Postagens com a palavra-chave ‘Fernando Henrique’

Exagero: MST diz que Serra é de extrema direita

28/07/2010

Informa o Globo:

“O coordenador regional do Movimento dos Sem Terra (MST), Jaime Amorim, disse ontem que, qualquer que seja o presidente eleito, o movimento apresentará proposta impondo limite de 500 hectares para as propriedades rurais, sejam elas de empresas ou famílias.

O MST defende ainda criação de um órgão mais ágil para a reforma agrária, pois o Incra estaria ‘desestruturado e defasado’.

Amorim rebateu as declarações do tucano José Serra de que uma eventual eleição de Dilma Rousseff (PT), candidata apoiada pelo MST, aumentará ‘as invasões e a agitação’:

— Ele (Serra) tem postura conservadora, de extrema direita”

Uma das maiores bobagens ditas neste processo eleitoral.

É um exagero enorme dizer que Serra é de extrema direita.

Até porque nem mesmo de direita ele é. É de centro, no máximo.

Em alguns países europeus, líderes da esquerda têm posições parecidas com as de Serra. 

A realidade é que o PSDB está à direita do PT. Mas isso não faz dele um partido de direita.

Além disso, mesmo entre os tucanos, Serra é um dos que está menos à direita.

Que direitista seria Serra defendendo intervenções do Estado em diversas áreas como ele defende?

No Brasil confunde-se proximidade com o empresariado com direita ideológica.

E nem adianta dizer que o Democratas está puxando o PSDB para a direita. Isso se deu no governo Fernando Henrique. Hoje ocorre o oposto, com o Democratas caminhando para a centro-direita social-liberal.

Dizer que Serra é de direita é um equívoco. De extrema direita, então…

Serra não é de extrema direita nem aqui nem na China.

Literalmente.

José Serra lança sua candidatura à Presidência e defende união

10/04/2010

Foi lançada hoje a pré-candidatura de José Serra à Presidência. Discursos de Sérgio Guerra, Rodrigo Maia, Roberto Freire, Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves acompanharam o do pré-candidato, que tentará chegar ao Planalto pela segunda vez, já que perdeu para Lula em 2002.

Serra fez um discurso baseado em seus futuros motes de campanha: O de que o Brasil pode mais, que traduz o reconhecimento dos avanços do governo Lula somado ao argumento de que Serra poderá avançar mais ainda, e o de que é preciso defender a união, que carrega uma alfinetada no Presidente Lula, já que este meio que divide norte e sul, pobres e ricos, cidades pequenas e metrópoles, em seus discursos, no intuito de rotular a oposição como representante da elite.

Em resumo, a fala de Serra foi típica de um presidenciável, com citações literárias, agradecimentos a aliados, esboços de projetos e propostas, críticas veladas aos adversários e uma pitada de emoção.

Informa o Globo que um dos momentos mais emocionantes foi quando Serra citou Zilda Arns, morta em janeiro, no terremoto do Haiti, e Ruth Cardoso, falecida em 2008. A citação à dona Ruth levou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso às lágrimas.

Serra criticou o apoio a governos autoritários. Em seu discurso, defendeu respeito aos direitos humanos e ressaltando que em democracia eles não são negociáveis, “nem há operário fazendo greve de fome quando discordam do regime”, em referência a Cuba e em clara alusão ao atual governo, que mantém boas relações com alguns regimes autoritários, incentivando nas entrelinhas o receio de que Dilma possa, em eventual governo, nos aproximar do chavismo.

Por fim, vale citar que Aécio Neves foi saudado aos gritos de “vice, vice, vice”. O mineiro provavelmente não deve ter gostado muito. Não só pela pressão mas, naturalmente, por se tratar de posição secundária.

Serra, ao contrário, deve ter comemorado por dentro e com certeza torce para que Aécio atenda aos gritos da multidão.

A foto acima mostra bem o quanto o presidenciável tucano quer a ajuda do ex-Governador de Minas: Mesmo com sua esposa por perto, Serra reservou o beijo na bochecha para Aécio.

Enfim, Dilma já havia sido lançada e Serra o é agora.

Começou a disputa presidencial que tem tudo para ser uma das mais acirradas da história política nacional.

Coluna do dia: Serra versus Dilma – O que esperar do Ibope?

16/03/2010

Por Alexandre Campbell*

No sábado, o colunista Lauro Jardim levou às páginas da Veja a informação de que a próxima pesquisa CNI/Ibope sobre a sucessão presidencial, prevista para ser divulgada amanhã, mostraria um empate técnico entre o Governador de São Paulo, José Serra (PSDB) e a Ministra Dilma Rousseff (PT). Com um detalhe: Dilma numericamente pela primeira vez à frente de Serra: um ponto percentual.

A informação causou alvoroço no cenário político. O PSDB desmentiu que tenha tido acesso a esta pesquisa. Ontem, Renata Lo Prete publicou na Coluna Painel, na Folha de S. Paulo, a seguinte nota:

“Bola de cristal. Nas contas do PSDB, Serra aparecerá na próxima pesquisa com algo em torno de 3 a 7 pontos percentuais à frente da candidata petista, Dilma Rousseff.”

A Agência Reuters disparou notícia mais ou menos no mesmo caminho: assegurando que Serra permaneceria à frente, com uma vantagem de três a sete pontos. Quem estará certo? Só amanhã saberemos. É preciso considerar ainda que Folha e Reuters possam estar falando de cenários diferentes. Com Ciro na parada, as últimas pesquisas mostraram que Serra se sai melhor, por exemplo.

Independente dos números, a CNI/Ibope não deve trazer grande novidade, além do óbvio crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de votos, fenômeno que vem sendo registrado por todos os levantamentos.

Mais importante que isso será observar uma das inúmeras perguntas contidas no questionário, em que o Instituto quer saber se o eleitor prefere votar em um candidato “apoiado pelo Presidente Lula”, de “oposição ao Presidente Lula” ou “não vai levar em conta o apoio do Presidente Lula para votar”.

Se o índice de eleitores que escolher a opção “apoiado pelo Presidente Lula” for superior às intenções de votos em Dilma, saberemos que ela ainda tem uma margem de crescimento. Se estes números se equivalerem, estaremos então próximos do “teto pré-eleitoral” de Dilma. Ela pode continuar avançando entre aqueles que “não vão levar em conta o apoio do Presidente Lula para votar”, mas será numa proporção bem menor e com mais dificuldade.

É preciso entender que “o apoio do Presidente Lula”, hoje, é o fator mais importante (senão o único) para justificar os índices de Dilma, mas não é suficiente para assegurar a eleição da Ministra. O que as pessoas costumam chamar de transferência de votos (e que pode fazer com que a Ministra se eleja) têm outros componentes, como a satisfação do eleitor com a vida que leva, a avaliação positiva do governo, etc.

São situações que não levam diretamente ao voto no candidato oficial, mas lhe criam um ambiente favorável. E por outro lado criam uma dificuldade para o candidato da oposição que precisa encontrar um discurso de quem promoverá avanços sem rupturas, fugindo da comparação que o Planalto tentará impor com o governo de Fernando Henrique.

Resumindo: o ambiente é favorável para a petista, que iniciará a campanha com um patamar elevado. É a candidata da “continuidade”. Mas daqui para frente iniciará um outro momento da sucessão eleitoral em que o crescimento se dará em um ritmo mais lento.

O eleitor vai querer conhecer também a “Dilma”, não apenas a “candidata de Lula”.

*Alexandre Campbell, colunista do Perspectiva Política às terças, é jornalista, estudante de Marketing Político e autor do Blog do Campbell, onde escreve diariamente sobre política.

Artigo: Ruy Fabiano – O PT e o centenário de Tancredo

08/03/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre a história do PT e a comparação entre o início da trajetória do partido e a legenda de hoje. Com maestria, cita os fatos, sem ilações, demonstrando as mudanças de posicionamento que vão sendo justificadas sob a bandeira do “pragmatismo”.

Destaque para o trecho: “Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.”

Fabiano novamente diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

O PT e o centenário de Tancredo

Ruy Fabiano*

A ausência do PT nas celebrações, promovidas pelo Senado na quarta-feira, pelo centenário de Tancredo Neves, guarda coerência com a história do partido.

Embora hoje sustente o contrário, o PT foi beneficiário, mas não protagonista (em alguns momentos, nem coadjuvante) do processo de redemocratização.

Chegou a combater algumas de suas iniciativas, como a candidatura do próprio Tancredo Neves à Presidência pelo colégio eleitoral, em 1984. Além de não apoiá-lo – considerando que tanto fazia elegê-lo como a Paulo Maluf -, expulsou três de seus deputados (Beth Mendes, José Eudes e Airton Soares) que decidiram sufragá-lo.

Quando da promulgação da Constituição de 88, anunciou que não a assinaria, por achá-la conservadora. E só o fez, sob protesto, por instâncias de Ulysses Guimarães, que pedia uma chance para aquele momento que se inaugurava.

Mesmo na campanha das diretas – e isso é fato histórico -, não estava na sua gênese. Incorporou-se à campanha quando já estava nas ruas e atraía multidões.

Não obstante, todas essas iniciativas, de que manteve asséptica distância, o beneficiaram, deram-lhe visibilidade. Mas o partido sustentava que não lhe era conveniente manter proximidade de políticos tradicionais, como Franco Montoro, Leonel Brizola, Tancredo Neves ou Ulysses Guimarães. Considerava-os, sem distinção ideológica, farinhas do mesmo saco.

A política deles era promíscua, enquanto a do PT guiava-se por paradigmas de pureza. Lula desdenhava do trabalhismo varguista, de Brizola, considerando-o superado e de índole pelega. O seu era diferente, moderno, distanciado do Estado.

Recusou alianças e manteve-se, até chegar ao poder, numa redoma de impenetrável sacralidade. Recusou todas as frentes oposicionistas que se armaram para enfraquecer o último governo militar, do general João Figueiredo, o que suscitou suspeitas de que agia sob a inspiração do estrategista do regime, general Golbery.

O partido esteve na linha de frente do impeachment de Collor, mas recusou integrar o governo Itamar, expulsando Luiza Erundina, por tê-lo aceito.

Expulsaria mais tarde, em 1996, o deputado Eduardo Jorge, por ter votado a favor da CPMF, que o partido então combatia, mas que Lula, na Presidência, considerou imprescindível para governar o país. Só não expulsou os mensaleiros e aloprados.

A primeira aliança admitida foi com Leonel Brizola, que, embora com muito mais bagagem e história, se submeteu a ser vice na chapa de Lula, em 1998.

Na eleição anterior, o PT recusara convite de Fernando Henrique para figurar na sua chapa como vice, o que lhe abriria espaço para sucedê-lo e consolidar uma aliança progressista que dizia desejar. Preferiu, porém, combater o Plano Real, empurrar o PSDB para uma aliança conservadora com o PFL e continuar marchando sozinho, contra tudo e todos.

Ao finalmente se eleger, em 2002, incorporou-se ao “mesmo saco” das farinhas que execrara. Buscou alianças conservadoras com o PMDB, PL (hoje, PRB, do vice José Alencar), PTB et caterva.

Criticava o neoliberalismo dos tucanos, mas buscara o seu vice no Partido Liberal. Criticava a política monetarista do Banco Central, mas escolheu um banqueiro tucano, Henrique Meirelles, para presidi-lo.

Condenava a política assistencialista da Bolsa Educação e dos vale-gás e vale-alimentação, mas incorporou-as sob o rótulo Bolsa Família, que se transformaria no carro-chefe de seus dois governos.

Lula depois esclareceria, algo que antes não se percebera: que era (é) uma “metamorfose ambulante”. Mas, embora mostre sintonia com o que há de mais condenável nas tradições políticas nacionais, insiste em que refundou o Brasil, idéia que, sob o bordão “nunca antes neste país”, permeia a quase totalidade de seus discursos.

Ao revogar tudo o que se fez, de Cabral (o Pedro Alvarez, não o Sérgio) a FHC, não há mesmo por que celebrar o centenário de Tancredo, algo que, para os petistas, equivale a uma peça de ficção.

O Brasil petista começa com Lula e prossegue com Dilma. Apossa-se do que de bom produziu o Brasil anterior, sonegando-lhe a autoria, e atribui o que há de ruim, inclusive o produzido sob sua égide, aos antepassados. Vale-se do desconhecimento que o povo tem da história, recente e remota, para convencê-lo de sua encenação.

Pior: consegue.

*Ruy Fabiano é jornalista

Análise Geral: Governo quer comparar gestões, oposição quer comparar biografias

11/02/2010

Informa o Estadão:

“O PSDB decidiu usar as armas do PT na disputa presidencial. Vai aceitar comparações – não entre os oito anos de gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com os de Luiz Inácio Lula da Silva, mas entre o tucano José Serra e a petista Dilma Rousseff.

‘Fernando Henrique é passado; Lula também o será daqui a pouco. Vamos então mostrar a capacidade administrativa de Serra e da ministra Dilma’, afirmou o líder tucano na Câmara, João Almeida (BA).’Vamos mostrar a história de Serra, o que fez no Ministério da Saúde, na Prefeitura de São Paulo e, agora, no governo’, completou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), ex-líder do partido e um dos principais articuladores da candidatura do governador.”

Trata-se de comprovação do que tenho dito aqui no Perspectiva.

A comparação de gestões é pró-PT e a comparação das biografias dos candidatos é pró-PSDB.

É melhor para o governo comparar a memória de sua administração com a memória do governo Fernando Henrique Cardoso.

Pessoalmente, acredito que o governo FHC estabeleceu as bases da economia e da responsabilidade fiscal de hoje e que, portanto, não foi ruim, embora no social o governo Lula tenha sido, realmente, melhor.

Acontece que o que está cristalizado na mente da população em geral, que normalmente não estuda a política nacional com afinco, é que o governo FHC foi pior que o governo Lula. E ponto final.

Sendo assim, comparar gestões é a agenda do PT.

Por outro lado, é melhor para a oposição comparar a ficha corrida de José Serra com a ficha corrida de Dilma Rousseff.

Nesse caso, concordo com os preceitos apresentados pela estratégia. José Serra é mais experiente, mais vivido politicamente, mais confiável como gestor e, principalmente, mais dono de sua própria trajetória, não tendo uma candidatura a Presidente marcada pelo artificialismo, como a de Dilma.

Dilma é biônica. É marionete de Lula. Não tem trajetória suficiente para chegar à Presidência se analisarmos apenas o âmbito pessoal.

Acontece que ninguém governa sozinho. Pois bem. E se trouxermos para as reflexões o entendimento de que quem governa é uma equipe inteira, pautada por certos preceitos? Será que nesse caso a vontade de se ter continuidade da equipe petista prevalece sobre a de termos novamente a tucana? Talvez sim.

Aí voltamos à comparação de gestões, comprovando de vez o cenário: A agenda petista é a de Lula versus FHC e essa agenda dará a vitória a Dilma. A agenda tucana é a de Serra versus Dilma e essa agenda concederá o triunfo a José Serra.

Parece estranho prever a vitória de dois candidatos?

Explico: Nas campanhas, um lado tenta impor sua agenda ao outro. Quem for bem sucedido na disputa entre governo e oposição, leva a eleição. A agenda vencedora durante a campanha dá o tom dos debates. Quem escolhe o tom, se o tiver planejado direito, vê seu candidato vitorioso no dia da eleição.

O desafio do PSDB, hoje, é trazer para o holofote a comparação entre a trajetória de Serra e a de Dilma, pois, embora alguns afirmem fortemente que a imprensa é totalmente tucana, tem prevalecido até agora nas manchetes dos jornais a comparação de administrações pretendida pelo governo.

Ao mesmo tempo, para fazer uma agenda sua prevalecer, o PSDB tem que entrar na briga. E a entrada pode acabar tendo que se dar  através de um discurso de comparação de gestões feita pelo lado tucanos. Percebam que esta foi iniciada pelo ex-Presidente Fernando Henrique recentemente. Uma vez na dança, seria o momento do PSDB pedir para mudar a música.

Alguns tucanos não compreendem o cenário assim. Acreditam que qualquer comparação de governos ou crítica a Lula é maléfica. Querem buscar outro caminho para impor um Serra contra Dilma puro e simples. Em suma, querem pedir a nova música direto ao DJ, sem passar pela pista de dança.

Esse é o dilema do tucanato e da oposição como um todo hoje. Está difícil achar um rumo único.

Lula, que já impôs a todos os seus uma nota só, se regozija.

Artigo: Ruy Fabiano – Plebiscito de araque

30/01/2010

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

Plebiscito de Araque

Ruy Fabiano*

A estratégia de dar conteúdo plebiscitário à campanha eleitoral, sustentada por Lula e PT, está em contradição com o próprio diagnóstico presidencial a respeito destas eleições.

Há algumas semanas, o presidente sublinhou, como aspecto positivo – e indicador de nossa evolução política –, o fato de não haver candidatos de direita. Todos, na sua ótica, seriam progressistas. E isso seria bom.

Mais de uma vez, elogiou a qualidade de cada candidato. De fato, todos – Dilma, Marina Silva e José Serra – vieram da esquerda.

Só Ciro veio da direita. Foi filiado à Arena, partido de sustentação ao regime militar. Mas já fez seu mea culpa e profissão de fé pública no socialismo, com uma veemência rara. É socialista – e ponto.

Nesses termos, o plebiscito não tem cunho ideológico, na base do direita versus esquerda, mas tão-somente personalista, dentro dos padrões populistas mais ortodoxos.

Lula é o referencial. A eleição seria Lula versus “o outro”. O outro é Fernando Henrique Cardoso.

Nenhum dos dois, porém, é candidato. O embate, em princípio, será entre José Serra e Dilma Roussef, que têm biografias distintas dos seus patronos. Mas o presidente fala claramente nas duas eras: a dele e a de FHC. Povão versus elites.

A era dele, porém, naquilo que apresenta de êxito e substância doutrinária – a política econômica –, decorre da era anterior.

Dá-lhe sequência. Não é casual que, à frente do Banco Central, esteja um ex-tucano, Henrique Meirelles, trazido para a política por Fernando Henrique, que o fez candidatar-se a deputado federal em 2002.

Para sinalizar ao mercado que não mexeria na política econômica – e não mexeu -, trouxe um tucano para o Banco Central. Hoje, Meirelles, filiado ao PMDB, é um dos ícones da Era Lula, que sonha em tê-lo como vice na chapa de Dilma Roussef.

O outro ponto forte da Era Lula é o Bolsa Família, seu principal cabo eleitoral, que, além de lhe render popularidade, serve para demonizar os adversários, acusados de planejar sua extinção.

Ocorre que mesmo essa polarização é artificial e não resiste a um retrospecto. Quem aderiu ao sistema de bolsas foi o governo Lula, que antes o criticava.

Esse sistema chegou ao formato atual inspirado no Bolsa Educação, concebido nos anos 90 pelo então prefeito de Campinas, hoje já falecido, Roberto Magalhães Teixeira, do PSDB.

O então governador do DF, Cristovam Buarque, encantou-se com a idéia e a trouxe a Brasília. Fernando Henrique gostou e a adotou nacionalmente. Lula, ao contrário, repudiou-a.

São palavras dele, em 2000, disponíveis no YouTube: “Lamentavelmente, no Brasil, o voto não é ideológico, e as pessoas lamentavelmente não votam partidariamente. E lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça.

É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto tíquete de leite. Porque isso, na verdade, é uma peça de troca, em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral.

Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias e espelhos para tentar ganhar os índios. Você tem como lógica a política de dominação, que é secular no Brasil.”

O projeto social de Lula, quando assumiu – e está no discurso de posse –, era o Fome Zero, que não deu certo. O Bolsa Família reúne os programas da Rede de Proteção Social, concebido e conduzido por dona Ruth Cardoso, que incluía ainda itens como vale-gás e bolsa-alimentação.

Fundiu-se tudo num rótulo novo e ampliou-se o número de beneficiados, etapa seguinte à implantação da idéia.

Não há, pois, nem mesmo na política assistencialista, o contraste indispensável aos plebiscitos, que é o choque de idéias ou projetos antagônicos.

O que há é a velha luta por cargos entre PSDB e PT, cuja origem é São Paulo, berço de ambos. São os irmãos Karamazov da política brasileira. Não se entendem, mas se parecem.

O tom plebiscitário artificial que se quer impor à campanha serve, como dizia Lula em 2000, para “despolitizar o processo eleitoral” e manter “como lógica a política de dominação”.

A massa, atenta ao Bolsa Família, continuará a “pensar com o estômago”, já que as questões mais relevantes estarão à margem dos debates.

Pior para os debates. Pior para o eleitor.

*Ruy Fabiano é jornalista

PSOL iguala e critica PT e PSDB em comercial na TV

08/01/2010

Informa a Agência Estado:

“O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) abriu o período de propaganda partidária do ano na TV e no rádio, ontem, se contrapondo à polarização entre PT e PSDB na disputa à Presidência da República. O partido também igualou os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. ‘Tem muito sujo falando do mal lavado. Tem quem prefere seis e tem quem prefere meia dúzia’, ironizou a legenda.”

Tanto os petistas que continuam no PT, como os petistas que fundaram o PSOL criticavam duramente a política econômica empreendida pelo governo Fernando Henrique Cardoso e qualquer tipo de atitude que contrariasse a ética.

A diferença entre eles é a seguinte:

Os que continuam no PT abençoaram – ou engoliram – a escolha do tucano Henrique Meirelles para  o comando do Banco Central e a manutenção da política macroeconômica do PSDB, além de terem se tornado menos indignados com os desvios éticos.

Os que fundaram o PSOL continuam a criticar a política econômica nacional, afinal, ela se mantém em grande parte, no que tange a macroeconomia, a mesma. Além disso, são duros nas críticas contra os que faltam com a ética.

Concordo muito mais com a economia defendida hoje pelo PT do que com a defendida pelo PSOL. Não poderia ser diferente, afinal, me situo como um capitalista social-liberal. O socialismo não é minha ideia de sistema ideal.

Contudo, há que se reconhecer que, historicamente, os membros do PSOL são muito mais coerentes. Eles também acertam ao apontar semelhanças entre o PSDB e o atual PT.

Em suma, quem era totalmente contra a gestão econômica tucana só elogiará a gestão petista da área se for incoerente.

Há diferenças, mas os que pediam mudanças drásticas sob FHC não podem dizer sinceramente que estão vendo suas reivindicações atendidas.

Artigo: Ruy Fabiano – O artifício plebiscitário

26/12/2009

Este que vos fala já reproduziu diversas vezes, neste Perspectiva, os artigos do jornalista Ruy Fabiano. Faço isso não só por entender que trata-se de um dos mais lúcidos analistas políticos da atualidade mas, também, por enxergar em Fabiano uma linha de raciocínio político extremamente próxima da minha. Fabiano diz em seus textos muitas vezes, apenas com outras palavras, o mesmo entendimento que venho expressando no Perspectiva.

É por isso que, como citado, reproduzo os textos do jornalista, rendendo a eles os devidos elogios pela sensatez, pela independência, pela coerência e pela justiça, ou seja, por respeitar tudo aquilo que este blogueiro visa respeitar em seu trabalho.

Dito isso, mais uma vez reproduzo, abaixo, artigo de Ruy Fabiano. Ele versa sobre as eleições que cada vez mais se avizinham e sobre o plebiscito entre PT e PSDB que vem sendo desenhado. Fabiano diz, sem tirar nem por, o mesmo que este modesto blogueiro pensa e escreve neste Perspectiva.

O artifício plebiscitário

Ruy Fabiano*

As pesquisas, sobretudo quando o seu objeto está distante de uma definição – caso das próximas eleições -, costumam ser inconsistentes e provisórias.

São mais ou menos como o que o falecido Magalhães Pinto dizia da própria política, comparando-a às nuvens, que a cada momento assumem desenho diverso.

Faltam dez meses para as próximas eleições presidenciais e a campanha, oficialmente, nem começou, embora seja de uns meses para cá o tema predominante entre os políticos.

