Postagens com a palavra-chave ‘15. FHC’

Coluna do dia: PAC, campanhas e o estelionato eleitoral

30/03/2010

Por Arthurius Maximus*

O governo federal “lançou” o PAC 2. Um conjunto magnífico de obras e investimentos que deverá colocar o Brasil na ponta de lança do desenvolvimento na América do Sul.

Pois é, isso é o que eles vão dizer e no querem que você acredite. O PAC 2 é simplesmente mais um estelionato eleitoral do governo Lula. Para comprovar essa afirmação, nem é preciso efetuar cálculos estatísticos mirabolantes ou fazer investigações sigilosas e intrincadas pelos meandros da máquina governista. Basta ler os próprios relatórios emitidos pela administração federal.

Mesmo hoje, anos depois do lançamento do PAC, o programa não conseguiu transformar em realidade nem 15% das obras previstas e mais da metade sequer saíram do papel. Apesar desses números “magníficos”, mais da metade do orçamento previsto para o programa foi investido e ainda restam saldos a pagar (dívidas) da ordem de 35 bilhões de reais.

Isso é, claro, cuidadosamente escondido da opinião pública e empurrado, com gosto, para a loteria eleitoral que pode deixar uma bomba relógio para a próxima administração (no caso de Dilma perder) ou fazer o Brasil ficar em maus lençóis futuramente (no caso de Dilma ganhar e se mascarar ainda mais o problema).

Assim como FHC maquiou os resultados econômicos para garantir a sua reeleição, Lula faz o mesmo e mascara a enorme dívida que o PAC está deixando. Não satisfeito, lança o PAC 2, mesmo diante dos problemas ainda enfrentados pelo primeiro programa, preferindo correr o risco de lançar o País num caos econômico futuro a refrear sua sanha de poder.

É bom lembrar que, na época de FHC, a “pequena manobra contábil”, levou o País para a beira do precipício e quase decretamos falência. Quem não se lembra da situação crítica de nossa economia ao fim do segundo mandato de FHC? O País estava com as reservas exauridas, os credores batiam ferozmente às nossas portas e os índices de risco estavam nas alturas.

Em nosso País, os políticos não possuem a visão necessária a um estadista. Pensam sempre muito mais em seus próprios planos de poder e em seus umbigos do que no futuro e no desenvolvimento da nação. Infelizmente, para governantes como Lula e tantos outros iguais a ele, um País sempre em perigo constante de um colapso, com pobreza extrema e uma grande massa de sequiosos desassitidos é uma fonte inesgotável de votos e um manancial de popularidade para os que se intitulam “salvadores da pátria” ou “messias reencarnados”.

Muito mais do que preocupação sincera com o desenvolvimento da nação ou com a melhoria das condições de vida do povo, eles querem mesmo é cuidar do desenvolvimento e das melhorias de condições de vida deles mesmos e de seus apadrinhados.

Cabe ao eleitor informar-se melhor e aprender definitivamente a ler nas entrelinhas das campanhas caras e bonitas, do apelo emocional, das metáforas popularescas e, principalmente, da propaganda bancada a peso de ouro.

Mudar, crescer e evoluir só depende de nós.

*Arthurius Maximus, escrevendo excepcionalmente em uma terça, é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Coluna do dia: Serra versus Dilma – O que esperar do Ibope?

16/03/2010

Por Alexandre Campbell*

No sábado, o colunista Lauro Jardim levou às páginas da Veja a informação de que a próxima pesquisa CNI/Ibope sobre a sucessão presidencial, prevista para ser divulgada amanhã, mostraria um empate técnico entre o Governador de São Paulo, José Serra (PSDB) e a Ministra Dilma Rousseff (PT). Com um detalhe: Dilma numericamente pela primeira vez à frente de Serra: um ponto percentual.

A informação causou alvoroço no cenário político. O PSDB desmentiu que tenha tido acesso a esta pesquisa. Ontem, Renata Lo Prete publicou na Coluna Painel, na Folha de S. Paulo, a seguinte nota:

“Bola de cristal. Nas contas do PSDB, Serra aparecerá na próxima pesquisa com algo em torno de 3 a 7 pontos percentuais à frente da candidata petista, Dilma Rousseff.”

A Agência Reuters disparou notícia mais ou menos no mesmo caminho: assegurando que Serra permaneceria à frente, com uma vantagem de três a sete pontos. Quem estará certo? Só amanhã saberemos. É preciso considerar ainda que Folha e Reuters possam estar falando de cenários diferentes. Com Ciro na parada, as últimas pesquisas mostraram que Serra se sai melhor, por exemplo.

Independente dos números, a CNI/Ibope não deve trazer grande novidade, além do óbvio crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de votos, fenômeno que vem sendo registrado por todos os levantamentos.

Mais importante que isso será observar uma das inúmeras perguntas contidas no questionário, em que o Instituto quer saber se o eleitor prefere votar em um candidato “apoiado pelo Presidente Lula”, de “oposição ao Presidente Lula” ou “não vai levar em conta o apoio do Presidente Lula para votar”.

Se o índice de eleitores que escolher a opção “apoiado pelo Presidente Lula” for superior às intenções de votos em Dilma, saberemos que ela ainda tem uma margem de crescimento. Se estes números se equivalerem, estaremos então próximos do “teto pré-eleitoral” de Dilma. Ela pode continuar avançando entre aqueles que “não vão levar em conta o apoio do Presidente Lula para votar”, mas será numa proporção bem menor e com mais dificuldade.

É preciso entender que “o apoio do Presidente Lula”, hoje, é o fator mais importante (senão o único) para justificar os índices de Dilma, mas não é suficiente para assegurar a eleição da Ministra. O que as pessoas costumam chamar de transferência de votos (e que pode fazer com que a Ministra se eleja) têm outros componentes, como a satisfação do eleitor com a vida que leva, a avaliação positiva do governo, etc.

São situações que não levam diretamente ao voto no candidato oficial, mas lhe criam um ambiente favorável. E por outro lado criam uma dificuldade para o candidato da oposição que precisa encontrar um discurso de quem promoverá avanços sem rupturas, fugindo da comparação que o Planalto tentará impor com o governo de Fernando Henrique.

Resumindo: o ambiente é favorável para a petista, que iniciará a campanha com um patamar elevado. É a candidata da “continuidade”. Mas daqui para frente iniciará um outro momento da sucessão eleitoral em que o crescimento se dará em um ritmo mais lento.

O eleitor vai querer conhecer também a “Dilma”, não apenas a “candidata de Lula”.

*Alexandre Campbell, colunista do Perspectiva Política às terças, é jornalista, estudante de Marketing Político e autor do Blog do Campbell, onde escreve diariamente sobre política.

Artigo: Ruy Fabiano – O PT e o centenário de Tancredo

08/03/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre a história do PT e a comparação entre o início da trajetória do partido e a legenda de hoje. Com maestria, cita os fatos, sem ilações, demonstrando as mudanças de posicionamento que vão sendo justificadas sob a bandeira do “pragmatismo”.

Destaque para o trecho: “Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.”

Fabiano novamente diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

O PT e o centenário de Tancredo

Ruy Fabiano*

A ausência do PT nas celebrações, promovidas pelo Senado na quarta-feira, pelo centenário de Tancredo Neves, guarda coerência com a história do partido.

Embora hoje sustente o contrário, o PT foi beneficiário, mas não protagonista (em alguns momentos, nem coadjuvante) do processo de redemocratização.

Chegou a combater algumas de suas iniciativas, como a candidatura do próprio Tancredo Neves à Presidência pelo colégio eleitoral, em 1984. Além de não apoiá-lo – considerando que tanto fazia elegê-lo como a Paulo Maluf -, expulsou três de seus deputados (Beth Mendes, José Eudes e Airton Soares) que decidiram sufragá-lo.

Quando da promulgação da Constituição de 88, anunciou que não a assinaria, por achá-la conservadora. E só o fez, sob protesto, por instâncias de Ulysses Guimarães, que pedia uma chance para aquele momento que se inaugurava.

Mesmo na campanha das diretas – e isso é fato histórico -, não estava na sua gênese. Incorporou-se à campanha quando já estava nas ruas e atraía multidões.

Não obstante, todas essas iniciativas, de que manteve asséptica distância, o beneficiaram, deram-lhe visibilidade. Mas o partido sustentava que não lhe era conveniente manter proximidade de políticos tradicionais, como Franco Montoro, Leonel Brizola, Tancredo Neves ou Ulysses Guimarães. Considerava-os, sem distinção ideológica, farinhas do mesmo saco.

A política deles era promíscua, enquanto a do PT guiava-se por paradigmas de pureza. Lula desdenhava do trabalhismo varguista, de Brizola, considerando-o superado e de índole pelega. O seu era diferente, moderno, distanciado do Estado.

Recusou alianças e manteve-se, até chegar ao poder, numa redoma de impenetrável sacralidade. Recusou todas as frentes oposicionistas que se armaram para enfraquecer o último governo militar, do general João Figueiredo, o que suscitou suspeitas de que agia sob a inspiração do estrategista do regime, general Golbery.

O partido esteve na linha de frente do impeachment de Collor, mas recusou integrar o governo Itamar, expulsando Luiza Erundina, por tê-lo aceito.

Expulsaria mais tarde, em 1996, o deputado Eduardo Jorge, por ter votado a favor da CPMF, que o partido então combatia, mas que Lula, na Presidência, considerou imprescindível para governar o país. Só não expulsou os mensaleiros e aloprados.

A primeira aliança admitida foi com Leonel Brizola, que, embora com muito mais bagagem e história, se submeteu a ser vice na chapa de Lula, em 1998.

Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.

Ao finalmente se eleger, em 2002, incorporou-se ao “mesmo saco” das farinhas que execrara. Buscou alianças conservadoras com o PMDB, PL (hoje, PRB, do vice José Alencar), PTB et caterva.

Criticava o neoliberalismo dos tucanos, mas buscara o seu vice no Partido Liberal. Criticava a política monetarista do Banco Central, mas escolheu um banqueiro tucano, Henrique Meirelles, para presidi-lo.

Condenava a política assistencialista da Bolsa Educação e dos vale-gás e vale-alimentação, mas incorporou-as sob o rótulo Bolsa Família, que se transformaria no carro-chefe de seus dois governos.

Lula depois esclareceria, algo que antes não se percebera: que era (é) uma “metamorfose ambulante”. Mas, embora mostre sintonia com o que há de mais condenável nas tradições políticas nacionais, insiste em que refundou o Brasil, idéia que, sob o bordão “nunca antes neste país”, permeia a quase totalidade de seus discursos.

Ao revogar tudo o que se fez, de Cabral (o Pedro Alvarez, não o Sérgio) a FHC, não há mesmo por que celebrar o centenário de Tancredo, algo que, para os petistas, equivale a uma peça de ficção.

O Brasil petista começa com Lula e prossegue com Dilma. Apossa-se do que de bom produziu o Brasil anterior, sonegando-lhe a autoria, e atribui o que há de ruim, inclusive o produzido sob sua égide, aos antepassados. Vale-se do desconhecimento que o povo tem da história, recente e remota, para convencê-lo de sua encenação.

Pior: consegue.

*Ruy Fabiano é jornalista

Artigo: Marcos Coimbra – O comparável e o incomparável

17/02/2010

O blogueiro tem o hábito de ler diversos artigos de analistas políticos. Assim, acompanha as opiniões, observa os entendimentos divergentes e embasa seus posicionamentos a partir de uma interpretação própria do todo, somada à intuição que é trazida pela experiência que vai sendo acumulada com o blog.

De vez em quando, alguns artigos falam, exatamente, o que pensa o blogueiro sobre o momento político. Acontece muito com artigos do jornalista Ruy Fabiano. Dessa vez, ocorreu com artigo de Marcos Coimbra, diretor do Instituto Vox Populi e colunista do Correio Braziliense.

Quando isso acontece, reproduzo, no Perspectiva, o artigo, por tratar-se de opinião próxima à do blog, o que mantém um entendimento sistemático do cenário, além de ser texto que é útil para auxiliar a compreensão, pelo leitor, da conjuntura político-eleitoral.

Sendo assim, reproduzo abaixo o artigo de Marcos Coimbra, até porque este faz uma análise primorosa da cabeça do eleitor nos primeiros parágrafos:

O comparável e o incomparável

Marcos Coimbra*

Alguém imagina que Lula quer fazer, na eleição deste ano, uma guerra com Fernando Henrique em torno de números sobre o desempenho de seu governo? Que o plebiscito que persegue há tanto tempo consiste nisso, uma batalha de estatísticas de performance governamental?

Quem acha que é isso que Lula quer, se engana. Não é essa a eleição para a qual ele se prepara desde o fim de 2007, quando sua popularidade cresceu ao ponto de tornar possível que não só escolhesse sozinho quem representaria o governo na eleição, como que sua indicada tivesse boa chance de vitória.

O plebiscito que ele imaginou para vencer um candidato tão forte quanto José Serra é diferente. Nele, pode ser até necessário passar pela comparação do que fizeram os dois governos, área por área, política por política. Mas sem permanecer nesse plano, de resultados objetivos cotejados com resultados objetivos.

Lula, amplo conhecedor do eleitor brasileiro (não fosse ele calejado por oito experiências de buscar seu voto, contando apenas as candidaturas presidenciais, nos dois turnos que disputou), sabe que é ínfima a proporção de pessoas que escolhem assim seu candidato. Aliás, não é pequena apenas no Brasil, mas no mundo inteiro (países desenvolvidos incluídos), a parcela do eleitorado que opta em função de cálculos desse tipo.

Em primeiro lugar, é sempre pequena a fatia da população que se interessa por questões político-administrativas. Ainda menor é a que compreende estatísticas e raciocínios cheios de números, porcentagens e coisas do gênero. Um discurso sobre o tema, recheado com elas, entedia até o eleitor escandinavo.

Em segundo, o cidadão comum olha com cautela todo número que não entende bem. Nem que seja intuitivamente, sabe que as estatísticas podem dizer qualquer coisa, dependendo de quem as apresenta. Não há prefeitura, governo de estado ou administração federal que não desfile seus números para provar que faz tudo certo, assim como não há oposição que não exiba os dela para demonstrar o inverso.

Como o eleitor não confia inteiramente em ninguém e não tem elementos próprios para saber de que lado está a verdade, prefere, na maior parte das vezes, ignorar o bombardeio que sofre. Os números entram por um ouvido e saem por outro.

Mas o mais importante é que os eleitores que se interessam por essas comparações e que têm os requisitos de informação para compreendê-las são os que menos estão disponíveis para o proselitismo dos candidatos.

Eles costumam ser mais politizados, mais bem informados e mais posicionados em termos partidários e ideológicos. Por isso, costumam se definir eleitoralmente mais cedo e tendem a permanecer indiferentes ao discurso dos candidatos ao longo da campanha, pois já resolveram o que vão fazer.

Hoje, há lulistas e antilulistas entre essas pessoas e, se existe, uma minoria insignificante de eleitores “neutros” e disponíveis para a argumentação puramente racional. Seu impacto na eleição é irrelevante.

Na verdade, o plebiscito de Lula nunca foi em favor de si mesmo ou de Dilma. Nem, a rigor, contra Fernando Henrique. É apenas contra Serra.

O presidente sempre soube, ouvindo as pessoas, usando seu instinto, lendo as pesquisas, que a grande maioria do eleitorado está satisfeita com o governo e quer a continuidade.

Também sabe que Dilma não está em discussão por si mesma e que a imagem do ex-presidente vem piorando com a passagem do tempo. Só por isso pensou fazer um plebiscito em que o governador fica como representante de FHC e ela dele.

Nesse embate, importa pouco (ou nada) qual foi o governo que fez mais isso ou aquilo. Qual asfaltou mais, construiu mais, educou mais e assim por diante. Lula já ganhou o plebiscito com Fernando Henrique. O que ele apenas quer agora é que os eleitores estendam a Serra o julgamento que fizeram de FHC.

Não é por outra razão que Serra não quer nem saber do assunto. Comparar (para defender) Fernando Henrique contra Lula não é com ele.

*Marcos Coimbra é diretor do Instituto Vox Populi e articulista do Correio Braziliense

Vaccareza: Serra é o candidato errado pela segunda vez

12/02/2010

Disse o novo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP):

“Em 2002 o Serra foi o candidato da continuidade quando o povo queria mudança. Agora ele vai ser o da mudança quando o povo quer continuidade.”

É claro que Vaccarezza, sendo líder do governo, tem todo o interesse de dizer que Serra não é o que o povo brasileiro quer.

Porém, mesmo assim, o que ele diz tem lógica.

Serra precisa refletir sobre essa declaração.

Embora o povo queira a continuidade de Lula e não Dilma Rousseff necessariamente, qualquer candidato do PT é mais continuidade do que um do PSDB.

Sendo assim, deve Serra pregar continuidade com avanço, sendo um pós-Lula?

Ou bater nos flancos do governo como querem muitos membros do PSDB e do DEM, sendo um anti-Lula?

É essa indecisão que faz a oposição estar sem bandeira, embora ainda com esperança, afinal, mesmo com essa indecisão, lidera ainda com alguma folga as pesquisas.

Agenda de Lula demonstra mudanças de rumo políticas

08/02/2010

A agenda de hoje do Presidente, divulgada pela Presidência, traz uma informação curiosa: O dia de Lula se abre com uma reunião de uma hora e meia com o Presidente do Conselho Editorial e Vice-Presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, no Gabinete improvisado por conta das obras no Planalto, que fica no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

É claro que um político, ao se tornar Presidente, se transforma no líder de todos, sem exceção. Não pode e nem deve o Presidente governar só para os seus aliados, receber só os amigos e/ou se importar só com o que lhe interessa pessoalmente. Sendo assim, com certeza não está errado Lula ao receber um dos irmãos Marinho. A reunião não é criticável.

Mas não deixa de ser um fato curioso que Lula, aquele que um dia se disse prejudicado pelas Organizações Globo, acusando essa de ser representante de um capital que não queria vê-lo na Presidência, se reúna sem ressalvas com um dos líderes do conglomerado.

Sem dúvida alguma não se pode dizer nada de tom degradante em direção ao encontro. Porém, admitamos que essa relação estreita deve causar alguma estranheza na militância esquerdista que apóia Lula, além de trazer calafrios para os lulistas da internet que, ao mesmo tempo que defendem o governo com unhas e dentes, aplicam na Globo a pecha de golpista.

A agenda de Lula demonstra as mudanças de rumo políticas do Presidente durante os anos.

Além de jogar por terra – ainda bem – as teorias conspiratórias de alguns por aí que afirmam, sem direito a questionamentos, que a mídia brasileira quer derrubar Lula.

Preferir Serra é uma coisa. Querer dar um golpe é outra totalmente diferente. Lula sabe disso. Tanto é que recebe João Roberto Marinho em seu Gabinete sem problema algum.

E Lula não trai seus militantes por fazer isso. Ao contrário, estes grupos mais radicais é que têm que perceber que o governo Lula está mais para Fernando Henrique Cardoso do que para Hugo Chávez.

Quem sabe tenham mais chance de ver um governo que aprovam de verdade se Dilma Rousseff vier a vencer.

E o Brasil que se cuide.

Artigo: Ruy Fabiano – Plebiscito de araque

30/01/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

Plebiscito de Araque

Ruy Fabiano*

A estratégia de dar conteúdo plebiscitário à campanha eleitoral, sustentada por Lula e PT, está em contradição com o próprio diagnóstico presidencial a respeito destas eleições.

Há algumas semanas, o presidente sublinhou, como aspecto positivo – e indicador de nossa evolução política –, o fato de não haver candidatos de direita. Todos, na sua ótica, seriam progressistas. E isso seria bom.

Mais de uma vez, elogiou a qualidade de cada candidato. De fato, todos – Dilma, Marina Silva e José Serra – vieram da esquerda.

Só Ciro veio da direita. Foi filiado à Arena, partido de sustentação ao regime militar. Mas já fez seu mea culpa e profissão de fé pública no socialismo, com uma veemência rara. É socialista – e ponto.

Nesses termos, o plebiscito não tem cunho ideológico, na base do direita versus esquerda, mas tão-somente personalista, dentro dos padrões populistas mais ortodoxos.

Lula é o referencial. A eleição seria Lula versus “o outro”. O outro é Fernando Henrique Cardoso.

Nenhum dos dois, porém, é candidato. O embate, em princípio, será entre José Serra e Dilma Roussef, que têm biografias distintas dos seus patronos. Mas o presidente fala claramente nas duas eras: a dele e a de FHC. Povão versus elites.

A era dele, porém, naquilo que apresenta de êxito e substância doutrinária – a política econômica –, decorre da era anterior.

Dá-lhe sequência. Não é casual que, à frente do Banco Central, esteja um ex-tucano, Henrique Meirelles, trazido para a política por Fernando Henrique, que o fez candidatar-se a deputado federal em 2002.

Para sinalizar ao mercado que não mexeria na política econômica – e não mexeu -, trouxe um tucano para o Banco Central. Hoje, Meirelles, filiado ao PMDB, é um dos ícones da Era Lula, que sonha em tê-lo como vice na chapa de Dilma Roussef.

O outro ponto forte da Era Lula é o Bolsa Família, seu principal cabo eleitoral, que, além de lhe render popularidade, serve para demonizar os adversários, acusados de planejar sua extinção.

Ocorre que mesmo essa polarização é artificial e não resiste a um retrospecto. Quem aderiu ao sistema de bolsas foi o governo Lula, que antes o criticava.

Esse sistema chegou ao formato atual inspirado no Bolsa Educação, concebido nos anos 90 pelo então prefeito de Campinas, hoje já falecido, Roberto Magalhães Teixeira, do PSDB.

O então governador do DF, Cristovam Buarque, encantou-se com a idéia e a trouxe a Brasília. Fernando Henrique gostou e a adotou nacionalmente. Lula, ao contrário, repudiou-a.

São palavras dele, em 2000, disponíveis no YouTube: “Lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico, e as pessoas lamentavelmente não votam partidariamente. E lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça.

É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto tíquete de leite. Porque isso, na verdade, é uma peça de troca, em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral.

Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias e espelhos para tentar ganhar os índios. Você tem como lógica a política de dominação, que é secular no Brasil.”

O projeto social de Lula, quando assumiu – e está no discurso de posse –, era o Fome Zero, que não deu certo. O Bolsa Família reúne os programas da Rede de Proteção Social, concebido e conduzido por dona Ruth Cardoso, que incluía ainda itens como vale-gás e bolsa-alimentação.

Fundiu-se tudo num rótulo novo e ampliou-se o número de beneficiados, etapa seguinte à implantação da idéia.

Não há, pois, nem mesmo na política assistencialista, o contraste indispensável aos plebiscitos, que é o choque de idéias ou projetos antagônicos.

O que há é a velha luta por cargos entre PSDB e PT, cuja origem é São Paulo, berço de ambos. São os irmãos Karamazov da política brasileira. Não se entendem, mas se parecem.

O tom plebiscitário artificial que se quer impor à campanha serve, como dizia Lula em 2000, para “despolitizar o processo eleitoral” e manter “como lógica a política de dominação”.

A massa, atenta ao Bolsa Família, continuará a “pensar com o estômago”, já que as questões mais relevantes estarão à margem dos debates.

Pior para os debates. Pior para o eleitor.

*Ruy Fabiano é jornalista

Oposição ganha argumento: Brasil perde 12 posições em ranking de educação

25/01/2010

Informa a Folha:

“O Brasil perdeu 12 posições no índice de educação feito pela Unesco, o braço da ONU (Organização das Nações Unidas) para a educação e a cultura.

A queda, do 76º para o 88º lugar entre 128 países, ocorreu principalmente em razão da piora no índice de crianças que chegam até a quarta série. Segundo a Unesco, de 80,5%, em 2005, o percentual caiu em 2007 para 75,6%.

Com isso, o IDE (Índice de Desenvolvimento Educacional) do Brasil, caiu de 0,901 para 0,883 em uma escala de 0 a 1, o menor entre todos os países do Mercosul. Isso mantém o país em um patamar considerado mediano pela Unesco.

O IDE é composto pelas taxas de alfabetização de adultos, igualdade de gênero, matrícula na educação primária e sobrevivência na escola até a quinta série -no caso do Brasil, foi considerado o dado relativo à quarta série.

Os primeiros lugares ficaram com Noruega, Japão e Alemanha. Os últimos, com Etiópia, Mali e Niger, todos no continente africano. “

A campanha presidencial deste ano apresenta para a oposição um cenário curioso: Dispõe do candidato que lidera as pesquisas, mas tem dificuldades para construir seu discurso.

Essa dificuldade se dá pelo fato de o governo ter a aprovação da população brasileira em sua maioria, o que faz com que a oposição tenha o receio de se desgastar ao criticar duramente e bater de frente com a gestão atual.

Portanto, enquanto o discurso de Dilma Rousseff será o da continuidade com avanço, o de José Serra será, provavelmente, o da manutenção dos acertos e reforma dos erros.

Pois bem. A queda da educação brasileira no ranking da Unesco, citada na reportagem reproduzida acima, é um bom exemplo das situações que fornecem à oposição algum tipo de argumento para formular seu discurso a respeito dos setores onde o governo não foi bem.

Outros exemplos são a segurança pública e a saúde, que será fortemente explorada, com certeza, por José Serra ter sido um Ministro da Saúde bem avaliado.

Em outro âmbito, deixando um pouco de lado o viés propositor e chegando ao viés político, a campanha terá um confronto de agendas.

A oposição tentará impor a agenda da comparação entre a biografia de Serra e a de Dilma. O governo tentará fazer prevalecer a agenda da comparação entre o governo FHC e o governo Lula.

Coluna do dia: Lula, FHC e os Românticos de Cuba

25/01/2010

Por Arthurius Maximus*

Quando se tece uma crítica a algum aspecto do governo Lula, muitos apaixonados, favorecidos ou simplesmente ainda iludidos pela possibilidade de uma guinada do País rumo ao “primeiro mundo” se sentem ofendidos e descascam ataques alegando que Lula é muito melhor que FHC e que ataques a ele são feitos “por uma elite burguesa” , por “tucanos” ou por gente “pró-Serra”.

Esse discurso atrasado e bem ensaiado, visando unicamente confundir o povo e fazer dele a eterna massa de manobra na tática do “rico contra pobre”, é uma idiotice enorme. As eleições não devem e não podem ser consideradas uma medição de forças entre os “pró-Lula” e os “pró-FHC”. Não há apenas os candidatos indicados por esse dois presidentes pífios e preguiçosos no que diz respeito ao combate à corrupção e a uma administração pautada pelo atendimento às reais necessidades do País.

O discurso plebiscitário favorece unicamente a desinformação e a formalização de uma cultura “rouba mas faz”. Afinal de contas, FHC entregou as estatais de mão beijada, lançou as bases do mensalão e favoreceu grupos políticos poderosos e perniciosos que há anos mamam nas tetas da República.

Lula “O Grande” é constantemente mostrado como um líder que revolucionou a economia nacional e que fez a polícia federal trabalhar “como nunca” na caça aos corruptos. O que as pessoas esquecem é que a “revolução econômica” de Lula foi tocada com bases fundamentadas nos princípios lançados por FHC e que o próprio Presidente do Banco Central era ligado diretamente ao PSDB.

Não que isso seja importante, afinal de contas, mesmo que o Presidente do Brasil fosse o “Joãozinho Sete Quedas” teríamos experimentado os anos de bonança que vivemos até o fim de 2008. Pouca gente se dá conta de que aquele período histórico foi de vacas gordas para todos os países do mundo com alguma produtividade e alguma capacidade de produzir riquezas.

Mesmo o “ferrenho combate à corrupção” alardeado aos quatro cantos é algo em que se deve pensar por dois segundos. Lula criticou abertamente a Polícia Federal por algumas prisões “de gente grande” e  atacou o Judiciário inúmeras vezes pelas tentativas de condenar “pessoas incomuns” com uma extensa “biografia”. Isso sem mencionarmos sua claríssima participação e apoio no mensalão, sua atuação ridícula no caso Sarney e o enriquecimento “da noite para o dia” de seu filho (um empresário pequeníssimo que, de repente, se transformou em um dos homens mais ricos do País).

Considerando que a vontade do PT é implantar em nosso País uma clara ditadura ao estilo Chávez (por isso as constantes tentativas de emplacar um controle à imprensa e de aparelhar todas as áreas de atuação do governo), vemos com uma clareza terrível que o discurso plebiscitário visa apenas confundir e centrar as eleições no âmbito da luta de classes e da falsa sensação de que Lula está “ao lado dos pobres” (enquanto a máquina derrama benesses assistencialistas que apenas escravizam a quem precisa).

No entanto, o que o governo Lula deixa de informar, convenientemente, é que os programas assistencialistas visam apenas manter os pobres na pobreza e na dependência eterna do governo e, por isso, arrebanhá-los como uma reserva política acessível e maleável que possa ser manipulada ao seu bel prazer.

Pense nisso.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Déficit externo bate em R$ 5,9 bilhões, o maior desde 1947 – Como interpretar isso politicamente?

21/01/2010

Informa o Estadão:

“O efeito do crescimento econômico nas contas externas brasileiras já começou a ser sentido com mais intensidade. Dados do Banco Central mostram que o aumento dos ganhos das empresas estrangeiras fez o envio de lucros e dividendos atingir recorde em dezembro de 2009: US$ 5,32 bilhões, ou 21% de todas as remessas do ano. Com isso, o déficit de transações correntes – resultado das operações de comércio de bens e serviços do Brasil com o exterior – atingiu US$ 5,94 bilhões no último mês do ano, o pior resultado da série, iniciada em 1947.

Em todo o ano de 2009, as transações correntes ficaram negativas em US$ 24,34 bilhões, valor inferior aos US$ 28,19 bilhões de 2008. A queda refletiu o impacto da crise na atividade econômica, especialmente no primeiro semestre, quando o Brasil experimentou uma recessão. Os números de dezembro, no entanto, deixam claro que a tendência é de rápido e substancial aumento do déficit externo do País.

Ontem, analistas foram pegos de surpresa com o saldo da remessa de lucros ao exterior em dezembro. A transferência de dólares foi 164% maior que a de novembro e 69,3% superior à cifra de dezembro de 2008, no auge da crise, quando empresas estrangeiras aumentaram fortemente as remessas para cobrir prejuízos das matrizes nos Estados Unidos e Europa.”

Obviamente, o déficit externo é péssimo. É muito ruim que o nosso País mais perca do que ganhe no comércio internacional. Também é motivo de preocupação o aumento do montante das remessas de lucros e dividendos enviadas para o exterior pelas multinacionais aqui instaladas. Por estarem estas empresas explorando o mercado consumidor brasileiro, utilizando nossa infra-estrutura e contratando nossa mão-de-obra, é de esperar que grande parte dos lucros fique por aqui na forma de investimento ou, até mesmo, de impostos ou ações de contrapartida social e ambiental.

Contudo, a situação não é alarmante. O Brasil não está nadando de braçada no cenário financeiro mundial, mas não chega a inspirar cuidados ou algo parecido. Em suma, não há motivo para crítica dura à política econômica governamental por enquanto. Apenas algumas ressalvas – importantes é verdade – mas não argumentações de apoio a guinadas ou mudanças profundas.

Portanto, o que chama a atenção não é bem o viés econômico do aumento do déficit externo, e sim o viés político. O que atrai olhares é o fato de o governo Lula, apoiado por grande parte da esquerda, pelos movimentos sociais e pelo sindicalismo, deter o recorde de déficit externo, ou seja, de lucros obtidos por multinacionais no País e remetidos ao exterior.

Não se trata de uma crítica ao governo em si, mas de uma constatação: Como poderia o governo Lula ser interpretado como grande paladino em confronto com o capitalismo? De onde surgem declarações sobre o governo que afirmam que ele mudou o que vinha sendo feito por Fernando Henrique Cardoso e passou a atrapalhar os planos do “capitalismo ianque, imperialista, selvagem e assassino”, como diz a esquerda caricata? Em resumo, que lógica têm as falas de setores governistas da sociedade que, desconectados da realidade, afirmam que o Presidente Lula e seu governo deixaram de “governar para os banqueiros e para o capital estrangeiro”?

O capital estrangeiro, que traz investimentos muitas vezes necessários para o Brasil e que não poderiam ser feitos por capital interno, lucra tanto ou mais no governo Lula quanto no governo FHC. A existência do Bolsa Família, a cooptação da CUT, da UNE e do MST e os posicionamentos “pré-queda do Muro de Berlim” de Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia e afins não muda isso. Distribui-se mais, é verdade, mas o capitalismo nunca lucrou tanto. Aqueles que trabalham em coberturas na Avenida Paulista gostam mais de FHC, mas não odeiam Lula nem um pouco. Quem sabe por isso o PSOL faça oposição ao governo.

Não se critica aqui o governo por incompreensão ou desaprovação da política econômica. Trata-se de dúvida a respeito de como podem alguns entender que a mesma coisa, sob Lula, deixa de ser a mesma coisa.

Talvez a resposta esteja em uma irracionalidade que surge a partir do momento em que não se quer aceitar que aquele em quem se confiou por eleições e mais eleições não fez aquilo que se esperava dele, sendo mais fácil se enganar.

Ou talvez o rótulo de entreguista – injusto – sirva para FHC e para Lula não. Simples assim. Incompreensível assim.