Por Yashá Gallazzi*
No último final de semana os alemães foram às urnas. Aliás, corrijo-me: Uma parcela bem pequena dos alemães foi às urnas e decidiu que a atual chanceler, Angela Merkel, deve continuar no cargo, guiando os desígnios da nação.
O recado dos eleitores, aliás, foi bem mais eloquente e profundo: deram a Merkel um mandato mais autônomo, ao lado dos Liberais democratas e distante da Social-democracia, com quem Merkel vinha dividindo o Executivo ao longo dos últimos quatro anos.
A análise que pode ser feita é bem simples e direta: os alemães aprovaram a condução do país feita por Merkel, mas não gostaram da mistura insossa decorrente da Grosse Koalition, formada pela Democracia Cristã, da chanceler, e pelos Sociais-democratas. Entenderam a legislatura que termina exatamente como aquilo que foi: um governo de exceção, nascido de um país muito dividido entre as duas principais forças e suplicante por reformas essenciais a fim de encontrar, de novo, o caminho da modernidade. Esse período, tudo indica, já passou. E a liderança firme de Merkel foi premiada, com a vitória incontestável do seu partido – apesar da perda de quase 2% dos votos, em relação a 2005.
Além da liderança positivamente surpreendente de Merkel, os alemães parecem ter notado o óbvio: é particularmente difícil implementar reformas modernizadoras quando se está amarrado a partidos de tradição radical. A Social-democracia alemã, sabemos, é um dos partidos de esquerda mais tradicionais da Europa – foi fundado por Karl Marx! – e traz em seu bojo uma verdadeira federação de interesses os mais divergentes. Estão, por exemplo, amarrados aos sindicatos tradicionais da Alemanha, bem como a algumas vertentes “moderneiras” daquilo que chamo de consenso politicamente correto. Era só apresentar um projeto um pouco mais liberalizante e pronto: lá ia a Social-democracia falar em “consultar as bases”, o que, convenhamos, é uma metáfora para não fazer absolutamente nada.
O eleitorado cansou das amarras que a ideologia ainda arcaica dos social-democratas alemães teceu sobre a coalizão de governo e atendeu ao pedido de Merkel: deu-lhe nova vitória eleitoral, além de fortalecer os Liberal-democratas, com quem a chanceler deve conseguir formar o novo governo, mais claramente posicionado na chamada centro-direita.
Direita? Hum… Conservadores? Hum… Sim, no Brasil isso causa arrepios, não é? Aqui somos todos “pogreçistas”, mesmo tendo que conviver com Sarney, Collor e Renan Calheiros na base de sustentação daquele que é considerado o governo “dozoperário” e “dozoprimido”. Aqui, transformamos em herói da resistência democrática e das esquerdas a um golpista como Manuel Zelaya, latifundiário tradicional de Honduras e acusado, inclusive, de homicídio. Malvados mesmo só os tais conservadores.
Pois sabiam que o líder dos Liberal-democratas é um homossexual assumido? Sabiam que o partido dele milita a favor do aborto e das uniões entre pessoas do mesmo sexo? Quanto conservadorismo, não? Aliás, sabiam que a agenda de Angela Merkel, no que concerne à imigração, é uma das mais permissivas do mundo ocidental? Mais até – atenção agora! – do que aquela do “socialista” Zapatero, da Espanha? E aí? Deu para os conservadores ficarem mais – como direi? – “legais” depois disso?
O principal, o mais importante recado que as urnas deram após as eleições legislativas da Alemanha foi o seguinte: entre uma esquerda falsa e uma direita séria, o eleitor fica com a segunda. É isso que está causando na Europa essa tal “onda conservadora” que tanta gente insiste em demonizar.
Na verdade, não há onda nenhuma. O que há é a percepção do eleitor de que os problemas práticos devem ser geridos de forma objetiva e competente, sem que o Executivo esteja preso a amarras ideológicas de séculos passados.
Na Itália, por exemplo, Berlusconi venceu porque os cidadãos entenderam que a centro-esquerda tradicional não conseguia formatar um plano de governo conjunto. Havia no mesmo balaio social-democratas moderados e grupos sectários contrários à globalização. Imaginem uma reunião com essa gente toda… Não pode levar mesmo a lugar algum…
É por isso que os governo ditos mais conservadores – que eu prefiro chamar de mais pragmáticos – estão vencendo. Porque o eleitor quer respostas, resultados. Não quer debates infinitos sobre o que a classe trabalhadora, à luz dos ensinamentos de Marx, poderá dizer sobre isso ou aquilo.
Em breve, o Reino Unido também irá às urnas, para eleger David Cameron, líder dos “Tories”. Como eu sei? Bem, está na cara, não é? As esquerdas tradicionais passaram o último ano enchendo a nossa paciência com essa história de “fim do capitalismo”, “crise gerada pela ganância”, “quebra do modelo capitalista” e “destruição do liberalismo e da direita”. Anunciaram até que os – se me permitem – “ensinamentos” de Marx estavam “mais vivos do que nunca”, pois o armagedom capitalista teria chegado.
E o que aconteceu? Bem, o capitalismo venceu, como sempre. Ele traz em si mesmo o germe da destruição, como disse o barbudo teúdo e manteúdo de Engels? Sim, até traz. Só que ele esqueceu-se que é trazida, também, a semente do seu próprio renascimento. Assim, o cidadão está punindo os néscios que pregaram o fim do mundo e cantaram “A internacional” a plenos pulmões, preparando-se para uma revolução que nunca veio. Resolveram premiar aqueles que se sentaram à mesa para trabalhar e encontrar soluções para os problemas.
Como é mesmo que se disse nos Estados Unidos: “É a economia, estúpido!”. Não! Não, é! É a ideologia!
* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento










