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Coluna do dia: Vuvuzela, o triste símbolo da primeira Copa em solo africano

18/06/2010

Por Yashá Gallazzi*

“Se Deus inventou o futebol, o capeta teria inventado a vuvuzela.” A frase em questão foi cunhada pelo blogueiro Reinaldo Azevedo, que, digam o que quiserem, é um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.

Azevedo resumiu numa frase tudo aquilo que eu penso sobre a vuvuzela, um trambolho cuja única utilidade é azucrinar aqueles que não o usam nem gostam dele. Defender aquele instrumento de tortura com o argumento de que seria um “aspecto cultural” da África é, no mínimo, diminuir demais a cultura deles.

Aliás, quem decidiu que a África deve ser tida como algo unitário? Já repararam isso? É “cultura africana” pra cá, “costume do povo africano” pra lá. Como se aquele continente não fosse apenas um amontoado de etnias as mais diversas e, na maior parte dos casos, discrepantes entre si. Essa ideia de unidade não passa de uma construção sociológica tão recente quanto infundada, afinal, o que existe, para desespero dos coletivistas de plantão, é o ser humano. Há, pois, o sul-africano, não os sul-africanos. Coletivizar as sociedades, sabemos, nunca deu muito certo…

Eu poderia argumentar que na própria África do Sul, durante os torneios de rugby – que atraem muito mais o interesse do povo local -, não há vuvuzelas atormentando o público e os jogadores. Mas aí teríamos que nos debruçar sobre as origens de cada esporte, o que nos levaria invariavelmente a concluir que as origens culturais que serviram de berço para o rugby foram de grande influência para o – como direi? – “bom gosto” dos torcedores deste esporte. Mas isso seria temerário, pois rapidamente apareceria alguém pronto para me acusar de estar sendo racista…

Que coisa mais curiosa… Vivemos tempos tão policialescos, que a patrulha arregimentada pelo politicamente correto não hesita em transformar vuvuzela em raça. Basta que alguém se arvore a criticar as trombetas do apocalipse inventadas pelos sul-africanos e pronto: logo aparece um “bom moço” apontando o dedo progressista: “racista!”. Ué, mas desde quando vuvuzela é raça?! Eu não reclamo da vuvuzela porque é uma ideia dos negros. Eu reclamo porque ela simplesmente existe!

“Ah, mas é costume dos africanos, durante os jogos de futebol, tocar a vuvuzela. Os outros países estão lá como visitantes, precisam respeitar.” É? Bem, é um costume dos torcedores espanhóis e italianos ficar vaiando os jogadores negros dos times adversários durante toda a partida. Quando houver uma Copa na Espanha, os países africanos, porque apenas visitantes, deveriam aceitar isso, né? Ora, claro que não! Ninguém é obrigado a aceitar o que incomoda e é irracional, seja um barulho ensurdecedor, seja um ato estúpido de racismo. E é óbvio que não pretendo igualar um coro racista ao som das vuvuzelas. Quero apenas mostrar que essa história de “respeitar o costume” é patética. Se o costume é uma porcaria, deve ser criticado mesmo!

O mais divertido, porém, é ver a tentativa deprimente de politizar as vuvuzelas, exercida, preferencialmente, pelos jornalistas da ESPN – sempre mais engajados na luta contra os “pobrema çoçial”. Outra noite vi uma mesa redonda onde um dizia que “o som da vuvuzela é o grito de um continente esquecido.” Quase chorei… de pena do sujeito. Que continente esquecido uma pinóia! É, isso sim, um recurso que eles encontraram pra atormentar os times grandes, na esperança de conseguirem chegar mais longe na Copa. Graças a Deus não está dando certo… Melhor que essa seja a Copa dos jogos medíocres, do que a Copa das vuvuzelas… Já imaginaram se uma seleção africana ganha este ano? A vuvuzela vira símbolo da conquista! Um desastre!

Por sorte do mundo civilizado, a Inglaterra já anunciou que em Londres, nos eventos de 2012 e 2018, as vuvuzelas estão proibidas. É isso aí! Um brinde à democracia, afinal, ser livre e democrático não quer dizer condescender com aquilo que atenta contra a nossa liberdade. Querem ouvir as vuvuzelas? Pois façam um concerto musical com elas no “Soccer city”, quando a Copa acabar. Em Londres, caminhando pela Tower Bridge, o som de uma vuvuzela não seria apenas incômodo. Seria também muito mais cafona do que já o é em Soweto.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: Ficha Limpa, a passeata, o povo e mais uma decepção

03/05/2010

Por Arthurius Maximus*

Antes da coluna de hoje, uma nota:

Desde que iniciei a coluna aqui no Perspectiva Política, gentilmente convidado pelo Bruno, nunca repeti um artigo que tenha escrito em meu próprio blog. Mesmo com uma linha editorial semelhante e comungando mais ou menos das mesmas ideias e ideais, a obsessão por manter os artigos aqui sempre inéditos e exclusivos sempre foi perseguida por mim como uma forma de respeitar o leitor do Perspectiva Política, o Bruno e todo o corpo de colunistas que derrama seu talento nessas páginas.

No entanto, hoje vou quebrar essa meta. Não por desrespeito ou por achar que o artigo que escrevi no Visão Panorâmica é um “marco” ou algo “fenomenal”. Além de pedir essa “licença especial” ao Bruno, a repetição vai aqui – pura e simplesmente – porque minha indignação, minha frustração e minha vergonha não encontram outras palavras capazes de descrever o que vivi ontem (domingo 02/05) e, tampouco, sou capaz de expressar de outra forma meu descontentamento com uma parcela de nosso povo que se recusa a abandonar a contemplação de seus próprios umbigos para lutar por qualquer causa que não seja a de não fazer nada.

Refiro-me à passeata marcada para pressionar os políticos pela aprovação do Projeto de Lei de Iniciativa Popular conhecido como “Ficha Limpa”, que foi realizada (?) ontem em Ipanema no RJ. Não sou (e nem nunca pretendi ser) o dono da verdade e nem o senhor da “cidadania suprema”. Mas, se você concorda (ou não) com a minha visão, deixe sua opinião em um comentário e procure, assim como eu, elucidar uma saída para esse aspecto comportamental de nosso povo.

É bom lembrar que o projeto segue na terça-feira para votação na Câmara dos Deputados em Brasília. Para termos um País com uma vida política mais limpa é necessário que você pressione os parlamentares do seu estado para votarem a favor do projeto. Clique nesse link e envie o seu pedido para aprovação na íntegra do projeto. Além disso, faça seu deputado lembrar que você estará atento às votações e dará o troco neste ano aos que votarem contra o projeto ou tentarem destruí-lo com emendas que o transformem em letra morta. Faça a sua parte como cidadão.

Um abraço a todos e segue o texto.

O brasileiro é mesmo um povo diferente. Ele é roubado, vilipendiado, abandonado à própria sorte por aqueles que têm o dever sagrado (moral e profissional) de protegê-lo, tem  as ilicitudes de seus políticos esfregadas na sua cara todos os dias em cadeia nacional e na hora de “dar a volta por cima” e “acabar com a festa”, simplesmente não faz nada.

O jeito manso e cordeiro – que parece ordeiro – na verdade esconde a grande e imensa covardia (além do profundo comodismo) grassando no interior de cada um de nós e imobilizando nossa sociedade como um câncer com metástase por todos os órgãos e células de nossa nação politicamente agonizante.

Chega a ser estranha a indiferença e os contrastes que podemos observar no brasileiro quando o assunto é exercer a sua cidadania e velar por um País melhor. Para pedir a liberação da maconha compareceram de 2 a 3 mil pessoas. Mas para a passeata pela aprovação do Projeto Ficha Limpa foram entre 300 e 500 pessoas (dependendo da fonte noticiosa).

A “pergunta que não quer calar” nessas horas é: No que pensa o nosso povo?

Será mesmo que o brasileiro acha que basta reclamar da vida, dos políticos, da corrupção desenfreada, dos que se lixam para a opinião pública, dos parentes contratados por “debaixo do pano”, dos hospitais superlotados e transformados em verdadeiros matadouros, das escolas de péssima qualidade que fingem ensinar (um ensino de “quinto mundo”) e de todas as mazelas que vemos dia após dia, bem diante de nossos olhos e sem nenhum pudor?

Será mesmo que o brasileiro acha que a política ficará mais limpa, que os problemas se resolverão e que o País finalmente entrará no primeiro mundo por algum ato de Deus, por um feito inexorável da natureza ou mesmo pelas mãos e obras de um salvador da pátria?

É fácil acordar todos os dias e colocar a culpa no Maluf, no Sarney, no Renan Calheiros, no Serra, no Lula ou no “diabo” da vez. É fácil ficar no boteco da esquina, entre um copo e outro, falar do político safado, da ministra que desvia verbas, do Mensalão deste ou daquele partido ou mesmo sobre a incrível cara-de-pau que eles têm de negar o óbvio e de revogar o irrevogável. O difícil mesmo é entender que todas essas mazelas ocorrem há anos e se repetem constantemente com a eleição dos mesmos corruptos conhecidos e das mesmas caras-de-pau de sempre, graças ao beneplácito dos “cidadãos” brasileiros.

Será mesmo que o brasileiro quer uma política mais limpa, mais justiça no gasto dos impostos (que nada mais são que o seu suado dinheirinho)? Será mesmo que o brasileiro entende que, sem “botar a mão na massa” e sem lutar “com unhas e dentes” por isso nada nunca mudará?

Será que o brasileiro acha mesmo que a Câmara dos Deputados, com cerca de 25% dos seus membros já condenados em alguma instância da  justiça, e com boa parte dos que ainda não têm problemas com a lei a caminho de cumprir essa etapa – e, portanto, sendo prováveis “vítimas” do projeto Ficha Limpa – vai “tomar as dores” da nação e aprovar o projeto, com a dureza com a qual foi concebida? Será que o brasileiro acha mesmo que a corja parasita e habitante daquela casa capitulará “por mágica” e abrirá mão das gordas mordomias e das negociatas sem fim se não houver uma pressão maciça e avassaladora da sociedade?

Pelo que vimos, até agora, penso que sim.

É como eu disse: O brasileiro é mesmo um povo diferente.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Artigo: Luiz Felipe Pondé – De 1984 a 2010

10/04/2010

Não poderia este que vos fala, de forma alguma, deixar de reproduzir o texto a seguir, de autoria do colunista Luiz Felipe Pondé, publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Decidi disponibilizá-lo para os leitores do Perspectiva assim que o li.

Pondé trata, neste texto, da antes até compreensível, mas agora terrível, ditadura do politicamente correto, que se intensificou e piorou ao longo do tempo.

O que antes representava um certo cuidado e uma certa cautela no momento de escolher as palavras a serem ditas ou escritas tornou-se uma detestável camisa de força, que afeta a literatura, a música, o humor, enfim, toda a produção intelectual.

Sugiro fortemente a leitura deste texto que trata de um fenômeno que, se por um lado, desperta a ira de alguns dos colunistas do Perspectiva, por outro, já irritou até mesmo este tolerante editor.

De 1984 a 2010

Luiz Felipe Pondé*

No romance “1984″, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos “mais bem- intencionados”.

Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil “Idéias Políticas na Era Romântica” (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade.

A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal. O furor coletivo de “verdades do bem” deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável. E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente.

Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores “amantes da liberdade” quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da “comunidade intelectual” da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores “do bem”.

O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo. Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor. Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe.

Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do “novo Saci”. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco.

Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o “atirei o pau no gato” deve virar “não atire o pau no gato” para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo “verde” chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos.

Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas.

O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas). Sim, 1984 é agora.

*Luiz Felipe Pondé é filósofo e professor

2ª Coluna do dia: Quando a paz não passa de uma utopia moral

07/04/2010

Por Raphael Machado Silva*

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.

Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

*Raphael Machado é colunista do Perspectiva Política às quartas.

Coluna do dia: O politicamente correto, o marxismo cultural e as suas origens comuns

03/03/2010

Por Raphael Machado Silva*

Feminismo, “movimento” gay, “movimento” negro. Parece que, quanto mais o tempo passa, mais brotam esses grupos de interesse, ditos minoritários, cuja única e exclusiva finalidade é extrair vantagens e benefícios da sociedade como um todo, esmagando, legalmente ou não, toda e qualquer oposição queapareça.

Em verdade, a proliferação desses lobbies das “minorias vitimizadas” é de tal monta que, contraditoriamente, às vezes chega a ser possível supor que essas tais minorias, dignas de adulação, são majoritárias. Subitamente, todos começam a se sentir no direito de fazer exigências absurdas para assim satisfazerem seu patético senso de auto-importância.

A existência desses grupos minoritários, dignos de vantagens e benefícios, por conta de alguma suposta injustiça histórica a qual os “dignifica” moralmente a tal ponto de ser impensável criticá-los, é parte essencial do fenômeno aberrante do Politicamente Correto, uma praga ideológica totalitária que tomou o Ocidente de assalto, submetendo-o de tal modo a até mesmo paralisar suas forças.

Mas será esse fenômeno um desenvolvimento natural e espontâneo de nossa civilização, ou terá seu surgimento tido um caráter intencional? Pois bem, o conhecimento do histórico dessa ideologia só poderá fazer com que nos inclinemos à segunda opção.

Ocorre que, o próprio termo ‘Politicamente Correto’ é demasiado recente, e surgiu como uma espécie de ‘sarcasmo’ com relação às incongruências irracionais e aberrantes geradas pela referida ideologia. Seu nome original era ‘Marxismo Cultural’, ou seja, Marxismo transplantado da economia para o âmbito da cultura. Isso pode ser confirmado tranquilamente caso se realize uma comparação entre os elementos fundamentais do Marxismo Ortodoxo e os do ‘Politicamente Correto’. As analogias são claras.

Em primeiro lugar, ambas ideologias possuem confiança em um único fator como sendo supostamente capaz de explicar o todo da História. Para o Marxismo Ortodoxo, todo o devir histórico é determinado pela posse dos meios de produção, e apenas por isso. Para o Marxismo Cultural, apenas a noção de ‘poder’ é capaz de explicar a história. Tudo se remete a ‘quem tem poder sobre quem’, ‘quem submete quem’. Tudo na história deve ser entendido com base nesse conceito superficial.

Em segundo lugar, assim como no Marxismo Ortodoxo alguns grupos são, a priori, absolutamente bons, como o campesinato e o proletariado, enquanto outros são absolutamente maléficos, como os burgueses e os donos dos meios de produção, no Marxismo Cultural alguns grupos também são absolutamente bons, como as mulheres feministas, os negros e os homossexuais. Esses ao construírem artificialmente para si o papel de ‘vítimas históricas’, automaticamente se convertem em ‘bons’ e todos os seus atos são excusáveis, não importa quais sejam, já que, o que quer que eles façam é feito apenas em ‘reação aos opressores’. No Politicamente Correto, portanto, homens brancos e heterossexuais são a personificação do Mal, sendo o equivalente cultural da Burguesia.

Em terceiro lugar, tanto a prática comunista ortodoxa como a prática marxista cultural se dão por meio da expropriação. Os comunistas em todos os países em que eles chegaram ao poder se impuseram por meio da expropriação forçada dos bens de praticamente todas as classes, incluindo até mesmo os dos camponeses. A expropriação do Politicamente Correto, por sua vez, se dá por meio das ‘ações afirmativas’. Quando um aluno branco, superiormente qualificado, tem sua admissão a uma universidade negada em razão de cotas ele está sendo expropriado de um direito seu.

A expropriação do Marxismo Cultural pode se dar ainda por meios mais maléficos e sorrateiros. Quando acadêmicos acéfalos ou lobbies de minorias histéricas impõem a demonização do suposto ‘opressor’, por meio da distorsão da história, da invenção de vitimizações e sofrimentos míticos e pela falsa representação de aspectos e características de um povo, o que está ocorrendo é uma autêntica expropriação histórico-cultural. O ‘opressor’ tem sua história e sua cultura roubadas de si, e passa a ser obrigado a aceitar a versão de sua própria história construída pela ‘vítima’, não importando o quanto esta versão seja distorcida, e se submeter a martírios e auto-flagelos de arrependimento e culpa, entregando voluntariamente toda forma de vantagens e benesses às vítimas como forma de ‘compensação’ por ‘crimes desumanos’. Nesse aspecto, a lavagem cerebral completa exercida contra o povo alemão após 1945 é o melhor exemplo.

Outras analogias podem ser encontradas, como o fato de ambas ideologias utilizarem métodos de ‘análise’ designados para apresentarem apenas os resultados já previamente esperados, ou de ambas ideologias serem eminentemente totalitárias e seus adversários serem perseguidos, mesmo no âmbito do ‘Estado Democrático de Direito’, haja vista a crucificação moral e profissional nos altares totalitários do Politicamente Correto de James Watson, um dos maiores biólogos do século XX, ganhador do Nobel, apenas pelo mesmo ter feito afirmações completamente factuais e comprovadas a respeito do QI.

As analogias, porém, não são coincidências, mas sim completamente intencionais. Mais: O Marxismo Cultural é a evolução do Marxismo Ortodoxo, tendo sido exatamente o meio pelo qual o Marxismo alcançou sua vitória absoluta sobre o mundo.

Tudo deriva do fato de que o Marxismo Ortodoxo estava eivado de incontáveis falhas, principalmente no que concerne sua previsão do futuro. Supostamente, as guerras geradas pelo imperialismo europeu levariam necessariamente a uma revolução mundial. A guerra veio em 1914, a revolução russa em 1917. Mas a Revolução Mundial nunca veio. O proletariado escolheu o Nacionalismo, ao invés de míticas elocubrações falsas e abstratas a respeito de internacionalismos e ‘solidariedade de classe’. Marx estava, como em quase tudo o mais, redondamente enganado.

