Postagens com a palavra-chave ‘Crônica’

Artigo do leitor: O corcel branco

11/06/2010

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto, de autoria do leitor Fábio Liberal, construído após uma sessão do filme ”Viajo porque preciso, volto porque te amo”:

Fábio Liberal*

Ontem, depois de assistir um filme, lembrei do dia em que meus avós dançavam no quarto às vésperas do São João. O rádio tocava baixinho ‘Riacho do Navio’ de Luis Gonzaga.

Guardo essa cena como quem guarda o melhor pedaço da vida. Por sorte eu usufruía de um ângulo que impossibilitava o flagrante. Fiquei ali até que a música findasse. Eram dois velhos movendo seus corpos sem a mínima fração de ânsia, duas pessoas que dificilmente teriam ainda o que dizer um ao outro.

Lembro que poucos meses depois eu estava encarregado de dirigir o carro do velho, um corcel branco enfurnado de baratas, caindo os pedaços. Um câncer comia-lhe as tripas e eu fora designado a dar assistência à família.

A tarefa consistia em levar e trazer minha avó, minhas tias e minha mãe à UTI de um hospital na Ilha do Leite. Assim como aquele velho corcel, meu avô não tinha direção hidráulica, era bruto como uma caixa de ferramentas e talvez por isso mesmo capaz de surpreender as todos com os gestos mais singelos.

No quinto dia de sua internação, como ninguém quisesse entrar na UTI, por desejo do meu próprio avô, pediram que eu fosse porque ainda não tinha o visto em tal situação. Talvez ele estivesse fadigado por ver as mesmas expressões nas mesmas caras, pensavam. Ninguém aceitava que ele estava morrendo.

O mito do último contato, da última palavra, quando o sujeito se encontra desvelado de suas máscaras sempre percorreu o imaginário coletivo. Dizem que Goethe clamava por “mais luz!”; Tomas Hobbes dizia-se “diante de um terrível salto nas trevas”; até Nietzche temia publicamente: “Se realmente existe um Deus vivo, sou o mais miserável dos homens”.

Eu me sentia culpado por estar violando o desejo daquele homem de não ser importunado com a piedade alheia. Entrei a contragosto. Tentei não notar a infinidade de tubos que lhe desfiguravam o rosto; cumprimentei-o de maneira ridícula; segurei-lhe a mão e, covardemente, esperei pela iniciativa de um resquício de ser vivo que agonizava na cama.

Os poucos segundos que passaram foram os mais mórbidos que já presenciei. Quando então percebi que a boca dele estava prestes a se mexer, curvei-me para ouvi-lo. “A correia do carro precisa ser trocada”, ele me disse baixinho.

Foram as suas únicas palavras, as últimas dele para mim. Um dia depois ligaram do hospital de manhã cedo. Aposto que Goethe, Hobbes, Nietzche e a maioria dos grandes homens invejariam a incorruptibilidade daquela frase: “a correia do carro precisa ser trocada”.

Prometi a mim mesmo que passadas as resoluções funerárias eu iria a um mecânico.

*Fábio Liberal é jornalista e leitor do Perspectiva Política

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 4

25/03/2010

Deus e criações

Por Felipe Liberal*

Deus é o criador de todas as coisas, onipotente, onipresente e onisciente. Deus é tudo, definitivamente tudo.

Deus criou o diabo, o inferno e a matemática. Deus criou o universo, o mundo e os africanos Adão e Eva. Criou a África. Esqueceu a África e criou os outros continentes que foram povoados por imigrantes da África. Deus criou a cor branca, posteriormente à cor negra. Deus inventou o vinho e depois a cerveja, ou foi a cerveja e depois o vinho? Brancos e negros bebiam vinho, e brancos e negros bebiam cerveja.

Deus criou os outros deuses: Osíris, Ísis, os gregos, os romanos, Odin, os corvos da putrefação Huguin e Munin, as valquírias da morte entre os vikings, Javé, Alá, os deuses amarelos da Ásia, a indiana Mitra e etc. Deus criou todos eles e declarou guerra entre eles, várias vezes, infinitas vezes. Deus criou uma seleção natural entre os deuses, onde o mais forte vence e transforma o outro em pó, em páginas de livros de História.

Deus criou Johann Friedrich Blumenbach, zoólogo que reuniu 245 crânios humanos, comprovando que a raça branca provinha da região do Cáucaso e tinha o direito de se assumir superior à raça negra. Deus também criou o norte-americano James Watson, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, que afirmou em suas teses, em 2007, que os negros são menos inteligentes que os brancos. Mas nós todos fomos negros, temos os dois pés na África e somos fisiologicamente idênticos, mas é claro, Deus também inventou a ironia e o paradoxo.

Deus também criou um assistente, ou melhor, um grande assistente para auxiliar em suas invenções: a China. Os chineses, com o dom de Deus, inventaram praticamente tudo de que se tem notícia: chá; bússola; papel; seda; extração de sal, petróleo e gás; moinhos de água; imprimiram livros seis séculos antes que Gutenberg; pólvora; timão; roca; acupuntura; porcelana; futebol; baralho; lanterna mágica; pirotecnia; sismógrafo; pipa; papel-moeda; relógio mecânico; laca; pintura fosforescente; carrinho de mão; guarda-chuva; leque; estribo; ferradura; chave; escova de dentes e mais algumas coisinhas. Deus também inventou a mentira, que alguns países contaram sobre essas invenções.

Inventou, em 1492, um novo continente, que seria fruto de experimentos humanos por 500 anos. O continente da morte e das contradições.

Deus sozinho criou Kafka, Dostoiévski, Maiakovski, Tom Jobim, Chico Buarque, Villa-Lobos, Monet, Picasso, Gandhi, Nijinski, Jesse Owens, Juan Rulfo, Fidel Castro, Che Guevara, Mao, Stalin, Lênin, Roosevelt, Hitler, Napoleão e outras figuras também moldadas pelas mãos iluminadas.

Deus inventou a escravidão, os campos de concentração e as guerras. Deus criou o ódio e o amor. Criou também a pistola, a espingarda, as bombas, o fuzil e outros modos de mostrar quem manda e tem poder. Deus criou o conformismo, a alienação e tudo que faz o ser humano não ser humano. Deus criou Hiroshima, depois destruiu Hiroshima. Criou o Vietnã, depois destruiu o Vietnã. Criou o Iraque, depois destruiu o Iraque. Deus inventou Bush, e também o ataque terrorista de Nova York e Washington. Inventou Bin Laden e criou uma justificativa para tudo que somos hoje.

Deus criou tudo, absolutamente tudo.

Mas e se Deus não existir? Quem criou tudo isso? O que existe e o que não existe? O que nós somos? O que nós sentimos? Quem explicaria tudo?

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

Coluna do dia: De quem é realmente o Natal?

17/12/2009

Por Felipe Liberal*

Foi preciso criar centenas de duendes e um velho diabético e hipertenso para provar às criancinhas do planeta que o Natal não passa de uma fase de êxtase do consumo humano. É quase um orgasmo do capitalismo, onde quem não segue as regras e mandamentos do bom velhinho é no mínimo um problemático qualquer.

Reza a lenda que Nicolau era um velho que deixava moedas de ouro nas chaminés das casas de quem passava necessidade, até ser santificado pelo capitalismo. Vestia amarelo, até a Coca-cola o vestir com o seu uniforme e torná-lo o homem mais poderoso do mundo. Recentemente, Papai Noel foi excluído da lista na revista Forbes, que determinou os personagens fictícios mais ricos do planeta, onde ele era o primeiro. A causa da exclusão: protesto generalizado das crianças, pois elas não acreditam que ele é fictício, e sim, real. E é claro que elas estão certas, é óbvio que ele é real.

Shoppings lotados, cartões estourados, dívidas monstruosas, cotoveladas diante das vitrines e choro desesperados de crianças diante do que não podem ter, refletem o que significa o Natal contemporâneo, o Natal dele, do velho barrigudo, e não existe nada mais real que isso. “Natal das luzes” para quem não tem nem o que comer dentro de suas próprias casas e Natal das boas “ações”, que são aquelas que sobem (e muito) nas bolsas de valores.

O índice de “cordas no pescoço” na época natalina é altíssimo. Há pesquisas de institutos de psicologia mostrando o aumento do nível de depressão entre os adultos na época de Natal, causando o suicídio. O aumento do consumo descontrolado está atrelado à crise familiar e financeira de muitos.

Mais de 70% das crianças não sabem que o Natal representa a simbologia do nascimento de Jesus de Nazaré, comemorado pelas igrejas cristãs. E independentemente de sermos cristãos ou não, as práticas sociais ensinadas por Jesus, sem dúvida alguma, não podem ser descartadas, pois são ações positivas e solidárias, que vão contra qualquer formato do capitalismo, desde sua origem.

Pinheiros com neve, em pleno Recife, no calor de 35 graus? Um Papai Noel, com gorro e casacos de pele, caminhando pelo deserto do Saara? Duendes europeus pelas ruas de Caracas? Renas chifrudas e voadoras nas ladeiras de Olinda?

É tudo muito bizarro. O Natal nos traz uma crise de identidade, onde almoçamos na nossa terra e dormimos no Pólo Norte, apesar do calor.

O Natal do capitalismo não é o meu, mas quem sabe não é o seu?

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

2ª Coluna do dia: Crônica – A verdade sobre a verdade

29/11/2009

Deus, os homens e a honestidade intelectual

Por Tiago Franz*

- Ateu?

- Sim. Se considerado for que ateu é quem nega a existência de divindades tais quais os teísmos pregam. Por quê? O que é um ateu pra você?

- Se diz de quem não acredita em Deus. Mas significa ser contra Ele. Anti-Deus.

- Definitivamente não significa ser contra Deus. É possível ser contra algo que se nega? Já ouvi falar em antiteísmo, que dizem ser uma oposição direta a divindades. Mas pra ser anti-Deus é preciso acreditar que Ele existe, penso.

- Mas…

- Não podemos confundir! Acho que há um erro conceitual aí. Teísta é aquele que crê que Deus existe. Ateísta, ou seja, ‘a’ mais ‘teísta’, é quem não crê. É simples.

- Humm!

O ‘a’ indica a negação. Mas essa negação não significa necessariamente ser contrário, como um antagonista ou adversário. Assexuado, por exemplo, não é ser contra o sexo. E analfabeto não é quem faz oposição à alfabetização.

- Tá certo.

- Uma vez assisti a uma palestra de um filósofo, que definiu e diferenciou ateus, céticos, fideístas, gnósticos…

- Hum!? Fideístas!? Gnósticos!?

- Calma! Vamos por partes. Ele disse que a palavra ‘ateu’, do grego ‘a’ mais ‘théos’, significa a negação do conceito de Deus. É contra a mentalidade de que há um ou mais deuses que nos avaliam pelos ditames do “certo e errado”, como muitas religiões teístas doutrinam. É contra a imposição da “verdade divina”.

- Então pro ateu não existe uma só verdade?

- Não existe a afirmação de uma só verdade. Mas acho melhor não ampliarmos e complicarmos muito a definição de ateísmo. Vamos limitá-la à negação do conceito de Deus e ver as outras definições. O ceticismo, por exemplo, é ligado à noção de “septo”, de olhar à distância, examinar, observar, desconfiar até mesmo da capacidade que a razão tem de conhecer alguma coisa, disse o filósofo. Já o fideísmo busca ignorar ou minimizar o papel da razão para se chegar à verdade suprema. E o gnosticismo, ao contrário do fideísmo, busca alcançar a plena realização humana a partir do desenvolvimento pleno do conhecimento, a razão…

- Nossa! Vá devagar aí senão eu não acompanho. Isso tudo tem a ver com acreditar ou não em Deus?

- São algumas das formas de pensar que orientam as pessoas a crer ou não na existência de Deus ou de qualquer outra entidade divina. Mas eu ainda não falei da definição que eu acho mais interessante: o agnosticismo.

- Olha o ‘a’ aí de novo! Gnosticismo e agnosticismo!?

- Sim. O agnóstico é aquele que professa a ignorância sobre a existência de Deus. E esta é uma das definições em que eu me encaixo. Sou o que chamam de ateu agnóstico. Nego a existência de Deus por achar que nunca saberemos se Deus existe ou não.

- Mas como assim? Se o agnosticismo considera a existência de Deus improvável e o ateísmo simplesmente a nega, não se pode ser agnóstico e ateu ao mesmo tempo.

- Mas posso estar próximo de ambos e sentir-me um pouco em cada lado. Afinal, essa coisa do improvável tem a ver com movimento, reflexão e mudança de pensamento. Não nego de todo a possibilidade de existir uma força relacionada ao equilíbrio universal. O que eu nego é a existência de um Deus à imagem de um cabeludo e barbudo grisalho, sentado num trono nas nuvens e rodeado de querubins e serafins e tudo mais. Isso, a meu ver, é mitologia. Invenção humana.

- Mas você não era assim. Você já foi um cristão como eu. O que te fez mudar?

- É aquilo que eu disse sobre estar em movimento. Eu não nasci cristão. Nasci numa família e numa comunidade cristã. Minha cultura é cristã. Porém, há uma questão de honestidade intelectual nisso. Você acredita que Deus existe e que Jesus Cristo é seu filho, certo?

- Certo. Mas estou meio abalado com toda essa conversa. E como é isso de honestidade intelectual? Por acaso você acha que eu sou desonesto?

- Não é isso, não! Se você confessa que está com suas convicções um tanto abaladas, é sinal de honestidade intelectual. Mas acho melhor falar por mim. Ser honesto intelectualmente é aceitar a dúvida e conviver com ela. É assumir que somos incapazes de solucionar tais questões. É dessa forma que eu me oriento.

- Me parece que a solução que você encontrou é negar tudo e pronto. Você é ateu e agnóstico, isto é, um “não teísta” e “não gnóstico”. E outra coisa que não entendo: essa tendência de negação não tem uma pitada de ceticismo? E se você chegou a esse ponto através da reflexão e da tal honestidade intelectual, não tem muito de gnosticismo no teu pensamento?

- Tem sim. Como eu já disse, o ‘a’ não significa ser contrário. Os agnósticos não são necessariamente contra os gnósticos, ou seja, não são contra a razão e o conhecimento. O que sei é que os agnósticos acham que o conhecimento e a razão são incapazes de responder à questão da existência de Deus. Até pode ser que haja um pouco de ceticismo aí também. Enfim, as formas de pensamento se aproximam e se afastam em diferentes pontos. E para ser bem honesto, comigo, com você e com todo mundo, repito o que disse Sócrates antes ainda de Jesus ter nascido, se é que eles existiram mesmo:

“Só sei que nada sei.”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e escreve no Twitter em @tiagofranz

Coluna do dia: As Tumbas da Contemporaneidade – Capítulo 3

26/11/2009

A minha parede

Por Felipe Liberal*

Olhava pra parede da minha frente, em frente à minha casa. Vidas estão nela. Amores, esperanças e desgraças estão ocorrendo, na minha frente, em frente à minha casa. A parede fala.

Proletários de todo o mundo, uni-vos. (último aviso)

Estava escrito no meu 2º passo, por algum socialista louco, pirado e precavido. As pessoas passam e não percebem a urgência do recado, que ultimamente estava avisado. Avisam-nos desde 1848, não acredito que agora vá adiantar.

Por que o Natal é na neve, se Jesus nasceu num deserto? E Papai Noel é pai de quem?

No meu 5º passo me deparei com as maiores das perguntas, que são aquelas que não sei responder, aquelas perguntas que dão vontade de fazer pra todo mundo que passa, mas as pessoas não dão atenção à parede falante.

Napoleão não era francês, Che Guevara não era cubano, Stalin não era russo e Jesus não era cristão.

Oito passos depois do início da minha caminhada pude ver que minha professora era mentirosa.

Por que os EUA podem produzir bombas atômicas, e o Irã não pode? O que os japoneses têm a dizer?

Quais? Os que morreram? Ou os cancerígenos?

O que é pior: mudar de nome ou mudar de alma?

No meu 11º passo lembrei-me de Hokusai, que mudou de nome sessenta vezes, e morreu depois de ter dado vida ao inanimado, com uma das melhores almas que o Japão já sentiu.

Bem-aventurados os bêbados, porque verão Deus duas vezes.

No meu 15º passo, perguntei-me: e os bêbados ateus?

Depois de tanto caminhar por paredes vivas e pessoas mortas, entrei num táxi, amarelo, como todos aqui de Nova York. O taxista chorava e lamentava em um leve sotaque caribenho, que sua mulher havia o abandonado.

- Não é culpa dela. Ela nunca gozou – Disse-me.

Fiquei sem palavras, a única mulher com quem conversei sobre sexo foi minha mãe, quando me deu de presente uma caixa de preservativos.

- Vai pra onde, caro amigo? – Perguntou-me soluçando.

- Pra casa. Ali, depois dessa grande parede.

Não conseguia voltar andando, eram muitas dúvidas e verdades que preferia evitar naquela parede. Porém, mais tristeza tinha encontrado dentro do táxi, dentro daquele homem berrante. Tristeza tinha encontrado naquelas pessoas andantes, mortas-vivas ao lado da grande parede.

Uma namorada sem tetas é, mais que namorada, um amigo.

Foi a última frase que li na parede ainda dentro do táxi, valeu a pena, arrancou um leve sorriso no rosto do taxista, que não parava de berrar.

*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política às quintas e escreve no Twitter em @felipe_liberal

3ª Coluna do dia: “Proclamarim” a República!

15/11/2009

Por Tiago Franz*

Ainda acho que não sei escrever. Quando me meti a tentar os primeiros “textinhos”, há pouco mais de dois anos, eu definitivamente não sabia. Revirando escritos – ou melhor, tentativas de escritos – desse meu anteontem, encontrei algo que me fez parar e pensar profundamente. O quanto caminhamos quando praticamos!

O texto que encontrei foi escrito há dois anos – para ser mais exato, no dia 17 de novembro de 2007 – e aborda o mesmo assunto da minha coluna do último domingo, que tratou dos 120 anos da Proclamação da República no Brasil, completos no dia de hoje, 15 de novembro.

O enfoque da coluna passada foi a ausência de participação popular que marcou o fato histórico e o atual desinteresse das pessoas para com a data comemorativa: praticamente o mesmo enfoque do texto que escrevi na ocasião do 118º aniversário da República. Notei também que alguns elementos permaneceram. O estilo, por outro lado, está bem diferente. O novo está bem menos “solto” e muito mais ponderado ideologicamente que o velho.

Pode-se dizer que, conforme os gêneros de jornalismo opinativo, o velho está mais para crônica e o novo mais para ensaio ou artigo. Nada disso quer dizer que eu ache um estilo melhor que o outro. Adoro crônicas. A diferença é mesmo a experiência de quem, tentando, aprende um pouco mais a cada dia.

Pois bem. Já que a data tem tudo a ver e já que estamos na 30ª edição da minha coluna aqui no Perspectiva, resolvi resgatar esse passado não tão distante da minha curta vida de “escrevedor”. A vontade de alterar todo o texto é grande, mas me contive. Segue o original. A personagem é criação minha, porém os fatos comentados por ela são reais. Quanto às passagens polêmicas ou confusas, creio que estou preparado para explicá-las. Fiquem à vontade para me questionar.

Enfim, essa iniciativa de expor meu aprendizado e amadurecimento é para mim um exercício e tanto.

“Proclamarim” a República!

Tiago Franz

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia se lamenta por não ter lido nada durante a folga. O desânimo aumenta quando pensa no tempo que passou assistindo TV. Que tarde de sábado! Depois do Caldeirão do Huck – mais um carro velho que fica novinho em folha emociona o Brasil -, um filminho pra relaxar – pra variar, uma “nobre” missão norte-americana no Vietnã.

Nada disso a agrada, mas a garota é positiva. Sua consciência melhora quando percebe que está sempre a refletir sobre o que vê. Orgulha-se disso. Ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. E volta a pensar no que o Prates disse, sexta, no jornal da RBS. Até que ele tinha razão… As pessoas ficam em casa e não sabem nem ao menos o porquê! Sabem que não precisam trabalhar, e mais nada! Dessa vez Sophia teve que concordar com o comentarista – aquele arrogante “moralistazinho” com postura de “sou Deus e estou aqui para julgar os homens”. Pelo menos ele a fez pensar se as pessoas realmente conhecem o significado do feriado que acabaram de passar. Será que as pessoas sabem conjugar o verbo proclamar? Parece ser um verbo regular.

República… Nacionalismo… Patriotismo… Soberania nacional… Todos esses “velhos conceitos modernos” voltam a atormentar a cabeça da jovem universitária, que já leu e releu mil coisas a respeito.

Esparramada no sofá, com o corpo inerte, na sensação de anestesia geral, Sophia continua seu exercício mental de encontrar algum proveito em tudo que acompanhou pela TV durante seu feriado de ressaca das madrugadas boêmias. Devia ter lido alguma coisa. Que merda! Pelo menos eu pude sair pra beber com o pessoal. Amanhã vou recuperar uma parte do tempo…

Agora seus pensamentos são “invadidos” pelo rosto que mais a perseguiu, da tela da televisão, nas últimas horas: Roberto Jefferson. Hummm… Propaganda política partidária em horário nobre… Já perdi a conta de quantas vezes repetiu… Coitado do povo… Para todas as noites para se deleitar com a novela das oito e ainda é tentado pelo “belo” palavreado do “senhor presidente” do PTB. Ta aí! Outra coisa que talvez noventa por cento desse povo não saiba é que o “T” da sigla do partido não faz mais sentido, e o “B” então… Deixa pra lá. O Getúlio e o Brizola já foram enterrados mais de uma vez! Não se faz mais políticos como antigamente… Pelo menos não no Brasil.

Olha só! Não acredito que ele disse aquilo do Evo Morales… Esse índio é um herói!!! Quando foi que ele expulsou os brasileiros da Bolívia? Que calúnia! Só porque alguém finalmente conseguiu enfrentar a exploração abusiva, esse Jefferson vem dizer aí que o Brasil precisa recuperar a “soberania nacional”… Que náusea!!!! E ainda usa Bush e Blair como exemplos… “Eles invadiram o Iraque para conseguir petróleo”. Ou seja, o Brasil precisa invadir a Bolívia e recuperar o Gás, pois o atual governo não está dando a mínima para a “perda” que sofreu.

Palhaço! Invadiu minha casa pela TV falando esse monte de bosta. Mas ainda bem que eu não engulo qualquer coisa. Sophia pausa, suspira e cai na gargalhada. Ahahahahahah! Mas o Jornal Nacional deu na cara do Jefferson… Ou será que foi o jornal da Record? Não lembro agora, é tudo parecido… Adorei a matéria… “Milhares de brasileiros atravessam a fronteira com a Bolívia em busca de atendimento de saúde gratuito”. Ahahahahahah! Essa é boa. Não foi esse “miserável país” aí que expulsou o Brasil de suas terras? Que coincidência! Não temos nem o gás, e nem um serviço público de saúde melhor que o dos “vizinhos pobres”. Mas que nada… A copa do mundo é nossa. O circo está garantido para 2014. Viva Morales! Viva viva viva! Ahahahahahah!

Dezessete de novembro. O feriadão vai acabar. É quase domingo e Sophia lembra que na segunda, apesar de não ser feriado, comemora-se mais uma data importante para o Brasil: o Dia da Bandeira. Novamente aqueles “velhos conceitos modernos” atormentam sua cabeça, que dói por causa da ressaca e das gargalhadas incontroláveis. Preciso ler alguma coisa. O Hino da Bandeira sempre foi seu favorito. Que melodia! Que glória! Que tudo! “Salve lindo pendão da esperança / Salve símbolo augusto da paz……”

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

Amizade, por Bruno Kazuhiro

08/11/2009

Recentemente, o colunista Felipe Liberal iniciou a série de colunas “Tumbas da Contemporaneidade”. O sucesso dos textos entre os outros colunistas e entre os leitores provou que, no Perspectiva, também há espaço para o que é, praticamente, mais verso do que prosa. Resumindo, ficou comprovado que podemos, neste blog, também, arriscar escritos mais poéticos e subjetivos.

Nessa linha, resolvi me aventurar também. Observando que há demanda para tal tipo de texto decidi, assim como Liberal, exercitar outro lado da minha escrita. Como editor e autor do blog vou me permitir este arroubo.

Espero não ser enfadonho. Vejamos no que dá. Vou falar sobre amizade em uma espécie de crônica. Dependendo da recepção, ou seja, caso eu não afugente os inúmeros leitores do Perspectiva com minhas palavras vãs, repetirei a dose em futuro breve.

Amizade

Por Bruno Kazuhiro*

O que é amizade senão aquela essência que sabemos que, quando verdadeira, permanecerá.

O que é amigo senão aquele homem que sabemos que, quando verdadeiro, perdurará.

Ora, meus caros, amizade e amigo são palavras que remetem ao companheirismo, à união, enfim, ao apoio mútuo.

Acontece que, em alguns casos, essas palavras remetem a mais do que isso, se conectam com uma eternalidade que não é efêmera.

O que quero dizer?

Quero dizer que é companheirismo firme, união forte, apoio mútuo de verdade.

Quero dizer que não é amizade fugaz, amigo passageiro, eternidade de conveniência.

Quero dizer que participa-se de um grupo sabidamente unido até o fim, e não finito em sua união fútil.

No amor e na família escutamos muito o “para sempre”.

Pois no amor o “para sempre”é o infinito enquanto dure.

E na família o “para sempre” é compulsório.

Na amizade, o “para sempre” é voluntário, a família é escolhida e o amor é fraternal.

Diz-se que na vida tudo passa. Uma efemeridade sem fim. Uma fugacidade que assusta.

É nesse momento que o homem se acalma ao lado dos amigos, se renova com as ideias dos amigos, se diverte com o riso dos amigos e se apóia, quando ele mesmo já se via sem chão, no ombro dos amigos.

Divide-se a amargura e a alegria, a vitória e a derrota.

Porque amargura do lado deles, dura pouco, e alegria com eles a tiracolo se multiplica.

Porque derrota com esse apoio é apenas tropeço, e vitória representa muito mais.

Resumo dizendo que qualquer coletivo de amigos sinceros é um grupo normal, um grupo de gente simples, um grupo humano.

Normalidade extraordinária, daquelas invejadas pelos que não a tem.

Simplicidade singela, daquelas necessárias para a vida tranquila.

Humanidade verdadeira, daquelas que só aparecem no apoio incondicional.

É melhor viver a vida com os amigos e a força deles ao seu redor, do que não tê-los para subtrair problemas e adicionar soluções, para dividir agruras e multiplicar gargalhadas.

Simples assim.

*Bruno Kazuhiro é autor, editor e administrador do Perspectiva Política