Postagens com a palavra-chave ‘14. História’

A última gota d’água: Lula afirma que “oposição vai perder as eleições”

04/08/2010

Informa a Agência Estado:

“‘A oposição vai perder as eleições presidenciais.’ Sorrindo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pronunciou a frase durante a 39ª Cúpula de presidentes do Mercosul, realizada hoje na cidade argentina de San Juan.

[...]

‘Para quem está no governo oito anos não é nada’, disse Lula, em referência a seus dois mandatos presidenciais consecutivos. ‘Mas, com certeza, para a oposição, oito anos é uma eternidade’, ironizou o brasileiro perante os presidentes do Mercosul, vários dos quais riram com o comentário de Lula, que teve cautela em evitar de citar de forma explícita o candidato José Serra, do PSDB.”

Está posta a última gota d’água. Na realidade, transbordou o copo.

Como autor do blog, estou oficialmente desistindo de enxergar seriedade e compostura no Presidente Lula.

Fazer chacota da oposição? Rir dos adversários motivado, provavelmente, pela subida de Dilma Rousseff nas pesquisas?

Ora, mas que falta de respeito. Um absurdo!

Era só o que faltava depois de uma campanha antecipada flagrantemente ilegal e de um aparelhamento da administração pública estratosférico, que gera o uso da máquina na campanha.

Lula joga no lixo a liturgia do cargo. Se comporta como um político qualquer, espertalhão, e não como o Presidente de nossa República.

Haja salto alto! Haja arrogância! Haja prepotência!

Como eleitor, me irritei. Sinceramente.

Embora tenha criticado duramente os erros da gestão do Presidente, tenho elogiado os acertos do governo Lula desde sempre.

E continuarei a fazê-lo, por uma questão de honestidade intelectual.

Mas não dá mais para enxergar em Lula um estadista. Imaginem o que diriam os petistas de Fernando Henrique se ele risse da oposição em 1998.

Essa foi, sim, a gota d’água.

O Perspectiva, por ser democrático, não vota. Mas eu, particularmente, voto Marina Silva e já disse isso aqui.

Contudo, com essa soberba do Presidente começo a ter uma pontinha de vontade de votar em Serra.

A vitória dele provaria ao PT que não se ri antes da hora.

Ainda mais dessa forma desrespeitosa para com o processo democrático brasileiro e, principalmente, para com o eleitor.

Análise Geral: Lula, o messianismo, o suposto golpismo da oposição e a militância na internet

24/07/2010

Informa a Folha:

“Ao discursar em ato de campanha de Dilma Rousseff em Garanhuns, nesta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a elite política do país tentou dar o golpe em seu governo depois do escândalo do mensalão, em 2005.

Segundo Lula, como a tentativa foi frustrada, os golpistas derrubaram Severino Cavalcanti da presidência da Câmara dos Deputados.

‘Tem gente que tem vergonha de se aproximar de você. Mas nessa campanha a gente não quer só ganhar eleição, mas amadurecer politicamente’, disse Lula, olhando para Cavalcanti na platéia.

‘Meu querido companheiro Severino, a elite da câmara elegeu você presidente para você fazer o jogo sujo que ela queria, mas não tinha coragem de fazer que era pedir meu impeachment em 2005′, disse.

Lula chamou a elite política de ‘perversa’ e disse que é com ela que é preciso acabar nas eleições. O presidente não citou o nome dos adversários, mas se referiu aos ’senadores de oposição de Pernambuco’.

‘Meu corpo estaria mais arrebentado que o corpo de Jesus Cristo depois de tantas chibatadas’, afirmou, pelas críticas que sofreu da oposição durante seu governo.

Referindo-se a 2005, Lula disse: ‘O que tentaram fazer comigo, fizeram com Getúlio e ele deu um tiro no peito. O que tentaram fazer comigo fizeram com Jango que teve que sair do Brasil. O que não sabiam, é que Lula era milhões de Lulas espalhados por esse país’, afirmou.”

Qualquer pessoa racional, sensata e honesta intelectualmente se sentirá incomodado com as declarações do Presidente. E não precisa ser tucano para achar isso. Basta ser alguém de bom senso.

Vejamos:

Lula diz que a oposição foi golpista na época do escândalo do mensalão em 2005. Os fatos dizem que o mensalão realmente ocorreu e que o PSDB hesitou em levar à frente o pedido de impeachment.

Lula diz que Severino é seu companheiro. Os fatos dizem que Severino é representante de uma política arcaica, atrasada, corrupta e em extinção e que Lula apenas o afaga por conveniência eleitoral.

Lula diz que é preciso acabar com a elite política. Os fatos dizem que representantes da elite política como Michel Temer, José Sarney e Renan Calheiros estão ao lado de Lula nessas eleições, sendo um deles o Vice de sua candidata que, com a ajuda imprescindível de Lula, assumirá a Presidência de vez em quando se ela vencer.

Lula diz que seu corpo estaria mais arrebentado que o de Jesus. Os fatos dizem que esta metáfora é de um messianismo prejudicial.

Lula diz que tentaram fazer com ele o que fizeram com Getúlio e Jango. Os fatos dizem que este paralelo aponta para a arrogância de Lula, que o faz comparar-se com figuras históricas da nação o tempo todo.

Por essas e por outras se torna impossível não criticar Lula em alguns momentos. E isso não faz da pessoa um oposicionista. Faz dela apenas um ser que não coloca uma venda nos olhos por conta dos avanços que o governo conquistou durante os últimos 8 anos.

Os mais radicais que defendem que se coloque a venda passam por insensatos por isso.

Uns defendem o indefensável na ânsia de proteger o que anda bem.

Outros defendem o indefensável por suas ideologias e sonhos.

Estes eu respeito.

O problema são aqueles que defendem o indefensável por conta de terem participado da confecção do indefensável e terem levado vantagem com isso.

Estes eu repudio.

No fim das contas, estes últimos defendem Lula porque ganham – e muito – com seu governo. Pecuniariamente.

Os primeiros o defendem sem saber o que se passa nos bastidores e sendo mais raivosos contra os que pensam diferente do que o próprio Lula quando fora do palanque.

Enquanto os mais moderados têm de aturar os petistas radicais da blogosfera, Lula quer levar uma egressa do PDT e um perfeito representante do conservadorismo para a Presidência.

Os exércitos se enfrentam e se matam enquanto os generais fazem acordos na mesa do café.

Coluna do dia: As palmadas que faltaram a Lula

17/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

“Entra na minha casa. Entra na minha vida. Mexe com minha estrutura. Sara todas as feridas…”

O que vai acima é um trecho de uma dessas músicas “gospel” de péssimo gosto que, de uns tempos pra cá, passaram a fazer sucesso no Brasil. Mas bem que poderia ser a trilha sonora ideal para a mais nova tara totalitária do lulismo, conhecida como “Lei da palmada”.

O governo do PT, tal qual toda agremiação fascistóide que já rastejou na face da Terra, não sentiu qualquer pudor na hora de entrar em nossas casas, entrar em nossas vidas e mexer com nossas estruturas. Para os totalitários de Lula, não basta mais doutrinar nossos filhos nas escolas, ensinando aos moleques que o assassino conhecido como Che Guevara foi um herói, ou mesmo que o psicopata chamado Mao Tsé-Tung foi um grande pai para o povo Chinês. Isso é pouco! Agora os burocratas do progressismo também querem nos impedir de dar uma bela palmada nos traseiros rebeldes de nossas crianças.

Lula, que parece ter levado umas surras do pai alcoólatra na infância, quer descontar em toda essa “sociedade burguesa” seus próprios traumas. O “grande pai” do Brasil decidiu, de uma vez por todas, substituir a todos nós, estabelecendo que não é mais permitido dar uns tabefes quando o moleque decidir se jogar no chão do supermercado, insistindo em levar o décimo pacote de balinhas. Este é o Brasil moldado à imagem e semelhança do PT: mensalão pode; tapa de pai e mãe, não.

Na cerimônia em que se cantaram as glórias da tal “Lei da palmada”, Lula fez questão de dizer que nunca encostou a mão num filho seu. Entendo… Vai ver foi por isso que Lulinha não viu nada de ilegal ou imoral em receber um aporte financeiro da Telemar em sua pequena empresa de esquina, não é? Tivesse tomado um corretivo quando era hora, duvido que sua noção de valores morais fosse tão deturpada hoje em dia.

Pode não parecer à primeira vista, mas o esbulho da intimidade das famílias – verdadeiro núcleo motor de toda sociedade civilizada – é gritante! Note-se que a lei não vem coibir a agressão e/ou a violência doméstica. Contra isso já existe uma Constituição (tratando dos direitos individuais), um Código Penal (prevendo pena para lesões corporais) e uma lei específica – o ECA. A nova invenção progressista é específica contra a “palmada”, ou seja, visa alçar as crianças – em especial as travessas – ao posto de ditadoras do lar.

Não é difícil imaginar crianças já grandinhas (quase adolescentes) apontando o dedo para os pais e falando: “Se me bater eu denuncio você!” É assim que o progressismo pretende criar o “novo homem”: substituindo os pais pelo Estado; trocando a repreensão sadia – e necessária! – pela passada de mão na cabeça. E assim cultiva-se, desde sempre, a ideia da impunidade. Assim incentiva-se a mitigação da autoridade familiar, primeira – e principal – que se encara na sociedade.

Sempre que o Estado tentou cercear o indivíduo, intrometendo-se na intimidade das famílias e substituindo-se à autoridade paterna, o que se viu em seguida foi alguma das vertentes de fascismo que tomaram o mundo de assalto. É isso que o petismo está tentando fazer no Brasil em vários frontes: no controle da mídia, nas cotas, no malfadado plano de “direitos humanos” e, agora, na “Lei da palmada”.

Meu instinto revolucionário foi despertado! Resistirei firmemente contra o poder reacionário do estado… progressista!

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Fidel?

15/07/2010

Por Felipe Liberal*

Nem parecia ele. Velho, pálido, seco e maltratado. Quando o vi na televisão, nem parecia aquele. Aquele gigante das “sierras”; aquele que derrubou montanhas de tamanhos incalculáveis; aquele que fez a Hora sem esperar nada, simplesmente nada acontecer.