Que fizeram então os Marxistas mais inteligentes, como Antonio Gramsci? Chegaram à conclusão de que o proletariado jamais visualizaria seus interesses até que fosse ‘libertado das amarras da Cultura Ocidental’.

Começa assim a defesa e propagação intencional de todos os ímpetos antagônicos em relação ao superior Espírito da Civilização Ocidental. Por meio da fusão alquímica entre Marx e Freud, os teóricos do Marxismo Cultural começam seu ataque sobre as instituições tradicionais do Ocidente.

O Marxismo Cultural entende que todos os laços identitários involuntários, como sexo, raça ou nação, são ‘tirânicos’ e que, portanto, esses laços devem ser ‘desconstruídos’.

A Identidade sexual, por exemplo, por meio da invenção de um antagonismo entre os sexos, por meio da defesa do homossexualismo, pelo incentivo à promiscuidade (‘liberação sexual’) e pela inversão dos papéis sexuais tradicionais. Temos aí a “grande” contribuição de Sigmund Freud para a Humanidade.

Inúmeras outras formas de estratégias de destruição foram desenvolvidas para desintegrar as diversas formas de Identidade: incentivo à imigração, à miscigenação e ao multiculturalismo; defesa de um promíscuo ‘ecumenismo’ religioso, de bizarrices esotéricas new age e do ateísmo materialista; defesa de um ‘mundo sem fronteiras’ e do ‘fim dos Estados-Nações’; defesa do aborto; defesa do pacifismo e do desarmamento civil; assim como várias outras estratégias cuja única finalidade é dissolver as instituições tradicionais, enfraquecer a resolução, os ímpetos e instintos dos ocidentais e lhes empurrar semi-voluntariamente na direção do ‘Paraíso Marxista’.

Esse é exatamente o nosso statu quo ideológico. Pior: A maior parte dos itens acima são hoje vistos como parte de um ‘senso comum’, para o horror, estupefação e gargalhadas histéricas de nossos ancestrais, os quais sabiam mui acertadamente que cada um dos pontos acima é radicalmente anti-natural, anti-produtivo e completamente contrário à manutenção de sociedades estáveis, saudáveis, fortes e civilizadas.

A maior glória e a maior prova do sucesso estratégico marxista é que o Marxismo Cultural é absolutamente compatível com o Capitalismo. É exatamente essa a Síntese Hegeliana que supostamente colocará um ‘Fim na História’. O Marxismo Político-Econômico está completamente morto. Existe apenas em suas formas tribalistas nos sub-mundos bárbaros da América Latina e da África.

Enquanto ‘direitistas’ tolos se preocupam com o pateta Chávez, Hollywood realiza bombardeios contínuos de material Marxista Cultural, desde que Theodor Adorno, um dos principais ideólogos do neo-marxismo, se tornou ‘Consultor’ na Babel do Cinema na década de 30.

Em verdade, a atuação dos marxistas apenas eleva o poder e os lucros dos Grandes Capitalistas já que a dissolução dos laços identitários contribui enormemente para a formação de uma horda de escravos-consumidores completamente maleáveis, sensíveis a quaisquer estímulos propagandísticos, e que não se recusam a comprar um certo produto pelo mesmo ser ‘estrangeiro’.

A Tirania tem muitas faces. Não é por não cometer genocídios ou por ser ‘libertária’ que ela deixa de ser uma Tirania.

Basta apenas que ela esteja fundada na Ilusão.

*Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Reflexões sobre o politicamente correto e a liberdade da palavra

24/02/2010

Por Raphael Machado Silva*

Todo pensar se dá por meio da Linguagem. Ao longo dos tempos o ato de ‘dar nome aos entes’ tem sido o meio pelo qual o Homem integra um dado ente à sua Macro-Estrutura Cultural. Assim, as coisas existem para o Homem na medida em que elas possam ser representadas por signos linguísticos. A apropriação do ente pelo Homem por meio da Linguagem possui necessariamente um caráter coletivo, como o próprio Homem, o qual é reforçado pelas instituições sociais responsáveis por integrar um indivíduo na Macro-Estrutura Cultural.

A partir de então, todo o pensar do Homem sobre um ente integrado na Macro-Estrutura Cultural jamais será um pensar sobre o próprio ente, mas sobre a ‘Palavra’, o ‘termo’, o ‘signo’, o qual representa o ente, e que é apreendido culturalmente pela coletividade ao longo das gerações. Os limites do pensar humano são, portanto, os limites de sua linguagem. A Linguagem, por isso, não é apenas resultado de uma construção cultural coletiva, mas é ela própria fator de orientação e determinação da Cultura e Destino de um Povo, na medida em que representa absolutamente determinados valores, ideais, inclinações e aspirações.

Altera-se a Linguagem de um Povo, seja pela adição ou supressão de certas palavras, ou pela alteração das semânticas das palavras, e todo seu pensar, sentir e viver se verão radicalmente alterados. A Linguagem não é um mero instrumento de trocas, como sem dúvida supõem todos os pragmáticos, materialistas e racionalistas, mas mais do que os outros elementos culturais, é ela a própria fundação sobre a qual se ergue uma Civilização. Como afirmava Heidegger: ‘A Linguagem é a casa do Ser.’

Ab initio, por isso, toda iniciativa de se realizar qualquer alteração na Linguagem de um Povo, qualquer intromissão em seu ‘dicionário oficial’, já deveria ser vista com a mais intransigente e provinciana suspeita e aversão. Só deveria ser permissível uma tão audaciosa e perigosa iniciativa, após a realização e a autorização de um ‘Conselho de Sábios’, composto por filósofos, psicólogos, teólogos, sociólogos, antropólogos e todos os maiores especialistas do ‘Espírito’ humano, onde se verificaria com anos e anos de estudo exatamente que efeitos teriam tais alterações sobre a totalidade das experiências existenciais humanas.

Infelizmente, porém, isso é inconcebível quando os povos são governados por trôpegos e abismados proletários, ou por burgueses usurários e glutões. É completamente evidente que alterações com vistas a ‘simplificar’ uma Linguagem, ou ‘integrar e aproximar os povos’ terão inevitavelmente como efeitos a própria mediocrização do pensamento e o desenraizamento cultural dos povos vítimas dessa violência humana, demasiado humana.

Mas há males muito mais insidiosos na manipulação da Linguagem, principalmente no que concerne à semântica das palavras. Ocorre que, se as palavras por sua natureza como representativos símbolicos de entes, inclusive de Idéias, é garantidamente possível se realizar uma pesada e totalitária doutrinação ideológica por meio de alterações da Linguagem.

Se os limites da Linguagem, são os limites de nosso pensamento, então basta uma palavra representativa de uma Ideologia ‘tabu’ ou ‘perseguida’ ser riscada do dicionário e das menções oficiais, principalmente nos meios escolares e acadêmicos, para que aquela Visão de Mundo particular deixe de existir em algumas gerações, simplesmente por não poder mais ser ‘pensável’, ‘concebível’, ‘falável’.

Orwell, então, só pode ser visto como um verdadeiro visionário ou profeta. Ele com extrema argúcia descreveu esse instrumento do mais diabólico totalitarismo, o qual prescinde absolutamente de autoritarismos políticos, e que pode conviver tranquilamente com sistemas demo-liberais. A prova disso é que exatamente essa é a realidade em que vivemos, e são as instituições mais centrais do establishment demo-liberal as propagandistas mais fanáticas da ‘novilíngua’ politicamente correta, e os maiores inimigos das ‘verdades desagradáveis’, já desde os fins do século XIX, e mais aberta e fanática desde a década de 60 nos EUA e na Europa Ocidental.

Não há Liberdade quando se pré-determina que palavras podemos usar, que ideias podemos ter. A escravidão é absoluta quando certos elementos parasitários da sociedade realizam sua subversão por meio de distorsões semânticas. A ofensa, a rejeição, a raiva, a aversão, a diferenciação, o alto e sonoro NÃO!, são partes integrantes e essenciais da Vida e da Liberdade.

Heinrich Himmler, um dos principais líderes do Terceiro Reich, havia dito em uma entrevista a um repórter americano que ele não se importava com as crenças e opiniões pessoais dos alemães, mesmo as contrárias, desde que essas discordâncias não se expressassem de modo aberto a ponto de atrapalhar a condução do Reich pelos Nacional-Socialistas. Para ele, líder da Gestapo e das SS, os alemães podiam ser livres para pensarem o que quisessem.

Na Modernidade Totalitária Demo-Liberal, a última trincheira de combate, nosso interior, nosso ‘Eu’, fonte de todas as Liberdades, foi tomado de assalto pelas distorsões históricas e pelas semânticas subversivas, cuja finalidade é fazer com que a ‘Revolução’ desabroche naturalmente a partir da própria ‘consciência’ das pessoas. Na Modernidade Totalitária ninguém é livre para pensar o que quiser. Aquele que pensa os ‘tabus’ é convencido a se submeter a um sentimento de culpa e vergonha, cuja única expiação é realizar a auto-violência mental de destruir a própria Identidade, os próprios ‘preconceitos’.

Todo discurso sobre ‘Liberdade’ em uma Tirania como a do Politicamente Correto, a qual governa todos os países do Ocidente, não passa de uma farsa quando a Liberdade Original, aquela que se origina da Ideia, do Logos, foi banida para ‘campos de reeducação’ ou calada violentamente por ser ‘fascista’ demais.

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Egito, terra de contrastes (Diário de Viagem do Perspectiva – Parte I)

06/02/2010

A pedido deste editor que vos fala, Matheus Passos, nosso colunista aos sábados, compartilhará suas grandes experiências adquiridas nas viagens feitas nas últimas férias conosco. Matheus passou por Egito, Turquia e Ucrânia. Será o Diário de Viagem do Perspectiva, que estreia hoje e que trará informações sobre estes países mais do que interessantes somadas à escrita refinada do nosso jovem Professor. Espero que gostem. Segue o primeiro texto da série de Matheus. 

Por Matheus Passos*

Como os leitores devem saber, durante os meses de dezembro de 2009 e janeiro de 2010 estive viajando para fora do Brasil. Tive a possibilidade de visitar três países completamente diferentes do Brasil: Egito, Turquia e Ucrânia. Nas primeiras postagens de 2010 pretendo fazer um breve relato da viagem a esses países, apresentando não apenas elementos das esferas política, econômica e social, mas também aspectos mais “turísticos” propriamente ditos.

Na coluna de hoje falarei um pouco a respeito do Egito, minha primeira parada. Logicamente, o impacto acontece logo ao desembarcarmos: informações no aeroporto em árabe. Para aqueles que, como eu, não falam nem leem a língua, é um pouco complicado — e acredito ser um momento importante para sentirmos como um analfabeto se sente no Brasil. A “salvação” vem apenas por meio de alguns sinais básicos em inglês, que indicam a saída e o local para pegar a bagagem. Fora do aeroporto, nada feito: tudo em árabe.

Mas não é difícil se virar no país. Uma boa parcela da população egípcia entende um pouco de inglês, o que facilita a comunicação no que diz respeito a negócios. Porém, tirando isso tudo se complica: é relativamente difícil sustentar uma conversação sobre outro tema que não negócios. Por exemplo: a primeira cidade que visitei foi Aswan, no sul do Egito. Eu havia contratado previamente um táxi que me levaria do aeroporto ao hotel, mas eu não sabia se deveria pagar ao taxista ou ao hotel. Ao perguntar isso para o motorista, o mesmo nada compreendeu e não soube me responder: ele basicamente sabia em inglês o nome dos lugares por onde passávamos, mas não sabia dar nenhuma explicação aprofundada. E o mesmo ocorreu em várias outras oportunidades, inclusive no Cairo: se sairmos da esfera dos negócios (e por negócios quero dizer negociação de valores por um souvenir ou por um tour de camelo, por exemplo) e da esfera do turismo em geral, torna-se complicada a comunicação.

Comer em um restaurante local é uma aventura, especialmente quando não há nada em inglês no menu, só em árabe… A comida, aliás, é um caso à parte: o Egito possui uma culinária bastante diferente da nossa, com muitos pratos deliciosos — e outros nem tanto. O que mais me agradou foi a possibilidade de comer o que chamamos de “pão sírio” com muito mais frequência do que aqui no Brasil.

Falar a respeito dos monumentos egípcios é desnecessário, creio eu. Estar em frente às três pirâmides mais famosas é algo simplesmente indescritível. Tive a mesma sensação que experimentei quando visitei campos de concentração e de extermínio nazistas na Alemanha e na Polônia no ano passado: ler sobre as pirâmides e ver fotos delas é uma coisa, estar à frente delas é outra coisa — e entrar nelas, uma experiência ainda mais indescritível. Ver a esfinge também é surpreendente, ainda que — como diz o guia “Lonely Planet” — ela se pareça com um astro de cinema: ao vivo é menor do que parece por fotos. Também foi surpreendente visitar a pirâmide de degraus em Saqqara e as pirâmides Vermelha e Inclinada em Dahshur, bem como visitar o Vale dos Reis em Luxor, o Templo de Karnak em Luxor ou o Templo de Abu Simbel. Isso sem falar em outro verdadeiro “monumento” egípcio, o Rio Nilo: navegar em suas águas por três dias e duas noites em uma felucca — barco sem motor no qual cabem até 10 pessoas — é uma experiência única para o visitante.

Mas nem só de monumentos antigos vive o Egito atual — e aí entramos em uma característica extremamente negativa dos egípcios, pelo menos para mim: tudo, absolutamente tudo, é avaliado em termos monetários. Algo — ou alguém, no caso de um turista — só é bom se puder ser monetariamente valorado. E tal valoração geralmente é absurda. Por exemplo: ao sair do Vale das Rainhas, em Luxor, um vendedor me ofereceu três miniaturas de plástico das pirâmides. Valor original pedido pelo vendedor: 500 libras egípcias (pela cotação da época, algo em torno de 160 reais). Disse que não e continuei andando até onde meu táxi estava me esperando — e essa caminhada não tinha mais do que uns 50 metros. Nesse trajeto, o preço caiu de 500 libras egípcias para 30 libras egípcias — preço que poderia ter caído ainda mais, tenho certeza.

Outra característica que considerei extremamente negativa foi o fato de que eles pedem gorjeta para tudo. Não importa o que for, se eles abrirem a boca para falar com você e você der atenção… Meu amigo, arrumarás uma bela dor de cabeça. E muitas vezes eles pedem dinheiro “do nada”. Por exemplo, fui ao banheiro no templo de Hórus, em Edfu, e perguntei para um funcionário do templo onde ficava o banheiro. Só por isso ele já pediu “money, money”. Falei que não ia dar e o funcionário ficou bastante irritado. Não queria me deixar entrar no banheiro, e só parou de me atrapalhar quando eu disse que ia chamar a polícia. Depois, no templo de Luxor, em cada “sala” do templo fica um segurança, e quando você entra sozinho na sala, lá vem o segurança querer mostrar uma “parte especial” da sala — como se você não fosse olhar tudo por si mesmo… E se você cair na conversa, já era, eles pedem mesmo dinheiro. O jeito é ser grosso ou não dar atenção e deixá-los falando sozinho. E mesmo assim eles insistem… Eu adotei a tática de não responder em inglês, só em português. Aí eles ficam meio perdidos, tentam uma segunda vez — alguns até falam um “hola” em espanhol — , mas acabam desistindo. É cansativo.

Acredito que uma visita ao Egito pode mudar a cabeça das pessoas, não apenas por ver todos aqueles monumentos — e ficar imaginando como foi possível, há tantos mil anos atrás, a construção de edificações nas quais não passa uma folha de papel entre as pedras — mas também para ver que nós, brasileiros, quando comparados ao egípcios em termos sócio-econômicos, somos ricos. Para ver que nós, em termos políticos, somos muito mais democráticos que eles. E para perceber o quanto o Islamismo é forte no Egito, apesar de este ser — creio eu — o país muçulmano mais “liberal” do Oriente Médio. Mas os aspectos sócio-econômicos, políticos e religiosos ficarão para a postagem da semana que vem.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, cientista político, editor do blog Pensar Politicamente e escreve no Twitter em @mpassosbr.

Coluna do dia: Leonel Pavan e uma parceria público-privada “diferente” em Santa Catarina

31/01/2010

Por Tiago Franz*

Olá, meus caros. Saúdo os leitores e colegas do Perspectiva com a alegria de quem retorna à casa. A saudade bateu forte durante as semanas em que estive ausente. Entrementes, com viagem ao Mato Grosso (Estado onde cresci e onde devo viver novamente a partir de 2011), mudança de residência (ainda em Chapecó, Santa Catarina) e muito trabalho com meu violão e garganta, dei embalo e rumo ao meu 2010. Espero que estejamos todos bem embalados.

Pois bem. Sou natural de Santa Catarina e continuarei cidadão catarinense por mais um ano. Continuarei, do ponto de vista que mais interessa a ‘eles’, eleitor catarinense. E como é de meu costume, observador que sou, venho colocar aqui o ponto de vista do sujeito, cidadão e eleitor Tiago Franz a respeito do caso que abalou o cenário da sucessão catarinense: o escândalo envolvendo o Vice-Governador Leonel Pavan (PSDB), que, aliás, foi adiantado aos leitores pelo Perspectiva.

No próximo dia 3, a Assembleia Legislativa irá votar pela abertura do processo, para que o Tribunal de Justiça do Estado apure as denúncias feitas pelo Ministério Público. Pavan enviou carta aos deputados pedindo que votem a favor da abertura das investigações e declarou estar confiante no trabalho da Justiça. Espera-se que a votação seja unânime a favor da apuração. O tucano é acusado de corrupção passiva, advocacia administrativa e quebra de sigilo funcional.

Pode até ser que as acusações, como diz o lado do governo, sejam meramente oportunistas e estratégicas. A essa altura do jogo, a coisa começa mesmo a esquentar. Pavan era cogitado pelo Governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) para ser seu sucessor.

Mas não pretendo julgar Pavan antes da Justiça. Quero aqui colocar a impressão que guardei do Vice-Governador na ocasião em que o vi pela primeira vez, e que me fez não ficar surpreso com o surgimento do escândalo. Vamos lá.

O natal de 2008 estava próximo e a maior loja de departamentos de Chapecó, pertencente à rede Havan, realizou um evento em frente às suas instalações, na principal avenida da cidade. O ‘Natal Luz Havan’ reuniu cerca de 20 mil pessoas, que assistiram à apresentação da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina (OSSCA), ao show da banda de rock Dazaranha (Florianópolis), à inauguração da ‘mega’ iluminação natalina da loja e a diversas outras atrações. Tudo marcado por um forte apelo popular (no mau sentido), como de praxe. Até mesmo a conceituada OSSCA, que já pude prestigiar em outra ocasião, trocou os clássicos por ‘musiquinhas’ da moda. Em resumo, o evento foi quase um ‘festival da mediocridade’.

Lá estava eu, em meio à multidão, iluminado pela ‘Luz do Natal’ que irradiava do prédio da loja, quando anunciaram que o então Governador em exercício, Leonel Pavan, faria uso da palavra por alguns instantes.

Uatarréu! Embasbaquei! Eu já estava estranhando e me perguntando o que a orquestra do estado fazia ali, mas a presença do próprio Governador em exercício foi como um tapa na cara. Pensei: que diabos o Vice-Governador faz metido nisso aí? Será que o Luiz Henrique, que naqueles dias estava de licença, faria o mesmo se estivesse em exercício?

E foi assim que conheci o Vice-Governador Pavan, discursando informal e entusiasticamente sobre a magia do Natal e sobre a importância das lojas Havan para o Estado de Santa Catarina (será que a empresa paga corretamente seus impostos ou faz como a Arrows Petróleo do Brasil, que mesmo devendo 12 milhões em impostos quer continuar prestando serviço ao estado, e, se comprovadas as denúncias da PF, ainda contando com a ajuda do Vice-Governador para isso?). Afinal, “a iniciativa da empresa é um importante incentivo à cultura”.

É mesmo incentivo à cultura? Que cultura é essa? Feliz Natal e boas compras!? É ético que o estado ceda (ou venda) sua orquestra e participe dessa maneira de um evento de uma loja de confecções, brinquedos e ‘tudo para o seu lar’, por mais ‘importante’ que ela possa ser? Qual é a real importância disso para a economia e a cultura do estado?

O que eu tenho contra as lojas Havan? Nada. Escrevo sentado em uma almofada que comprei na Havan de Chapecó. Também não tenho nada contra as relações entre o público e o privado, desde que estas respeitem o limite do bom senso. O problema surge quando as coisas se misturam e formam o que eu chamo de ‘lambança público-privada’. Isso ocorre quando o oportunismo comercial e político-eleitoral se juntam para fazer… hmm… lambanças como a que narrei aqui. A Administração Pública deve tratar dos assuntos com a iniciativa privada com ética, bom senso, isenção e, principalmente, com o rigor da lei.

Não gostei nada do que vi há dois anos, e continuo não gostando. Por isso creio que a atual situação do Vice-Governador Leonel Pavan não seja apenas motivada por interesses eleitorais de opositores.

Mas esperemos para ver.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Saúde do município do Rio nas mãos de fundação cultural

14/01/2010

Acreditem se puder, meus caros leitores, mas a Prefeitura do Rio de Janeiro, comandada por Eduardo Paes (PMDB), contratou, sem licitação, uma fundação cultural, educacional e de radiodifusão para cuidar da saúde do carioca. É isso mesmo que vocês leram: Uma fundação cultural cuidando da saúde.

Para completar o absurdo, os cariocas correm o risco de ter suas vidas nas mãos de uma fundação que, além de não agir na área de saúde, pode ser fantasma, afinal, no endereço que aparece no alvará de licença para estabelecimento da instituição, não há nem sinal de sua sede. Nem o vereador que requisitou que a fundação fosse designada como de utilidade pública conhece o endereço de sua sede.

Além disso, a fundação seria, coincidentemente, comandada por um senhor que também dirige a antiga prestadora de serviços do mesmo setor, a Cooperativa MedicalCoop, substituída pela fundação. Que mundo pequeno, não?

Para os que ainda não acreditam que algo assim possa ser verdade, segue notícia do jornal carioca O Dia, que confirma as informações e os absurdos cometidos pela Prefeitura carioca de Eduardo Paes:

“Sede de fundação que contrata médicos no Rio é desconhecida
12 de janeiro de 2010 • 03h05

Escolhida sem licitação para ser responsável pela contratação de enfermeiros e médicos para postos de saúde do Município do Rio – conforme revelou a coluna Informe do jornal O Dia -, a Fundação Cultural, Educacional e de Radiodifusão Rômulo Arantes não funciona no endereço que aparece no seu alvará de licença para estabelecimento. No documento, datado do ano passado, da Secretaria Municipal da Fazenda, a entidade estaria localizada na Estrada do Gabinal 313, Galeria 205B, Freguesia, no Rio Shopping. No local, fica a imobiliária InvestiRio. Nos arquivos digitais do Ministério Público, a fundação também não consta como registrada.

O jornal tentou entrar em contato com a InvestiRio, mas nem a central de atendimento do shopping tem o telefone cadastrado. Administrador e conselheiro do Rio Shopping, Caio Mário Magalhães explicou que a fundação ainda vai se mudar para Jacarepaguá e que ainda não fez isso porque sua sede está no Centro. Ele também afirmou que entraria em contato com os responsáveis pela fundação, mas até o fechamento desta edição ninguém procurou a reportagem.

O vereador Luiz Carlos Ramos (sem partido), autor do Projeto de Lei 530/2009, que pede para ser considerada de utilidade pública a fundação, admitiu que não conhece a sede onde funciona a entidade. O parlamentar explicou que fez a proposta atendendo a pedido de conhecidos: ‘fui num evento na Barra em homenagem ao Rômulo, mas lá não era o local da fundação’. Segundo Ramos, um dos responsáveis pela instituição seria Carlos Maurício Medina Gallego, diretor da Cooperativa MedicalCoop. A cooperativa foi substituída pela Fundação Rômulo Arantes em dezembro.

O contrato de 180 dias com a Fundação Cultural, Educacional e de Radiodifusão Rômulo Arantes é de mais de R$ 20 milhões. A dispensa de licitação foi justificada pela Secretaria Municipal de Saúde como necessidade de ‘emergência no atendimento’. E, segundo a Secretaria Municipal de Educação, o processo e a empresa foram acompanhados e aprovados pela Procuradoria Geral do Município.

O vereador Paulo Pinheiro (PPS) encaminhou ofício à Secretaria Municipal de Saúde pedindo esclarecimentos sobre a contratação: ‘acho estranho a fundação não ter nenhum histórico em serviços de saúde e a dificuldade em obter informações sobre a mesma’.”

Coluna do dia: Ambientalismo e Globalização – O fiasco de Copenhagen

30/12/2009

Por Raphael Machado Silva*

O dia termina, e não se chega a nenhuma conclusão de aplicabilidade prática. Todas as esperanças são traídas. Todas as expectativas foram em vão. Tudo o que foi dito não passou de uma sucessão de palavras vazias. O mundo para, perplexo e decepcionado. Os líderes mundiais abaixam as cabeças e saem “de fininho”, proferindo lamentos hipócritas para os abutres midiáticos que os perseguem constantemente.

E o que havia aí de inesperado? Como não era óbvio que Copenhagen seria tão, ou mais, inócua quanto Kyoto? Apenas os indivíduos de natureza abertamente mística e messiânica poderiam esperar por alguma “solução” vinda de uma reunião feita única e exclusivamente com o fim de agradar os eleitores-consumidores, que têm as mudanças climáticas por que passa o Globo em alta conta.

Copenhagen não passou de jogada de marketing político internacional. Ora, quem poderia crer que os líderes mundiais, os quais em sua maioria não passam de títeres dos interesses econômicos que os colocaram no poder, poderiam livremente determinar diretrizes normativas para que os países participantes e seus membros seguissem, as quais obviamente reduziriam a capacidade dos interesses financeiros internacionais de saquearem e rapinarem à vontade, se engordando com os frutos profanos da mais-valia.

O próprio foco da Conferência revela claramente toda a malícia dos interesses internacionais. A dialética política e as propagandas midiáticas maciças conseguiram reduzir as infindas Questões Ambientais ao “Aquecimento Global”. Hoje, “Aquecimento Global” é sinônimo de Ambientalismo. Fora do “Aquecimento Global” não há nada. Assim, afasta-se de todo a atenção da população em relação a todos os outros problemas ambientais, concentrando-a sobre uma temática facilmente apelativa, altamente mercantilizável e extremamente apta a ser usada para os fins mais escusos.

Ora, e o que se diz sempre que falha alguma dessas sempre frequentes tentativas de acordos ambientais? “Precisamos de uma estrutura normativa internacional, semelhante a um Estado!”. Não estão cansados de ouvir a mesma “ladainha”? Afinal, isso também é constantemente dito como a “melhor solução à longo prazo para a crise econômica”. Parece que todo e qualquer problema de âmbito internacional é justificativa para se apregoar a desintegração das soberanias nacionais, e a submissão dos Estados a um Leviatã internacional.

Esse é o grande sonho de todos os burocratas neomarxistas, assim como o de todos os banqueiros, usurários e grandes capitalistas. Um mundo sem fronteiras, e melhor ainda se não houverem mais religiões, raças, culturas, idiomas, gêneros, classes ou todo qualquer outro fator de diferenciação individual ou coletiva ao redor do qual se possa construir uma Identidade, é o principal objetivo de todas as mobilizações internacionais políticas e econômicas. O sonho desses tiranos é um mundo que espelhe a música “Imagine” de John Lennon. Para mim, esse mundo seria o maior dos pesadelos.

A única finalidade do “Ambientalismo” assim como do “Aquecimento Global” (não cabe nesse artigo discutir se o mesmo é real ou não, e qual a participação do homem no mesmo), é preparar e despertar o interesse das massas em direção a um aparato estatal global, para que quando o mesmo surja, as massas não se revoltem e apóiem a iniciativa.

Ao mesmo tempo, é pré-condição necessária que absolutamente nada seja feito no sentido de tentar resolver seriamente esses problemas ambientais. Ao contrário, é absolutamente intencional que os líderes mundiais “empurrem com a barriga” esses problemas. Afinal, caso fossem resolvidos ou ao menos minorados, não haveria mais qualquer justificativa para se estabelecer o Leviatã Global, não é mesmo?

É esse o sentido da apropriação capitalista dos ideais ambientais. Para suprir os ímpetos ecológicos das massas, e fazer com que elas pensem que “estão lutando pelo meio ambiente”, são desenvolvidos produtos “verdes”, os quais não são necessariamente menos poluidores que os produtos “normais”. A finalidade dos mesmos é única e exclusivamente apaziguar as massas, fazendo-as crer no absurdo de que “salvarão o mundo”… Consumindo?!

Afinal, quem teria a coragem de propor e legislar no sentido de reduzir radicalmente o consumo, a produção e a economia de modo geral? Dane-se o “desenvolvimento sustentável”, afinal, inúmeros problemas ambientais têm sido causados até agora por conta do consumo e da atividade industrial ocidentais, e, hoje, Índia, China e o Sudeste Asiático, que juntos possuem quase 3 bilhões de habitantes, estão sendo integrados nos padrões de consumo ocidentais.

O que o mundo precisa é de Decrescimento. Decrescimento Populacional e Decrescimento Econômico. Mas que político terá a coragem de propor isso?

*Raphael Machado Silva, escrevendo excepcionalmente em uma quarta, é colunista do Perspectiva Política às terças.