Por Yashá Gallazzi*
Vou iniciar a coluna desta semana pedindo algumas desculpas. Preciso, por exemplo, me desculpar com o editor do site, nosso querido Bruno Kazuhiro. Isso porque, simplesmente, não consigo escrever nada sobre política hoje, “desrespeitando”, assim, a delimitação do tema que deveria rotineiramente ser abordado nas colunas.
Devo pedir desculpas a todos vocês, leitores do site. Isso porque todos merecem ler opiniões acerca dos grandes acontecimentos verificados no Brasil e no mundo, e não qualquer outra coisa que pareça, à primeira vista, menos importante.
Mas por que, afinal, tantas desculpas? Porque não consigo me concentrar em nada que não seja a pequena pessoa que caminha – com passos furtivos e incertos – ao redor da mesa onde digito estas linhas, grunhindo sílabas desconexas que soam, aos meus ouvidos enternecidos de pai, como uma declamação poética das mais belas.
Meu filho completou ontem, quinta-feira, seu primeiro ano de vida. Há um ano essa pequena criaturinha transformou minha vida – e a da minha esposa -, ensinando uma outra vertente daquele sentimento chamado de amor. Ele se tornou, como é fácil presumir, o centro de tudo. Nossos planos se dão em função dele, nossos horários são ajustados aos dele e nossos esforços buscam fazê-lo feliz. Há um ano, o menino faceiro que sorri para mim agora tomou as rédeas dos meus dias. Acho justo que neste momento tão especial ele tome a rédea do de vocês – pelo menos por um momento.
Uma coisa um tanto embaraçosa, mas muito verdadeira, é que ser pai me empurrou para um mar interminável de clichês e lugares-comuns. Eu não posso deixar de dizer, por exemplo, que “a paternidade muda as pessoas”. Ou que “o milagre da vida é fantástico”. Todos já ouvimos algo assim em algum momento, mas só passamos a ter noção exata da coisa toda quando o pequeno passa a existir em nossas vidas.
Você revê inevitavelmente os próprios conceitos quando percebe que cólicas atrozes, capazes de durar uma noite inteira, são muito – mas muito mesmo! – mais importantes do que uma guerra no Oriente Médio, ou um mensalão de quem quer que seja. Como sentar para escrever sobre o terrorismo promovido pelo fascismo islâmico, se o próprio filho não consegue dormir em razão da dor que o nascimento dos primeiros dentes causa? Acreditem: ser pai é, antes de mais nada, entender que o resto é apenas o resto.
Muitos dizem que a paternidade deixa o homem mais otimista com o futuro. Eu acabei ficando ainda mais cético – talvez até um tanto mais pessimista. Isso porque você percebe que tudo pode literalmente ir para o inferno, desde que o seu pequeno bebê esteja ternamente protegido. Ao mesmo tempo, a indignação inerente a todos que buscam um mundo melhor passa a aflorar com ainda mais força, pois somos naturalmente compelidos a construir uma realidade melhor para o futuro do pequeno. Afinal, trata-se de alguém que depende de mim, do meu suporte, dos meus atos.
Biocombustível? Redução da poluição? Solução para a emissão de carbono? Questões menores diante de um bebê que começa a engatinhar pela casa, descobrindo seus espaços e o mundo que o cerca. Pré-sal? Enriquecimento do País? Como tais coisas podem ser importantes, se o meu filho descobre a arte de dar os primeiros passos? Obama? Dilma? Serra e Aécio? Perdoem este pobre pai, mas nada pode ser maior do que a fala desengonçada destes últimos meses, nos quais o pequeno aprendeu a dizer “mamã” e “papá”.
Isso soa um tanto alienado? Um tanto egoísta? Sim, é claro! Ser pai é descobrir a certeza de que o indivíduo é mesmo o cerne da civilização, e que nenhuma “coletividade”, nenhuma “maioria” terá jamais a importância que aquele pequeno indivíduo tem para você.
A paternidade, meus caros, tem até mesmo o condão de mexer com nossas mais íntimas convicções. Depois de ser pai, por exemplo, passei a ter algo – como direi? – “pessoal” contra o comunismo. Além de todas as restrições de natureza política e filosófica, me descobri repudiando aquela ideologia simplesmente porque nada de bom poderia jamais sair da mente de um sujeito como Marx, que não exitou em abandonar os próprios filhos à miséria, enquanto tentava juntar dinheiro para “mudar o mundo”. Como respeitar quem não respeita um filho?
Ser pai também nos leva a rever opiniões tidas como imutáveis. Eu era favorável à descriminalização do aborto, por considerar tudo matéria apenas individual. Minhas certezas foram engolidas pelo som do coraçãozinho dele, pulsando ainda dentro do ventre da mãe. Então, de repente, surge a epifania: “Não! Acabar com esse som maravilhoso é assassinato!” Simples assim. É por ser pai que eu insisto, vez por outra, na grandeza da chamada civilização ocidental: nós protegemos e amamos nossos filhos, ao passo que algumas outras culturas – ainda! – sacrificam os seus…
Mas não pensem que pretendo ser profundo. Nada disso! Meu filho me ensinou coisas muito mais simples, como a importância da abóbora e do brócolis. Ao mesmo tempo em que me forçou a elevar a fritura ao posto de inimiga pública número um da Humanidade.
Por falar em inimigos, esqueçam Bin Laden e Ahmadinejad. São apenas dois paspalhos! O maior perigo do mundo se chama virose. Eu “votaria” em Obama, caso ele descobrisse uma cura para tal desgraça…
De resto, não farei como tantos pais que existem por aí, pródigos em ficar falando sobre a beleza e a grandiosidade dos próprios filhos. É desnecessário fazê-lo. Vocês todos, leitores inteligentes deste site, provavelmente acreditam que meu filhote é lindo, inteligente e esperto. E, não! Não estou exagerando. Confiem em meu julgamento “totalmente isento”.
O mais fascinante de tudo, porém, é a percepção libertadora de que nada mais, além do pequeno – e do seu núcleo familiar – pode ganhar mais importância que o devido. O que é uma carreira profissional, quando se assiste aos primeiros passos do filho? Você se torna pai e percebe que nunca poderá encontrar um “emprego dos sonhos”, pois já o tem. Aninhar o filho nos braços e fazer qualquer dor ir embora é a melhor profissão que pode existir, acreditem.
Ao segurar o filho nos braços pela primeira vez, surge aquele sentimento ímpar de que qualquer coisa pode – e deve! – ser feita para que ele tenha sempre a melhor segurança e a maior felicidade. “Por que viemos ao mundo?”, indaga uma das maiores proposições filosóficas de todos os tempos. Simples: para fazer felizes aos nossos.
Sabem por que não acredito em revolução ou, em outras palavras, por que acredito tanto no indivíduo? Porque “a única revolução possível é a de dentro de nós”, como afirmou Ghandi certa vez. E como se faz tal revolução? Construindo uma família e recebendo com amor os filhos confiados por Deus. É só então – e apenas então – que se pode compreender com perfeição a ideia de sacrifício pelo outro. Sem a alegria dele, nada mais importa. Na alegria dele, tudo o mais ganha esplendor. Por isso o ano que passou foi tão maravilhoso. O mais maravilhoso de todos os anos.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento










