Por Yashá Gallazzi*
Há coisa de poucos dias vimos o crepúsculo de uma era. A hegemonia de décadas exercida pelo mesmo grupo político chegou ao fim com a eleição de um candidato tido como conservador, em um resultado que surpreendeu o consenso politicamente correto.
Não! Eu não estou falando da recente eleição havida no Chile, onde o candidato conservador conseguiu derrotar a coalizão de centro-esquerda, no poder desde o fim da ditadura liderada por Augusto Pinochet. O Chile, em que pese a grandiosidade de seus indicadores econômicos e sociais, não passa de um pequeno país incrustado na América Latina, oprimido pela Cordilheira dos Andes. O Chile, apesar de seu sucesso institucional e de sua democracia consolidada, é apenas… “um Chile”. E isso, meus caros, dá uma ideia da “importância” do Brasil dentro do mundo.
Esqueçam, pois, o Chile! Falemos de lugares um pouco mais importantes aos olhos do mundo, como Massachusetts, nos Estados Unidos. Na última terça-feira, os eleitores do estado, há cerca de quarenta anos devotos dos Democratas – e dos Kennedy – surpreenderam o país ao escolher Scott Brown, um Republicano, para o Senado.
A vitória de Brown não foi apenas um normal triunfo eleitoral, desses que acontecem sempre na política. Há também o lado simbólico da coisa: Massachusetts votou em um Republicano conservador para uma vaga até então ocupada por um Kennedy. Mais que isso: para a vaga ocupada por Ted Kennedy, um ícone do progressismo americano cuja principal bandeira sempre foi a reforma da saúde.
E eis que, para a surpresa de muitos, o porta-bandeira do “Health Care”, o gorduchinho simpático e bonachão que era amado pela grande maioria dos americanos, verá – onde quer que esteja agora – seu assento ocupado por um Republicano que promete aborrecer a vida daquele que é visto praticamente como um Cristo negro, Barack Hussein Obama. E aqui reside a explicação para o sucesso de Brown: a disposição declarada de atormentar o Presidente-de-ébano e os obamófilos de todo o mundo.
Brown fez da discussão mais importante do país, o assunto principal em Massachusetts. Mostrou aos eleitores, por exemplo, que o plano de Obama e dos Democratas – que era aquele de Ted Kennedy – acabaria por drenar uma infinidade de dinheiro para o Estado, sem que houvesse nenhuma garantia de sucesso para o plano de reforma da saúde. O Republicano jogou no colo de sua rival, Martha Coackley, a contradição essencial do projeto Democrata: como tornar prática a universalização do seguro-saúde, se a questão da imigração ainda não foi abordada? Ora, eu simplesmente não posso prometer que toda pessoa residente na América terá acesso à saúde, enquanto não reconhecer a enormidade de imigrantes que residem na América!
Ao deixa isso evidente, Brown mostrou aos eleitores de Massachusetts que o plano de Obama, tal qual apresentado hoje, não passa de uma maneira segura de meter a mão nos bolsos dos cidadãos, sem ser importunado. E, querem saber? É exatamente isso!
Volta e meia eu afirmo que os Estados Unidos são melhores que nós. E melhores em tudo! Por quê? Ora, lá o povo – vejam que coisa fascinante! – se sente ameaçado com as tentações de agigantamento do Executivo. Bastou Obama vir com essa conversa de “preciso tirar o dinheiro de vocês para salvar o mundo” e pronto: o sentimento de “opa, fizemos besteira” aflorou rapidamente.
Desde a eleição do Messias, há um ano, a “era Obama” tem sido um sucessão interminável de fracassos. Toda eleição regional que disputou, Obama perdeu. E, sim! Foi ele mesmo quem perdeu. Não apenas os Democratas, nem só os candidatos de ocasião. Todas as derrotas foram derrotas pessoais de Obama, principalmente porque ele está demorando a se dar conta de que os americanos o enxergam como aquilo que é: um homem.
O “mito Obama” durou exatamente até o dia da eleição. A partir de então, o ser humano tratou de dar cabo de toda retórica ufanista, de toda a cantilena mudancista que pretendia nos conduzir a um novo Éden.
Quando Obama ficou nervosinho ao ver que Brown fez os eleitores de Massachusetts esquecerem Coackley, a adversária real, e se concentrarem no Presidente, mordeu a isca dos Republicanos e se abalou, com comitiva e tudo, decidindo assumir as rédeas da campanha. A partir de tal momento, a disputa, que estava acirrada, ficou mais fácil para o GOP, como é conhecido o Partido Republicano nos EUA.
Sempre que Obama tentou personalizar alguma questão nos Estados Unidos, se deu mal. Está a cada dia mais evidente que os eleitores de lá parecem sinceramente aborrecidos com a escolha feita há um ano, quando deixaram a esperança vencer os fatos… É por isso que cuidam de surrar Obama e os Democratas sempre que têm chance. É por isso também que vão tirar do partido do governo o controle do Legislativo, em novembro próximo, a fim de impedir que Obama faça besteiras até o final do mandato.
Então, vão sentar e esperar que chegue 2012, quando poderão consertar a grande besteira que fizeram. A única chance que Obama tem de permanecer na Casa Branca – vejam que coisa! – é capturar Osama Bin Laden. Ou seja, a última esperança do homem da mudança vai ser se agarrar aos planos do demônio aposentado, George W. Bush. Este, por sinal, era mais popular do que Obama ao final do primeiro ano de mandato…
Eu, que desde sempre fui cético quando à capacidade administrativa de Obama, um ongueiro de esquina disfarçado de estadista, duvido muito que ele consiga balançar a cabeça de Bin Laden em praça pública, ganhando de volta o apreço dos americanos. Sendo assim, acho mesmo que o mandato dele é apenas um estorvo entre as eleições de 2008 e 2012, nada mais.
O problema é que as reiteradas trapalhadas políticas do sujeito, aliadas a sua sanha “liberal”, estão vitaminando a ala mais radical do conservadorismo americano. Em resumo, Obama pode ser responsável, de uma só tacada, pela reabilitação histórica de Bush, bem como pela eleição de Sarah Palin. E olhem só: eu até acho, contra o consenso mundial, que Bush não foi lá o demônio que tantos pintaram. Também acho a “hockey mom” algo mais que um rostinho bonito. Mas acredito que os Republicanos têm coisa bem melhor a oferecer aos Estados Unidos. Melhor que Obama, pelo menos, com certeza têm.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento










