Postagens com a palavra-chave ‘Federalismo’

2ª Coluna do dia: A divisão de recursos e os estados federados

15/11/2009

Por Jessica Riegg*

Antes de mais nada, leiam parte de um pronunciamento do Governador de Minas Gerais, Aécio Neves, proferido em São Paulo, no último dia 9:

“Quase 70% de tudo que se arrecada no país ficam sob a guarda direta do governo central.

Como, então – pergunto – ser o país das oportunidades, se elas florescem distantes de Brasília, mas é lá que permanecem os recursos, submetidos a uma única lógica e poder de decisão?

Tenho dito que precisamos de um projeto nacional que liberte das amarras não apenas o Brasil do Sudeste, mas o Brasil do Norte e do Nordeste, do Sul e do Centro-Oeste.

E que nos permita, de forma descentralizada, transformar nossas riquezas em bens sociais, renda, oportunidades, e desenvolvimento.”

Segundo o Governador, ainda na briga interna do partido para disputar as próximas eleições para a Presidência, há muito que ser mudado no País. E ele tem razão. Ele deu uma sugestão: a de liberar os estados uns dos outros, o que de certa forma vai contra os ideais socialistas promovidos pelo atual Presidente Lula.

Discordo da posição adotada pelo Governador, já que o Brasil é um País  federativo e dever tratar os seus estados de uma forma igual. Pensem comigo: se cada estado estiver sozinho, São Paulo vai crescer cada dia mais e o Acre vai se tornar um estado cada vez mais desigual, onde os donos dos grandes latifúndios enriquecem enquanto o resto da população passa por necessidades.

Os países da União Européia estão promovendo uma aproximação entre eles, sendo que a UE recebe fundos de cada país para redistribuir entre os menos desenvolvidos. O Brasil, sendo um único País, não faria uma redistribuição da renda para priorizar investimentos nas regiões/estados menos desenvolvidos?

Porque o nosso País então retrocederia nesse processo? A tendência do mundo globalizado é a diminuição das barreiras econômicas, fiscais e, em certo ponto, físicas. O Brasil deve seguir essa linha de raciocínio. Com o aumento da renda nos estados menos desenvolvidos, o mercado de consumo brasileiro vai se ampliar, favorecendo a indústria nacional, pois os seus produtos não estariam dependentes de variações nas tarifas alfandegárias, taxa de câmbio ou movimentos políticos que promovem a criação de barreiras à importação dos nossos produtos.

Já que o mercado interno está mais amplo, poderiam vender seus produtos com mais robustez, dentro do País.

*Jessica Riegg é colunista do Perspectiva Política aos domingos

Coluna do dia: Um viva aos Estados Unidos da América!

04/07/2009

Por Matheus Passos*

Meu caro leitor, não se assuste. O título da coluna é este mesmo: “Um viva aos Estados Unidos da América!”. E o título não é pejorativo e muito menos irônico: Quero efetivamente dar um viva àquele país que é comumente associado ao imperialismo, às transgressões aos direitos humanos, à postura de “xerife do mundo”, à exploração econômica causada pelos “ricos de olhos azuis”, ao capitalismo desenfreado e à ganância econômica.

Meu viva, entretanto, não vai para os EUA atuais, e sim, para os EUA da origem. O leitor menos atento talvez não tenha percebido que hoje é dia 4 de julho. “E daí?”, poderia me perguntar alguém – e com razão. O dia 4 de julho para nós é apenas mais um dia do ano, sem nada de especial. Mas é o dia em que os EUA comemoram sua independência, ocorrida nos idos de 1776, e é para os Estados Unidos daquela época que meu viva vai.

O motivo de tal viva é muito simples. Os “founding fathers” do Estado americano não criaram apenas mais um novo Estado: Eles criaram, basicamente, toda a estrutura político-jurídica sobre a qual se assenta a chamada civilização ocidental. Para além de pessoas específicas daquele processo, quero me focalizar aqui fundamentalmente em quatro elementos criados pelos americanos e presentes nos dias de hoje: 1) O conceito de presidencialismo; 2) O conceito de república moderna; 3) O conceito de democracia moderna; 4) O conceito de federalismo.

O ápice do processo que deu origem aos quatro itens acima citados foi a promulgação da Constituição Americana em 1787, após aprovação na Convenção da Filadélfia. A Constituição americana colocou em prática os preceitos de Montesquieu, criando efetivamente a separação de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário, e dando origem ao cargo político mais importante nos EUA: o presidente da República. Criava-se, assim, o presidencialismo, forma de governo em que as funções de chefe de Estado e de chefe de governo se centralizam em uma única pessoa e cuja atuação é independente do poder Legislativo no que diz respeito à sua origem. Rompia-se, desta forma, com a longa tradição parlamentarista em voga na Europa, originária da Inglaterra ainda nos idos de 1215 com a “Carta Magna” e concretizada em território inglês com a monarquia parlamentar a partir da Revolução Gloriosa de 1688.

A Constituição americana criou também o conceito de república em seu sentido moderno. Para além da inovação do termo, colocando-o em oposição a uma monarquia – na qual o chefe de Estado é hereditário –, a república americana trouxe a novidade de que o povo – considerando-se como “povo”, à época, todos os homens livres – passou a ter impacto no próprio governo, situação inexistente na Europa – o centro político do mundo de então. Estabeleceu-se a igualdade entre todos os homens e, mais importante, vinculou-se a importância da participação do cidadão na esfera pública (política) ao sucesso do país.

Tal proposta estava diretamente ligada ao conceito de democracia, ideia levada ao seu máximo – pelo menos para a época – pelos americanos. Antes mesmo da Revolução Francesa – e de toda a amplitude que tal Revolução trouxe em relação à ideia de igualdade jurídica entre todos os homens –, os americanos foram efetivamente revolucionários ao criarem mecanismos que garantiram a possibilidade de participação a todos os homens livres da época. Talvez hoje possa parecer pouco, mas o mecanismo jurídico-institucional criado pelos americanos fez com que o princípio da democracia se enraizasse de tal forma naquele país que o francês Tocqueville, já citado aqui em outra coluna, se maravilhasse com a estrutura política americana quando de sua visita aos EUA, 50 anos após sua independência.

A democracia americana, entretanto, só funcionou porque os americanos criaram outro princípio político fundamental nos dias atuais: o conceito de federação. Estabelecidos em uma confederação logo após sua independência, a promulgação da Constituição Americana transformou o país em uma federação, dando origem à distinção entre níveis de poder (o que chamamos no Brasil de União, estados e municípios) e vinculando a participação política do cidadão não apenas a questões de sua localidade, mas também à própria escolha do presidente do país – daí advém o sistema eleitoral americano que se perpetua até os dias de hoje, com os delegados, e que tanta estranheza causa ao cidadão brasileiro.

Infelizmente, o espaço é curto para que possamos desenvolver mais a fundo cada uma das ideias acima. De todo jeito, é fundamental compreender estes quatro elementos para que percebamos que a contribuição americana, para a política mundial, foi fundamental em seus primórdios e, afirmo sem titubear que, se não fosse pelos americanos – muito mais do que pelos franceses, com sua Revolução em 1789 –, o mundo como o conhecemos seria totalmente diferente. Assim, pelo menos em termos políticos, devemos dar sim um viva aos Estados Unidos, e agradecer a eles pela sua genialidade e criatividade na solução dos problemas políticos enfrentados à época – além, é claro, de tê-los como exemplo no sentido de perceber que, quando há vontade política, é possível mudar para melhor a situação de um país.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus

O objetivo deste blog

22/01/2009

Não sou alinhado ideologicamente às posições políticas do Senador Marco Maciel (DEM-PE). Concordo com muita coisa que o ex-Vice-Presidente da República diz, mas também discordo de algumas. Além disso, este blog defende a imparcialidade e, portanto, não faria propaganda política do Senador pernambucano.

Porém, é impossível para mim não reproduzir um artigo, escrito pelo Senador, que expressa exatamente quais eram os meus objetivos ao criar este blog, além de ser totalmente imparcial, não sendo tendencioso. Em alguns trechos, vislumbro que o Senador escreveu o que eu penso, porém, melhor do que eu mesmo poderia.

O que eu sempre quis com esse blog foi, e é, justamente o descrito no parágrafo que o Senador escolhe para encerrar o artigo: “E isso exige de cada um de nós o pequeno sacrifício de aperfeiçoarmos a cada dia, com exemplos, nossa cultura política, participando da vida cívica da nação e de suas instituições”

A realidade é que embora eu e o Senador possamos discordar em questões políticas, em nada divergimos no que diz respeito à democracia, à conscientização e à participação popular.

Sem mais delongas, até porque o texto é ligeiramente longo, segue o artigo:

“Apesar do mundo conturbado em que vivemos neste início do terceiro milênio, democracia continua sendo uma aspiração universal. Embora o conceito seja antigo, sua realidade é algo para muitas gerações. Os que dela já desfrutam lutam por aperfeiçoá-la. Os que ainda não a conquistaram lutam por alcançá-la.

Não foi sem razão que, em outubro de 1995, durante visita ao Brasil, o professor Adam Przeworski lembrou que há dois séculos não se criava nenhuma nova instituição democrática: ‘Tudo o que conhecemos de democracia, e seguimos copiando, foi conseguido há 200 anos. A melhor forma que se conhece de democracia é exercê-la por meio de eleições livres. Isso é muito bom, mas não basta’.

Realmente, voto e pleitos eleitorais são as duas derradeiras grandes invenções da democracia representativa. Temos, todavia, de concordar que são requisitos necessários, embora não suficientes para a preservação do regime democrático.

Sob o ponto de vista formal, em inúmeros países vota-se há mais de 200 anos. Até meados do século 19, contudo, o voto era extremamente restrito. A universalização do direito do voto atendeu, assim, a um dos requisitos da democracia: tornou-a mais representativa. Mas a extensão do direito de voto às mulheres só ocorreria, em grande parte dos países europeus e da América Latina, depois do fim da Primeira Guerra Mundial.

Portanto, se nos reportarmos à Atenas de Péricles, temos que a democracia como aspiração é antiga de 25 séculos. Contudo, ela ainda não completou um século como realidade em grande parte dos países, se tomarmos como referência 1919 ou 1945.

Quando Przeworski aludiu ao fato de que há mais de dois séculos não se cria nenhuma nova instituição democrática, seguramente referia-se ao princípio de separação dos Poderes do Estado, concepção de John Locke (‘Tratados sobre o Governo Civil’, 1689) e Montesquieu (‘O Espírito das Leis’, 1748). A democracia, porém, construiu mais alguns avanços além da separação dos Poderes do Estado.

Na época desses dois pensadores, a humanidade conhecia uma forma de governo -a monarquia absoluta.

Em 1787, data da promulgação da Constituição dos EUA, os que a idealizaram concretizaram mais dois significativos avanços: a) a República eletiva como nova forma de governo e b) a Federação como forma de Estado.

Os dois séculos a que se referira Przeworski avançam, portanto, para 1987, ano anterior à promulgação da nossa atual Constituição. Nela já não nos referimos mais à democracia representativa, mas à democracia participativa, em razão dos novos institutos políticos incorporados ao texto constitucional em vigor: o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular.

A democracia participativa não é uma utopia e menos ainda uma aspiração inalcançável. Só depende de nós. Enquanto tivermos ojeriza a partidos, desprezo pelas instituições que nos governam, desinteresse pelos assuntos que nos dizem respeito e aversão à política, corremos o risco de, na guerra de interesses, tornarmo-nos reféns de pressões legítimas ou espúrias que se aproveitam da omissão dos cidadãos, do compromisso de alguns e da alienação de muitos.

Na era da informação, todos nós temos recursos, instrumentos e meios para mantermo-nos informados sobre o desempenho dos nossos representantes em nossas cidades, em nossos Estados e no Congresso Nacional.

Instrumentalizar esses canais de informação, que são iterativos, só nos ajudará a encurtar nosso caminho entre a democracia representativa que temos e a democracia participativa que queremos.

Precisamos ter sempre presente a lição de Georges Burdeau: ‘Os males da democracia só se curam com mais democracia’.

E, por isso, tomo a liberdade de lembrar que não basta criticarmos a política, amaldiçoarmos os partidos.

Temos que nos unirmos em torno dos interesses legítimos que defendemos, sem renunciarmos às ideias nas quais acreditamos, para aprimorarmos a democracia que temos; para aperfeiçoarmos os partidos com que simpatizamos ou com que nos identificamos; e para fazermos da representação política do país a expressão de nossas aspirações por um país mais próspero, um regime mais justo e estável e uma sociedade mais solidária.

E isso exige de cada um de nós o pequeno sacrifício de aperfeiçoarmos a cada dia, com exemplos, nossa cultura política, participando da vida cívica da nação e de suas instituições.”