Por Yashá Gallazzi*
Quando Barack Obama, o Presidente-de-ébano, foi eleito, fez um discurso arrebatador. Falou em “mudança”, em “nova era”, em “paz mundial” e em “igualdade entre os homens”. Mas toda a retórica salvacionista do havaiano, que chegou a prometer o “fim do aquecimento global”, poderia ser resumida na seguinte construção:
“Eu tenho um sonho! No meu sonho, os homens e as mulheres da América, brancos e negros, nativos ou imigrantes, independentemente da religião que professarem, poderão ter acesso ao SUS.”
E Obama foi à luta: pegou todas as ideias que seus vários antecessores tiveram sobre como reformar o sistema de saúde americano, juntou-as num calhamaço enorme e, não satisfeito, acrescentou uma ou duas coisas que, suponho, aprendeu com Lula – “o cara”. O resultado? Um dos diplomas legais mais controvertidos de toda a história dos Estados Unidos.
O plano de Obama, aquele com o qual o Messias negro sonhou, não existe. Ficou pelo caminho, cedendo seus pedaços às exigências de boa parte da bancada… Democrata! Sim, é isso mesmo! Obama apresentou algo tão complicado e contraditório, que nem sua própria base de sustentação – escandalosamente majoritária no Congresso Americano – se convenceu a aprová-lo na íntegra.
Não vou cansar o leitor com todos os pormenores do plano idealizado por Obama. Vou apenas ilustrar o quanto ele foi obrigado a ceder diante da flagrante incapacidade de convencer os parlamentares e a opinião pública da importância de suas bandeiras mais caras.
Um dos principais pontos do programa original previa a criação de um plano de saúde público – o SUS – destinado a atender todos os americanos, independentemente de sua condição social. Esse, aliás, era o carro-chefe de Obama, aquilo que deveria simbolizar a nova mentalidade da América: mais igualdade e solidariedade. Não vingou…
Os americanos sentiram rapidamente o cheiro de queimado quando ficou claro que o trabalhador de classe média, mesmo optando por pagar um seguro de saúde privado, seria obrigado a financiar o plano público. Lá, eles têm dessas esquisitices “direitistas”: não suportam ver os tentáculos do Estado tentando crescer para cima de suas carteiras.
A outra bandeira desfraldada com entusiasmo por Obama foi a de criar um fundo público para financiar quem optasse por – como é mesmo que se diz na linguagem politicamente correta? – “interromper a gravidez”. Também não vingou…
Pelo visto, os americanos – todos conservadores, reacionários, feios e bobos – ainda entendem que matar uma criança é… matar uma criança! Mais que isso: entendem que o Estado não deve financiar aqueles que decidirem matar suas crianças. E, sob uma ótica ainda mais profunda, entendem que quem quer matar suas crianças deve se virar para fazer isso sozinho.
O que sobrou do plano sonhado por Obama? Em síntese, aquilo que Bill Clinton se recusou a levar adiante durante seu governo, pois entendeu que as propostas aceitas pelo Congresso seriam “tímidas demais”…
Claro que Obama conseguiu acrescentar alguns pontos relevantes, que trarão mudanças substanciais ao sistema de saúde e à economia dos Estados Unidos. As mudanças mais imediatas que eu vejo, por exemplo, são: 1) alta dos preços dos planos privados; 2) necessidade do governo de subsidiar os custos; 3) aumentos dos impostos; 4) desemprego.
Mas é claro que tudo isso não passa de mera preocupação conservadora… O importante para o progressismo é que os americanos terão um sistema de saúde mais amplo e acessível, que poderá oferecer a boa parte da população a mesma lógica de operacionalização que nós, brasileiros, conhecemos tão bem aqui…
A “vitória” política de Obama consiste na aprovação de uma lei praticamente toda diferente da que ele queria, e que, ainda assim, conta com a rejeição de 60% dos cidadãos do país. “Ah, mas os americanos são mesmo conservadores!”, dirão alguns. É mesmo? Ué, mas não foram esses mesmos americanos que elegeram Obama Presidente? E não foram eles que, depois de elegerem Obama Presidente, foram saudados pela mídia progressista do mundo, que falou em “morte do movimento conservador americano”?
Obama teve pouco mais de 50% dos votos em novembro de 2008, mas nunca é demais lembrar que começou seu mandato abraçado pela aprovação de mais de 80% dos americanos. Como conceber que, cerca de um ano depois, ele veja sua principal bandeira eleitoral tão rejeitada? Na verdade, é tudo bastante simples. A atuação de Obama vem rompendo um paradigma absolutamente fantástico que sempre norteou a sociedade americana: a regra de ouro segundo a qual o Estado deve se meter o menos possível na vida das pessoas.
A pedra angular sobre a qual se assenta a democracia americana não é a da igualdade, mas a da liberdade. Diz a constituição de lá que os homens possuem o direito à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. Pode parecer apenas uma construção vaga, mas é, na verdade, a essência daquilo que separa o mundo civilizado da barbárie. Quando se assimila o preceito de que ninguém é obrigado a conceder a outrem o que é necessário para que seja feliz, e que cada um, por suas próprias forças e méritos, deve alcançar isso sozinho, temos a fórmula da equação elementar que garante a vida em sociedade.
A crescente insatisfação com Obama por parte da maioria dos americanos não se deve, pois, ao teatro dos “Tea Partys”, nem ao histrionismo de alguns jornalistas da FOX. Eles refletem apenas aquele eleitorado mais à direita que nunca se deixou seduzir pela retórica “mudancista” do Novo Messias. Quem está correndo a popularidade de Obama são os moderados e os independentes, ou, em outras palavras, a fatia do eleitorado que acaba por decidir todas as eleições lá por aqueles lados.
Essa parcela importante da população não dá a mínima para Sarah Palin ou Glen Beck. Eles resolveram romper com Obama quando perceberam que aquele corolário antes referido estava sendo dinamitado pela agenda de governo do democrata, sempre mais intervencionista.
A maioria dos americanos acredita sinceramente na lógica do “self-made man”, o sujeito que batalha e vence na vida graças aos próprios esforços. Por isso, ficaram ouriçados quando notaram que Obama queria o dinheiro dos contribuintes até mesmo para custear abortos.
Ainda há esperança! Quando os cidadãos da maior e mais duradoura democracia da história mostram, sem sombra de dúvidas, que preferem uma sociedade informada pela ação das pessoas, sem os braços pesados do Estado para atrapalhar, é sinal de que o futuro pode, sim, ser promissor.
Entre o imediatismo de um SUS meia-boca, e a vontade de frear os avanços centralizadores do Estado, os americanos estão escolhendo a segunda opção.
“God bless America”!
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento, escrevendo também no Twitter em @yashagallazzi