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Coluna do dia: A ironia da liberdade no Afeganistão

20/10/2009

Por Raphael Machado Silva*

Os deuses possuem um belo senso de humor, e penso que esse senso de humor se torna manifesto, principalmente, nos eventos os quais categorizamos como “irônicos”. É como se, no jogo de circunstâncias eternamente mutantes a que chamamos “devir”, subitamente ocorresse algo cujo valor é o de pura zombaria frente a certas declarações e polêmicas, enunciadas, com uma solenidade pomposa, por personagens repletos de empáfia diante do mundo. Um padre sifilítico é um ótimo exemplo de ironia divina.

Eu prefiro as ironias políticas. Como um Presidente beligerante ganhando um Nobel da Paz, por exemplo. Ou a descoberta de que um terço dos votos das eleições presidenciais ocorridas no democrático e “liberto” Afeganistão foram fraudados, em favor da reeleição do títere Hamid Karzai, alguns meses após as polêmicas acusações, feitas pelos “protetores” do Afeganistão, de que as eleições no “totalitário” e “satânico” Irã foram fraudadas para que se promovesse a reeleição de Ahmadinejad.

Portanto, em realidade, Karzai não alcançou a quantidade necessária de votos para garantir sua reeleição no primeiro turno, como até então se achava. Terão os “libertadores” sido surpreendidos com essa informação? Mas é claro que não. Karzai é um líder fraco. Sendo um líder fraco, ele é essencial para a continuidade da ocupação do Afeganistão.

Karzai não só nunca estará em posição de minimamente controlar a atuação das tropas invasoras em seu país, como também serve como barreira entre a ira popular e as tropas invasoras. Reivindicações, reclamações, revoltas, etc, sempre serão voltadas, em primeiro lugar, contra o governo Karzai e apenas em segundo lugar contra os invasores estrangeiros. Isso me lembra a ocasião em que, após as tropas americanas “liberarem” a Sicília durante a Segunda Guerra, foram libertos todos os “Dons” das máfias e os mesmos foram instaurados, pelos americanos, como prefeitos das cidades sicilianas.

Oh! Nós certamente cremos na “liberdade” do Afeganistão. Afinal, antes eles eram malignos produtores de ópio e, agora, no Afeganistão “liberado”, a população está livre para se tornar usuária do alucinógeno e para se engajar em todas as depravações que tão bem caracterizam a modernidade. E, certamente, o destino do Ocidente está indissociavelmente ligado ao destino do Afeganistão, não é?

Agora, o que farão os invasores diante dessa desagradável revelação eleitoral? A vitória de Karzai é essencial para os objetivos de longo prazo dos invasores no Afeganistão.

Mais ironia que isso é o Irã sendo atacado por terroristas ligados à Al-Qaeda, quando todos, inclusive nossa maior rede de televisão, juram de pés juntos que há íntimas relações entre a organização terrorista e a Teocracia Iraniana.

Falta é o nosso Presidente se tornar membro da Academia Brasileira de Letras, para que fique demonstrado que nosso mundo é uma grande piada de mau gosto.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.