Postagens com a palavra-chave ‘Esquerda’

Coluna do dia: Imagine

20/08/2010

Por Yashá Gallazzi*

Imaginem um presidente brasileiro conservador. Aliás, mais do que isso: imaginem um presidente de extrema-direita. Sim, eu sei que não é fácil, afinal o Brasil está acostumado a ter há décadas, uma disputa entre as várias matizes da esquerda, sem que haja um representante sequer da direita.

Mas, ainda assim, peço um esforço a vocês. Tentem imaginar, apenas por um momento, que o Brasil tem um presidente extremista de direita. Feito isso, imaginem que o sujeito tenha escrito uma carta mais ou menos nos seguintes termos:

“Queridas Companheiras e Companheiros

Há 20 anos, 42 partidos e movimentos conservadores da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo – convidados por nós – para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

Vivíamos tempos difíceis no início dos anos noventa.

Em muitos países começava a ganhar força um discurso radical de esquerda, alimentado por líderes oposicionistas carismáticos, como Lula da Silva e Hugo Chávez, inspirados no exemplo do tirano homicida chamado Fidel Castro. Esses caudilhos ameaçavam as democracias vigorosas e dificultavam a luta dos trabalhadores.

Pairava sobre nosso Continente a ameaça de um novo espectro comunista.

(…) A predominância dessas idéias de extrema-esquerda, era reforçada pela profunda crise das referências tradicionais da direita radical. Suas políticas não permitiam explicar a realidade mundial mas, sobretudo, mobilizar as grandes massas.

A reunião de São Paulo e tantas outras que se seguiram nestes 20 anos tiveram como mérito fundamental criar um espaço democrático de conhecimento e de discussão das extremas-direitas. Esse espaço não existia, muitas vezes, nem mesmo em nossos países.

(…) Hoje, nossa região vive uma situação radicalmente diferente daquela de vinte anos atrás. Muitos dos que nos encontramos no passado nas reuniões do Foro de São Paulo como forças de oposição, hoje somos Governo e estamos desenvolvendo importantes mudanças em nossos países e na região como um todo.

(…) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma esquerda que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos de extrema-direita do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(…) O Brasil mudou e vai continuar mudando nos próximos anos.

Mudou junto com seus países irmãos do Continente.

Mudou como está mudando a Argentina que agora acolhe mais este encontro do Foro de São Paulo.

Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro”

Continuando o nosso exercício de imaginação, considerem que os destinatários da carta acima, assinada pelo presidente brasileiro de extrema-direita, sejam integrantes de partidos com inspiração em Mussolini, Pinochet, Franco, bem como em herdeiros políticos dos militares que governaram Brasil e Argentina durante décadas de ditadura. Imaginem, assim, que tais movimentos políticos sejam as forças políticas integrantes do tal Foro de São Paulo.

Ah, quase esqueci! Considerem também que, além dos movimentos políticos acima mencionados, essa entidade representativa das extremas-direitas da América Latina contasse, ainda, com a participação de um grupo paramilitar, conhecido internacionalmente por sequestrar, torturar, estuprar, matar e traficar drogas.

Como a opinião pública reagiria diante de semelhante organismo internacional? O que diriam a OAB, a CUT, o MST e a CNBB? Qual seria o posicionamento da imprensa e dos intelectuais brasileiros a respeito? Como se comportaria a academia brasileira? Gente como Emir Sader, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim diriam o quê?

Ora, não é difícil concluir que o mundo desabaria sobre a cabeça do tal presidente brasileiro de extrema-direita, não é mesmo? E com razão! Um fórum com clara inspiração fascista e totalitária, formado por movimentos cujo ideário descende de tiranias assassinas, não mereceria mesmo respeito algum! Vou além: não mereceria sequer existir! A democracia não pode, por amor aos seus princípios, tolerar a existência daqueles que, se pudessem, os destruiriam.

Agora, diante de tudo o que vai acima, considerem que o tal Foro de São Paulo realmente existe, e que não é apenas fruto de um exercício de imaginação proposto por mim. Considerem ainda que ele realmente é composto por partidos e movimentos políticos de inspiração ditatorial, e que tem entre seus membros um grupo paramilitar como o descrito ao alto. Mas atentem para o seguinte: considerem que ele não é de extrema-direita, mas de esquerda.

O que custo a entender, o que não me parece nada lógico, é o seguinte: por que repudiamos – acertadamente, diga-se! – um Foro de São Paulo de extrema-direita, mas aceitamos um de extrema-esquerda? Por que seria escandaloso um presidente brasileiro mantendo relações com partidos inspirados em Mussolini e Franco, mas não causa escândalo algum ver Lula sentando à mesa com gente que se espelha em Stalin e Mao Tse-Tung? Por que seria inadmissível ver o governante do país chamando um grupo paramilitar de direita de “companheiro”, mas é aceitável que o presidente atual derrame abertamente seu amor pelas FARC?

Que deturpação descabida de valores morais é essa, capaz de nos levar a rejeitar o nazismo e o fascismo, ao mesmo tempo em que ainda nos faz parecer aceitável conviver com o socialismo e com o comunismo? Se concordamos todos em rejeitar uma das faces do horror, por que não concordamos também em rejeitar o horror por inteiro? Por que o totalitarismo de esquerda é tolerado no Brasil, a ponto de termos no poder um presidente que mantém relação pessoal de amizade com Fidel Castro? Por que o “terrorismo progressista” é tolerado no Brasil, a ponto de termos um presidente que se senta à mesa com as FARC?

Ou, para colocar as coisas de uma outra forma, a ponto de termos uma candidata que militou em grupos paramilitares, aqui mesmo no Brasil, com grandes chances de se tornar presidente?

Esta é, enfim, a curiosidade antropológica que mais me instiga no momento presente. Sei que o povo mais pobre, aquele sustentado pela bolsa-esmola oficial, não dá a menor importância para escolhas políticas e ideológicas. Escolheria um tirano (de esquerda ou de direita, tanto faz), se este garantisse o saldo do cartãozinho de benefício social ad eternum. Mas e a porção “pensante” do país? E a academia? E o jornalismo? Por que ainda há gente que não se escandaliza ao perceber que o principal partido do Brasil – assim como o principal líder político da atualidade – tem, sim, bandidos de estimação?

Não me assusta que o PT tente esconder o Foro de São Paulo, ou, por vias oblíquas, diminuir a importância dele. Não me assusta que marqueteiros de plantão se ocupem em fazer apenas a tal “campanha positiva”, exaltando até aquilo que nunca foi feito. Isso é do jogo. O que me assusta é notar que o mesmo país capaz de se escandalizar com o Fiat Elba de Collor, com os dólares de Roseana ou com a cueca daquele petista, não veja nada de errado em uma carta na qual Lula confessa sua relação direta (e antiga!) com a escória da América Latina.

Temos, assim, a prova de que o terror foi relativizado, criando-se, assim, o terrorismo – e o totalitarismo – “do bem”. Como é pra ajudar “ozoprimido”, na tentativa de construir o tal “outro mundo possível”, então tá tudo certo.

Em qualquer sociedade minimamente civilizada, aquela carta de Lula seria motivo para “impeachment”. Entraria para a história como “a carta testamento” do petista: aquilo que acabou com sua presidência e com as chances do seu partido de continuar no governo. Mas o Brasil atual, de civilizado, tem muito pouco.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: De onde veio o dinheiro de Dilma?

09/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

Esqueçam o FIAT descaradamente supervalorizado que Dilma declarou à justiça eleitoral. Isso é coisa pouca. O que me intriga mesmo, o que merece o interesse da sociedade brasileira é a quantia obscena de dinheiro vivo que a ex-terrorista disse ter em sua casa. De onde veio esse dinheiro? Como é possível que algo assim não seja notícia, nem desperte o interesse do País?

Os leitores conhecem Eike Batista, não é? Pra quem não sabe, ele é aquele sujeito cuja fortuna não foi suficiente para ajudá-lo a segurar a mulher: esta preferiu o bombeiro de setecentos reais por mês. Pois bem, o tal Eike Batista é tido como o homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo. Duvido que ele guarde em casa mais de R$ 110 mil em dinheiro vivo. Nem ele, nem Bill Gates, nem ninguém! Por que Dilma precisa de tanta grana assim à mão? Que dinheiro é esse?

Fossem outros tempos – uns 25 ou 30 anos atrás -, seria fácil adivinhar a origem da grana: provavelmente tudo seria fruto de alguma ação terrorista do grupelho ao qual Dilma (ou era Wanda?) pertencia. Quem sabe o resgate pago em razão do sequestro de algum figurão, ou ainda o produto de um assalto a banco. Mas hoje em dia, não. Hoje a moça é séria e abraça a democracia, não é mesmo? Sendo assim, permanecem as perguntas: de onde veio tanto dinheiro? Por que tê-lo em casa, ao alcance da mão? Com qual objetivo ele seria usado?

Eu sei que petistas não gostam de explicar a origem de dinheiro vivo, basta ver o frenesi que criaram em 2006, quando Alckmin perguntou a Lula de onde viera a grana dos “aloprados”. Essa turma que carrega o estandarte da redenção “dozoprimido” se acostumou apenas a julgar os demais. Não suportam estar na defensiva, pois entendem que fazer política é apenas um direito deles. Tudo isso é notório, mas, ainda assim, não resisti. Ao ver que os R$113 mil em dinheiro vivo que Dilma guarda em casa passaram desapercebidos pela tal “grande mídia golpista, preconceituosa e de direita”, resolvi eu mesmo dar uma de “golpista, preconceituoso e direitista”: faço questão de saber tudo sobre esse dinheiro!

Onde Dilma o guardava? Se ela vai presidir a nação, acho justo que a sociedade conheça seus hábitos. É importante saber se ela esconde R$ 113 mil reais no meio da roupa íntima, dentro do colchão ou ainda no fundo falso de alguma parede.

Eu adoro um exercício de imaginação. É divertido. Querem ver? Pois bem, imaginem que fosse José Serra, o tucano (malvado, feio e bobo) quem tivesse tanto dinheiro vivo nas mãos. É lícito deduzir que rapidamente a máquina petista de moer reputações seria colocada em movimento, não é? Vamos além: imaginem que aquela grana fosse declarada por FHC, a besta-fera dos petistas. O mundo viria abaixo. Por que, então, ninguém questiona Dilma? Por que ela pode ter em mãos dinheiro suficiente para comprar uma bela quantidade de eleitores sem que ninguém diga uma palavra a respeito?

“Ah, mas ela está nas cabeças! E tem o apoio de Lula. Ela não precisa comprar eleitores.” Pois é… Esse sempre foi o mais deletério legado da tal “era Lula”: a ideia absurda de que aprovação popular é salvo-conduto para fazer qualquer coisa, ainda que ilegal. Isso porque basta aos petistas recorrer ao velho truque marxista de dizer que o conceito de legalidade não é absoluto, porquanto forjado pela tal “sociedade burguesa” – no caso brasileiro, “pelazelite”.

Eis aí… A “sociedade burguesa” realmente acha estranho que um candidato à Presidência tenha em casa mais de R$ 110 mil em dinheiro vivo, sem que se saiba a origem ou o destino de tal montante. Mas a “sociedade burguesa”, no Brasil, representa só aqueles 5% que insistem em não aprovar Lula. O resto do povo, sabemos, já perdoou o mensalão e os vários dossiês. Muitos sequer conhecem os detalhes escabrosos envolvendo a morte do prefeito Celso Daniel. Por que se preocupariam com as notinhas guardadas no cofrinho de Dilma?

