre o reconhecimento dessa eleição o Presidente Lula disse: “Não, não e não”.

Desafiando a justiça italiana, o governo brasileiro está asilando o assassino Battisti condenado na Itália por quatro assassinatos e militância política. Não duvido que vá lhe dar um emprego em uma empresa estatal.

Hugo Chávez, um idiota a quem o Rei da Espanha mandou calar a boca; A ditadura de Cuba que já mandou milhares para o “paredón”; A Bolívia de Evo, O Paraguai de um Presidente que tinha relacionamentos enquanto bispo. Lula Já ajudou todos estes com milhões de dólares, apesar de não ter dinheiro para pagar decentemente aos aposentados.

Ahmadinejad, Presidente reeleito do Irã, em uma eleição reconhecida mundialmente como fraudulenta. Esse merece um capítulo especial: Lula defendeu Ahmadinejad na sua coletiva com a primeira-ministra alemã Angela Merkel, no dia 4/12, na frente do mundo inteiro. É o apoio de Lula a um líder que está colocando a Humanidade em perigo, com os seus delírios messiânicos de construir a bomba atômica para destruir Israel e a civilização ocidental. Hoje, Lula é o grande avalista de Ahmadinejad diante do mundo no Ocidente.

Hoje tenho certeza: Na eleição de 2010, eu ainda não sei em quem votar, mas com certeza não será em ninguém do PT indicado por Lula. Acho que devemos escolher um governo sério, ético, que dê prioridade para a educação, a saúde, e que combata a corrupção.

Corrupção se combate é com Judiciário forte e independente, leis severas e julgamento rápido, removendo-se todos os entulhos jurídicos existentes na legislação. Enquanto tivermos um Judiciário frágil, ministros dos superiores tribunais nomeados pelo Executivo e o jogo de influência dos poderosos nos tribunais, vamos continuar com alto nível de corrupção na política brasileira, reinando a impunidade e a máxima de que o crime compensa.

A única coisa que um criminoso respeita é a condenação pela justiça com aplicação de penas severas, sem redutores. Sem um Judiciário forte e independente e justiça aplicada para todos, jamais veremos a redução da corrupção no País, que, ao contrário, tende a aumentar com a impunidade. O exemplo tem que partir de cima para baixo. Lotar as cadeias principalmente com gente graúda, independentemente de onde vierem.

Sobre as imagens do Governador Arruda e seu bando recebendo propina e pondo dinheiro nas meias e nas cuecas, que chocaram o Brasil inteiro, o nosso Presidente da República, Luiz Inácio da Silva, o Lula, disse: “As imagens não falam por si, o que fala por si é todo o processo de apuração, todo o processo de investigação”. Ou seja: Depois do processo de investigação eles serão inocentados e eleitos novamente, como em exemplos anteriores.

E as amizades internas dos governistas com quem, antes de chegar ao poder, eles chamavam de picaretas: Sarney, Renan Calheiros, Collor. Em nome da governabilidade Lula faz aliança com esta gente. É de enojar ver uma fotografia da líder petista no Senado Federal abraçando e beijando o Sarney. Se fosse um homem sério, o Presidente Lula jamais faria aliança com esta gente. Aliás, deveria procurar um meio de colocá-los na cadeia. Se não estiver com o “rabo preso”, jeito tem.

Sem partidarismo, espero que o povo brasileiro acorde e eleja um governo sério na próxima eleição.

*Paulo Palito é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog

Coluna do dia: Eleições em Honduras – O Brasil parece querer o juízo final

30/11/2009

Por Arthurius Maximus*

A política externa brasileira vem sendo criticada por mim, e por inúmeros outros articulistas, faz tempo. Subserviência a Chávez, apoio a toda sorte de ditadores e genocidas africanos, esmolas em profusão para nossos vizinhos que, ao invés de trabalharem pela melhora de seus países, ficam chafurdados no velho discurso de que a culpa de sua pobreza é do “Imperialismo Tupiniquim” e não de seus governos preguiçosos e de uma população acostumada ao populismo e ao assistencialismo.

A posição do Brasil frente às eleições hondurenhas deste domingo é mais um ponto de vergonha na política externa do governo Lula. A canhestra operação de acobertamento envolvendo a tomada da embaixada brasileira em Tegucigalpa pelas “legiões” de Zelaya e a sua transformação em palanque político (contra todas as leis internacionais) pelo velho caudilho hondurenho, não foram suficientemente capazes de fazer ver a Lula e ao Itamaraty a burrada em que o Brasil se meteu.

Além de abdicar do importante papel de mediador e de agente da normalidade política, aumentando o seu poder de influência na região e levando uma imagem de país preparado para lidar com crises além da sua própria fronteira, o Brasil, embalado pela subserviência a Chávez, tomou o pior partido possível e acabou se prestando ao papel de marionete de Zelaya e do venezuelano.

Honduras vivia a quase normalidade política e todas as partes compactuaram com um acordo firmado pelo Presidente da Costa Rica, que reconduziria o país para a normalidade democrática. Mas o retorno de Zelaya ao país e o seu abrigo em nossa embaixada serviram para lançar a nação hondurenha à beira de uma guerra civil e da instabilidade institucional. Tudo porque o Brasil deixou que Zelaya acessasse rádios, canais de televisão e a imprensa internacional através da nossa embaixada e conclamasse os seus seguidores a se revoltarem.

Como sempre vimos nas transmissões ao vivo, as passeatas sempre eram de poucas centenas de pessoas. Contudo, a balbúrdia e a insegurança criadas por elas levaram o país para a beira de um colapso social e de uma luta fratricida.

Como ficou claro depois, Zelaya nunca quis negociar. Seu intuito era mesmo criar confusão e ser reconduzido “nos braços do povo” para o palácio presidencial (do qual foi retirado legalmente ao violar a Constituição de Honduras). Ao perceber que isso não aconteceria, pelo simples fato de que a maioria da população de seu país estava contra ele, a única alternativa era impedir as eleições. Com a ajuda do Brasil, Zelaya e Chávez tentaram de tudo. Mas, com o apoio dos EUA e de quase toda a comunidade das Américas para a realização das eleições e o reconhecimento de que isso encerrava a crise de uma vez por todas, Zelaya viu a sua posição esvaziar-se e até os membros de seu próprio partido participaram das eleições.

O resultado não pode ser mais expressivo do pensamento do povo hondurenho: Tanto o partido de Zelaya quanto o de Micheletti foram derrotados nas eleições. Isso demonstra claramente que o povo hondurenho está farto do populista de chapéu de vaqueiro e do incompetente que não soube explicar à comunidade internacional o acontecido.

As eleições colocaram um fim nessa longa pantomima mal interpretada e cheia de atores de terceira categoria. Mas, insatisfeito com seu papel ridículo, o Brasil se uniu às “forças do avanço” (Venezuela e Equador) e se recusará a reconhecer o vencedor das eleições hondurenhas como Presidente eleito legítimo.

O que querem o Itamaraty e o governo Lula? Um banho de sangue? A convulsão social em Honduras? Uma guerra civil?

Tudo isso para satisfazer Hugo Chávez e um obscuro caudilho centro-americano que só nos deu dores de cabeça. Além disso, ao invés de reduzir os danos, ao ser derrotado miseravelmente em seu apoio a Zelaya, o Brasil assumirá a posição equivocada de esperar que Papai Noel restitua o poder a ele.

O mais estranho é que Zelaya, ao ter sua proposta de negociação submetida à Suprema Corte Hondurenha, ainda foi condenado por traição. Portanto, se deixar a embaixada brasileira, ao invés do palácio presidencial, vai para a cadeia.

E o Brasil corre o risco de ficar com o “mico internacional” do ano ao apoiar a realização do Juízo Final e de uma guerra civil como única forma viável para reempossar um Presidente que desejava “apenas” eternizar-se no poder e violar a sua própria Constituição.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Lula e Ahmadinejad, Brasil e Irã: Um caso para se pensar

24/11/2009

Por conta de todas as barbaridades defendidas pelo Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, a visita deste ao Brasil foi atacada por todos os lados. Pessoas de diferentes matizes ideológicos afirmam que é um absurdo que nosso País tenha recebido, com pompa e circunstância, um homem que nega o Holocausto.

Muitos comentários a respeito do caso dão conta de que trata-se de mais uma desventura da política externa brasileira. Estes somam a visita de Ahmadinejad a uma lista que conta com a conivência com relação às FARCs, o apoio a Hugo Chávez, o recebimento de Zelaya na embaixada brasileira em Honduras e a defesa de Cesare Battisti.

Pois bem. Acontece que a visita do Presidente iraniano torna necessário que se tenha muito mais maturidade do que a suficiente para analisar os casos de Zelaya, Battisti, etc, com precisão.

Por quê? Perguntarão alguns. Respondo: Porque as relações com as FARCs, com Chávez, com Zelaya e com Battisti têm viés fortemente ideológico. A visita de Ahmadinejad tem viés econômico.

Quando cito a maturidade quero dizer que é preciso deixar o asco nutrido por Ahmadinejad de lado por alguns instantes e analisar friamente o que a visita do iraniano representa.

É fato que as declarações de Ahmadinejad são absurdas? Sim, é. É impossível respeitar alguém que diz que o Holocausto não existiu e que em seu país não existem homossexuais? Com certeza.

Contudo, a questão não é essa. O ponto crucial a ser analisado é: Receber Ahmadinejad em seu País respalda as declarações deste Presidente e as suas teses abomináveis?

Quem critica Ahmadinejad e responde à minha pergunta com um sim reforça sua crítica. Mas é possível criticar Ahmadinejad e responder à minha pergunta com um não, o que não enfraquece a crítica ao líder iraniano.

O quero dizer é que, dependendo de como é gerenciada, uma visita de um líder estrangeiro condenável não representa defesa de seus valores. Justamente por ser econômica e diplomática, e não ideológica. É preciso que se tenha a noção de que esse viés analítico é plausível.

