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Coluna do dia: Vuvuzela, o triste símbolo da primeira Copa em solo africano

18/06/2010

Por Yashá Gallazzi*

“Se Deus inventou o futebol, o capeta teria inventado a vuvuzela.” A frase em questão foi cunhada pelo blogueiro Reinaldo Azevedo, que, digam o que quiserem, é um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.

Azevedo resumiu numa frase tudo aquilo que eu penso sobre a vuvuzela, um trambolho cuja única utilidade é azucrinar aqueles que não o usam nem gostam dele. Defender aquele instrumento de tortura com o argumento de que seria um “aspecto cultural” da África é, no mínimo, diminuir demais a cultura deles.

Aliás, quem decidiu que a África deve ser tida como algo unitário? Já repararam isso? É “cultura africana” pra cá, “costume do povo africano” pra lá. Como se aquele continente não fosse apenas um amontoado de etnias as mais diversas e, na maior parte dos casos, discrepantes entre si. Essa ideia de unidade não passa de uma construção sociológica tão recente quanto infundada, afinal, o que existe, para desespero dos coletivistas de plantão, é o ser humano. Há, pois, o sul-africano, não os sul-africanos. Coletivizar as sociedades, sabemos, nunca deu muito certo…

Eu poderia argumentar que na própria África do Sul, durante os torneios de rugby – que atraem muito mais o interesse do povo local -, não há vuvuzelas atormentando o público e os jogadores. Mas aí teríamos que nos debruçar sobre as origens de cada esporte, o que nos levaria invariavelmente a concluir que as origens culturais que serviram de berço para o rugby foram de grande influência para o – como direi? – “bom gosto” dos torcedores deste esporte. Mas isso seria temerário, pois rapidamente apareceria alguém pronto para me acusar de estar sendo racista…

Que coisa mais curiosa… Vivemos tempos tão policialescos, que a patrulha arregimentada pelo politicamente correto não hesita em transformar vuvuzela em raça. Basta que alguém se arvore a criticar as trombetas do apocalipse inventadas pelos sul-africanos e pronto: logo aparece um “bom moço” apontando o dedo progressista: “racista!”. Ué, mas desde quando vuvuzela é raça?! Eu não reclamo da vuvuzela porque é uma ideia dos negros. Eu reclamo porque ela simplesmente existe!

“Ah, mas é costume dos africanos, durante os jogos de futebol, tocar a vuvuzela. Os outros países estão lá como visitantes, precisam respeitar.” É? Bem, é um costume dos torcedores espanhóis e italianos ficar vaiando os jogadores negros dos times adversários durante toda a partida. Quando houver uma Copa na Espanha, os países africanos, porque apenas visitantes, deveriam aceitar isso, né? Ora, claro que não! Ninguém é obrigado a aceitar o que incomoda e é irracional, seja um barulho ensurdecedor, seja um ato estúpido de racismo. E é óbvio que não pretendo igualar um coro racista ao som das vuvuzelas. Quero apenas mostrar que essa história de “respeitar o costume” é patética. Se o costume é uma porcaria, deve ser criticado mesmo!

O mais divertido, porém, é ver a tentativa deprimente de politizar as vuvuzelas, exercida, preferencialmente, pelos jornalistas da ESPN – sempre mais engajados na luta contra os “pobrema çoçial”. Outra noite vi uma mesa redonda onde um dizia que “o som da vuvuzela é o grito de um continente esquecido.” Quase chorei… de pena do sujeito. Que continente esquecido uma pinóia! É, isso sim, um recurso que eles encontraram pra atormentar os times grandes, na esperança de conseguirem chegar mais longe na Copa. Graças a Deus não está dando certo… Melhor que essa seja a Copa dos jogos medíocres, do que a Copa das vuvuzelas… Já imaginaram se uma seleção africana ganha este ano? A vuvuzela vira símbolo da conquista! Um desastre!

Por sorte do mundo civilizado, a Inglaterra já anunciou que em Londres, nos eventos de 2012 e 2018, as vuvuzelas estão proibidas. É isso aí! Um brinde à democracia, afinal, ser livre e democrático não quer dizer condescender com aquilo que atenta contra a nossa liberdade. Querem ouvir as vuvuzelas? Pois façam um concerto musical com elas no “Soccer city”, quando a Copa acabar. Em Londres, caminhando pela Tower Bridge, o som de uma vuvuzela não seria apenas incômodo. Seria também muito mais cafona do que já o é em Soweto.

*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi

Coluna do dia: O Taliban

10/07/2009

Por Yashá Gallazzi*

taliban

Em mais de uma ocasião acabei provocando alguma polêmica ao defender de forma veemente a civilização ocidental e seus valores, notadamente a democracia e o sistema de liberdades individuais. No mais das vezes, as discordâncias giram em torno da suposta intolerância que me caracterizaria ao falar dos que considero inimigos da nossa civilização e, se querem saber, acho que meus críticos estão mesmo cobertos de razão. Eu realmente não tolero os valores que se mostram antagônicos aos nossos, porque – e aqui levanto mais uma polêmica – o Ocidente é moralmente superior aos seus algozes. Simplificando, posso dizer sem medo de errar: ou lutamos pela hegemonia dos nossos valores, ou teremos a barbárie. E ao longo deste texto explicarei o porquê disso.

Li na Folha de São Paulo que o grupo terrorista Taliban, não satisfeito em promover aquilo que – se me permitem – passo a chamar de “terrorismo convencional”, explodindo inocentes em nome do propósito supostamente divino de destruir os infiéis ocidentais, decidiu descer ainda mais baixo, a ponto de chegar às portas do inferno, adentrar o reino de Lúcifer e, uma vez ali, assumir o lugar de Hasmodeu. O que houve, afinal? Segundo o que foi noticiado no jornal paulista, os fascinorosos terroristas estão comprando crianças – algumas de onze anos apenas! – para usá-las como instrumento de sua guerra teratológica. Explico melhor: pagando em média seis mil dólares por cada infante, a canalha adquire carne fresca para sacrificar em nome de sua “causa” sociopata. As crianças que, envoltas em bombas, explodem a fim de matar os cães do ocidente, não passam de mercadoria, pertences aos Taliban.

Eu, que sempre cultivei os mesmos valores éticos e morais aborrecidamente imutáveis, não preciso de mais argumentos para ter certeza do óbvio: somos moralmente superiores a essa gente torpe! E por uma razão bem simples: aqui, no ocidente, a regra geral é proteger e amar as crianças, garantindo-lhes a vida, o mais basilar de todos os direitos individuais. Por mais mazelas sociais que ainda enfrentemos, por mais injustiças que sejam cometidas diariamente contra nossas crianças, violadas e escravizadas, ninguém pode nos acusar de não alimentar os princípios e os valores certos e humanamente melhores. Pode parecer pouco, mas é o fundamental, afinal, os homens – que subvertem a ordem e a legalidade – passam, ao passo que os valores permanecem, simbolizando um inteiro povo.

Não há maneira de tergiversar. Aqui, o nosso norte moral nos impõe o dever de proteger nosso futuro, representado por aqueles que darão sequência à obra por nós iniciada. Não há nenhuma causa ou objetivo capaz de nos levar a sacrificar nossas próprias crianças. Já no Oriente, refém do fascismo islâmico, a causa principal que os move é a destruição da besta ocidental e, para tanto, se pode lançar mão de qualquer recurso, por mais espúrio que seja. Já não era segredo que o terrorismo encontra muita desenvoltura para assassinar inocentes – inclusive crianças – do “lado de cá”, afinal, eles não fazem distinção: somos todos infiéis. A novidade agora é perceber que eles também não hesitam em sacrificar seus próprios inocentes. Suas crianças. Seus filhos. Essa gente representa o mal absoluto e precisa, sim, ser detida. É imperativo que o Ocidente imponha, de fato, a supremacia dos seus valores, para escorraçar os bárbaros que tentam buscar a hegemonia no mundo.

Está evidente que me refiro à necessidade de se combater e vencer a chamada guerra contra o terror. Impedir que a escória do mundo continue sacrificando crianças inocentes em nome de uma “guerra santa” é um verdadeiro imperativo moral para nossa civilização. E para quem ainda não acredita em superioridade de uma cultura sobre outra, proponho um exercício revelador: Lembram de George Bush, o ex-Satã de todo o mundo progressista, humanista e pacifista? Pois bem, o Republicano, tão reacionário, tão conservador e tão belicista, não arregimentou uma única criança para mandar ao Afeganistão e ao Iraque, lutar pelos Estados Unidos e pelo Ocidente. Isso porque aqui nós escolhemos proteger nossas crianças, não assassiná-las. Se algo assim não for suficiente para demonstrar o quanto a nossa escala de valores é superior às demais, espero que alguém me diga o que seria.

Custa-me, por exemplo, entender a abjeta condescendência que alguns ocidentais insistem em nutrir para com os seus algozes, os islamofascistas. Basta lembrar que, quando da ação americana no Afeganistão, os pacifistas de um lado só se apressaram em condenar Bush, denunciando sua – como era mesmo? – “política imperialista” e advogando em favor da tal “autodeterminação” dos povos, que garantiria a qualquer grupo o direito de ter seus próprios imperativos éticos e morais. O ponto é que, nestes tempos sombrios de inversão dos valores mais basilares da civilização, essa tal “autodeterminação” deve ser entendida como o direito que cada povo tem de amarrar bombas às suas crianças, usando-as como armas de guerra. Isso, caros, não pode – e não deve – ser aceito por nós, ocidentais.

Cruzar os braços diante de horrores como os perpetrados pelos Taliban é permitir que os portais do inferno sejam escancarados e que os demônios ditem as regras destinadas a reger nossas vidas. Assistir de forma passiva às atrocidades que o fascismo islâmico pratica, em nome de sua cultura e de sua moral, é concordar com o fato de que a nossa moral já capitulou e nada mais pode. Isso é falso! Urge resistir e prosseguir no único caminho possível quando o assunto é o combate ao terrorismo: caçar o inimigo, encontrar o inimigo e matar o inimigo. Devemos destruí-los não apenas para garantir o futuro de nossas crianças, mas para permitir que as deles também possam viver para, ao menos, sonhar com um. Hoje, sabemos, elas têm a vida ceifada pelos fascínoras que lhes impõem a obrigação de carregar bombas presas ao corpo.

Lembro-me de Sir Winston Churchill, um dos grandes baluartes da defesa do mundo ocidental. Criticado pelo imperialismo das potências europeias, o britânico dizia: “não há mal que o Império Britânico supostamente tenha feito aos colonos, que não possa ser, em muito, superado pelo mal que os próprios colonos praticam uns contra os outros.” E isso vem resumir com especial grandiloquência o argumento central articulado ao longo deste texto. Ou temos a hegemonia dos nossos valores éticos e morais, ou só restará a barbárie.

* Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas e editor do blog Construindo o Pensamento

Coluna do dia: O “jeitinho” na política

20/06/2009

Por Matheus Passos*

Sérgio Buarque de Hollanda foi um dos maiores historiadores brasileiros. É conhecido pelos estudantes dos cursos da área de Ciências Sociais principalmente devido ao seu livro “Raízes do Brasil”, de 1936. Nesta obra, Sérgio Buarque aborda aqueles que seriam, em sua ótica, os principais aspectos da história da cultura brasileira, trazendo o legado cultural da colonização portuguesa no Brasil e mostrando de que forma certos aspectos da cultura portuguesa foram absorvidos, adaptados ou ignorados pelos formadores da nova nação sul-americana.

Um dos aspectos presentes na obra é o conceito desenvolvido pelo autor e chamado de “homem cordial”, característica típica do brasileiro. Contudo, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, a palavra “cordial” não tem o sentido de cordialidade, de gentileza, de auxílio ao próximo: a palavra está diretamente relacionada à sua raiz latina, “cor”, que significa “coração”. Assim, o “homem cordial” não é o homem gentil, mas sim, o homem que se deixa levar pela sua emoção em detrimento de sua razão: o “homem cordial” é aquele que se utiliza de apelos ou chantagens emocionais para conseguir o que quer.

A caracterização do “homem cordial” está relacionada diretamente com outra característica cultural do Brasil: o “jeitinho brasileiro”. Todo brasileiro, em algum momento ou outro, se orgulha de ter “dado um jeitinho” para solucionar algum problema, se orgulha de ter passado por cima das regras em alguma situação que poderia prejudicá-lo e, ao final,  ter “se dado bem”, burlando normas e/ou convenções sociais para atingir seu objetivo. Daí vem também outro elemento da cultura brasileira, o “malandro”, que é o indivíduo que sabe que está fazendo algo não necessariamente correto mas, como “se dá bem”, é inclusive bem visto pela sociedade. Como exemplo concreto temos o político que rouba e sempre escapa da Justiça: este é o “esperto”, aquele “que se deu bem”, e que se torna – infelizmente – até mesmo um modelo para a sociedade.

Claro está que estamos no auge do “jeitinho brasileiro” em nossa política nacional. A partir do momento em que o Senador José Sarney se dirige à tribuna do Senado e afirma: “a crise é do Senado, não minha”, está ele tentando dar um “jeitinho” para se eximir de suas responsabilidades. A partir do momento em que afirma que “qualquer um teria feito o mesmo em meu lugar”, está sendo um “homem cordial”, apelando para o lado emocional do cidadão brasileiro. Quando o Senador Delcídio Amaral afirma que contratou a sobrinha de Sarney em retribuição a um “favor pessoal”, está sendo um “homem cordial” – deixando de lado a formalidade e fundamentando suas ações em sua amizade com o Senador José Sarney.

Quando o presidente Lula afirma que “não se pode julgar o Senador José Sarney”, ou quando afirma que “Sarney merece um tratamento especial devido à sua história”, está sendo um “homem cordial” no pior sentido da expressão – aquele que leva à informalidade, que leva a acreditar que é “melhor” ou “superior” a palavra do “amigo” do que o que a lei diz, o que leva a ignorar-se a lei em benefício das amizades ou dos laços pessoais. Tais situações, infelizmente, concretizam a máxima atribuída ao presidente Arthur Bernardes (1922-26): “aos amigos, tudo; aos inimigos, tanto quanto possível, o rigor implacável da lei”.

Enquanto o “jeitinho brasileiro” for um elemento fundamental – talvez até mesmo preponderante – da cultura brasileira, não há como o País alterar seu cenário político.

Enquanto o cidadão “comum” continuar achando que “para tudo se dá um jeitinho”, passando por cima da lei – seja fazendo um “agrado” ao policial que o para na rua, seja tentando passar por cima de prazos (já que o brasileiro deixa tudo para última hora), ou seja considerando que o Honesto é trouxa e o Malandro é o modelo a ser seguido – seus representantes serão um reflexo de sua própria atuação: se o cidadão “dá um jeitinho”, por que o político também não daria?

Se o cidadão não se interessa por política e não participa – cobrando constantemente de seus representantes –, por que o representante irá se preocupar com a vontade popular? Apenas com uma profunda mudança cultural será efetivamente possível mudar a cultura política brasileira.

*Matheus Passos é colunista do Perspectiva Política aos sábados, é cientista político e editor do Blog do Prof. Matheus