Por Raphael Machado Silva*
Segundo a rede de notícias Al Jazeera, o dia de ontem foi marcado no Afeganistão pelo disparo de 5 foguetes no coração de sua capital, Kabul. Os mesmos foram lançados na direção da embaixada americana, apesar de nenhum ter alcançado seu alvo. Segundo a mesma rede de notícias, outros foguetes foram disparados na direção do aeroporto internacional. Tal ataque se deu em uma área considerada “a mais segura do país”, e já sob “total controle das forças de ocupação”. Isso um dia após um ataque que matou 12 pessoas, uma semana depois de um ataque que matou outras 26 e duas semanas, aproximadamente, antes das eleições presidenciais.
Pois bem. Espero que eu não seja o único a perceber que essa Guerra do Afeganistão está sendo travada há 8 anos, mais anos do que levou a Segunda Guerra Mundial, e que a OTAN e os EUA não estão nem um pouco mais próximos de “pacificar” o país, ou seja, de vencer a Guerra, do que estavam após os bombardeios e ataques iniciais que desalojaram o governo central do Taliban.
Na verdade, há cada vez mais áreas do Afeganistão chamadas “áreas de risco extremo”. Não só isso, mas os dois principais alvos humanos das operações, Osama bin Laden e Mohammad Omar, continuam em segurança, provavelmente escondidos nas infinitas redes de cavernas e refúgios subterrâneos na fronteira com o Paquistão.
Um dos motivos, se não o principal, para essa incapacidade da Coalizão de conquistar uma vitória decisiva nessa Guerra é o fato de que a Coalizão não está em sincronia com seus inimigos. O que eu quero dizer com isso? Que a Guerra no Afeganistão é o que é chamado pelas doutrinas militares de ‘Guerra de Quarta Geração’. Esse tipo de Guerra é caracterizado pela relativização das linhas divisórias entre ‘guerra’ e ‘política’, entre ‘combatente’ e ‘civil’. Assim, como pela extrema descentralização das operações de combate por pelo menos um dos participantes. A Coalizão não chegou preparada para esse tipo de Guerra, apesar de ter estado a seu alcance prever que era exatamente isso que eles iriam enfrentar. Eles chegaram como se estivessem participando de um “jogo de estratégia”, no qual bastaria tomar a capital inimiga ou ocupar seus territórios para que a Guerra estivesse ganha.
É muito difícil para Estados como os EUA, ou para organizações centralizadas como a OTAN, se opor e se adaptar a um combatente que atua através dessa Doutrina. Não há base inimiga. Não há “bandeira inimiga” para se roubar. Praticamente também não há território inimigo facilmente identificável. Ontem o inimigo estava ali, hoje ele está lá, amanhã ele está entre nós, e depois ninguém sabe mais.
Um outro motivo é que há diferenças essenciais entre os combatentes dos dois lados. E não estou me referindo às diferenças em equipamentos, armamentos e logística, que são vantagens da Coalizão. Mas sim, a outra coisa muito importante nos próprios homens que travam os combates. Isso se refere à motivação ou ao fator moral dos combatentes. Os exércitos da Coalizão são compostos por Mercenários. Não tecnicamente, mas na prática. O serviço militar no Ocidente é, hoje, apenas mais uma entre muitas profissões remuneradas. Muitos jovens se interessam pelo serviço militar por acharem que não terão outra oportunidade de carreira, ou por motivos similares. Os insurgentes afegãos possuem motivações diferentes. Primeiro, eles estão se defendendo de um exército invasor, defendendo sua pátria. Segundo, eles estão travando uma Guerra Santa, de caráter eminentemente espiritual. Terceiro, eles possuem uma relação com as ideias de “vida” e “morte” que é muito diferente das relações estabelecidas por nós Ocidentais. Essa vantagem “moral” é muito relevante, já que ela é a força que mantém os insurgentes lutando e sendo substituídos por outros, assim que morrem.
Obama já se decidiu por ampliar a presença americana no Afeganistão. Porém, isso resolverá alguma coisa? A Guerra no Afeganistão já custa 223.549.795.000 dólares, e esse número continua aumentando. Somado ao custo da Guerra no Iraque, o custo total é de 894.167.900.000 dólares. Isso em meio a uma crise econômica mundial, e com os EUA se aproximando de uma nova crise econômica, que dessa vez estará relacionada à já titânica dívida americana. Quantos anos mais irá durar essa Guerra? E como se pretende pôr fim a ela? Considerando os fatores envolvidos é possível que nem o uso de uma bomba atômica ponha fim à insurgência. Ao mesmo tempo, a popularidade de Obama diminui cada vez mais e uma das causas é a continuidade dessas inúteis guerras estrangeiras.
Aos tolos, que acham que ela é útil para “combater o terrorismo”, eu pergunto por que então EUA e Europa continuam aceitando irrestritamente todo e qualquer tipo de imigrante, os quais estão constantemente conspirando contra seus países hospedeiros. Assim como pergunto por que os EUA apoiaram a independência do Kosovo quando a claque que se tornou o governo do mesmo é considerada o braço da Al-Qaeda na Europa?
Os EUA estão em uma guerra cara, inútil e sem previsão de vitória. E apesar de a população poder ter sentido alívio com a queda do Talibã, ela se irrita cada vez mais com a presença americana. Obama está esperando o quê? Terá ele algum plano messiânico ou alguma carta na manga? Pois se ele não tiver, é melhor ele sair, discretamente, mas sair, do que esperar um milagre e ver essa Guerra transformada em uma nova vergonha para os EUA.
* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.