O que Ahmadinejad defende é em grande parte absurdo, com certeza. Mas o Presidente Lula não declarou nada que reforçasse os absurdos, ao contrário, alfinetou um deles, quando afirmou que o programa nuclear deve ser utilizado para fins pacíficos.

Nesse momento surgirá o comentário: Ora, mas Ahmadinejad foi eleito em um pleito fraudado e recebê-lo como líder iraniano legitima as eleições.

Isso é uma verdade. Inquestionável. Daí a dizer que isso reforça as teses de Ahmadinejad são outros quinhentos. Até porque a realidade é a de que Mahmoud é, infelizmente, o Presidente do Irã, doa a quem doer. E o Brasil não romperá relações com o Irã por conta disso.

Alguns poderão dizer: Ora, mas deveria romper!

Deveria? Será mesmo? Quando o Brasil era uma ditadura, que defendia um regime autoritário que assassinava, seria correto que rompessem com o Brasil? Talvez no que tange os princípios sim. Mas na prática não, porque isso não nos ajudaria em nada, ao contrário.

Em suma, o Brasil não passa a defender o que defende o Irã por se colocar como seu interlocutor. Ahmadinejad é abominável, mas recebê-lo ou não no Brasil é irrelevante quanto a isso.

Por outro lado, para a política externa brasileira, é sinal de crescimento receber em menos de um mês o líder israelense e o líder iraniano. Quando Bill Clinton recebeu tanto israelenses como palestinos em Camp David foi elogiado. Se os EUA recebessem Kim Jong Il para um diálogo estariam defendendo o regime esquizofrênico da Coreia do Norte?

E tudo isso que digo tem a explicação que é citada por mim no início: A relação é econômica e diplomática, e não ideológica.

Por isso é preciso maturidade. Por isso a crítica ao relacionamento com Chávez e com Zelaya não é a mesma que diz respeito a Ahmadinejad.

Com Chávez e Zelaya a relação do governo é ideológica. Há apoio das ações e dos ideais. A mesma coisa vale para a defesa de Battisti. O governo brasileiro atual é criticável nestes casos porque demonstra claramente apoiar o pensamento, ao invés de apenas estar se relacionando com a devida distância.

Com Ahmadinejad há mera conexão com a nação do Irã, que não pode ser extirpada de nossas relações por ser liderada por um idiota. Até porque, se assim fosse, em diversos momentos da história romperiam relações com o Brasil. Alguns diriam que isso valeria até mesmo para hoje.

Enfim, o encontro de Lula e Ahmadinejad é um caso para se pensar. Profundamente. A crítica superficial deve ser deixada de lado. O ponto principal é saber se receber o iraniano é, necessariamente, defender suas teses.

Talvez não seja.

É até complicado para mim, crítico feroz de regimes autoritários, levantar essa questão. Eu mesmo tenho certas reticências morais contra qualquer relação com Ahmadinejad.

Acontece que em certos casos é preciso, respeitados todos os princípios éticos, olhar além do óbvio.

Resultado da enquete: Zelaya deve poder retomar a Presidência em Honduras?

09/11/2009

Em meio ao vai e vem das negociações em Honduras a respeito da restituição ou não de Zelaya no cargo de Presidente daquele país, a décima terceira enquete do Perspectiva Política em novo formato perguntava o seguinte:

Zelaya deve poder retomar a Presidência em Honduras?

Pois bem. Aproveitando para agradecer o grande número de votos, apresento os resultados:

Não – 49%

Sim – 38%

Depende das circunstâncias – 13%

Se partirmos do pressuposto de que os leitores do Perspectiva conseguem representar, embora em menor escala, as intenções de voto da população como um todo, podemos tirar algumas conclusões destes resultados:

1- Os posicionamentos acabam sendo bem extremados. Provavelmente por questões ideológicas pessoais, os votantes se colocam, na maioria dos casos, ou a favor ou contra, não apreciando muito a opção “depende das circunstâncias”. Em suma, uns defendem Zelaya de volta de qualquer forma e outros defendem que ele não deve retornar de forma alguma.

2- Fica claro pelas porcentagens que a maioria, quase absoluta, se coloca contra o retorno de Zelaya ao poder. Isso não quer dizer que todos aprovam o modo como o hondurenho foi retirado do poder ou que todos são simpatizantes do governo Micheletti, porém, comprova que 49% dos que votaram entendem que, com seus arroubos autoritários, Zelaya desrespeitou a Constituição hondurenha, merecendo perder seu cargo.

3- Por fim, é interessante ressaltar que o caso de Zelaya é um onde fica nítido que, em alguns momentos, mais é levada em conta a ideologia e os campos do espectro político que estão sendo defendidos por cada posição, do que os fatos reais em si.

Dito isso, coloco à disposição de vocês na barra lateral à direita  uma nova enquete, dessa vez dizendo respeito ao blog em si, que pergunta:

Você acha que o Perspectiva deveria mudar de visual?

Aguardo as respostas de vocês.