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: O último dos moicanos

02/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

Antes de me debruçar de fato sobre o tema central deste texto, peço ao leitor o seguinte: Se você quer criticar o Vice de José Serra, Deputado Índio da Costa, mas pretende votar em Dilma Rousseff, a ex-terrorista que escolheu como Vice ninguém menos que Michel Temer, nem se dê ao trabalho de continuar a leitura. Este texto tem um lado. E este lado, sinto, não é o seu. Adiante.

Ao escolher Índio da Costa como seu Vice, José Serra deixou sua intenção razoavelmente clara: Quer alguém jovem, alguém que possa emprestar um ar de renovação, de vigor para a chapa PSDB-DEM, que já conta com a figura do político experiente. Vai funcionar? Difícil dizer. Se considerarmos que há alguns dias a oposição esteve perto de indicar Álvaro Dias para o posto, a escolha de Índio da Costa parece um salto de qualidade tremendo.

Não! Não estou aqui tentando de forma oblíqua tecer comentários negativos ao Senador Álvaro Dias. Minha opinião se baseia em simples raciocínio lógico: Um Vice precisa agregar algo novo à chapa. Dias, vindo do Paraná – um estado sulista, onde Serra já é franco favorito -, não traria lá muitos votos a mais. Já o Deputado Índio da Costa pode ajudar num estado onde Dilma cresce a olhos vistos: o Rio de Janeiro.

Mas isso tudo não passa de exercício de futurologia, que pode facilmente mudar ao sabor da maré eleitoral que se avizinha. O dado mais curioso da corrida eleitoral – até agora pelo menos – foi o quase rompimento da aliança entre tucanos e democratas. Ao tentar empurrar goela abaixo do DEM o nome de Álvaro Dias, o PSDB esteve a um passo de perder seu aliado mais fiel, o que poderia concorrer para modificar bastante o quadro sucessório.

No meu mundo ideal, o DEM vestiria de uma vez por todas a carapuça de partido conservador do Brasil, indicaria a Senadora Kátia Abreu à Presidência e, arrisco dizer, teria grandes chances de fazer uma boa campanha.

Sim, é claro que eu sei a gritaria que o progressismo faria contra a Senadora tocantinense. Tudo absolutamente normal e dentro do padrão brasileiro, afinal “essepaiz” costuma demonizar todo aquele que defende o livre mercado, a iniciativa privada, a meritocracia e o império do regime de liberdades democráticas. Aqui, onde uma ex-terrorista está às portas do Planalto, prefere-se a bandalheira revolucionária do MST…

Mas o DEM, acostumado a ser rebocado pelo PSDB, jamais tomaria tal atitude. Candidatura própria? Com o risco de amargar as últimas colocações (não que eu acredite que isso fosse acontecer…)? Jamais! Por isso choraram, pressionaram e pronto: Índio da Costa levou a vaga de Vice. Bom para quem deseja uma alternativa contrária ao lulo-petralhismo, afinal, está claro que tucanos e democratas, juntos, têm mais condições de vencer do que sozinhos.

A desgraça é que o Brasil vai ver mais uma eleição monocromática, onde todos os políticos vão disputar o campo “vermelho” do eleitorado. De Serra a Dilma, passando por Marina Silva, todos vão lutar para se mostrar o mais progressista possível, prometendo manter as várias bolsas-esmola, aumentar o tamanho do Estado e prover ao cidadão todas as necessidades, de forma que ele nunca precise aprender a viver por conta própria.

Todo mundo ávido por ser progressista, até o partido tido como “de direita” pela imprensa, que as esquerdas acusam de ser comprada pelo partido da… direita! E isso num País onde majoritariamente se é contra o aborto, contra as drogas, favorável à pena de morte e à redução da maioridade penal.

A fatia mais numerosa do eleitorado brasileiro está ávida por um “partidinho conservador” para chamar de seu. Em vez disso, vai ter que escolher, mais uma vez, entre uma infinidade de esquerdistas. Um tédio!

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Diário de viagem – A eleição britânica levou os clichês para passear

14/05/2010

Por Yashá Gallazzi*

Na última semana, durante minhas férias na Europa, tive o prazer de acompanhar as eleições gerais no Reino Unido “in loco”. E adorei! O voto dos britânicos seria uma sucessão interminável de clichês, uma reunião de previsibilidade quase embaraçosa, não fosse a declarada preferência deste escriba por tudo aquilo que, bem… conserva certas tradições.

Os eleitores britânicos seguiram o principal de todos os clichês: quando uma situação econômica incerta se avizinha, a direita é chamada a governar, afinal, os conservadores e seus cortes de impostos parecem muito mais atraentes em tempos de vacas magras. Assim, os “tories” voltaram a ser o maior partido depois de anos de hegemonia trabalhista – ou, mais precisamente, de hegemonia de Tony Blair.

Apesar disso, outros clichês também foram devidamente revividos naquela votação. Os Conservadores de David Cameron, apesar de terem recebido a maior porção dos votos, não conseguiram uma maioria suficiente para formar, sozinhos, o novo governo. Isso, apesar do triunfo numérico, acaba por ser uma espécie de derrota política, afinal, mostra que a mensagem de Cameron, em que pese a péssima popularidade de Brown e dos trabalhistas, não convenceu plenamente.

O jovem e carismático líder dos Conservadores acabou se mostrando excessivamente utópico, falando reiteradamente em mudar tudo e em governar melhor que o “Labour”, mas sem apresentar planos concretos de como fazê-lo. Passou, assim, uma áurea de insegurança, que o acompanhou até o final da campanha.

Gordon Brown, por sua vez, não tinha mesmo como sair vencedor. Além de ser um político impopular e com nenhum carisma, o principal nome dos Trabalhistas chefia um governo sem apelo e cujas realizações são muito contestadas. A receita que ele apresentou para enfrentar a crise econômica? Mais impostos. E isso – claro! – não agradou.

Além dos dois principais protagonistas, também ganhou destaque nas últimas semanas de campanha o liberal-democrata Nick Clegg, que empolgou boa parte dos eleitores com sua atuação forte nos debates televisivos – os primeiros da história do Reino Unido.

Algumas das pesquisas de intenção de voto, feitas logo depois dos debates, chegaram a indicar Clegg como potencial vencedor e, mais do que isso, chegou-se a especular o fim do tradicional bipartidarismo existente entre Conservadores e Trabalhistas. Mas isso seria uma surpresa, e a eleição britânica, como já disse, foi nada mais que uma sucessão interminável de clichês.

O bipartidarismo está mais forte do que nunca, e os liberais-democratas de Clegg, em que pese o papel importante que poderão ter na formação do próximo governo, acabaram perdendo três assentos em Westminster. Como explicar isso? Muito simples: a partir do momento em que se falou em possível crescimento forte de uma terceira força política, as bases dos dois maiores partidos se mobilizaram e foram às urnas, mantendo tudo exatamente como sempre foi.

Parte da imprensa – britânica e mundial – falou numa eleição com três vencedores. Sou um tanto mais duro e, por isso, apresento um veredicto diferente: foram três perdedores. Cameron e os Conservadores perderam porque, mesmo numericamente vitoriosos, deixaram que um favoritismo acachapante fosse corroído por sua própria incapacidade de ação, deixando escapar a chance de controlar o Parlamento. Brown e os Trabalhistas perderam para sua própria obra, ou seja, foram reprovados pelos eleitores. Clegg, por sua vez, foi derrotado pelo pragmatismo: a maioria esmagadora dos britânicos não quis dar uma chance à aventura liberal-democrata.

Nas ruas de Londres o clima era de uma moderada empolgação. Conversei com algumas pessoas rapidamente, e percebi que a eleição geral deste ano despertou bastante interesse, principalmente em razão dos inéditos confrontos televisivos. Os tradicionais eleitores de Conservadores e Trabalhistas com quem falei estavam dispostos a votar nos seus candidatos, mas todos faziam questão de tecer críticas aos seus potenciais primeiros-ministros, condenando a incapacidade de um – Brown -, ou a falta de propostas concretas do outro – Cameron.

Não encontrei lá muitas pessoas dispostas a votar em Clegg, o que acaba por refletir o resultado das urnas. Os liberais-democratas receberam a maior quantidade de votos da história, mas, do ponto de vista proporcional, ficaram muito aquém do esperado. Na verdade, o agora terceiro maior partido do Reino Unido só terá importância grande na próxima legislatura em razão das “derrotas” de Conservadores e Trabalhistas.

Todas as análises eleitorais decorrentes do resultado podem ser resumidas no seguinte: os Conservadores, na ânsia de se mostrarem “modernos e progressistas” – Cameron falou várias vezes em “romper com o passado thatcherista” -, acabaram por perder boa parte de seu eleitorado. Os Trabalhistas, depois de quase duas décadas no poder, sofreram o esperado desgaste político. Os liberais-democratas de Clegg, por outro lado, apesar das ideias bonitas e do discurso politicamente correto, não conseguiram convencer os eleitores de que poderiam ser uma real alternativa de poder – mais ou menos o problema que Marina Silva enfrenta aqui…

Mais tarde, chegou-se às especulações pré-formação de governo. Brown, alegando que Cameron não conseguiu a maioria parlamentar, avocou o direito de permanecer no número 10 de Downing Street, liderando um governo de união nacional com os liberais-democratas de Clegg. O líder dos Conservadores, por outro lado, alegou que é absurda a hipótese de um primeiro-ministro que não seja o líder do maior partido, e que, se alguém devia formar um novo governo, este alguém era ele. Já Clegg, por sua vez, tratou de agir como um bom e velho filiado do PMDB e alimentou todos os boatos possíveis. E, com isso, deixou claro que não estava mesmo à altura do cargo que ambicionava.

Tanto Brown quanto Cameron poderiam terminar como chefes do governo britânico, afinal, ambos tinham condições de formar uma maioria legislativa estável. A lógica, porém, fez caber ao jovem conservador apresentar à Rainha uma futura agenda de trabalho e um plano de reformas, afinal, foi ele quem recebeu o maior número de votos dos eleitores.

E, convenhamos: dar a chave do número 10 de Downing Street a David Cameron, o político proporcionalmente mais votado pelos britânicos, foi o fechamento de ouro para essa bela eleição cheia de clichês.

Concluo com um exercício de imaginação: se fossem realizados debates televisivos na época de oradores brilhantes como Churchill e Thatcher, o que teria sido dos pobres adversários? Destroçados… É essa a única palavra que me vem à mente.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Análise: Tarso Genro pode ficar isolado no Rio Grande do Sul

08/05/2010

No início das articulações visando as eleições gaúchas deste ano, a cúpula petista cogitava fechar aliança com o PMDB no Rio Grande do Sul. Isso daria a Dilma Rousseff não só o forte palanque de José Fogaça, mas também mais um ponto de convergência no que diz respeito à aliança nacional entre PT e PMDB.

Acontece que, também desde o início, Tarso Genro bateu o pé. Com o status de petista histórico e com um Ministério importante como o da Justiça nas mãos conseguiu o que queria: Candidatar-se ao governo do Rio Grande do Sul pelo PT.

A candidatura de Tarso separou PT e PMDB no estado, empurrando Fogaça para uma já preferida por ele aliança com José Serra.

Pois bem. Restava a Tarso tentar unir as ditas “esquerdas”.

Também não conseguiu.

Beto Albuquerque, do PSB, lançou pré-candidatura ao governo e, agora, chega a novidade de que o PC do B está pensando em apoiar Albuquerque, que tem desempenho médio nas pesquisas, ao invés de Tarso, que é um dos líderes.

O PR, partido que não é de esquerda mas que compõe a base de Lula, é mais um que pode acabar por estar na coligação de Beto.

Conclui-se que a candidatura de Tarso Genro no Rio Grande do Sul está isolada.

Genro tinha a faca e o queijo nas mãos: Detém influência e prestígio, controlou um importante ministério e vai bem nas pesquisas.

Para completar, a atual Governadora, Yeda Crusius, é mal avaliada pelos gaúchos.

