Para qualquer democracia que deseja ser forte e ter instituições sólidas, uma das piores coisas que pode acontecer é a cooptação de certos órgãos, principalmente os responsáveis por se opor aos erros cometidos pelo governo, através da concessão em benefício deles, pelo Estado, de vantagens e verbas públicas.
Em resumo, é altamente nocivo para a vida democrática de qualquer nação que grupos que, em teoria, estariam dispostos a denunciar qualquer tipo de irregularidade cometida por qualquer um que estivesse no poder, receba agrados daqueles que ocupam o governo. É como se, por controlarem os meios do Estado, alguns governos tentassem se livrar de certas oposições incômodas.
Uma dessas oposições incômodas, em outros tempos, advinha dos estudantes. Independentemente de quem fosse o governante, as organizações de estudantes, como a UNE, colocavam a “boca no trombone” quando o quesito era a falta de ética ou as más políticas públicas. Enfim, houve um tempo, onde esses órgãos constituiam importante megafone da parcela jovem da sociedade, aquela que sempre traz a renovação, a mudança, a modernidade e os novos paradigmas.
Acontece que, de uns tempos pra cá, é fato que a UNE está um tanto cooptada. Por mais que eu acredite profundamente que isso não atinja a todos os membros da União Nacional dos Estudantes, não há como negar que existe relação estreita entre o comando da entidade e o governo atual, o que, na teoria, não configuraria problema algum, não fosse o fato de o governo, curiosamente, não estar mais sendo oportunado pelos questionamentos dos estudantes.
É claro que nada pode ser provado e seria totalmente leviano de minha parte afirmar algo com certeza total, porém, qualquer pessoa com um mínimo de intelecto pode realizar a conexão lógica entre o recebimento de verbas estatais por uma entidade e o abafamento de suas críticas contra quem a concedeu as tais verbas.
Como sempre digo em relação a instituições que deveriam ser vigilantes dos governos mas não as são, é triste ver representantes legítimos de parcelas importantíssimas da população brasileira se calando e mal representando seus membros, que nada tem a ver com isso, por conta de alinhamentos políticos ou ideológicos.
No caso específico da UNE, se foi ela uma das lideranças da sociedade civil contra Collor e se foi ela uma das vozes contra FHC, era natural que se esperasse que criticasse escândalos éticos do governo petista. Como não o fez, vem às nossas cabeças o inevitável pensamento de que isso foi motivado pelo governo atual ser do PT, que tem conexões antigas com o movimento estudantil. E não digo isso para clamar que a UNE fale contra o PT, nada disso, fez certo a UNE ao falar de Collor, fez certo a UNE a falar de FHC e fará certo a UNE se passar a falar de Lula ou venha a falar do próximo Presidente, seja ele petista, tucano, ou de qualquer outra legenda.
Em suma, não se pode ser, como eu, estudante universitário, e não ficar um tanto incomodado com o fato das verbas estatais, que não foram poucas, terem diminuído consideravelmente os ruídos vindos da União Nacional dos Estudantes.
Para provar com dados o que digo, seguem trechos de reportagem, sobre o assunto, do Correio Braziliense:
“A União Nacional dos Estudantes (UNE) ganhou na loteria no governo Lula. O repasse do Poder Executivo à entidade aumentou em 20 vezes nos últimos cinco anos. A soma dos recursos públicos transferidos chega aos R$ 10 milhões no período. Em contrapartida, as sexagenárias manifestações independentes e de críticas ao governo federal desapareceram. No lugar, sobra bajulação. Fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com dirigentes da entidade são exibidas com pompa no site da UNE.
O crescimento da verba recebida do governo foi meteórico. Os recursos saltaram de R$ 199 mil em 2004 para R$ 4,5 milhões no ano passado. Mas não parou por aí. O montante tende só a crescer em 2009: R$ 2,5 milhões já foram depositados na conta da UNE neste ano, segundo levantamento obtido pelo Correio no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Nada mal para quem recebeu cerca de R$ 1 milhão em oito anos do governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
[...]
A presidência da UNE está nas mãos do PCdoB há mais de 15 anos. O partido tem como representante no governo o ministro dos Esportes, Orlando Silva, que presidiu a entidade estudantil entre 1995 e 1997. Em janeiro passado, o ministério comandado por ele liberou R$ 250 mil para patrocinar a bienal de cultura da UNE, realizada naquele mês em Salvador.
Cerca de R$ 6,2 milhões do dinheiro público repassado pelo governo Lula saíram dos cofres do Ministério da Cultura. Pelo menos seis convênios com a entidade foram alvos de tomadas de conta especial, um processo administrativo interno aberto sempre que aparece indício de irregularidade que possa dar prejuízo ao órgão público. Um deles refere-se à participação da UNE em paradas de orgulho gay em 2006. Cerca de R$ 37,5 mil foram repassados à entidade e até agora a prestação de contas não foi aprovada.”
Se por acaso o certo silêncio da UNE não seja real, seja só uma impressão errada do blogueiro que vos fala, ou se o fato de existir sim um certo silêncio não tiver nada a ver com o repasse de verbas, eu estou aberto a ouvir qualquer tipo de explicação. Só não tenho muitas esperanças de que ela venha.