Meu Deus, nem parecia. Não consigo enxergar naquele rosto enrugado e naquela barba transparente o que ele realmente representa pra mim. Não consigo pensar que tamanhas virtudes, que residem naquele corpo e mente, estejam reduzidas a um velho doente e semimorto. Como pode?

Eu sei, não precisa falar que ele tem seus defeitos, óbvio. Ele não é Deus e nem se diz ser. E quem não tem defeitos, não é? Mas suas virtudes são gritantes. Não consigo ver que toda aquela genialidade está se acabando como um casebre abandonado, caindo aos poucos a ponto de desmoronar. Eu sempre dizia: “eu vou a Cuba antes de Fidel morrer”. Mas não vai dar tempo. Não sei nem se irei a Cuba. Não sei se terei estômago pra ver que tudo que aquele semimorto fez na ilha está se acabando por completo.

Por incrível que pareça, há “pouco” tempo atrás, pra quem não lembra, aquele velho fez um lado de todo um continente tremer, enquanto o outro lado o via como um exemplo a seguir. Aquele velho fez o mundo parar inúmeras vezes pra ouvir seus discursos, seja por medo ou admiração. Aquele velho salvou milhares de pessoas da fome, da prostituição e da ignorância. Aquele velho colocou sua vida em favor de seu país e seu povo. Aquele velho amou cada ser humano que passou por sua vida, indiretamente ou diretamente. Aquele velho não resolveu todos os problemas da ilha e muito menos do planeta, mas tudo que ele conseguiu fazer foi feito com amor, de dentro da alma. Aquele velho doente é um dos maiores Heróis da História da Humanidade.

Mas, de fato, nem parecia.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Após 119 anos de vida, Jornal do Brasil deixará de circular e só existirá na internet

13/07/2010

Terminará, em breve, a vida da versão impressa do Jornal do Brasil. Extremamente tradicional, o JB continuará existindo apenas na internet.

Nelson Tanure, o atual proprietário alega que a internet é o futuro e que todos os jornais caminham para isso. Pode até ser, mas, no fim das contas, a realidade é que as dívidas causadas por sucessivas administrações equivocadas afundaram este veículo de tanta história.

Por mais que o diário continue vivendo na rede mundial de computadores, não será mais possível folhear suas páginas, comprar suas edições nas bancas, manchar os dedos com sua tinta que se solta fácil do papel jornal onde foi impressa.

O Jornal do Brasil estava presente nas revoltas do governo Floriano, no fim da política do café-com-leite, no Estado Novo, no suicídio de Vargas, nos anos JK, na ditadura militar, no impeachment de Collor, na implantação do Plano Real.

Também levou aos leitores as informações sobre as duas grandes guerras, a queda de Hitler, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a guerra das Coreias e a do Vietnã, a queda do Muro de Berlim e a ascenção do dragão chinês.

Quantos ícones do jornalismo se formaram na redação do JB? Quantos furos de reportagem nos foram trazidos pelas páginas deste veículo? Quantas pessoas marcaram suas manhãs durante toda a vida com a leitura do tradicional periódico?

Em suma, é mais um pilar da imprensa escrita que se vai com o passar dos anos. Infelizmente é a ordem natural das coisas, mas estes momentos nos permitem ser saudosistas, por mais que o saudosismo remeta a tempos que se passaram muito antes do nosso próprio nascimento.

Lamenta-se pela história.

Coluna do dia: Sanções internacionais – Por quê?

17/06/2010

Por Felipe Liberal*

Eu odeio sanções. Podem ser econômicas ou políticas, eu as odeio. Tudo parece óbvio neste maldito planeta. É sempre a mesma coisa: sanções contra o Irã, Cuba e Coreia do Norte. Vindas de quem? Principalmente dos EUA. Eles, de fato, conseguem evitar que a evolução da História continue.

Quando vamos conseguir separar o sistema político adotado pelos iranianos, cubanos e coreanos do seu povo? Quando vamos entender que sanções só servem para prejudicar seres humanos que não tem nada a ver com interesses estúpidos e infinitos de alguns países? Até quando vamos suportar que cinco países decidam quem merece sofrer ou não?

Eu discordo de muita coisa que acontece nesses três “malditos” países, como também discordo de muita coisa que acontece nos EUA, Inglaterra e China, por exemplo. Nem por isso esses últimos mereceram ou merecem sanções por parte da ONU. Parece óbvio.

O Irã é totalitário? Sim. Mas a China também é. Cuba faz prisioneiros injustamente? Sim. Os EUA também fazem (vide Guantánamo e a “desativada” Abu Ghraib). A Coreia do Norte restringe a liberdade de informação? Sim. Mas todos os países europeus também fazem, inclusive comprando jornalistas e blogs (vide Yoani Sanchéz).

Então você deve estar se perguntando: portanto todos merecem sanções, né? Não. Discordaria totalmente de você. As sanções são a pior maneira de se tentar um acordo. O sistema socialista cubano sobrevive desde 1959 com fortes sanções estadunidenses, nem por isso a ilha cedeu ou aceitou as exigências internacionais. A Coreia do Norte passa pela mesma coisa, sofre sérios embargos dos países europeus e até asiáticos, na própria vizinhança, e nem por isso desistiu do seu isolamento exagerado.

Não é com o “big Stick” que as coisas se resolvem. Agressão gera agressividade. Até quando vamos conseguir ficar sem entender isso? Não podemos gerar paz com guerra. Não podemos construir um mundo melhor trazendo o que há de pior no ser humano, que é a raiva, a discórdia e a guerra.

A ONU é a maior farsa que o mundo já pôde ver. O organismo da paz é o maior gerador dos conflitos e problemas que temos hoje. Principalmente por ser comandada por países que precisam da guerra para sua própria sobrevivência, países sedentos por sangue e dinheiro. Meus caros, EUA, Inglaterra, China, Rússia e França querem tudo, menos a paz. Novamente parece óbvio.

E tudo isso só vai ser mudado, quando nós mudarmos também.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Debate: Os constantes 5% que desaprovam Lula

12/06/2010

O jornalista e blogueiro Ricardo Kotscho, ex-assessor de Lula, constrói textos que têm uma característica constante, interessante e elogiável: Apresenta argumentos comuns a todos os petistas, contudo, de forma mais franca, analítica e sensata. Sendo assim, tem mais credibilidade do que os mais raivosos.

Do alto de sua maior credibilidade, Kotscho, a quem respeito, escreveu artigo questionando o passa pela cabeça dos 5% de brasileiros que desaprovam o governo Lula. Comentando que este patamar se mantém estável, o jornalista se pergunta o que pode motivar essas pessoas a manterem-se contrárias a uma política que, segundo ele, é favorável para o País.

A partir deste texto, publicado no blog Balaio do Kotscho, foi construída uma argumentação desenhada pelo jornalista Sandro Vaia e publicada no Blog de Ricardo Noblat. Nela, Vaia, que é ex-Diretor de Redação do jornal O Estado de São Paulo, explica os inúmeros motivos que podem levar alguém a fazer parte, tranquilamente, dos 5% que rejeitam Lula.

O debate é interessantíssimo e o Perspectiva não poderia ficar de fora.

Seguem abaixo os dois textos. Os comentários estão abertos para a sua opinião, caro leitor.

Que Brasil é Este dos 5% do contra?

Ricardo Kotscho

O tema do Balaio deste domingo vale uma pesquisa em profundidade, uma tese acadêmica  ou mesmo uma capa de revista: que Brasil é este dos 5%?

Entra pesquisa, sai pesquisa, eles estão sempre lá do mesmo tamanho. São os que consideram o governo Lula ruim ou péssimo. A aprovação do presidente e do governo pode variar entre 70 e 80%, conforme o instituto, os restantes ficam na categoria regular e, invariavelmente, temos os 5% de insatisfeitos com os rumos do país, tanto faz o que esteja acontecendo naquele momento de bom ou ruim.

Quem são eles, onde vivem, o que fazem, o que pensam? Já que ninguém se atreve a investigá-los, disponho-me aqui a encontrar algumas respostas sobre o perfil deste minoritário, mas sólido contingente de brasileiros que não mudam de opinião, mesmo remando contra a maré.

Mais do que um posicionamento político-partidário ou mesmo ideológico, como à primeira vista indicam as pesquisas, creio que se trata de um fenômeno psíquico, algo mais ligado aos sentimentos do que à razão, ao comportamento humano de um núcleo duro que é do contra porque é do contra, quaisquer que sejam suas motivações.

Em termos absolutos, estes 5% representam mais ou menos 9 milhões de brasileiros, o mesmo universo dos que lêem habitualmente jornais e revistas da grande mídia, o que pode representar uma primeira pista para entendermos seu pensamento.

Noto isto pelos comentários dos leitores publicados aqui no Balaio. Qualquer que seja o assunto, política, futebol, literatura, música, cinema, observações de viagem, mulheres bonitas, praias, botecos ou buracos de rua, sempre aparecem os mesmos comentaristas, escrevendo as mesmas coisas, com os mesmos argumentos: nada funciona, ninguém presta, tudo está ruim, a vida não vale a pena.

Confundem o país com o governo, a vida real com o noticiário do poder, ao reproduzir o que lêem nas manchetes e nos editoriais dos grandes veículos, nos blogs da Veja.com, nas colunas de O Globo ou ouvem dos comentaristas da CBN e da Jovem Pan. Se você fala bem de alguma coisa acontecendo no país, logo te chamam de vendido, chapa-branca, idiota.

Não importa o assunto. Nas viagens pelo Brasil que fiz nas últimas semanas, falei da minha alegria em revisitar as cidades de Teresina e Rio de Janeiro, que me encantaram por algumas características que tornam a vida dos seus moradores mais agradável, mesmo com todos os problemas de qualquer capital, grande ou pequena.

A grande maioria dos leitores destes dois lugares gostou do que escrevi, até me agradeceu por falar bem destas cidades que normalmente só aparecem no noticiário pelo lado negativo, dando-se mais destaque às suas mazelas do que aos seus encantos.

Mas lá estavam também os 5% de sempre, que me esculhambaram por elogiar a cidade onde vivem, dizendo que eu não vi nada, que a vida ali é um inferno, que não existe nada de bom, que só pensam em ir embora de lá.

Teresina é administrada pelo PSDB e, o Rio, pelo PMDB, em aliança com o PT, o que me prova não se tratar de implicância partidária, mas de um estado de espírito.

Como não posso pedir ajuda aos universitários, apelo aos leitores para que juntos encontremos outras respostas capazes de explicar que Brasil é este dos 5%. Ou será que vivemos em países diferentes?

-x-x-x-

Esses Estranhos 5%

Sandro Vaia

Que espécie de gente serão esses 5% que não acham o governo Lula nem ótimo nem bom? O repórter que propôs investigá-los (no sentido de pesquisar,conhecer,tentar entender, como ele bem explicou), pode encontrar algumas boas pistas aqui.Eles podem ser:

1- Pessoas que acreditam que a democracia não é apenas o governo das maiorias, mas também e principalmente o que não discrimina as minorias e as respeita, garantindo seus direitos constitucionais de manifestação e expressão.

2- Pessoas que não concordam que a atual política externa seja responsável, altiva e independente, mesmo que os outros 95% achem isso.Elas têm todo o direito de achar que é uma política aventureira,irresponsavelmente jactanciosa, longe das tradições da diplomacia brasileira, e afastada de seus valores básicos, que sempre foram os de não apoiar regimes de exceção, autoritários e ditatoriais.

3- Pessoas que acreditam que o atual ciclo de crescimento do País não começou com um estalar de dedos de um ser divino e providencial,mas é resultado de um processo que teve início em governos que se dedicaram a implantar os fundamentos de um crescimento sustentado, fundamentos esses que foram incontestavelmente assimilados, respeitados e mantidos, apesar das promessas – ou ameaças -em contrário.

4- Pessoas que acreditam que a ética e a honradez na política são valores que não podem ser desprezados.

5- Pessoas que sabem reconhecer que a divergência de idéias faz parte do processo democrático e são contrárias a qualquer tipo de controle da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão.

6- Pessoas que acreditam que a melhora dos índices sociais,a melhor distribuição de renda, o acesso de todos a uma educação de qualidade, não precisa ser feita através da instituição de um tipo reverso de discriminação social e racial, que institua o rancor e o ódio entre pessoas,grupos étnicos e classes sociais,separando em vez de unir a Nação.

7- Pessoas que acreditam que todos são iguais perante a lei e que ninguém está acima dela, e que, portanto, ninguém pode transgredi-la impunemente.

8- Pessoas que acreditam que debochar das instituições é um mau exemplo e uma agressão à democracia, principalmente quando parte de quem é responsável pela salvaguarda dessas instituições.

9- Pessoas que acreditam que a popularidade do presidente da República é um indicador inequívoco de apoio popular, mas que não acreditam que isso seja uma franquia para ultrapassar os limites da lei.Um presidente não pode tudo, ao contrário do que achava Richard Nixon.

10- Pessoas que acreditam que o presidente da República é um magistrado, e como tal deve comportar-se durante todo o tempo de seu mandato, inclusive durante uma campanha eleitoral.

São valores mais ou menos básicos, simples e fundamentais, mas possivelmente tão exóticos, nos dias de hoje, que só seja possível encontrá-los entre esses estranhos 5% de brasileiros.Pode até ser que não sejam pessoas “em fase de desespero diante das últimas pesquisas da campanha eleitoral”, mas gente tão normal e digna quanto os outros 95%.

Coluna do dia: Leis, sociedade e o espírito da democracia

18/05/2010

Por Arthurius Maximus*

Por que o ser humano decidiu deixar de ser nômade e depois buscou a vida gregária em comunidades?

Por que essas comunidades, isoladas e pequenas, acabaram unindo-se e formando as primeiras cidades-estado e, posteriormente, acabaram se transformando em países como os que conhecemos hoje?

Por que desistir da vida livre e ditada por suas próprias regras para passar a obedecer a um conjunto de leis e normas criadas por outras pessoas que sequer conhecemos?

A resposta a todas essas perguntas pode ser simplificada grosseiramente numa única palavra: Segurança.

Os primórdios da humanidade foram marcados pelas lutas sangrentas e pela imposição da lei do mais forte e da seleção natural de humanos sobre humanos por longos períodos. Bastava querer alguma coisa, e ser forte o bastante, para ir até o próximo e tomá-la dele. Assim, os primeiros humanos gregários aprenderam, a duras penas, que vivendo em comunidades eram mais fortes do que isolados e que podiam fazer frente aos invasores e aos visitantes mal-intencionados muito mais facilmente.

Mesmo assim, percebemos que dentro dessas comunidades ainda havia exploração e uso da força, ou outros meios mais sutis, por indivíduos inescrupulosos e sequiosos de acumular bens, alimentos ou outro tipo de riqueza qualquer.

Para isso, as comunidades criaram as leis. Instrumentos de controle comportamental e éticos capazes de proteger igualmente os fortes e os fracos e de servir de base para a mediação de conflitos entre esses grupos. A guarda das leis, assim como a sua elaboração, ficou a cargo de uma elite de indivíduos e depois, dependendo dos regimes de governo, foi passada para elementos retirados do próprio povo.

Mas, para que tudo isso funcione corretamente e as leis atinjam o seu objetivo maior, que é o de proteger o cidadão, faz-se necessário que os regimes governamentais garantam que ninguém – em momento algum – estará longe do alcance das punições previstas pelas leis. Essa característica, e não as eleições, é o que consideramos o fator mais importante no reconhecimento de uma verdadeira democracia.

Contudo, você que chegou até essa parte do texto, pode estar se perguntando: E daí?

Daí que nesta semana (e em várias outras oportunidades) assistimos aos principais responsáveis pela elaboração e guarda das leis rirem-se delas e cuspirem solenemente nos órgãos judiciais encarregados de velar pelo seu cumprimento.

A propaganda partidária do PT, levada ao ar na semana que passou, deixou muito claro o desprezo, a arrogância e o escárnio que o partido e suas principais figuram sentem pela lei e pelo Judiciário. Ao referir-se sempre jocosamente às punições recebidas por ter infringido a lei eleitoral em várias oportunidades e, ainda por cima, levar ao ar um programa partidário cujo único assunto foi a apologia à candidata à Presidência Dilma (já estando condenado pelo TSE a não exibi-lo – porém ainda não notificado), o PT mostra ao cidadão brasileiro que o poder está acima da lei e que uma organização que disponha de meios pode ignorar, burlar e desconsiderar decisões judiciais ao seu bel prazer.

O recado claro é simples: “Podemos tudo”. E é justamente esse recado que o cidadão deve temer. Pois, se o Estado sente-se livre para burlar e violar as leis ao seu bel prazer, ele pode muito bem, quando desejar, resolver burlar leis que protegem o cidadão da ação autoritária e prejudicial desse mesmo Estado.

Não é possível que o cidadão consciente assista indiferente a todo esse festival de ilegalidades e de escárnio às leis, praticado também em menor escala pelo PSDB, de forma impassível e completamente alienada.

Uma democracia saudável exige que as leis sejam cumpridas e mantém, em rédea curta, os elementos do Estado capazes de transformar a vida do cidadão comum em um verdadeiro inferno. Sem os limites saudáveis de uma legislação capaz e atuante, o Estado pode tudo e torna-se um agente destruidor de liberdades e perpetuador da desigualdade.

Pense nisso.

*Arthurius Maximus, escrevendo excepcionalmente em uma terça, é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica.

2ª Coluna do dia: A História e a verdade – Há certeza nos fatos históricos?

14/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

“Quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro.” – George Orwell

Difícil definir a História. Corre-se o risco de cair no simplismo de afirmar que “História é o estudo do passado”, ou que “História é aquilo que passou, aquilo que já aconteceu.” Essas definições não estão equivocadas, mas são insuficientes.

Não sendo a finalidade deste artigo a investigação do conceito de História, simplesmente afirmarei que a História é o fluir das configurações humanas (sejam individuais, coletivas, institucionais, intelectuais, enfim, tudo que deriva do homem) no Tempo. Nesse sentido, a História é um processo que constantemente realiza e atualiza a si mesmo. A História é sempre presente. Mas sendo um fluir contínuo, passado, presente e futuro nela se confundem.

Não obstante, o objeto da ciência histórica é o fato histórico, cuja ‘residência’ mais natural é o passado. E ainda que os desdobramentos de muitos fatos históricos continuem operando no presente, fazendo com que tais fatos permaneçam em aberto e não se possa discursar definitivamente sobre estes, pode-se afirmar com tranquilidade que a maioria dos fatos históricos, de natureza simples, já se concluíram, ou seja, se esgotaram e permanecem ‘fechados’. Sendo fatos históricos conclusos, estes existem de tal forma que se pode dizer que eles consistem em ‘verdades’. A ‘verdade’ de um fato histórico é a narrativa da configuração de entes que compõem esse fato.

É o resgate dessas ‘verdades’ para o presente o que caracteriza a função autêntica do historiador. A própria natureza da existência, porém, impede que se possa conceber o fato histórico em um estado de objetividade pura. Observar um ente já é participar da existência desse ente e influenciar o seu destino. O que se pode exigir asceticamente do historiador, porém, é um máximo de objetividade possível, a qual consistiria na ausência de uma vontade consciente de tentar moldar os fatos históricos, para fazer com que eles se conformem a uma visão pré-concebida ou a algum objetivo externo à história.

Se devo apregoar isso, é porque tal disposição histórica para a verdade é exatamente aquilo que praticamente inexiste. Nunca o discurso histórico foi tão ideologizado quanto é hoje. Se em outras eras, como no século XIX talvez, os historiadores tinham sua objetividade um pouco atrapalhada por conta de concepções internas inconscientes, a manipulação, a distorção e o uso da história para fins ideológicos hoje é algo absolutamente consciente e intencional.

Crê-se na possibilidade de o ‘bem’ e a ‘verdade’ poderem existir separadamente. E, nesse caso, crê-se na possibilidade de se sacrificar a ‘verdade’ em nome do ‘bem’. Sendo assim, seria válido distorcer e manipular a história, se tal manipulação tiver uma finalidade moral ou servir para favorecer a vitória de uma utopia moral.

Sabe-se que o ditador Josef Stalin (tio Joe, como Roosevelt o chamava, sem ironia ou sarcasmo), neurótico e volúvel como era, alterava seus súditos favoritos como se muda de trajes. E o destino da maior parte dos que caíam em seu desfavor era a execução ou o gulag. Mas mais perturbador do que o destino físico de seus inimigos era o destino histórico dos mesmos.

Stálin simplesmente ordenava que todos os registros fotográficos da existência de certos inimigos fossem apagados. Assim, ocorreu que todas as fotos de Trótski com Lênin fossem alteradas, com a exclusão de Trótski delas.

Um outro famoso caso foi o do Chefe da NKVD, antecessora da KGB, Nikolay Yezhov, absolutamente leal a Stálin, mas que teve o azar de ser bem-sucedido demais e incorrer nas desconfianças paranóicas do Grande Camarada. Não satisfeito em ordenar sua execução, Stálin ordenou que Yezhov fosse expurgado da memória histórica, como se ele nunca tivesse existido.

Se nós não temos acesso direto aos fatos históricos por meio de nossa presença neles, ou seja, se nós apenas recebemos tais fatos históricos a partir de terceiros, como podemos garantir a veracidade da narrativa histórica?

Simples, não podemos.

A princípio, nada garante a ocorrência de qualquer dos fatos históricos ‘famosos’ que supostamente conhecemos. Eles simplesmente são considerados ‘dados’, porque nós possuímos uma ingênua confiança nas ‘autoridades’. Nesse caso, cremos nos indivíduos encarregados em investigar e narrar a História.

Pode ser que a maioria desses fatos seja genericamente verdadeira. Mas e quanto a seus detalhes? Não bastasse a possibilidade natural de erros inconscientes, e quanto ao fato de os historiadores serem indivíduos que recebem salários, possuem ideologias, têm um emprego a preservar e uma reputação a defender?

Poucas coisas são tão fortes e, ao mesmo tempo, tão frágeis quanto a verdade.

Se o monopólio do conhecimento pertence a uma mídia e a uma academia radicalmente ideologizadas (ambas em uma direção esquerdista e politicamente correta), devemos ter em mente que o que nós recebemos é o discurso histórico de uma ideologia específica e não uma narrativa histórica objetiva.

E se, inevitavelmente, nós só temos contato com narrativas históricas ideológicas, como ter confiança em qualquer suposto fato histórico?

Fica a dúvida.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma sexta, é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: A flexibilização das leis trabalhistas e a sociedade do espetáculo

05/05/2010

Por Raphael Machado Silva*

Os últimos anos têm visto ataques cada vez mais encarniçados e fanáticos contra os chamados ‘direitos trabalhistas’. Todas as forças do parasitismo econômico nacional e internacional (e seus ‘intelectuais’ de estimação) concentram seus esforços no sentido de fazer voltar o tempo ao período paradisíaco (para o parasita econômico) no qual o empresário não tinha qualquer compromisso para com os seus empregados ou para com a sociedade em geral.

Um período que mesmo comparado com a Baixa Idade Média só pode ser visto como involução e degeneração, posto que mesmo os senhores feudais mais tirânicos ainda assim possuíam várias obrigações para com seus servos, principalmente a de segurança, cujo cumprimento era garantido pela honra do nobre em questão, elemento vinculante muito mais forte e coercitivo do que qualquer contrato lavrado em cartório, ao menos em períodos e civilizações em que a virulência liberal e burguesa ainda não havia adquirido a supremacia entre os outros valores.

É possível imaginar a sensação de prazer que sente o empresariado liberal ao conceber o paraíso da irresponsabilidade total. Provavelmente deve ser a mesma sensação que sentiam os capitães piratas do século XVI. Em verdade, os parasitas econômicos (ou seja, a classe capitalista pseudo-produtiva) são exatamente como os corsários ingleses: possuem a licença legal e oficial para a realização de saques e rapinagens. A liberdade econômica burguesa liberal é a liberdade para a rapina e o saque irrestritos.

Mas parece, porém, que essa licença para saquear é o que há de relevante para o parasita econômico em suas relações para com o Estado e a Sociedade. Se está dentro da legalidade jurídica, então não há nada mais a ser discutido, a não ser a maximização dos lucros. Se o parasita é ‘respeitador dos Direitos Humanos’ (principalmente da santíssima trindade burguesa: vida, liberdade e propriedade) e atua dentro da legalidade do ordenamento jurídico, então ele deve ser livre para atuar segundo a ‘autonomia de sua vontade’.

Com a total desintegração dos laços comunitários, a decadência dos costumes e o estado de despotismo imposto pela classe capitalista industrial, seria natural que no seio da sociedade industrial lentamente começasse a se desenvolver um espírito de reação contra a ameaça burguesa.

Não é possível romper tão radicalmente um estado de harmonia, ainda que frágil, como o era a comunidade feudal, sem que isso provoque a tentativa de se tentar restaurar a harmonia comunitária da maneira que for possível.

A harmonia comunitária, porém, só pode ser restaurada por meio de uma Revolução. Esse é o autêntico sentido da Revolução: re-voltar é promover o retorno a uma forma superior que reside em um passado tradicional. ‘Progresso’ e ‘Revolução’ são antíteses.

Por isso é que é ilógico e absurdo afirmar que há qualquer tipo de ímpeto revolucionário no marxismo. O marxismo é exatamente a ideologia mais contrarrevolucionária possível, posto objetivar ele o aprofundamento exatamente das tendências mais obscurantistas de toda forma de progressismo e modernismo.

Conquanto seja o inimigo um parasita econômico, a Revolução é simplesmente uma medida essencial para se restaurar o vigor, a saúde e a harmonia do organismo social. Se os inimigos da sociedade industrial foram apropriados por homens maliciosos adeptos de ideologias funestas, isso em nada interfere ou influi no sentido da revolução. As forças revolucionárias, então, começaram a pressionar e combater os inimigos parasitários da sociedade, de modo a extirpá-los como se fossem um tumor cancerígeno. O parasita, por sua vez, encastelado e em posse do Estado, combateu a Revolução por meio do aparato repressivo do Estado.

Continuasse o duelo de forças, a vitória seria certamente das forças revolucionárias. Os parasitas econômicos, porém, maliciosos por natureza graças a sua origem plebéia de mascates, chegaram à conclusão de que havia um meio melhor de se afastar definitivamente a ameaça revolucionária.

O fato é que nada é mais difícil do que professar uma completa rejeição do statu quo. Apenas homens de vontade férrea e moral inabalável são capazes de sustentar uma rejeição radical a uma estrutura político-econômica por tempo indeterminado. As massas são por natureza inconstantes e acomodadas. Ademais, elas são incapazes de visualizar objetivos a longo prazo. Quando a massa se mobiliza, ela o faz para resolver um problema que a afeta naquele momento. E nada mais.

Foi assim estabelecido um ‘compromisso’. Certas benesses passaram a ser lentamente concedidas aos trabalhadores, com o objetivo de afastar a ameaça revolucionária. A estratégia foi um sucesso absoluto. A maioria esmagadora das massas, incapaz de sustentar uma ética revolucionária, se vendeu por migalhas, liderados por traidores covardes, os pais da ‘social-democracia’. A ‘social-democracia’, portanto, surgiu da traição das aspirações revolucionárias.

Não há, portanto, idealismo algum inserido nos ‘direitos trabalhistas’. Eles são, e sempre foram, meios de apaziguar as massas por meio de certas concessões. Ainda assim, estabelecem, indubitavelmente, uma conjuntura existencial menos pior do que a que a precedeu. Deve-se sempre ter em mente a finalidade pragmática contida na essência desses direitos.

Assim sendo, a existência dos direitos trabalhistas, ou sua rigidez e coercitividade, estão diretamente ligados à necessidade de seu uso para a consecução de sua finalidade original. A questão, portanto, da flexibilização dos direitos trabalhistas passa absolutamente distante de qualquer preocupação econômica pontual. Não é a ‘eficácia’ da economia, ou a lucratividade alcançada pelo empresariado que reside na essência dessa questão.

Ocorre que o desenvolvimento tecnológico e o desdobrar da ideologia capitalista deram origem ao que se chama ‘Sociedade do Espetáculo’, na qual o entretenimento e o fetichismo das commodities culminaram no surgimento de uma ‘cultura do consumo’, a qual propicia inevitavelmente a homogeneização cultural e, principalmente, a alienação.

A submissão do homem moderno à mídia de massa e à ideologia do consumo o mantém perpetuamente em um estado de espectador passivo do mundo ao seu redor. Seu meio de ‘interferência’ nas estruturas políticas de poder se dá basicamente por meios ineficazes e superficiais como o ‘voto’, fúteis passeatas de rua e os meios jurídicos de postular direitos. Todos estes métodos oferecidos pela própria estrutura de poder vigente e, portanto, incapazes de alterar a essência da mesma.

Não há situação mais contrarrevolucionária do que esta na qual os únicos interesses do homem são seu conforto, seu prazer e sua segurança. Seu processo de apaziguamento se tornou completo e foi efetivado de modo muito mais satisfatório do que seria possível através de quaisquer benefícios jurídicos. Assim sendo, que função poderiam exercer os ‘rígidos’ direitos trabalhistas? A partir de um ponto de vista pragmático, nenhum. De meio de defesa, eles passaram a ser um estorvo caro, posto não serem mais necessários para alcançar sua finalidade original.

Nada mais lógico, portanto, do que suprimi-los lentamente. Não haverá sérias consequências. Não haverá nenhuma revolução.

A televisão já é suficiente para impedir isso.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.