Alguma coisa aconteceu.

Não se sabe bem o quê.

Ou até se sabe.

Coluna do dia: Diário de viagem – A ineficiência do Estado evidenciada numa ponte aérea

01/05/2010

Por Yashá Gallazzi*

De férias na Europa com minha esposa e o filhote, viajamos de Milão para Paris por uma companhia de aviação “low cost”. O preço de cada passagem aérea entre duas das mais lindas capitais europeias? 25 euros. Isso dá cerca de 70 reais, ou seja, um valor obscenamente baixo. Irrisório até. Principalmente quando se considera a viagem feita.

A mesma viagem, feita com a Air France ou a Alitalia, duas empresas subsidiadas pelos governos francês e italiano, respectivamente, custaria cerca de 200 euros por passagem. Isso para não mencionar os aviões mais velhos e de qualidade inferior que são usados pelas “companhias nacionais”, como são chamadas na Europa os elefantes brancos como aquelas empresas.

Considerados os custos exagerados da aviação civil mundial, os preços praticados pelas companhias “low cost” parecem obra de magia negra. Mas é tudo fruto de economia elementar aplicada segundo as regras básicas do comércio livre.

Lá pelos anos oitenta, quando a Europa percebeu que as companhias aéreas estatais acabariam por levar os Estados à falência, dois caminhos surgiram diante dos vários governos de então: 1) imprimir dinheiro e injetar ainda mais capital em companhias decadentes; ou 2) tirar o Estado do meio e deixar que a iniciativa privada, muito mais eficiente em matéria de gestão, tomasse conta do setor.

Países como Itália e França, governadas à época por coalizões políticas viúvas do Muro de Berlim, escolheram a primeira alternativa. E acabaram carregando no colo Air Frances e Alitalias economicamente inviáveis, que cobram centenas de euros por uma passagem Milão-Paris. Inglaterra, Irlanda, Holanda e Suécia, por outro lado, deram ouvido a Smith, Rand e Mises, dando à luz as companhias “low cost”, que, hoje, me permitem voar entre algumas das cidades mais lindas do mundo por preços absurdamente módicos.

A economia é muito simples: o Estado deve se ocupar apenas daquilo que não pode ser gerido pela lógica pura do lucro. Isso quer dizer que os governos precisam controlar a defesa externa e a segurança pública, além de regular os serviços de saúde e educação. Qualquer coisa além disso é pedir para tomar prejuízo, afinal, todas as demais atividades podem perfeitamente ser executadas de forma mais eficiente pela iniciativa privada, inclusive dispendendo menos dinheiro. Ou alguém consegue me explicar, com amparo lógico, por que diabos um governo deve manter uma empresa de aviação? Para fornecer um serviço de utilidade pública? Ora, mas de que adianta isso, se ele cobra pelo serviço dez vezes mais do que um empresário qualquer?

Há coisa de duas ou três décadas, os governos estatizantes de Itália e França apostaram que poderiam fornecer serviços tão bons quanto os das empresas privadas, e por um preço mais – como é mesmo que eles dizem? – “socialmente justo”. Quebraram a cara! Hoje, Sarkozy e Berlusconi quebram a cabeça tentando se livrar dos dois pesos-mortos que sugam mais e mais dinheiro dos contribuintes italianos, mas os sindicatos italianos e franceses – também viúvos do tal Muro… – arrumam uma passeata ao sinal de qualquer ameaça de privatização. São uns bravos guerreiros progressistas, sempre ávidos por construir o tal “outro mundo possível”, onde o Estado deve prover passagens aéreas para os cidadãos. Ainda que a preços horrendos…

Em última essência, não se trata nem de disputa ideológica. Esqueçam direita e esquerda, liberal ou intervencionista. A questão é prática e fácil de ser analisada: é preciso descobrir como garantir às pessoas passagens aéreas de qualidade por um preço sempre mais acessível. Colocada a questão principal, analisem-se os fatos: onde o Estado se fez presente, com toda sua característica de morosidade, sua falta de profissionalismo e sua burocracia parasitária, o resultado foi catastrófico. Onde os governos saíram de cena, dando lugar às empresas privadas, os resultados são fantásticos. Ou alguém tem outro adjetivo para qualificar a possibilidade de se viajar de Milão até Paris por 25 euros?!

A saída, portanto, é apenas uma: o Estado deve tirar seu time de campo, dando cada vez mais espaço à eficiência e à livre iniciativa do setor privado. Aviação civil não é matéria de segurança nacional, nem sofre qualquer tipo de ameaça se regulada apenas pela lógica do lucro. Pelo contrário: é em tal cenário que ela mais pode prosperar, como os fatos deixam claro.

Inglaterra, Irlanda e mais uma meia-dúzia de países entenderam isso há mais de vinte anos. Itália e França ainda relutam em aceitar os fatos. Países rastaqueras e pobres como o Brasil, por outro lado, vão levar séculos. Basta lembrar que até outro dia ainda havia passeatas organizadas apenas para dizer que “a Varig é nossa”…

Ah, quase esqueci! Nos aeroportos de Franca e Itália, as companhias “low cost” pagam taxas mais elevadas para decolar e pousar, do que aquelas cobradas dos elefantes brancos Air France e Alitalia. Quando o Estado está no meio é assim: já que não se consegue ser mais eficiente e profissional do que a iniciativa privada, o negócio é partir pra retaliação.

Eis aí. Parabéns a todos os estatistas, que defendem esse tipo de birra ridícula, em detrimento do direito que os cidadãos têm de voarem por um preço verdadeiramente mais justo. Esse é o “outro mundo possível” de vocês. O meu, deve ter ficado claro, é aquele onde qualquer um com 25 euros na mão pode tomar um café na Champs Elisè.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

PP ainda decide se caminhará ao lado de Dilma ou de Serra

25/04/2010

Informa Felipe Patury, na revista Veja:

“No início do ano, o PP encomendou um levantamento para aferir quem seus diretórios estaduais prefeririam apoiar na eleição presidencial: a petista Dilma Rousseff ou o tucano José Serra. Deu Dilma disparado: vinte a sete.

A situação mudou no último mês, porque o PSDB sinalizou que gostaria de ter o presidente da agremiação, o senador Francisco Dornelles (RJ), na vaga de vice de José Serra.

Muitos diretórios cogitaram mudar de lado, mas os dirigentes do PP só querem decidir seu destino em junho, às vésperas da convenção partidária.

Até lá, dirão ao PSDB e ao PT que precisam fazer uma nova pesquisa antes de escolher um candidato. A sondagem ocorrerá no fim de maio.”

Lula disse, há algum tempo, que era importante ressaltar que todos os candidatos à Presidência com representatividade eram representantes de alguma parcela da esquerda.

É. Pode ser.

Mas se o PP estiver com Dilma, estará mais do que comprovado que teremos parcelas da direita caminhando ao lado de todos os candidatos.

E mesmo que o PP feche com Serra, nomes do PMDB se encarregarão do serviço de representar a direita dentro da coligação de Dilma.

Coluna do dia: “Vamos tirar o Brasil do vermelho!”

16/04/2010

Por Yashá Gallazzi*

A frase que utilizo como título foi dita pela Senadora Kátia Abreu, que pediu ao Ministério da Justiça a adoção de ações concretas a fim de prevenir as invasões de terra protagonizadas pelo MST, aquela milícia clandestina criada por João Pedro Stédile, o homem que pretende transformar o Brasil num País mais “justo e igualitário”, inspirando-se, para tanto, em ninguém menos que Mao Tsé-Tung, o carniceiro chinês responsável pelo assassinato de 70 milhões de pessoas.

O slogan cunhado por Kátia Abreu – e pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), presidida pela Senadora do Democratas – é o melhor e mais eficaz mote de campanha que a oposição brasileira, liderada por José Serra, poderia usar. A ideia seria partir abertamente para um confronto ideológico, como nos velhos tempos: eles são os “vermelhos”, que apóiam Cuba, Venezuela e o MST. E, por isso, o Brasil não pode confiar neles.

É claro que Serra e os tucanos não farão nada disso, afinal, são uma – como é mesmo que eles dizem? – “oposição construtiva”. São pessoas elegantes, que se preocupam apenas em fazer uma “campanha propositiva” focada, principalmente, em mostrar uma infinidade de obras feitas pelos políticos do PSDB. E haja “choque de gestão”, “eficiência” e “competência” pra preencher tantos discursos. Confronto ideológico? Ah, isso é coisa do passado! Ninguém mais liga pra isso hoje em dia, dizem os especialistas.

Bem, os especialistas estão errados! Lembram da campanha de 2006? O melhor momento de Alckmin foi quando ele deixou de lado aquela patacoada de “eu vim de ‘Pinda’” e passou a colocar o dedo na cara de Lula, perguntando insistentemente: “De onde veio o dinheiro do mensalão e do dossiê?”

Lembram de 89? Esqueçam as teorias conspiratórias que pretendem atribuir o triunfo de Collor à edição de um mísero debate. Isso pode até ter ajudado, mas não foi decisivo. Collor venceu porque conseguiu incutir no povo o medo de um candidato do “campo comunista”, como ele chamava Lula repetidamente na TV. E o eleitor brasileiro, majoritariamente conservador, rejeitou o barbudinho com cara de mau.

Na campanha atual, Serra e Dilma não vão tocar no tripé que sustenta a economia brasileira. Se houver alguma mudança, ela será feita pelo tucano – que não precisa pagar pedágio ao mercado financeiro -, não pela petista.

Além do enfadonho discurso do “pós-Lula”, o que resta aos candidatos?

Passaremos meses vendo Dilma, de um lado, tentando se apresentar como aquilo que é: um avatar de Lula. E Serra, do outro, dizendo que tudo está bom, mas ele sabe como pode melhorar ainda mais. Só de imaginar já me sinto aborrecido…

E o confronto de valores, como fica? O que eles pensam sobre aborto, liberação das drogas, pena de morte, liberdade de imprensa e valores democráticos? Por que diabos o candidato da oposição não vai apontar o dedo para Dilma e cobrar a petista por seu passado terrorista? Por que o PSDB não cuida de associar, da forma mais explícita possível, o PT aos bandoleiros de Stédile? Porque isso tudo não tem importância? Tem, sim!

Uma pesquisa do Ibope, feita em 2008, procurou saber como os brasileiros viam o MST. As respostas não deixam margem para dúvida:

- 50% são contrários ao movimento;

- para 45%, a palavra que melhor descreve o movimento é “violência”.

- 31% discordam totalmente do objetivo do MST;

- 38% concordam com o objetivo, mas acham que o MST se desviou dele;

- 60% acham que as tais “organizações camponesas” estão se aproximando da criminalidade

            E não venham me dizer que os brasileiros condenam o MST porque são doutrinados pela mídia conservadora, reacionária, preconceituosa e de direita. A Rede Globo, grande besta-fera das esquerdas radicais brasileiras, nunca chamou os milicianos de Stédile de criminosos ou terroristas. Eles são sempre “militantes”. Se isso é ser parcial, resta forçoso concluir que a parcialidade em questão só ajuda o MST.

            A Senadora Kátia Abreu percebeu que o confronto ideológico contra o MST só pode ser uma boa jogada, afinal, a maioria da população não vê lá com muita simpatia aqueles bandoleiros. Ela se mostra, assim, “o melhor homem da oposição”, numa paráfrase da famosa frase usada por Ronald Reagan para descrever Margareth Thatcher.

            Uma campanha sem confrontação de valores é morna e sem graça, coisa que não é do interesse da oposição atual. A mensagem de Serra é ótima: “fizeram muito. Tenho experiência para fazer muito mais. Minha adversária não tem.”

            O problema é que para Dilma a coisa também é muito simples: basta a petista convencer o eleitor de que, se é para melhorar o que de bom foi feito, o mais prático é votar em alguém da situação, não da oposição. Isso, associado a um ou outro lance de guerrilha política, como espalhar a falsa ideia de que os tucanos acabarão com o Bolsa Família, pode virar o jogo facilmente.

            A oposição deveria perceber o óbvio: uma sociedade – qualquer que seja ela – tem valores morais próprios. Exatamente por isso o confronto ideológico nunca é ignorado pelo eleitor. Ele pode, sim, ser relativizado, principalmente num cenário de fartura econômica. Mas ignorado ele nunca será.

            O problema é que a oposição brasileira tem medo do confronto ideológico. Serra tem medo de chamar Dilma de terrorista, porque ela pode responder acusando-o de ter simpatia pela ditadura. E aí? Um embate de ordem moral nunca é fácil de ser feito, pois os tiros – dos dois lados – sempre são pesados. É preciso muito traquejo para explicar, no Brasil, que ser anti-comunista não quer dizer ser fascista, coisa que muitos ainda confundem.

            Mas o principal nem é o medo do contra-ataque. O problema é que Serra e o PSDB são muito de esquerda para fazer algo assim. Lá no fundo dos seus corações emplumados, há tucanos que ainda caem naquela baboseira de que “a resistência armada” foi importante para a construção da democracia. Eles querem, em resumo, disputar com o PT o “campo progressista”, pois morrem de medo quando são acusados de serem conservadores e direitistas.

            Isso para não mencionar que a própria moral dos principais expoentes do tucanos foi forjada a golpes de martelo esquerdista. Ou alguém se espantou quando FHC – o monstro neoliberal, lembram? – se disse favorável à liberação das drogas? Eu não esperava outra coisa dele. Da mesma forma que não espero ver um partido como o PSDB se dizendo publicamente contra o aborto, afinal, abraçar a defesa da vida virou um fardo a ser suportado só pelos “neocons”, não é? E eles são “progressistas”!

            É por tudo isso que a campanha será muito dura para ambos os principais candidatos. E imprevisível também. Tudo porque a oposição insiste em disputar no terreno do PT, que é o terreno das esquerdas. Morrem todos de medo das chamadas “bandeiras conservadoras”, por isso se negam a chamar o MST de milícia partidária, afinal, não querem ser acusados de “criminalizar os movimentos sociais”…

            Não sei se a eleição seria menos difícil para Serra se ele adotasse o lema de Kátia Abreu, conclamando os eleitores a “tirar o Brasil do vermelho”. Mas tenho certeza que ela seria bem menos chata para mim.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

            Coluna do dia: Ataque americano no Iraque – Bem-vindo ao mundo real

            08/04/2010

            Por Felipe Liberal*

            Bastards, rebels and terrorists são as palavras que me fizeram chorar ontem à noite. Essas imagens acima são o reflexo de tudo que escrevi até hoje e que tento expressar, ostentando dias melhores.

            É contra tudo isso que luto, que lutamos, nós, de esquerda, ultrapassados, retrógrados e “comedores de criancinhas”. É por conta disso que ainda insisto, que ainda sinto vontade de estar aqui, gritando nesse vazio interminável e denso onde estamos metidos 24 horas, todos os dias.

            Essas imagens são de um helicóptero Apache estadunidense, em Bagdá, de onde se comunicam os bravos soldados democráticos e libertadores com a torre em terra. Através do rádio, os soldados avisam: “Have five or six individuals with AK 47s” e daí pedem permissão para atirar, pois eles disseram que os “tais” carregavam fuzis e lançadores de granada.

            A permissão foi dada e junto com ela surgiram tiros e uma nuvem de fumaça e sangue. A fumaça suja de sangue vinha de dois civis, jornalistas da Reuters, Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh, mortos pelo exército norte-americano. Um deles ainda tenta, se arrastando, chegar a uma van preta que tenta também ajudá-lo, mas uma nova rajada de tiros detona o veículo, que possuía duas crianças no seu interior, que, por sorte, saíram apenas feridas.

            Essa é só uma amostra do que acontece no Iraque. Milhares de vídeos como esse não são divulgados, por se tratarem as vítimas de civis anônimos e invisíveis.

            O imperialismo é isso, para quem o defende. Os Estados Unidos da América são isso, para quem os defende. A democracia e a liberdade americanas são isso, para quem as cultua. Tudo que escrevo não é apenas raiva ou ódio do capitalismo ou imperialismo, mas indignação e tristeza com o que eles geram como consequência inevitável.

            O maldito sistema pede sangue, morte e desprezo pela vida humana. Ninguém em sã consciência pode negar que isso é uma prática do capitalismo, e não apenas dos EUA. A guerra é um fator econômico, que compra vidas através da morte.

            Declaração Universal dos Direitos Humanos? ONU? A maior democracia do mundo? Respeito pela dignidade humana? Paz? Tudo isso parece piada diante das imagens da verdade.

            A mentira nos condena à moderação, aos caminhos da aceitação, à burra imparcialidade e à venenosa omissão. Essa é a verdade, meus amigos e amigas, essa é a mais pura verdade do que acontece todos os dias no planeta Terra.

            Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad e Fidel Castro são criancinhas, comparados a pessoas como Reagan, Bush ou Obama.

            O mundo precisa entender quem são os verdadeiros culpados pela nossa terrível situação como seres humanos. Saiamos desse conto de fadas falado em inglês e comprado em dólar. Precisamos entender e combater os verdadeiros Bastards, rebels and terrorists do mundo real.

            *Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

            Coluna do dia: Quando uma espécie de neonazismo é praticada pelo PT

            02/04/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Há duas semanas, escrevi sobre a greve dos “professores” de São Paulo. Notem que a palavra não está grafada entre aspas sem motivo: eu definitivamente não consigo considerar aquelas pessoas como parte da categoria que deveria educar nossas crianças.

