Postagens com a palavra-chave ‘Franco’

Coluna do dia: Imagine

20/08/2010

Por Yashá Gallazzi*

Imaginem um presidente brasileiro conservador. Aliás, mais do que isso: imaginem um presidente de extrema-direita. Sim, eu sei que não é fácil, afinal o Brasil está acostumado a ter há décadas, uma disputa entre as várias matizes da esquerda, sem que haja um representante sequer da direita.

Mas, ainda assim, peço um esforço a vocês. Tentem imaginar, apenas por um momento, que o Brasil tem um presidente extremista de direita. Feito isso, imaginem que o sujeito tenha escrito uma carta mais ou menos nos seguintes termos:

“Queridas Companheiras e Companheiros

Há 20 anos, 42 partidos e movimentos conservadores da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo – convidados por nós – para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

Vivíamos tempos difíceis no início dos anos noventa.

Em muitos países começava a ganhar força um discurso radical de esquerda, alimentado por líderes oposicionistas carismáticos, como Lula da Silva e Hugo Chávez, inspirados no exemplo do tirano homicida chamado Fidel Castro. Esses caudilhos ameaçavam as democracias vigorosas e dificultavam a luta dos trabalhadores.

Pairava sobre nosso Continente a ameaça de um novo espectro comunista.

(…) A predominância dessas idéias de extrema-esquerda, era reforçada pela profunda crise das referências tradicionais da direita radical. Suas políticas não permitiam explicar a realidade mundial mas, sobretudo, mobilizar as grandes massas.

A reunião de São Paulo e tantas outras que se seguiram nestes 20 anos tiveram como mérito fundamental criar um espaço democrático de conhecimento e de discussão das extremas-direitas. Esse espaço não existia, muitas vezes, nem mesmo em nossos países.

(…) Hoje, nossa região vive uma situação radicalmente diferente daquela de vinte anos atrás. Muitos dos que nos encontramos no passado nas reuniões do Foro de São Paulo como forças de oposição, hoje somos Governo e estamos desenvolvendo importantes mudanças em nossos países e na região como um todo.

(…) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma esquerda que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos de extrema-direita do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(…) O Brasil mudou e vai continuar mudando nos próximos anos.

Mudou junto com seus países irmãos do Continente.

Mudou como está mudando a Argentina que agora acolhe mais este encontro do Foro de São Paulo.

Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro”

Continuando o nosso exercício de imaginação, considerem que os destinatários da carta acima, assinada pelo presidente brasileiro de extrema-direita, sejam integrantes de partidos com inspiração em Mussolini, Pinochet, Franco, bem como em herdeiros políticos dos militares que governaram Brasil e Argentina durante décadas de ditadura. Imaginem, assim, que tais movimentos políticos sejam as forças políticas integrantes do tal Foro de São Paulo.

Ah, quase esqueci! Considerem também que, além dos movimentos políticos acima mencionados, essa entidade representativa das extremas-direitas da América Latina contasse, ainda, com a participação de um grupo paramilitar, conhecido internacionalmente por sequestrar, torturar, estuprar, matar e traficar drogas.

Como a opinião pública reagiria diante de semelhante organismo internacional? O que diriam a OAB, a CUT, o MST e a CNBB? Qual seria o posicionamento da imprensa e dos intelectuais brasileiros a respeito? Como se comportaria a academia brasileira? Gente como Emir Sader, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim diriam o quê?

Ora, não é difícil concluir que o mundo desabaria sobre a cabeça do tal presidente brasileiro de extrema-direita, não é mesmo? E com razão! Um fórum com clara inspiração fascista e totalitária, formado por movimentos cujo ideário descende de tiranias assassinas, não mereceria mesmo respeito algum! Vou além: não mereceria sequer existir! A democracia não pode, por amor aos seus princípios, tolerar a existência daqueles que, se pudessem, os destruiriam.

Agora, diante de tudo o que vai acima, considerem que o tal Foro de São Paulo realmente existe, e que não é apenas fruto de um exercício de imaginação proposto por mim. Considerem ainda que ele realmente é composto por partidos e movimentos políticos de inspiração ditatorial, e que tem entre seus membros um grupo paramilitar como o descrito ao alto. Mas atentem para o seguinte: considerem que ele não é de extrema-direita, mas de esquerda.

O que custo a entender, o que não me parece nada lógico, é o seguinte: por que repudiamos – acertadamente, diga-se! – um Foro de São Paulo de extrema-direita, mas aceitamos um de extrema-esquerda? Por que seria escandaloso um presidente brasileiro mantendo relações com partidos inspirados em Mussolini e Franco, mas não causa escândalo algum ver Lula sentando à mesa com gente que se espelha em Stalin e Mao Tse-Tung? Por que seria inadmissível ver o governante do país chamando um grupo paramilitar de direita de “companheiro”, mas é aceitável que o presidente atual derrame abertamente seu amor pelas FARC?

Que deturpação descabida de valores morais é essa, capaz de nos levar a rejeitar o nazismo e o fascismo, ao mesmo tempo em que ainda nos faz parecer aceitável conviver com o socialismo e com o comunismo? Se concordamos todos em rejeitar uma das faces do horror, por que não concordamos também em rejeitar o horror por inteiro? Por que o totalitarismo de esquerda é tolerado no Brasil, a ponto de termos no poder um presidente que mantém relação pessoal de amizade com Fidel Castro? Por que o “terrorismo progressista” é tolerado no Brasil, a ponto de termos um presidente que se senta à mesa com as FARC?

Ou, para colocar as coisas de uma outra forma, a ponto de termos uma candidata que militou em grupos paramilitares, aqui mesmo no Brasil, com grandes chances de se tornar presidente?

Esta é, enfim, a curiosidade antropológica que mais me instiga no momento presente. Sei que o povo mais pobre, aquele sustentado pela bolsa-esmola oficial, não dá a menor importância para escolhas políticas e ideológicas. Escolheria um tirano (de esquerda ou de direita, tanto faz), se este garantisse o saldo do cartãozinho de benefício social ad eternum. Mas e a porção “pensante” do país? E a academia? E o jornalismo? Por que ainda há gente que não se escandaliza ao perceber que o principal partido do Brasil – assim como o principal líder político da atualidade – tem, sim, bandidos de estimação?

Não me assusta que o PT tente esconder o Foro de São Paulo, ou, por vias oblíquas, diminuir a importância dele. Não me assusta que marqueteiros de plantão se ocupem em fazer apenas a tal “campanha positiva”, exaltando até aquilo que nunca foi feito. Isso é do jogo. O que me assusta é notar que o mesmo país capaz de se escandalizar com o Fiat Elba de Collor, com os dólares de Roseana ou com a cueca daquele petista, não veja nada de errado em uma carta na qual Lula confessa sua relação direta (e antiga!) com a escória da América Latina.

Temos, assim, a prova de que o terror foi relativizado, criando-se, assim, o terrorismo – e o totalitarismo – “do bem”. Como é pra ajudar “ozoprimido”, na tentativa de construir o tal “outro mundo possível”, então tá tudo certo.

Em qualquer sociedade minimamente civilizada, aquela carta de Lula seria motivo para “impeachment”. Entraria para a história como “a carta testamento” do petista: aquilo que acabou com sua presidência e com as chances do seu partido de continuar no governo. Mas o Brasil atual, de civilizado, tem muito pouco.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Moral única – Uma boa resolução de ano novo

01/01/2010

Por Yashá Gallazzi*

Alguém aí faz resolução de ano novo? Sim?! Ótimo! Querem uma sugestão? Lá vai: não tenham bandidos de estimação!

Trata-se do melhor – e mais útil – conselho que eu poderia dar a vocês, leitores. Acreditem: é libertador encarar o mundo e os fatos com olhar altivo e com a consciência limpa. É fascinante poder enfrentar qualquer debate, qualquer discussão, sem precisar fazer contorcionismo a fim de defender este ou aquele meliante.

Antes, porém, cumpre fazer uma pequena advertência: ao abdicar de defender bandidos, o leitor estará se afastando de forma inequívoca e definitiva dos extremos político-ideológicos. A esquerda e a direita mais radicais, portanto, não poderão ter mais vez.

Sabem o que aconteceu no STJ, há coisa de alguns dias? Por meio de uma decisão liminar, a chamada “Operação Satiagraha” foi suspensa. E daí? Daí que Daniel Dantas, aquele mesmo que foi escolhido como símbolo maior dos males brasileiros, vai se safar de todas as acusações.

Culpa da corrupção? Da morosidade do Judiciário? Das leis brasileiras? Que nada! A culpa, meus caros, é de Protógenes Queiroz, aquela “otoridade”, que achou por bem estuprar uma infinidade de garantias individuais previstas na Constituição, a fim de fazer “justissa cás pópria mão”.

Protógenes, que chegou a dizer que queria ser carcereiro de Dantas, ficaria muito melhor do lado de dentro da cela, ao lado do bandido. Não há diferença essencial entre os dois: ambos subjugaram as leis e atacaram o Estado de direito, promovendo a infração e a injustiça. Aliás, neste aspecto, há, sim, uma diferença fundamental entre eles: Protógenes cometeu seus crimes com a desculpa de que lutava por um “bem comum”.

O STJ cuidou apenas de aplicar a lei, jogando por terra uma investigação que nasceu viciada por ilegalidades. “Ah, mas era contra o Dantas!” E daí? Fosse contra o demônio, eu estaria aqui dizendo o mesmo: não se pode fazer concessões à ilegalidade em nome de nenhuma “causa” supostamente redentora. Protógenes violou a lei – e desafio qualquer um a demonstrar que não a violou – para prender o bandido? Pouco importa. Todo fascismo começou prometendo caçar delinquentes.

“Então você defende Dantas!”, gritam aqueles que têm duas morais. Eu? Eu quero mais é que ele vá pro diabo! Que seja preso, processado e condenado! Mas – atenção agora! – tudo de acordo com as leis e o direito, afinal, vivemos em uma democracia, não é mesmo? Saibam, meus caros, que ninguém precisa piscar um olho para a ilegalidade a fim de defender a justiça.

Lembram que eu mencionei bandidos de estimação? Pois é, não os tenho. Afirmei de forma categórica que Dantas merece a cadeia, de preferência pelo resto da vida. Da mesma forma, afirmo que Protógenes merece o mesmo destino, afinal, assim como o tal “banqueiro bandido”, o “dotô” delegado também violou leis e fez vítimas inocentes.

Viram que coisa mais libertadora? Eu, apoiado apenas em minha moral única e franca, posso defender a prisão para todo tipo de bandido, sem fazer concessões de ordem ideológica. O mesmo acontece no caso dos vários mensaleiros. Impeachment e cadeia para Arruda! E o mesmo para Lula, Dirceu, Genoino, Azeredo e companhia.

Os radicais da esquerda não poderão jamais me acompanhar, afinal, eles condenam Arruda com a mesma facilidade com que defendem Lula. Se formos um pouco além, veremos que essa mesma turma consegue defender, até hoje, regimes assassinos como os de Stálin, Mao e Castro.

Os extremistas da direita, de igual forma, estão presos às carcaças de gente espúria como Hitler, Mussolini, Pinochet e Franco. Eles precisam defender seus bandidos, e o fazem ao mesmo tempo em que condenam os bandidos dos outros…

Eu? Bem, eu sou um tantinho mais livre que essa turma toda. E sabem como isso funciona? Simples: basta ter apenas retidão moral e de princípios. Em outras palavras, é preciso chamar bandido de… bandido! Seja ele um banqueiro fraudador e corruptor, ou um delegado que se vale do aparelho do Estado para vilipendiar garantias individuais.

Eu prometo que neste novo ano continuarei apontando o dedo para todos os bandidos, sem exceção. Continuarei condenando a todos de forma igual e determinada, defendendo apenas a verdade.

Será que os extremistas – de esquerda e de direita – topam fazer a mesma promessa?

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Jorge Semprún, que lutou contra Franco, diz não ser vítima do franquismo

10/07/2009

Jorge Semprún, para quem não sabe, é espanhol e foi membro da resistência francesa durante a ocupação nazista, tendo sido detido e sobrevivendo ao Holocausto.

Mais tarde,  continuou na luta e passou a ser ativista contra o regime de Franco na Espanha, participando, na clandestinidade, do Partido Comunista espanhol.

Pois bem. Em uma entrevista recente, Semprún foi perguntado a respeito de se sentir, ou não, uma vítima do franquismo.

A resposta foi a seguinte: “Não me considero vítima do franquismo. As vítimas são aqueles que sofreram a repressão com passividade. É uma distinção que faço… mas, como lutei contra, não me considero vítima, mas ator nesse período histórico. A reconstrução da democracia na Espanha fez triunfar os valores democráticos que eram os dos vencidos na Guerra Civil.”

Faço este registro por um simples motivo: É um ótimo exemplo para aqueles que lutaram com coragem contra a ditadura brasileira, se opondo corretamente e heroicamente à repressão, mas que, mais tarde, entendendo que deveriam ser recompensados financeiramente, e não apenas  com a gratidão de todo um País, por uma batalha que empreenderam voluntariamente e por um ideal, requereram a “Bolsa-Ditadura”.

A pergunta que me vem à cabeça é sempre a mesma: Se a luta dos que batalharam contra o regime militar no Brasil era pela democracia e pelo nosso País, porque pedem compensação financeira? A abertura política, a democracia brasileira e a liberdade de expressão, conseguidas, não eram os objetivos da luta?

Entendo e defendo os que requerem indenização por terem perdido parentes, ficado inválidos ou sido torturados.

Mas não compreendo os que, por apenas terem participado de grupos clandestinos, ou até algo mais brando, querem ser sustentados pelo Estado brasileiro.

Vocês lutaram por algo e conquistaram. Sintam-se felizes e satisfeitos. Verdadeiros heróis. Mas não tentem levar vantagem, já na terceira idade, com isso.

Aprendam com Semprún.