O público, porém, não está ainda motivado para o assunto. Mal conhece os candidatos.

Portanto, tudo o que até aqui as pesquisas têm informado é muito pouco para autorizar profecias.

Basta lembrar que, nas eleições de 1989, o vencedor, Fernando Collor de Mello, só começou a figurar entre os primeiros quando a campanha já estava avançada.

No início, era apenas um traço nas avaliações dos institutos.

O que se pode especular, pela última pesquisa do Datafolha, é que a tendência plebiscitária, pretendida pelo governo, já se esboça.

Dilma Roussef cresceu, sem que seu oponente principal, José Serra, tenha perdido espaço.

Caíram os demais – Ciro Gomes e Marina Silva. Como não há propriamente embate ideológico, já que todos os candidatos colocam-se à esquerda, o que se pretende é opor dois personagens que não estão na disputa, Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Dois governos que, em vez de se opor, são na verdade continuidade de um mesmo roteiro.

O governo Lula, no entanto, quer mostrar-se como o da ruptura, o que, pela primeira vez na história do país, teria colocado o povo no centro da cena, em contraponto ao anterior, que teria privilegiado as elites.

A tese não resiste a um exame superficial.

O governo Lula manteve o modelo econômico do anterior e expandiu programas sociais que já estavam em curso no governo FHC, caso do Bolsa Família, que integrava o programa assistencialista Rede de Solidariedade, concebido e comandado por Ruth Cardoso.

Foi, inclusive, uma iniciativa tomada já com o primeiro mandato de Lula em curso. O projeto social do governo Lula, no início, era o Fome Zero, anunciado com alarde já no discurso de posse.

Mas não deu certo, o que fez com que o governo ressuscitasse o Bolsa Educação e o agregasse às outras bolsas que vigoraram anteriormente (bolsa-gás, bolsa-transporte etc.) e as agregasse sob o rótulo único de Bolsa Família, expandindo-a.

Na economia, embora critique as privatizações, o governo Lula é beneficiário dos resultados por elas proporcionados, sendo a telefonia a mais notória de todas.

A universalização dos seus benefícios consta hoje de todas as propagandas governistas.

A evidência maior da continuidade está mesmo na economia, em que, para presidir o Banco Central, foi chamado o deputado tucano Henrique Meirelles, que renunciou ao mandato para assumir o comando da política monetária.

Entrou em rota de colisão com o PT, que pretendia subjugá-la às políticas sociais.

Lula, porém, bancou Meirelles – isto é, a política monetária dos tucanos – e esse tem sido o seu mérito maior, reconhecido pelos próprios adversários. Todas as análises que se fazem no exterior do êxito do governo Lula ressaltam a continuidade que deu às políticas decorrentes do Plano Real.

São análises eminentemente técnicas, que desprezam o embate político-partidário e atêm-se aos dados objetivos da realidade.

Marina Silva tem mencionado esse aspecto continuísta de ambos os governos, ao criticar a tendência plebiscitária que Lula e Dilma querem dar à campanha. PSDB e PT – e Fernando Henrique enfatiza sempre isso – são partidos convergentes. Só os separa a ambição de poder.

A luta por cargos. Não fosse isso, estariam juntos desde a primeira eleição direta. Mas São Paulo, base maior de ambos, os separa.

Essa divergência pontual os empurra para alianças contraditórias e, frequentemente, espúrias.

O PSDB aliou-se ao DEM e ao PMDB para governar, enquanto Lula, em busca da mesma governabilidade, alia-se ao mesmo PMDB, além de partidos periféricos, como PP, PR e PTB.

Se tivessem se aliado desde o princípio, a história teria sido outra.

Hoje, porém, a divisão é irreversível, com prejuízos irremediáveis para a própria qualidade da política que se pratica no Brasil.

Quem quer que se eleja – e isso não é profecia – terá que recorrer à mesma periferia fisiológica que gravita em torno dos dois principais partidos brasileiros, comprometendo na origem o governo que vier a se instalar.

O artifício plebiscitário não muda essa realidade e sugere que as eleições não irão alterar o padrão fisiológico que tem marcado as administrações deste período democrático da história do Brasil.

Pior para a democracia. Pior para o Brasil.

*Ruy Fabiano é jornalista

Comerciais do PT: Defesa da eleição plebiscitária e um quê de messianismo

11/12/2009

Foi ao ar o programa institucional do PT. Foram 10 minutos, à noite, em rede nacional. As entrelas do comercial foram, como já era de se esperar, o Presidente Lula e a Ministra Dilma Rousseff.

A comparação entre o governo Fernando Henrique Cardoso e o governo Lula deu o tom da peça publicitária. Além disso, as falas de Dilma Rousseff procuravam, obviamente, aproximá-la mais e mais do Presidente, apresentando-a como a responsável pelo PAC, pelo Minha Casa, Minha Vida, etc.

Até aí, nada demais. É natural que o governo aposte na comparação com o governo tucano passado, afinal, a atual gestão é bem avaliada, enquanto a gestão passada tem uma memória ruim junto ao eleitorado. Parte desse memória é devida, parte não é, mas isso não vem ao caso no momento.

O que importa é que Dilma e Lula trouxeram a estratégia da eleição plebiscitária para a tela da televisão, além de tentarem fazer a Ministra nadar no mar de popularidade do Presidente.

Pois bem. Acontece que não foi só isso. Em tudo na vida existem nuances, tons, modos.

O comercial do PT não apenas comparou Lula a FHC e apresentou Dilma como a continuidade de Lula. Ele também valorizou ao extremo as conquistas do governo atual, tentando passar uma imagem de que, no Brasil, antes de Lula, só havia trevas.

Isso não é verdade. Conquistas brasileiras foram consolidadas desde os tempos de D. Pedro II, até os de Itamar Franco, passando por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e, até mesmo, José Sarney.

Obviamente, o governo Fernando Henrique também teve sua parcela de contribuição. Pequena em alguns setores, mas grandiosa na economia.

Sendo assim, é um tanto falsa a mensagem petista de que Lula trouxe a luz e de que ela se apagará se Dilma não vencer.

Em suma, entendo como natural a comparação das gestões e a dobradinha feita por Lula e Dilma na frente das câmeras. O que não concordo é com o tom messiânico utilizado em alguns momentos, como se Lula fosse um ser fora do comum.

Nunca foi, não é e dificilmente será. Assim como FHC, assim como Dilma, assim como Serra, assim como eu e você.

A defesa da eleição plebiscitária é uma jogada política inteligente, natural.

O quê de messianismo é totalmente dispensável. Não faz nada bem para as instituições e traz um cheiro detestável de caudilhismo.

Novo Presidente do PT quer “convocar o povo para comparar Lula a FHC”

26/11/2009

Informa o Estadão:

“Em sua primeira entrevista como presidente eleito do PT, o ex-senador José Eduardo Dutra deixou claro porque era o preferido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar o cargo. Após a confirmação da sua vitória nesta quarta-feira, 25, ele saiu em defesa da estratégia traçada por Lula para as eleições do ano que vem.

Ex-presidente da Petrobras, Dutra enfatizou que o PT irá conclamar a população a fazer a comparação entre o atual governo e o seu predecessor, do sociólogo Fernando Henrique Cardoso.”

Alguém ainda tem dúvidas de que a estratégia do governo ano que vem será colocar o tucanato como herdeiro não só do governo FHC, mas também da má avaliação que este tem junto à população, e Dilma Rousseff como a única pessoa com possibilidades de continuar os acertos de Lula?

Confirmado isso, será que ainda há quem duvide que o PSDB precisará, se quiser vencer, seguir o plano que Aécio Neves chama de pós-Lula ao invés de anti-Lula, não deixando que os candidatos do partido sejam identificados completamente com Fernando Henrique Cardoso?

Manter o que está andando certo e reformar o que anda errado é o discurso que colará em 2010. É por Ciro Gomes ser o melhor personificador deste discurso que ambos os lados temem os efeitos de uma entrada real dele no jogo. É por isso, também, que quando o nome de Ciro é retirado dos cenários das pesquisas de intenção de voto há migração de parcelas do seu eleitorado tanto para o lado de Serra, como para o de Dilma.