            A foto que ilustra o presente texto é emblemática: essa gente sempre foi particularmente eficaz quando se tratou de incendiar livros. Notem, aliás, o semblante dos neonazistas arregimentados pelo petismo. Digam aí: há algum traço de remorso? Algum sinal de que promover a destruição do patrimônio público é algo doloroso para eles? Não. Ali, diante daquele fogueira, os terroristas estão em seu estado puro.

            Neste ponto, lembro de algo que sempre repito para os que tentam jogar Hitler no colo da direita: nazismo é a sigla – ou o apelido carinhoso, se preferirem – de nacional-socialismo. A história está aí para quem quiser averiguar os fatos: Hitler, um dos maiores assassinos da história, só poderia ter encontrado inspiração nas obras de grandes assassinos que o precederam. É, por exemplo, ponto pacífico que o Führer tinha simpatia por Marx e Lênin. E, se quisermos traçar um paralelo, é muito mais fácil identificar o nazismo com o comunismo soviético – basta substitui os judeus pelos burgueses e os arianos pelo proletariado -, do que com qualquer governo de cunho liberal.

            Por que falar de Hitler e do nazismo? Bem, o que vem à mente quando se trata de promover queima de livros? É marcante notar como a turba acéfala arregimentada pela Apeoesp consegue reproduzir em detalhes todos os traços típicos de um grupo fascistóide, desde o aparelhamento completo de movimentos sociais, até a violência contra o Estado democrático de direito. Deixados livres para cometer seus delitos, os milicianos do PT rapidamente transformariam a fogueira de livros em um altar onde seriam oferecidos em holocausto os tucanos neoliberais…

            Os terroristas empregam termos como “quebrar a espinha dorsal” do PSDB, prometendo “varrer da face da terra” os tucanos e José Serra. Pergunto: em quê isso se diferencia das palavras de ordem de Hitler? Qual a diferença entre essas frases e os slogans de Mussolini? Aliás, nem precisamos recuar tanto no tempo: Mahmoud Ahmadinejad, o fascista islâmico, também ficou mundialmente famoso depois de prometer “varrer do mapa” uma outra nação.

            Não estamos diante de coincidências, mas da repetição histórica de um método de terror. Não se enganem: os milicianos da Apeoesp não construíram suas próprias caldeiras porque não podem. Isso não quer dizer que não queiram fazê-lo… Exagero? Que nada! Basta lembrar que essas mesmas pessoas agrediram o ex-Governador Mário Covas em praça pública, diante de várias câmeras. Quem atira paus, pedras e cadeiras sobre uma autoridade legalmente constituída em nome da “causa”, iria muito além se pudesse.

            O mais marcante sinal do caráter fascista dessa gente é o atrelamento descarado a um partido – “O Partido”. Os grevistas de hoje são como os camisas-negras de Mussolini: espalham o terror em nome dos delírios de poder do líder. Quem é o líder? Bem, vejam o que os próprios disseram: “Já estamos em campanha, e vamos fazer um campo de batalha no campo pró-Dilma.”

            Essa associação criminosa entre pretensos professores e o PT não é recente. Pelo contrário até: na época do governo Covas, quando os nazistas lançavam cadeiras impunemente à luz do dia, José Dirceu, o chefe do maior esquema de corrupção da história do Brasil, era quem os incitava à barbárie. Dizia o Richelieu de Lula: “Eles têm de apanhar nas ruas e nas urnas.” E o sujeito foi obedecido cegamente pelos milicianos, tal como a SS seguia sem pestanejar as ordens de Hitler.

            Que tal um pequeno exercício de imaginação? Suponham que, em vez do “progressista” Dirceu, aquele que “lutou contra a ditadura” e quer criar o “outro mundo possível”, aquelas palavras tivessem sido pronunciadas por alguém identificado com a direita. Imaginem, por exemplo, que Ronaldo Caiado dissesse algo assim… Ou mesmo Kátia Abreu… Vamos um pouco além: imaginem que, alguns dias depois de dita tal frase, partidários dos “direitistas” agredissem fisicamente um político do PT – que tal Marta Suplicy? Fica fácil imaginar o que aconteceria…

            Mas é que “direitistas” são maus! Bons mesmo são os “progressistas”, que mandam bater nos adversários porque defendem a tal “educação pública, gratuita e de qualidade”. Ainda que ela precise ser conquistada por meio da violência. Ainda que para se chegar ao ideal deles seja preciso queimar livros.

            É essa gente que se pretende a vanguarda de um amanhã glorioso. São os nazistas do PT que falam em justiça social e igualdade. Nada de novo: Hitler também adotava o mesmo discurso. E na ação prática é possível perceber que também não se diferenciam lá muito…

            Eis aí a única tônica de campanha que Serra precisa usar: o confronto de civilizações. O povo precisa saber que em outubro estarão em disputa os que leem livros, contra os que os queimam. Os que não podem ser comparados ao nazismo, contra aqueles que agem como verdadeiros herdeiros de Hitler. Só isso basta. Economia? Programas sociais? Política externa? Que nada! Isso é secundário. Considerando-se o estado adiantado das coisas, cumpre decidir, antes, entre o mundo civilizado e a barbárie. E nem é necessário bolar campanhas publicitárias grandiosas. Basta mostrar, repetidamente, a queima de livros escolares e as agressões a Mário Covas. E deixemos, pois, que essa gente explique, publicamente, como tais barbaridades podem ser consideradas parte de um programa de governo.

            Há duas candidaturas principais à Presidência. Uma representa o campo democrático. A outra, arregimenta terroristas para agredir e queimar livros em praça pública. Custo a acreditar que no Brasil haja um número tão elevado de néscios, capaz de coroar a candidata dos neonazistas. Ainda aposto que a maioria do povo é formada por gente civilizada, que rejeita os modernos hitlers.

            Em tempo: Vale conferir vídeo divulgado no blog Imprensa Marrom, que relembra as agressões contra o então Governador paulista Mário Covas e demonstra a diferença entre professores reivindicando melhores condições de trabalho e salários e militantes partidários movidos por interesses políticos diversos.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi