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Coluna do dia: Imagine

20/08/2010

Por Yashá Gallazzi*

Imaginem um presidente brasileiro conservador. Aliás, mais do que isso: imaginem um presidente de extrema-direita. Sim, eu sei que não é fácil, afinal o Brasil está acostumado a ter há décadas, uma disputa entre as várias matizes da esquerda, sem que haja um representante sequer da direita.

Mas, ainda assim, peço um esforço a vocês. Tentem imaginar, apenas por um momento, que o Brasil tem um presidente extremista de direita. Feito isso, imaginem que o sujeito tenha escrito uma carta mais ou menos nos seguintes termos:

“Queridas Companheiras e Companheiros

Há 20 anos, 42 partidos e movimentos conservadores da América Latina e do Caribe reuniram-se em São Paulo – convidados por nós – para um Encontro sem precedentes na recente história política de nosso Continente.

Nascia o que um anos depois, no México, seria chamado de Foro de São Paulo.

Vivíamos tempos difíceis no início dos anos noventa.

Em muitos países começava a ganhar força um discurso radical de esquerda, alimentado por líderes oposicionistas carismáticos, como Lula da Silva e Hugo Chávez, inspirados no exemplo do tirano homicida chamado Fidel Castro. Esses caudilhos ameaçavam as democracias vigorosas e dificultavam a luta dos trabalhadores.

Pairava sobre nosso Continente a ameaça de um novo espectro comunista.

(…) A predominância dessas idéias de extrema-esquerda, era reforçada pela profunda crise das referências tradicionais da direita radical. Suas políticas não permitiam explicar a realidade mundial mas, sobretudo, mobilizar as grandes massas.

A reunião de São Paulo e tantas outras que se seguiram nestes 20 anos tiveram como mérito fundamental criar um espaço democrático de conhecimento e de discussão das extremas-direitas. Esse espaço não existia, muitas vezes, nem mesmo em nossos países.

(…) Hoje, nossa região vive uma situação radicalmente diferente daquela de vinte anos atrás. Muitos dos que nos encontramos no passado nas reuniões do Foro de São Paulo como forças de oposição, hoje somos Governo e estamos desenvolvendo importantes mudanças em nossos países e na região como um todo.

(…) Uns poucos tentam caracterizar o Foro de São Paulo como uma organização autoritária. É o velho discurso de uma esquerda que foi apeada do poder pela vontade popular. Não se conformam com a democracia de que se dizem falsamente partidários.

A contribuição de meu partido e outros partidos de extrema-direita do Brasil para esta nova realidade do Continente é de todos conhecida.

(…) O Brasil mudou e vai continuar mudando nos próximos anos.

Mudou junto com seus países irmãos do Continente.

Mudou como está mudando a Argentina que agora acolhe mais este encontro do Foro de São Paulo.

Recebam, queridos amigos, o abraço do seu irmão e companheiro”

Continuando o nosso exercício de imaginação, considerem que os destinatários da carta acima, assinada pelo presidente brasileiro de extrema-direita, sejam integrantes de partidos com inspiração em Mussolini, Pinochet, Franco, bem como em herdeiros políticos dos militares que governaram Brasil e Argentina durante décadas de ditadura. Imaginem, assim, que tais movimentos políticos sejam as forças políticas integrantes do tal Foro de São Paulo.

Ah, quase esqueci! Considerem também que, além dos movimentos políticos acima mencionados, essa entidade representativa das extremas-direitas da América Latina contasse, ainda, com a participação de um grupo paramilitar, conhecido internacionalmente por sequestrar, torturar, estuprar, matar e traficar drogas.

Como a opinião pública reagiria diante de semelhante organismo internacional? O que diriam a OAB, a CUT, o MST e a CNBB? Qual seria o posicionamento da imprensa e dos intelectuais brasileiros a respeito? Como se comportaria a academia brasileira? Gente como Emir Sader, Marilena Chauí, Maria da Conceição Tavares, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim diriam o quê?

Ora, não é difícil concluir que o mundo desabaria sobre a cabeça do tal presidente brasileiro de extrema-direita, não é mesmo? E com razão! Um fórum com clara inspiração fascista e totalitária, formado por movimentos cujo ideário descende de tiranias assassinas, não mereceria mesmo respeito algum! Vou além: não mereceria sequer existir! A democracia não pode, por amor aos seus princípios, tolerar a existência daqueles que, se pudessem, os destruiriam.

Agora, diante de tudo o que vai acima, considerem que o tal Foro de São Paulo realmente existe, e que não é apenas fruto de um exercício de imaginação proposto por mim. Considerem ainda que ele realmente é composto por partidos e movimentos políticos de inspiração ditatorial, e que tem entre seus membros um grupo paramilitar como o descrito ao alto. Mas atentem para o seguinte: considerem que ele não é de extrema-direita, mas de esquerda.

O que custo a entender, o que não me parece nada lógico, é o seguinte: por que repudiamos – acertadamente, diga-se! – um Foro de São Paulo de extrema-direita, mas aceitamos um de extrema-esquerda? Por que seria escandaloso um presidente brasileiro mantendo relações com partidos inspirados em Mussolini e Franco, mas não causa escândalo algum ver Lula sentando à mesa com gente que se espelha em Stalin e Mao Tse-Tung? Por que seria inadmissível ver o governante do país chamando um grupo paramilitar de direita de “companheiro”, mas é aceitável que o presidente atual derrame abertamente seu amor pelas FARC?

Que deturpação descabida de valores morais é essa, capaz de nos levar a rejeitar o nazismo e o fascismo, ao mesmo tempo em que ainda nos faz parecer aceitável conviver com o socialismo e com o comunismo? Se concordamos todos em rejeitar uma das faces do horror, por que não concordamos também em rejeitar o horror por inteiro? Por que o totalitarismo de esquerda é tolerado no Brasil, a ponto de termos no poder um presidente que mantém relação pessoal de amizade com Fidel Castro? Por que o “terrorismo progressista” é tolerado no Brasil, a ponto de termos um presidente que se senta à mesa com as FARC?

Ou, para colocar as coisas de uma outra forma, a ponto de termos uma candidata que militou em grupos paramilitares, aqui mesmo no Brasil, com grandes chances de se tornar presidente?

Esta é, enfim, a curiosidade antropológica que mais me instiga no momento presente. Sei que o povo mais pobre, aquele sustentado pela bolsa-esmola oficial, não dá a menor importância para escolhas políticas e ideológicas. Escolheria um tirano (de esquerda ou de direita, tanto faz), se este garantisse o saldo do cartãozinho de benefício social ad eternum. Mas e a porção “pensante” do país? E a academia? E o jornalismo? Por que ainda há gente que não se escandaliza ao perceber que o principal partido do Brasil – assim como o principal líder político da atualidade – tem, sim, bandidos de estimação?

Não me assusta que o PT tente esconder o Foro de São Paulo, ou, por vias oblíquas, diminuir a importância dele. Não me assusta que marqueteiros de plantão se ocupem em fazer apenas a tal “campanha positiva”, exaltando até aquilo que nunca foi feito. Isso é do jogo. O que me assusta é notar que o mesmo país capaz de se escandalizar com o Fiat Elba de Collor, com os dólares de Roseana ou com a cueca daquele petista, não veja nada de errado em uma carta na qual Lula confessa sua relação direta (e antiga!) com a escória da América Latina.

Temos, assim, a prova de que o terror foi relativizado, criando-se, assim, o terrorismo – e o totalitarismo – “do bem”. Como é pra ajudar “ozoprimido”, na tentativa de construir o tal “outro mundo possível”, então tá tudo certo.

Em qualquer sociedade minimamente civilizada, aquela carta de Lula seria motivo para “impeachment”. Entraria para a história como “a carta testamento” do petista: aquilo que acabou com sua presidência e com as chances do seu partido de continuar no governo. Mas o Brasil atual, de civilizado, tem muito pouco.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Exagero: MST diz que Serra é de extrema direita

28/07/2010

Informa o Globo:

“O coordenador regional do Movimento dos Sem Terra (MST), Jaime Amorim, disse ontem que, qualquer que seja o presidente eleito, o movimento apresentará proposta impondo limite de 500 hectares para as propriedades rurais, sejam elas de empresas ou famílias.

O MST defende ainda criação de um órgão mais ágil para a reforma agrária, pois o Incra estaria ‘desestruturado e defasado’.

Amorim rebateu as declarações do tucano José Serra de que uma eventual eleição de Dilma Rousseff (PT), candidata apoiada pelo MST, aumentará ‘as invasões e a agitação’:

— Ele (Serra) tem postura conservadora, de extrema direita”

Uma das maiores bobagens ditas neste processo eleitoral.

É um exagero enorme dizer que Serra é de extrema direita.

Até porque nem mesmo de direita ele é. É de centro, no máximo.

Em alguns países europeus, líderes da esquerda têm posições parecidas com as de Serra. 

A realidade é que o PSDB está à direita do PT. Mas isso não faz dele um partido de direita.

Além disso, mesmo entre os tucanos, Serra é um dos que está menos à direita.

Que direitista seria Serra defendendo intervenções do Estado em diversas áreas como ele defende?

No Brasil confunde-se proximidade com o empresariado com direita ideológica.

E nem adianta dizer que o Democratas está puxando o PSDB para a direita. Isso se deu no governo Fernando Henrique. Hoje ocorre o oposto, com o Democratas caminhando para a centro-direita social-liberal.

Dizer que Serra é de direita é um equívoco. De extrema direita, então…

Serra não é de extrema direita nem aqui nem na China.

Literalmente.

Coluna do dia: De onde veio o dinheiro de Dilma?

09/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

Esqueçam o FIAT descaradamente supervalorizado que Dilma declarou à justiça eleitoral. Isso é coisa pouca. O que me intriga mesmo, o que merece o interesse da sociedade brasileira é a quantia obscena de dinheiro vivo que a ex-terrorista disse ter em sua casa. De onde veio esse dinheiro? Como é possível que algo assim não seja notícia, nem desperte o interesse do País?

Os leitores conhecem Eike Batista, não é? Pra quem não sabe, ele é aquele sujeito cuja fortuna não foi suficiente para ajudá-lo a segurar a mulher: esta preferiu o bombeiro de setecentos reais por mês. Pois bem, o tal Eike Batista é tido como o homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo. Duvido que ele guarde em casa mais de R$ 110 mil em dinheiro vivo. Nem ele, nem Bill Gates, nem ninguém! Por que Dilma precisa de tanta grana assim à mão? Que dinheiro é esse?

Fossem outros tempos – uns 25 ou 30 anos atrás -, seria fácil adivinhar a origem da grana: provavelmente tudo seria fruto de alguma ação terrorista do grupelho ao qual Dilma (ou era Wanda?) pertencia. Quem sabe o resgate pago em razão do sequestro de algum figurão, ou ainda o produto de um assalto a banco. Mas hoje em dia, não. Hoje a moça é séria e abraça a democracia, não é mesmo? Sendo assim, permanecem as perguntas: de onde veio tanto dinheiro? Por que tê-lo em casa, ao alcance da mão? Com qual objetivo ele seria usado?

Eu sei que petistas não gostam de explicar a origem de dinheiro vivo, basta ver o frenesi que criaram em 2006, quando Alckmin perguntou a Lula de onde viera a grana dos “aloprados”. Essa turma que carrega o estandarte da redenção “dozoprimido” se acostumou apenas a julgar os demais. Não suportam estar na defensiva, pois entendem que fazer política é apenas um direito deles. Tudo isso é notório, mas, ainda assim, não resisti. Ao ver que os R$113 mil em dinheiro vivo que Dilma guarda em casa passaram desapercebidos pela tal “grande mídia golpista, preconceituosa e de direita”, resolvi eu mesmo dar uma de “golpista, preconceituoso e direitista”: faço questão de saber tudo sobre esse dinheiro!

Onde Dilma o guardava? Se ela vai presidir a nação, acho justo que a sociedade conheça seus hábitos. É importante saber se ela esconde R$ 113 mil reais no meio da roupa íntima, dentro do colchão ou ainda no fundo falso de alguma parede.

Eu adoro um exercício de imaginação. É divertido. Querem ver? Pois bem, imaginem que fosse José Serra, o tucano (malvado, feio e bobo) quem tivesse tanto dinheiro vivo nas mãos. É lícito deduzir que rapidamente a máquina petista de moer reputações seria colocada em movimento, não é? Vamos além: imaginem que aquela grana fosse declarada por FHC, a besta-fera dos petistas. O mundo viria abaixo. Por que, então, ninguém questiona Dilma? Por que ela pode ter em mãos dinheiro suficiente para comprar uma bela quantidade de eleitores sem que ninguém diga uma palavra a respeito?

“Ah, mas ela está nas cabeças! E tem o apoio de Lula. Ela não precisa comprar eleitores.” Pois é… Esse sempre foi o mais deletério legado da tal “era Lula”: a ideia absurda de que aprovação popular é salvo-conduto para fazer qualquer coisa, ainda que ilegal. Isso porque basta aos petistas recorrer ao velho truque marxista de dizer que o conceito de legalidade não é absoluto, porquanto forjado pela tal “sociedade burguesa” – no caso brasileiro, “pelazelite”.

Eis aí… A “sociedade burguesa” realmente acha estranho que um candidato à Presidência tenha em casa mais de R$ 110 mil em dinheiro vivo, sem que se saiba a origem ou o destino de tal montante. Mas a “sociedade burguesa”, no Brasil, representa só aqueles 5% que insistem em não aprovar Lula. O resto do povo, sabemos, já perdoou o mensalão e os vários dossiês. Muitos sequer conhecem os detalhes escabrosos envolvendo a morte do prefeito Celso Daniel. Por que se preocupariam com as notinhas guardadas no cofrinho de Dilma?

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: O último dos moicanos

02/07/2010

Por Yashá Gallazzi*

Antes de me debruçar de fato sobre o tema central deste texto, peço ao leitor o seguinte: Se você quer criticar o Vice de José Serra, Deputado Índio da Costa, mas pretende votar em Dilma Rousseff, a ex-terrorista que escolheu como Vice ninguém menos que Michel Temer, nem se dê ao trabalho de continuar a leitura. Este texto tem um lado. E este lado, sinto, não é o seu. Adiante.

Ao escolher Índio da Costa como seu Vice, José Serra deixou sua intenção razoavelmente clara: Quer alguém jovem, alguém que possa emprestar um ar de renovação, de vigor para a chapa PSDB-DEM, que já conta com a figura do político experiente. Vai funcionar? Difícil dizer. Se considerarmos que há alguns dias a oposição esteve perto de indicar Álvaro Dias para o posto, a escolha de Índio da Costa parece um salto de qualidade tremendo.

Não! Não estou aqui tentando de forma oblíqua tecer comentários negativos ao Senador Álvaro Dias. Minha opinião se baseia em simples raciocínio lógico: Um Vice precisa agregar algo novo à chapa. Dias, vindo do Paraná – um estado sulista, onde Serra já é franco favorito -, não traria lá muitos votos a mais. Já o Deputado Índio da Costa pode ajudar num estado onde Dilma cresce a olhos vistos: o Rio de Janeiro.

Mas isso tudo não passa de exercício de futurologia, que pode facilmente mudar ao sabor da maré eleitoral que se avizinha. O dado mais curioso da corrida eleitoral – até agora pelo menos – foi o quase rompimento da aliança entre tucanos e democratas. Ao tentar empurrar goela abaixo do DEM o nome de Álvaro Dias, o PSDB esteve a um passo de perder seu aliado mais fiel, o que poderia concorrer para modificar bastante o quadro sucessório.

No meu mundo ideal, o DEM vestiria de uma vez por todas a carapuça de partido conservador do Brasil, indicaria a Senadora Kátia Abreu à Presidência e, arrisco dizer, teria grandes chances de fazer uma boa campanha.

Sim, é claro que eu sei a gritaria que o progressismo faria contra a Senadora tocantinense. Tudo absolutamente normal e dentro do padrão brasileiro, afinal “essepaiz” costuma demonizar todo aquele que defende o livre mercado, a iniciativa privada, a meritocracia e o império do regime de liberdades democráticas. Aqui, onde uma ex-terrorista está às portas do Planalto, prefere-se a bandalheira revolucionária do MST…

Mas o DEM, acostumado a ser rebocado pelo PSDB, jamais tomaria tal atitude. Candidatura própria? Com o risco de amargar as últimas colocações (não que eu acredite que isso fosse acontecer…)? Jamais! Por isso choraram, pressionaram e pronto: Índio da Costa levou a vaga de Vice. Bom para quem deseja uma alternativa contrária ao lulo-petralhismo, afinal, está claro que tucanos e democratas, juntos, têm mais condições de vencer do que sozinhos.

A desgraça é que o Brasil vai ver mais uma eleição monocromática, onde todos os políticos vão disputar o campo “vermelho” do eleitorado. De Serra a Dilma, passando por Marina Silva, todos vão lutar para se mostrar o mais progressista possível, prometendo manter as várias bolsas-esmola, aumentar o tamanho do Estado e prover ao cidadão todas as necessidades, de forma que ele nunca precise aprender a viver por conta própria.

Todo mundo ávido por ser progressista, até o partido tido como “de direita” pela imprensa, que as esquerdas acusam de ser comprada pelo partido da… direita! E isso num País onde majoritariamente se é contra o aborto, contra as drogas, favorável à pena de morte e à redução da maioridade penal.

A fatia mais numerosa do eleitorado brasileiro está ávida por um “partidinho conservador” para chamar de seu. Em vez disso, vai ter que escolher, mais uma vez, entre uma infinidade de esquerdistas. Um tédio!

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Diário de viagem – A eleição britânica levou os clichês para passear

14/05/2010

Por Yashá Gallazzi*

Na última semana, durante minhas férias na Europa, tive o prazer de acompanhar as eleições gerais no Reino Unido “in loco”. E adorei! O voto dos britânicos seria uma sucessão interminável de clichês, uma reunião de previsibilidade quase embaraçosa, não fosse a declarada preferência deste escriba por tudo aquilo que, bem… conserva certas tradições.

Os eleitores britânicos seguiram o principal de todos os clichês: quando uma situação econômica incerta se avizinha, a direita é chamada a governar, afinal, os conservadores e seus cortes de impostos parecem muito mais atraentes em tempos de vacas magras. Assim, os “tories” voltaram a ser o maior partido depois de anos de hegemonia trabalhista – ou, mais precisamente, de hegemonia de Tony Blair.

Apesar disso, outros clichês também foram devidamente revividos naquela votação. Os Conservadores de David Cameron, apesar de terem recebido a maior porção dos votos, não conseguiram uma maioria suficiente para formar, sozinhos, o novo governo. Isso, apesar do triunfo numérico, acaba por ser uma espécie de derrota política, afinal, mostra que a mensagem de Cameron, em que pese a péssima popularidade de Brown e dos trabalhistas, não convenceu plenamente.

O jovem e carismático líder dos Conservadores acabou se mostrando excessivamente utópico, falando reiteradamente em mudar tudo e em governar melhor que o “Labour”, mas sem apresentar planos concretos de como fazê-lo. Passou, assim, uma áurea de insegurança, que o acompanhou até o final da campanha.

Gordon Brown, por sua vez, não tinha mesmo como sair vencedor. Além de ser um político impopular e com nenhum carisma, o principal nome dos Trabalhistas chefia um governo sem apelo e cujas realizações são muito contestadas. A receita que ele apresentou para enfrentar a crise econômica? Mais impostos. E isso – claro! – não agradou.

Além dos dois principais protagonistas, também ganhou destaque nas últimas semanas de campanha o liberal-democrata Nick Clegg, que empolgou boa parte dos eleitores com sua atuação forte nos debates televisivos – os primeiros da história do Reino Unido.

Algumas das pesquisas de intenção de voto, feitas logo depois dos debates, chegaram a indicar Clegg como potencial vencedor e, mais do que isso, chegou-se a especular o fim do tradicional bipartidarismo existente entre Conservadores e Trabalhistas. Mas isso seria uma surpresa, e a eleição britânica, como já disse, foi nada mais que uma sucessão interminável de clichês.

O bipartidarismo está mais forte do que nunca, e os liberais-democratas de Clegg, em que pese o papel importante que poderão ter na formação do próximo governo, acabaram perdendo três assentos em Westminster. Como explicar isso? Muito simples: a partir do momento em que se falou em possível crescimento forte de uma terceira força política, as bases dos dois maiores partidos se mobilizaram e foram às urnas, mantendo tudo exatamente como sempre foi.

Parte da imprensa – britânica e mundial – falou numa eleição com três vencedores. Sou um tanto mais duro e, por isso, apresento um veredicto diferente: foram três perdedores. Cameron e os Conservadores perderam porque, mesmo numericamente vitoriosos, deixaram que um favoritismo acachapante fosse corroído por sua própria incapacidade de ação, deixando escapar a chance de controlar o Parlamento. Brown e os Trabalhistas perderam para sua própria obra, ou seja, foram reprovados pelos eleitores. Clegg, por sua vez, foi derrotado pelo pragmatismo: a maioria esmagadora dos britânicos não quis dar uma chance à aventura liberal-democrata.

Nas ruas de Londres o clima era de uma moderada empolgação. Conversei com algumas pessoas rapidamente, e percebi que a eleição geral deste ano despertou bastante interesse, principalmente em razão dos inéditos confrontos televisivos. Os tradicionais eleitores de Conservadores e Trabalhistas com quem falei estavam dispostos a votar nos seus candidatos, mas todos faziam questão de tecer críticas aos seus potenciais primeiros-ministros, condenando a incapacidade de um – Brown -, ou a falta de propostas concretas do outro – Cameron.

Não encontrei lá muitas pessoas dispostas a votar em Clegg, o que acaba por refletir o resultado das urnas. Os liberais-democratas receberam a maior quantidade de votos da história, mas, do ponto de vista proporcional, ficaram muito aquém do esperado. Na verdade, o agora terceiro maior partido do Reino Unido só terá importância grande na próxima legislatura em razão das “derrotas” de Conservadores e Trabalhistas.

Todas as análises eleitorais decorrentes do resultado podem ser resumidas no seguinte: os Conservadores, na ânsia de se mostrarem “modernos e progressistas” – Cameron falou várias vezes em “romper com o passado thatcherista” -, acabaram por perder boa parte de seu eleitorado. Os Trabalhistas, depois de quase duas décadas no poder, sofreram o esperado desgaste político. Os liberais-democratas de Clegg, por outro lado, apesar das ideias bonitas e do discurso politicamente correto, não conseguiram convencer os eleitores de que poderiam ser uma real alternativa de poder – mais ou menos o problema que Marina Silva enfrenta aqui…

Mais tarde, chegou-se às especulações pré-formação de governo. Brown, alegando que Cameron não conseguiu a maioria parlamentar, avocou o direito de permanecer no número 10 de Downing Street, liderando um governo de união nacional com os liberais-democratas de Clegg. O líder dos Conservadores, por outro lado, alegou que é absurda a hipótese de um primeiro-ministro que não seja o líder do maior partido, e que, se alguém devia formar um novo governo, este alguém era ele. Já Clegg, por sua vez, tratou de agir como um bom e velho filiado do PMDB e alimentou todos os boatos possíveis. E, com isso, deixou claro que não estava mesmo à altura do cargo que ambicionava.

Tanto Brown quanto Cameron poderiam terminar como chefes do governo britânico, afinal, ambos tinham condições de formar uma maioria legislativa estável. A lógica, porém, fez caber ao jovem conservador apresentar à Rainha uma futura agenda de trabalho e um plano de reformas, afinal, foi ele quem recebeu o maior número de votos dos eleitores.

E, convenhamos: dar a chave do número 10 de Downing Street a David Cameron, o político proporcionalmente mais votado pelos britânicos, foi o fechamento de ouro para essa bela eleição cheia de clichês.

Concluo com um exercício de imaginação: se fossem realizados debates televisivos na época de oradores brilhantes como Churchill e Thatcher, o que teria sido dos pobres adversários? Destroçados… É essa a única palavra que me vem à mente.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Diário de viagem – A ineficiência do Estado evidenciada numa ponte aérea

01/05/2010

Por Yashá Gallazzi*

De férias na Europa com minha esposa e o filhote, viajamos de Milão para Paris por uma companhia de aviação “low cost”. O preço de cada passagem aérea entre duas das mais lindas capitais europeias? 25 euros. Isso dá cerca de 70 reais, ou seja, um valor obscenamente baixo. Irrisório até. Principalmente quando se considera a viagem feita.

A mesma viagem, feita com a Air France ou a Alitalia, duas empresas subsidiadas pelos governos francês e italiano, respectivamente, custaria cerca de 200 euros por passagem. Isso para não mencionar os aviões mais velhos e de qualidade inferior que são usados pelas “companhias nacionais”, como são chamadas na Europa os elefantes brancos como aquelas empresas.

Considerados os custos exagerados da aviação civil mundial, os preços praticados pelas companhias “low cost” parecem obra de magia negra. Mas é tudo fruto de economia elementar aplicada segundo as regras básicas do comércio livre.

Lá pelos anos oitenta, quando a Europa percebeu que as companhias aéreas estatais acabariam por levar os Estados à falência, dois caminhos surgiram diante dos vários governos de então: 1) imprimir dinheiro e injetar ainda mais capital em companhias decadentes; ou 2) tirar o Estado do meio e deixar que a iniciativa privada, muito mais eficiente em matéria de gestão, tomasse conta do setor.

Países como Itália e França, governadas à época por coalizões políticas viúvas do Muro de Berlim, escolheram a primeira alternativa. E acabaram carregando no colo Air Frances e Alitalias economicamente inviáveis, que cobram centenas de euros por uma passagem Milão-Paris. Inglaterra, Irlanda, Holanda e Suécia, por outro lado, deram ouvido a Smith, Rand e Mises, dando à luz as companhias “low cost”, que, hoje, me permitem voar entre algumas das cidades mais lindas do mundo por preços absurdamente módicos.

A economia é muito simples: o Estado deve se ocupar apenas daquilo que não pode ser gerido pela lógica pura do lucro. Isso quer dizer que os governos precisam controlar a defesa externa e a segurança pública, além de regular os serviços de saúde e educação. Qualquer coisa além disso é pedir para tomar prejuízo, afinal, todas as demais atividades podem perfeitamente ser executadas de forma mais eficiente pela iniciativa privada, inclusive dispendendo menos dinheiro. Ou alguém consegue me explicar, com amparo lógico, por que diabos um governo deve manter uma empresa de aviação? Para fornecer um serviço de utilidade pública? Ora, mas de que adianta isso, se ele cobra pelo serviço dez vezes mais do que um empresário qualquer?

Há coisa de duas ou três décadas, os governos estatizantes de Itália e França apostaram que poderiam fornecer serviços tão bons quanto os das empresas privadas, e por um preço mais – como é mesmo que eles dizem? – “socialmente justo”. Quebraram a cara! Hoje, Sarkozy e Berlusconi quebram a cabeça tentando se livrar dos dois pesos-mortos que sugam mais e mais dinheiro dos contribuintes italianos, mas os sindicatos italianos e franceses – também viúvos do tal Muro… – arrumam uma passeata ao sinal de qualquer ameaça de privatização. São uns bravos guerreiros progressistas, sempre ávidos por construir o tal “outro mundo possível”, onde o Estado deve prover passagens aéreas para os cidadãos. Ainda que a preços horrendos…

Em última essência, não se trata nem de disputa ideológica. Esqueçam direita e esquerda, liberal ou intervencionista. A questão é prática e fácil de ser analisada: é preciso descobrir como garantir às pessoas passagens aéreas de qualidade por um preço sempre mais acessível. Colocada a questão principal, analisem-se os fatos: onde o Estado se fez presente, com toda sua característica de morosidade, sua falta de profissionalismo e sua burocracia parasitária, o resultado foi catastrófico. Onde os governos saíram de cena, dando lugar às empresas privadas, os resultados são fantásticos. Ou alguém tem outro adjetivo para qualificar a possibilidade de se viajar de Milão até Paris por 25 euros?!

A saída, portanto, é apenas uma: o Estado deve tirar seu time de campo, dando cada vez mais espaço à eficiência e à livre iniciativa do setor privado. Aviação civil não é matéria de segurança nacional, nem sofre qualquer tipo de ameaça se regulada apenas pela lógica do lucro. Pelo contrário: é em tal cenário que ela mais pode prosperar, como os fatos deixam claro.

Inglaterra, Irlanda e mais uma meia-dúzia de países entenderam isso há mais de vinte anos. Itália e França ainda relutam em aceitar os fatos. Países rastaqueras e pobres como o Brasil, por outro lado, vão levar séculos. Basta lembrar que até outro dia ainda havia passeatas organizadas apenas para dizer que “a Varig é nossa”…

Ah, quase esqueci! Nos aeroportos de Franca e Itália, as companhias “low cost” pagam taxas mais elevadas para decolar e pousar, do que aquelas cobradas dos elefantes brancos Air France e Alitalia. Quando o Estado está no meio é assim: já que não se consegue ser mais eficiente e profissional do que a iniciativa privada, o negócio é partir pra retaliação.

Eis aí. Parabéns a todos os estatistas, que defendem esse tipo de birra ridícula, em detrimento do direito que os cidadãos têm de voarem por um preço verdadeiramente mais justo. Esse é o “outro mundo possível” de vocês. O meu, deve ter ficado claro, é aquele onde qualquer um com 25 euros na mão pode tomar um café na Champs Elisè.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

PP ainda decide se caminhará ao lado de Dilma ou de Serra

25/04/2010

Informa Felipe Patury, na revista Veja:

“No início do ano, o PP encomendou um levantamento para aferir quem seus diretórios estaduais prefeririam apoiar na eleição presidencial: a petista Dilma Rousseff ou o tucano José Serra. Deu Dilma disparado: vinte a sete.

A situação mudou no último mês, porque o PSDB sinalizou que gostaria de ter o presidente da agremiação, o senador Francisco Dornelles (RJ), na vaga de vice de José Serra.

Muitos diretórios cogitaram mudar de lado, mas os dirigentes do PP só querem decidir seu destino em junho, às vésperas da convenção partidária.

Até lá, dirão ao PSDB e ao PT que precisam fazer uma nova pesquisa antes de escolher um candidato. A sondagem ocorrerá no fim de maio.”

Lula disse, há algum tempo, que era importante ressaltar que todos os candidatos à Presidência com representatividade eram representantes de alguma parcela da esquerda.

É. Pode ser.

Mas se o PP estiver com Dilma, estará mais do que comprovado que teremos parcelas da direita caminhando ao lado de todos os candidatos.

E mesmo que o PP feche com Serra, nomes do PMDB se encarregarão do serviço de representar a direita dentro da coligação de Dilma.

Coluna do dia: “Vamos tirar o Brasil do vermelho!”

16/04/2010

Por Yashá Gallazzi*

A frase que utilizo como título foi dita pela Senadora Kátia Abreu, que pediu ao Ministério da Justiça a adoção de ações concretas a fim de prevenir as invasões de terra protagonizadas pelo MST, aquela milícia clandestina criada por João Pedro Stédile, o homem que pretende transformar o Brasil num País mais “justo e igualitário”, inspirando-se, para tanto, em ninguém menos que Mao Tsé-Tung, o carniceiro chinês responsável pelo assassinato de 70 milhões de pessoas.

O slogan cunhado por Kátia Abreu – e pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), presidida pela Senadora do Democratas – é o melhor e mais eficaz mote de campanha que a oposição brasileira, liderada por José Serra, poderia usar. A ideia seria partir abertamente para um confronto ideológico, como nos velhos tempos: eles são os “vermelhos”, que apóiam Cuba, Venezuela e o MST. E, por isso, o Brasil não pode confiar neles.

É claro que Serra e os tucanos não farão nada disso, afinal, são uma – como é mesmo que eles dizem? – “oposição construtiva”. São pessoas elegantes, que se preocupam apenas em fazer uma “campanha propositiva” focada, principalmente, em mostrar uma infinidade de obras feitas pelos políticos do PSDB. E haja “choque de gestão”, “eficiência” e “competência” pra preencher tantos discursos. Confronto ideológico? Ah, isso é coisa do passado! Ninguém mais liga pra isso hoje em dia, dizem os especialistas.

Bem, os especialistas estão errados! Lembram da campanha de 2006? O melhor momento de Alckmin foi quando ele deixou de lado aquela patacoada de “eu vim de ‘Pinda’” e passou a colocar o dedo na cara de Lula, perguntando insistentemente: “De onde veio o dinheiro do mensalão e do dossiê?”

Lembram de 89? Esqueçam as teorias conspiratórias que pretendem atribuir o triunfo de Collor à edição de um mísero debate. Isso pode até ter ajudado, mas não foi decisivo. Collor venceu porque conseguiu incutir no povo o medo de um candidato do “campo comunista”, como ele chamava Lula repetidamente na TV. E o eleitor brasileiro, majoritariamente conservador, rejeitou o barbudinho com cara de mau.

Na campanha atual, Serra e Dilma não vão tocar no tripé que sustenta a economia brasileira. Se houver alguma mudança, ela será feita pelo tucano – que não precisa pagar pedágio ao mercado financeiro -, não pela petista.

Além do enfadonho discurso do “pós-Lula”, o que resta aos candidatos?

Passaremos meses vendo Dilma, de um lado, tentando se apresentar como aquilo que é: um avatar de Lula. E Serra, do outro, dizendo que tudo está bom, mas ele sabe como pode melhorar ainda mais. Só de imaginar já me sinto aborrecido…

E o confronto de valores, como fica? O que eles pensam sobre aborto, liberação das drogas, pena de morte, liberdade de imprensa e valores democráticos? Por que diabos o candidato da oposição não vai apontar o dedo para Dilma e cobrar a petista por seu passado terrorista? Por que o PSDB não cuida de associar, da forma mais explícita possível, o PT aos bandoleiros de Stédile? Porque isso tudo não tem importância? Tem, sim!

Uma pesquisa do Ibope, feita em 2008, procurou saber como os brasileiros viam o MST. As respostas não deixam margem para dúvida:

- 50% são contrários ao movimento;

- para 45%, a palavra que melhor descreve o movimento é “violência”.

- 31% discordam totalmente do objetivo do MST;

- 38% concordam com o objetivo, mas acham que o MST se desviou dele;

- 60% acham que as tais “organizações camponesas” estão se aproximando da criminalidade

            E não venham me dizer que os brasileiros condenam o MST porque são doutrinados pela mídia conservadora, reacionária, preconceituosa e de direita. A Rede Globo, grande besta-fera das esquerdas radicais brasileiras, nunca chamou os milicianos de Stédile de criminosos ou terroristas. Eles são sempre “militantes”. Se isso é ser parcial, resta forçoso concluir que a parcialidade em questão só ajuda o MST.

            A Senadora Kátia Abreu percebeu que o confronto ideológico contra o MST só pode ser uma boa jogada, afinal, a maioria da população não vê lá com muita simpatia aqueles bandoleiros. Ela se mostra, assim, “o melhor homem da oposição”, numa paráfrase da famosa frase usada por Ronald Reagan para descrever Margareth Thatcher.

            Uma campanha sem confrontação de valores é morna e sem graça, coisa que não é do interesse da oposição atual. A mensagem de Serra é ótima: “fizeram muito. Tenho experiência para fazer muito mais. Minha adversária não tem.”

            O problema é que para Dilma a coisa também é muito simples: basta a petista convencer o eleitor de que, se é para melhorar o que de bom foi feito, o mais prático é votar em alguém da situação, não da oposição. Isso, associado a um ou outro lance de guerrilha política, como espalhar a falsa ideia de que os tucanos acabarão com o Bolsa Família, pode virar o jogo facilmente.

            A oposição deveria perceber o óbvio: uma sociedade – qualquer que seja ela – tem valores morais próprios. Exatamente por isso o confronto ideológico nunca é ignorado pelo eleitor. Ele pode, sim, ser relativizado, principalmente num cenário de fartura econômica. Mas ignorado ele nunca será.

            O problema é que a oposição brasileira tem medo do confronto ideológico. Serra tem medo de chamar Dilma de terrorista, porque ela pode responder acusando-o de ter simpatia pela ditadura. E aí? Um embate de ordem moral nunca é fácil de ser feito, pois os tiros – dos dois lados – sempre são pesados. É preciso muito traquejo para explicar, no Brasil, que ser anti-comunista não quer dizer ser fascista, coisa que muitos ainda confundem.

            Mas o principal nem é o medo do contra-ataque. O problema é que Serra e o PSDB são muito de esquerda para fazer algo assim. Lá no fundo dos seus corações emplumados, há tucanos que ainda caem naquela baboseira de que “a resistência armada” foi importante para a construção da democracia. Eles querem, em resumo, disputar com o PT o “campo progressista”, pois morrem de medo quando são acusados de serem conservadores e direitistas.

            Isso para não mencionar que a própria moral dos principais expoentes do tucanos foi forjada a golpes de martelo esquerdista. Ou alguém se espantou quando FHC – o monstro neoliberal, lembram? – se disse favorável à liberação das drogas? Eu não esperava outra coisa dele. Da mesma forma que não espero ver um partido como o PSDB se dizendo publicamente contra o aborto, afinal, abraçar a defesa da vida virou um fardo a ser suportado só pelos “neocons”, não é? E eles são “progressistas”!

            É por tudo isso que a campanha será muito dura para ambos os principais candidatos. E imprevisível também. Tudo porque a oposição insiste em disputar no terreno do PT, que é o terreno das esquerdas. Morrem todos de medo das chamadas “bandeiras conservadoras”, por isso se negam a chamar o MST de milícia partidária, afinal, não querem ser acusados de “criminalizar os movimentos sociais”…

            Não sei se a eleição seria menos difícil para Serra se ele adotasse o lema de Kátia Abreu, conclamando os eleitores a “tirar o Brasil do vermelho”. Mas tenho certeza que ela seria bem menos chata para mim.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

            Coluna do dia: Receita para salvar o povo do dilúvio

            09/04/2010

            Por Yashá Gallazzi*

            Esqueçam os muitos especialistas que têm desfilado na televisão nos últimos dias. Deixem de lado os discursos de Cesar Maia, Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Fechem os ouvidos quando perceberem que Lula vai começar a discursar. Eles não sabem de nada! Se é para resolver os problemas decorrentes das chuvas descomunais que estão assolando o Rio de Janeiro, o negócio é dar ouvidos a este colunista aqui.

            Tenho a receita mais eficaz – a única receita possível, aliás – para que nenhum deslizamento de terra volte a causar tragédias como as que temos visto todos os dias nos telejornais. E é muito simples: o Estado precisa retirar das áreas de risco todos os que lá estiverem. Retirar, eu disse. Não basta declarar que a área é “de risco”. Nem colocar abrigos “à disposição” do povo. Nada disso! Tem que retirar mesmo. Na marra, se for o caso. Chegar lá no morro com a Defesa Civil, os Bombeiros, um punhado de assistentes sociais e, se for preciso, a Polícia Militar. Tudo pra garantir que ninguém resista à ação do Estado. E quem resistir? Que seja preso, oras.

            “Ah, mas onde o governo vai colocar tanta gente?” Num primeiro momento, em abrigos públicos. Depois, seria preciso encontrar uma solução definitiva, possivelmente construindo moradias populares em locais que não desmoronem toda vez que São Pedro acordar de mau humor.

            Viram? É tudo muito simples. Então, por que diabos nenhum político fez – ou pretende fazer – isso? Bem, porque a ação toda seria considerada muito impopular. Vou além: no Brasil atual, onde impera uma violenta inversão de valores morais, um plano de ação como o descrito acima seria considerado “fascista”, “reacionário”, “de direita”.

            Imaginem como a tal “opinião pública” reagiria ao ver o Estado subindo o morro para retirar, à força, centenas de pessoas de suas casas precárias e pobres. Imaginem ainda o estardalhaço que não fariam quando os tratores do Estado colocassem abaixo as bandolas que povoam os morros cariocas. A cena de “dona Mariazinha” chorando em rede nacional ao ver seu “pequeno barraquinho” sendo desmontado iria correr o País, sensibilizando esses valorosos humanistas que defendem o direito que os pobres têm de morar em áreas de risco… E o governo? Bem, seria “autoritário” e “eugenista”…

            Foi o que se viu quando o governo de São Paulo, primeiro com Alckmin, depois com Serra, tentou retirar os mendigos das ruas. Lembram do tal padre Júlio Lancelotti? O sujeito, que cordena um troço chamado “Pastoral do Povo da Rua”, disse que lutava pelo direito que os mendigos tinham de ficar na… rua! Não é fascinante?

            Da mesma forma, bastou Kassab construir bancos feitos para sentar, que os “humanistas” logo trataram de acusá-lo de fazer “bancos anti-mentigo”. Nota-se, pois, que esses valentes querem “bancos pró-mendigo”, não é mesmo?

            Se o Estado, valendo-se do poder de polícia, tratasse de retirar as pessoas dos morros cariocas, a gritaria “humanista” rapidamente se repetiria. E, considerando que essa turma “solidária” consegue mobilizar muito bem a imprensa e as milícias do “pogreçismo”, o estardalhaço seria tão grande que fica fácil entender por que os políticos daqui, tão preocupados com projetos pessoais de poder, não têm peito para encarar de frente o problema.

            A única maneira de resolver de vez a questão é essa. Qualquer outra coisa é mero paliativo, que será literalmente soterrado no próximo deslizamento de terra.

            Querem resolver o problema? Esqueçam a gritaria dos “humanistas” da miséria, que defendem o direito que os pobres têm de continuarem… pobres! Essa gente pensa apenas no próprio umbigo: eles precisam de um oprimido para chamar de seu, caso contrário perdem a razão de ser. Se ninguém mais morar nos morros, como ficariam as ONGs que tentam melhorar a vida dos que moram nos morros? Se ninguém mais mendigar nas ruas, como ficam os “valorosos” do padre Júlio? Não! Essa gente não quer saber de resolver os problemas de ninguém! Eles querem mais é que os pobres continuem morando precariamente e sendo soterrados de vez em quando. Assim, a cantilena aborrecida que opõe uma elite-rica-que-mora-bem aos pobres-oprimidos-que-moram-mal pode continuar sendo repetida infinitamente.

            Para resolver de vez o problema é preciso fazer o exato oposto daquilo que os “especialistas” e os “humanistas da miséria” pregam. Querem que os morros sejam urbanizados? Bobagem! O negócio é tirar as pessoas de lá. Querem que a população seja conscientizada sobre os riscos de morar nas encostas? Besteira! Um aviso amigável e, depois, polícia!

            Mas para isso é preciso alguém que não tenha receio de ser chamado de “fascista, eugenista, reacionário e direitista”, o que não é nada fácil, principalmente num País como este, onde o consenso que impera é progressista e politicamente correto. Aqui, se você quer tirar os mendigos das ruas, é um “fascista”. Humano e progressista é deixá-los ao relento, pedindo esmolas.

            Pelo visto, muitos outros deslizamentos ainda vão acontecer nas grandes metrópoles brasileiras.

            *Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

            Coluna do dia: Com quantas siglas se faz uma democracia?

            04/04/2010

            Por Tiago Franz*

            Ouvi de um membro do Partido Progressista (PP) de minha cidade que a solução para o sistema partidário brasileiro é limitar o número de siglas a no máximo cinco ou seis. Instantes depois, o cara lembrou que seu partido está entre os três maiores do País. Na sequência, falou sobre a importância da fidelidade partidária e regozijou-se por nunca ter mudado de partido, mesmo reconhecendo que o PP passou por mudanças de nome e de postura desde o tempo em que era Arena, na época do bipartidarismo.

            Para o tal progressista – e para muitos outros – o número de partidos políticos hoje legalizados no Brasil – são 27  – é a causa de grande parte dos problemas da nossa política. Promiscuidade na formação de alianças, ‘assassínio’ da ideologia, ‘troca-troca’ de partidos e negociação de cargos são alguns dos males mais citados.

            O bipartidarismo era melhor?

            Dois é pouco, 27 é demais, muitos acreditam.

            E cinco ou seis seria bom?

            Talvez. A quantidade de grêmios políticos não é o único fator na conjuntura toda.

            Analisemos o seguinte cenário:

            Cá em Santa Catarina, o PP conta com a pré-candidata líder em todas as pesquisas de intenção de voto para o governo do estado. Ela é a Deputada Estadual Angela Amin, esposa do ‘jurássico’ Esperidião Amin.

            Entretanto, os progressistas catarinenses estão de mãos amarradas. Esta colocação nas pesquisas não é o suficiente para eleger a progressista. O próprio partido reconhece que sem um apoio significativo a candidatura não vinga.

            Tudo dependerá do movimento das outras forças locais, que neste momento estão a mil em busca de definições.

            Uma tríplice aliança entre DEM, PSDB e PMDB, formada no pleito ao governo catarinense de 2006, levou o PP a se coligar com o PT para disputar o segundo turno naquele ano. PP e PT juntos?! Sim.

            Mas para quem tem memória curta ou já se acostumou com os vícios da nossa política, isso não significa nada demais. Enfim, as circunstâncias locais isolaram o PP e os Amin do restante da direita (se me permitem esta etiquetagem relativizada). Até mesmo o irmão gêmeo, filho da mesma Arena, o PFL, hoje rebatizado de Democratas, ficou do outro lado.

            Para 2010, como em praticamente todo novo pleito, a coisa se redesenha, desta vez com traços mais tortuosos e indecisos. Santa Catarina é um dos estados de maior indefinição para as eleições vindouras.

            O agora Governador Leonel Pavan (PSDB), que era Vice de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) até poucos dias atrás, deixou de ser o potencial sucessor do governo para o próximo mandato ao protagonizar o último grande escândalo político da região.

            Restou a ele assumir, nestes nove meses restantes, o governo que Luiz Henrique deixou para concorrer ao Senado. De uma forma ou de outra, a caneta passou ao fanfarrão. Porém, o cenário eleitoral virou um imbróglio.

            Para embaralhar de vez a cena, o DEM resolveu sair do governo há poucos dias, sob a justificativa de obter maior liberdade para negociar novas alianças e preparar o terreno para a candidatura do Senador Raimundo Colombo a Governador.

            Logo após a decisão, intensificou-se um namorico entre democratas e progressistas, que podem, quem sabe, reatar o ‘laço de parentesco’. E se a eles juntar-se o PSDB de Pavan, o que é provável que aconteça, estará formada uma outra tríplice aliança, que já existiu tempos atrás em Santa Catarina.

            Assim, o PMDB de Luiz Henrique, que já escolheu Eduardo Pinho Moreira como seu pré-candidato, pode sobrar. A rivalidade local com o PP, que pelas origens do bipartidarismo até se explica, não permite que as siglas se unam. Para o PMDB local, aliar-se com o PT da senadora Ideli Salvatti, pré-candidata da sigla ao governo, também é difícil, mas não impossível. Afinal, em nível nacional, Lula já se uniu a Sarney, não é mesmo?

            O que esta análise de Santa Catarina tem a ver com o assunto apresentado no início da coluna? A meu ver, o cenário descrito acima ilustra bem a realidade do nosso modelo partidário, em que a ideologia política e a história cedem espaço às conveniências eleitorais e circunstâncias de poder locais, num jogo com regras espaçosas e tantos jogadores quanto cartas no baralho.

            E retomando agora a linha central, menciono um dito de um membro do DEM da minha cidade, que ao anunciar a decisão do seu partido de insistir na candidatura de Colombo ao governo catarinense, defendeu que todas as siglas deveriam, sempre, lançar candidatura própria. Está correto? Teórica e utopicamente sim.

            Mas aí eu pergunto:

            Se a grande maioria dos brasileiros, conforme aponta pesquisa recente do Datafolha, não sabe nem atribuir virtudes ou defeitos a Serra e a Dilma, que são os dois principais presidenciáveis, saberiam diferenciar 27 candidatos? E, com o perdão da obviedade – é claro que um democrata do interior de Santa Catarina não fala por todo o partido – porque então o DEM não tem candidato próprio à Presidência?

            E o motivo de citar o DEM aqui é circunstancial. Incoerências semelhantes fazem parte dos demais partidos.

            Reduzir o número de partidos representa uma ameaça à democracia? O que mudaria quanto à representatividade? Os tais males do nosso sistema partidário seriam mesmo reduzidos com menos partidos? Não ficariam as novas agremiações repletas dos mesmos parasitas que hoje infestam a nossa política?

            Não discordo totalmente da ideia de diminuir o número de siglas, mas também não estou convencido de que tal reforma, por si só, pode efetivamente melhorar o País. O problema é bem mais embaixo.

            Enquanto isso, vejamos como se comportam as siglas no salão.

            Quem vai tiram quem pra dançar neste baile?

            *Tiago Franz é jornalista, colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz