Por Yashá Gallazzi*
“Se Deus inventou o futebol, o capeta teria inventado a vuvuzela.” A frase em questão foi cunhada pelo blogueiro Reinaldo Azevedo, que, digam o que quiserem, é um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.
Azevedo resumiu numa frase tudo aquilo que eu penso sobre a vuvuzela, um trambolho cuja única utilidade é azucrinar aqueles que não o usam nem gostam dele. Defender aquele instrumento de tortura com o argumento de que seria um “aspecto cultural” da África é, no mínimo, diminuir demais a cultura deles.
Aliás, quem decidiu que a África deve ser tida como algo unitário? Já repararam isso? É “cultura africana” pra cá, “costume do povo africano” pra lá. Como se aquele continente não fosse apenas um amontoado de etnias as mais diversas e, na maior parte dos casos, discrepantes entre si. Essa ideia de unidade não passa de uma construção sociológica tão recente quanto infundada, afinal, o que existe, para desespero dos coletivistas de plantão, é o ser humano. Há, pois, o sul-africano, não os sul-africanos. Coletivizar as sociedades, sabemos, nunca deu muito certo…
Eu poderia argumentar que na própria África do Sul, durante os torneios de rugby – que atraem muito mais o interesse do povo local -, não há vuvuzelas atormentando o público e os jogadores. Mas aí teríamos que nos debruçar sobre as origens de cada esporte, o que nos levaria invariavelmente a concluir que as origens culturais que serviram de berço para o rugby foram de grande influência para o – como direi? – “bom gosto” dos torcedores deste esporte. Mas isso seria temerário, pois rapidamente apareceria alguém pronto para me acusar de estar sendo racista…
Que coisa mais curiosa… Vivemos tempos tão policialescos, que a patrulha arregimentada pelo politicamente correto não hesita em transformar vuvuzela em raça. Basta que alguém se arvore a criticar as trombetas do apocalipse inventadas pelos sul-africanos e pronto: logo aparece um “bom moço” apontando o dedo progressista: “racista!”. Ué, mas desde quando vuvuzela é raça?! Eu não reclamo da vuvuzela porque é uma ideia dos negros. Eu reclamo porque ela simplesmente existe!
“Ah, mas é costume dos africanos, durante os jogos de futebol, tocar a vuvuzela. Os outros países estão lá como visitantes, precisam respeitar.” É? Bem, é um costume dos torcedores espanhóis e italianos ficar vaiando os jogadores negros dos times adversários durante toda a partida. Quando houver uma Copa na Espanha, os países africanos, porque apenas visitantes, deveriam aceitar isso, né? Ora, claro que não! Ninguém é obrigado a aceitar o que incomoda e é irracional, seja um barulho ensurdecedor, seja um ato estúpido de racismo. E é óbvio que não pretendo igualar um coro racista ao som das vuvuzelas. Quero apenas mostrar que essa história de “respeitar o costume” é patética. Se o costume é uma porcaria, deve ser criticado mesmo!
O mais divertido, porém, é ver a tentativa deprimente de politizar as vuvuzelas, exercida, preferencialmente, pelos jornalistas da ESPN – sempre mais engajados na luta contra os “pobrema çoçial”. Outra noite vi uma mesa redonda onde um dizia que “o som da vuvuzela é o grito de um continente esquecido.” Quase chorei… de pena do sujeito. Que continente esquecido uma pinóia! É, isso sim, um recurso que eles encontraram pra atormentar os times grandes, na esperança de conseguirem chegar mais longe na Copa. Graças a Deus não está dando certo… Melhor que essa seja a Copa dos jogos medíocres, do que a Copa das vuvuzelas… Já imaginaram se uma seleção africana ganha este ano? A vuvuzela vira símbolo da conquista! Um desastre!
Por sorte do mundo civilizado, a Inglaterra já anunciou que em Londres, nos eventos de 2012 e 2018, as vuvuzelas estão proibidas. É isso aí! Um brinde à democracia, afinal, ser livre e democrático não quer dizer condescender com aquilo que atenta contra a nossa liberdade. Querem ouvir as vuvuzelas? Pois façam um concerto musical com elas no “Soccer city”, quando a Copa acabar. Em Londres, caminhando pela Tower Bridge, o som de uma vuvuzela não seria apenas incômodo. Seria também muito mais cafona do que já o é em Soweto.
*Yashá Gallazzi é colunista do Perspectiva Política às sextas, editor do blog Construindo o Pensamento e escreve no Twitter em @yashagallazzi











