Postagens com a palavra-chave ‘Constituição Hondurenha’

Artigo do leitor: A realidade do governo Lula

06/12/2009

Continuando a abrir espaço para artigos escritos por leitores do Perspectiva, reforçando cada vez mais a interação entre estes e o blog, publico texto do leitor Paulo Palito:

A realidade do governo Lula

Paulo Palito*

Há uns meses atrás, li uma crônica de um famoso cientista político dizendo que o Brasil nunca teve uma Diplomacia tão exuberante: Asilo a um Presidente deposto em Honduras, asilo a um condenado na Itália, defesa de homens como os Presidentes da Venezuela, de Cuba, da Bolívia e do Irã. O Presidente dos EUA chamando Lula de “o cara”. E o Presidente Lula viajando pelo Mundo elevando o nome do Brasil, etc.

Sinceramente fiquei balançado. Será que Lula e os petistas é que estariam certos?

Esqueci do Presidente Kadafi e de Omar Hassan Ahmad al-Bashir, condenado pela ONU. E existem outros.

O Presidente Lula realmente nunca desceu do palanque. Discursa aqui no Brasil e no Mundo todo emocionando as pessoas. Seu Governo está com 80% de aprovação.

Mas vamos analisar as coisas.

Hitler também emocionava as pessoas e teve o seu Governo com 100% de aprovação do povo alemão.

A situação econômica do Brasil está boa hoje porque o Plano Real acabou com a inflação e as medidas econômicas do Governo anterior foram seguidas. É claro que a aprovação popular tem que estar elevada.

O Presidente de Honduras, que está asilado na Embaixada do Brasil, foi deposto pelo Congresso Hondurenho, por ele querer modificar a Constituição daquele país, visando perpetuar-se no poder. No seu lugar assume a autoridade indicada pela Constituição e garante a eleição de novembro que já estava marcada. Essa eleição transcorreu com uma participação popular recorde na história daquele país, apesar do boicote pregado pelo Presidente deposto. O povo hondurenho deu uma verdadeira demonstração de democracia ao verdadeiro golpista. Sobre o reconhecimento dessa eleição o Presidente Lula disse: “Não, não e não”.

Desafiando a justiça italiana, o governo brasileiro está asilando o assassino Battisti condenado na Itália por quatro assassinatos e militância política. Não duvido que vá lhe dar um emprego em uma empresa estatal.

Hugo Chávez, um idiota a quem o Rei da Espanha mandou calar a boca; A ditadura de Cuba que já mandou milhares para o “paredón”; A Bolívia de Evo, O Paraguai de um Presidente que tinha relacionamentos enquanto bispo. Lula Já ajudou todos estes com milhões de dólares, apesar de não ter dinheiro para pagar decentemente aos aposentados.

Ahmadinejad, Presidente reeleito do Irã, em uma eleição reconhecida mundialmente como fraudulenta. Esse merece um capítulo especial: Lula defendeu Ahmadinejad na sua coletiva com a primeira-ministra alemã Angela Merkel, no dia 4/12, na frente do mundo inteiro. É o apoio de Lula a um líder que está colocando a Humanidade em perigo, com os seus delírios messiânicos de construir a bomba atômica para destruir Israel e a civilização ocidental. Hoje, Lula é o grande avalista de Ahmadinejad diante do mundo no Ocidente.

Hoje tenho certeza: Na eleição de 2010, eu ainda não sei em quem votar, mas com certeza não será em ninguém do PT indicado por Lula. Acho que devemos escolher um governo sério, ético, que dê prioridade para a educação, a saúde, e que combata a corrupção.

Corrupção se combate é com Judiciário forte e independente, leis severas e julgamento rápido, removendo-se todos os entulhos jurídicos existentes na legislação. Enquanto tivermos um Judiciário frágil, ministros dos superiores tribunais nomeados pelo Executivo e o jogo de influência dos poderosos nos tribunais, vamos continuar com alto nível de corrupção na política brasileira, reinando a impunidade e a máxima de que o crime compensa.

A única coisa que um criminoso respeita é a condenação pela justiça com aplicação de penas severas, sem redutores. Sem um Judiciário forte e independente e justiça aplicada para todos, jamais veremos a redução da corrupção no País, que, ao contrário, tende a aumentar com a impunidade. O exemplo tem que partir de cima para baixo. Lotar as cadeias principalmente com gente graúda, independentemente de onde vierem.

Sobre as imagens do Governador Arruda e seu bando recebendo propina e pondo dinheiro nas meias e nas cuecas, que chocaram o Brasil inteiro, o nosso Presidente da República, Luiz Inácio da Silva, o Lula, disse: “As imagens não falam por si, o que fala por si é todo o processo de apuração, todo o processo de investigação”. Ou seja: Depois do processo de investigação eles serão inocentados e eleitos novamente, como em exemplos anteriores.

E as amizades internas dos governistas com quem, antes de chegar ao poder, eles chamavam de picaretas: Sarney, Renan Calheiros, Collor. Em nome da governabilidade Lula faz aliança com esta gente. É de enojar ver uma fotografia da líder petista no Senado Federal abraçando e beijando o Sarney. Se fosse um homem sério, o Presidente Lula jamais faria aliança com esta gente. Aliás, deveria procurar um meio de colocá-los na cadeia. Se não estiver com o “rabo preso”, jeito tem.

Sem partidarismo, espero que o povo brasileiro acorde e eleja um governo sério na próxima eleição.

*Paulo Palito é leitor do Perspectiva e submeteu artigo ao blog

Coluna do dia: Eleições em Honduras – O Brasil parece querer o juízo final

30/11/2009

Por Arthurius Maximus*

A política externa brasileira vem sendo criticada por mim, e por inúmeros outros articulistas, faz tempo. Subserviência a Chávez, apoio a toda sorte de ditadores e genocidas africanos, esmolas em profusão para nossos vizinhos que, ao invés de trabalharem pela melhora de seus países, ficam chafurdados no velho discurso de que a culpa de sua pobreza é do “Imperialismo Tupiniquim” e não de seus governos preguiçosos e de uma população acostumada ao populismo e ao assistencialismo.

A posição do Brasil frente às eleições hondurenhas deste domingo é mais um ponto de vergonha na política externa do governo Lula. A canhestra operação de acobertamento envolvendo a tomada da embaixada brasileira em Tegucigalpa pelas “legiões” de Zelaya e a sua transformação em palanque político (contra todas as leis internacionais) pelo velho caudilho hondurenho, não foram suficientemente capazes de fazer ver a Lula e ao Itamaraty a burrada em que o Brasil se meteu.

Além de abdicar do importante papel de mediador e de agente da normalidade política, aumentando o seu poder de influência na região e levando uma imagem de país preparado para lidar com crises além da sua própria fronteira, o Brasil, embalado pela subserviência a Chávez, tomou o pior partido possível e acabou se prestando ao papel de marionete de Zelaya e do venezuelano.

Honduras vivia a quase normalidade política e todas as partes compactuaram com um acordo firmado pelo Presidente da Costa Rica, que reconduziria o país para a normalidade democrática. Mas o retorno de Zelaya ao país e o seu abrigo em nossa embaixada serviram para lançar a nação hondurenha à beira de uma guerra civil e da instabilidade institucional. Tudo porque o Brasil deixou que Zelaya acessasse rádios, canais de televisão e a imprensa internacional através da nossa embaixada e conclamasse os seus seguidores a se revoltarem.

Como sempre vimos nas transmissões ao vivo, as passeatas sempre eram de poucas centenas de pessoas. Contudo, a balbúrdia e a insegurança criadas por elas levaram o país para a beira de um colapso social e de uma luta fratricida.

Como ficou claro depois, Zelaya nunca quis negociar. Seu intuito era mesmo criar confusão e ser reconduzido “nos braços do povo” para o palácio presidencial (do qual foi retirado legalmente ao violar a Constituição de Honduras). Ao perceber que isso não aconteceria, pelo simples fato de que a maioria da população de seu país estava contra ele, a única alternativa era impedir as eleições. Com a ajuda do Brasil, Zelaya e Chávez tentaram de tudo. Mas, com o apoio dos EUA e de quase toda a comunidade das Américas para a realização das eleições e o reconhecimento de que isso encerrava a crise de uma vez por todas, Zelaya viu a sua posição esvaziar-se e até os membros de seu próprio partido participaram das eleições.

O resultado não pode ser mais expressivo do pensamento do povo hondurenho: Tanto o partido de Zelaya quanto o de Micheletti foram derrotados nas eleições. Isso demonstra claramente que o povo hondurenho está farto do populista de chapéu de vaqueiro e do incompetente que não soube explicar à comunidade internacional o acontecido.

As eleições colocaram um fim nessa longa pantomima mal interpretada e cheia de atores de terceira categoria. Mas, insatisfeito com seu papel ridículo, o Brasil se uniu às “forças do avanço” (Venezuela e Equador) e se recusará a reconhecer o vencedor das eleições hondurenhas como Presidente eleito legítimo.

O que querem o Itamaraty e o governo Lula? Um banho de sangue? A convulsão social em Honduras? Uma guerra civil?

Tudo isso para satisfazer Hugo Chávez e um obscuro caudilho centro-americano que só nos deu dores de cabeça. Além disso, ao invés de reduzir os danos, ao ser derrotado miseravelmente em seu apoio a Zelaya, o Brasil assumirá a posição equivocada de esperar que Papai Noel restitua o poder a ele.

O mais estranho é que Zelaya, ao ter sua proposta de negociação submetida à Suprema Corte Hondurenha, ainda foi condenado por traição. Portanto, se deixar a embaixada brasileira, ao invés do palácio presidencial, vai para a cadeia.

E o Brasil corre o risco de ficar com o “mico internacional” do ano ao apoiar a realização do Juízo Final e de uma guerra civil como única forma viável para reempossar um Presidente que desejava “apenas” eternizar-se no poder e violar a sua própria Constituição.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Micheletti diz que “esquerdismo” de Zelaya influenciou deposição

30/09/2009

Informa a Folha:

“O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, afirmou nesta quarta-feira que o fato de Manuel Zelaya, um rico proprietário de terras, ter se tornado ‘esquerdista’ depois de chegar ao governo foi um dos motivos para que fosse deposto, quando tentava mudar a Constituição de uma forma considerada ilegal pela Suprema Corte.

‘Tiramos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele foi presidente, liberal, como eu. Mas se tornou amigo de Daniel Ortega, [Hugo] Chávez, [Rafael] Correa, Evo Morales’, declarou Micheletti, referindo-se aos presidentes de Nicarágua, Venezuela, Equador e Bolívia, respectivamente.

Em entrevista ao jornal argentino ‘Clarín’, Micheletti, ex-presidente do Congresso elevado à Presidência há três meses após a deposição de Zelaya, disse que a posição do presidente deposto ‘preocupou’ as autoridades do país, porque ele ’se tornou esquerdista’ e convidou ‘comunistas’ para compor seu governo.

Indagado sobre a necessidade de promover reformas e mudanças sociais em um país pobre como Honduras –o que é reivindicado por Zelaya– Micheletti comentou que ‘pode haver reformas, inclusive constitucionais’, mas desde que não afetem três pontos: ‘território, forma de governo e reeleição’.

Ele reconheceu, entretanto, que a forma como foi feita a deposição talvez não tenha sido a melhor maneira de punir os crimes atribuídos a Zelaya.

‘Nosso único erro foi tirá-lo [do poder] como tiramos. De resto, atuamos conforme a lei. Ele violava a Constituição ao buscar uma Constituinte para uma reeleição. Se o tivéssemos prendido e deixássemos aqui, teríamos mortos’, argumentou Micheletti”.

Na minha modesta opinião, o Presidente hondurenho, Roberto Micheletti, acerta ao dizer que, à exceção do modo com que Zelaya foi retirado de Honduras, o governo atual agiu em conformidade com a lei hondurenha, ao contrário do que fez Zelaya quando ainda Presidente.

Acontece que este modo foi equivocado demais, absurdo, ilegítimo, o que gerou a vitimização de Zelaya que, se por um lado está muito mais errado do que o governo atual no que tange arroubos, por outro, não merecia de forma alguma ser retirado de sua casa de pijamas e deportado de seu país como ocorreu.

Pois bem. Dito isso, é preciso recriminar Micheletti. Como sempre digo, e repito, o Perspectiva elogia o que é digno de elogios e critica o que é merecedor de críticas, simples assim, sem comprometimentos prévios ou inidoneidades, cumprindo seu compromisso de independência assumido com o leitor.

Micheletti não pode, de forma alguma, achar que acerta ao dizer que o fato de Zelaya ser “esquerdista” justifica sua retirada do poder. Isto não está correto sob nenhuma visão, nenhum ponto de vista.

Zelaya foi retirado do poder, de forma equivocada, é verdade, mas devidamente na essência, por ter perdido o mandato de Presidente e cometido crime previsto pela Constituição hondurenha.

Ao tentar se perpetuar no poder e acabar com a alternância de poder, buscando instalar uma possibilidade de reeleição que, todos sabem, visava favorecer a ele mesmo, Zelaya infringiu preceitos constitucionais hondurenhos que preveem que, feito isto, o Presidente perde seu posto.

Porém, isso nada tem a ver com Zelaya ser “esquerdista”. Se Micheletti comemora a deposição de Zelaya não só por ele ter ido contra a legalidade e pela Constituição prever que a deposição é a punição neste caso, mas, também, por ele ser de esquerda e aliado de Hugo Chávez, peço licença para aqui para agravá-lo.

Zelaya errou em suas atitudes. Suas ideologias nada têm a ver com isso. Poderia ele ser esquerdista, direitista, centrista ou, até mesmo, adepto de uma ideologia marciana desconhecida ou de uma seita política diabólica.

Caiu Zelaya pelo que fez, não pelo que pensa. Foi retirado do poder de forma condenável, sim, mas não indevidamente.

E Micheletti não pode achar que justo é que um Presidente perca o cargo por seus posicionamentos ideológicos, afinal, eleito fora.

Zelaya errou por empreender algo que, em Honduras, é crime punido com perda de mandato. Pura e simplesmente por isso.

Micheletti, que não é golpista por se tratar, sim, do sucessor constitucional, erra, agora, por justificar a queda de Zelaya utilizando-se de critérios ideológicos.

Zelaya já não é por mim estimado. Micheletti agora cai em meu conceito.

Precisa o Brasil fazer cessar o uso político da embaixada brasileira por Zelaya, retirá-lo posteriormente de Honduras, mesmo que para isso seja necessário oferecer asilo em solo brasileiro, e construir condições para as eleições que, tomara, trarão Presidente para Honduras que se comporte melhor que Zelaya e, também, que Micheletti.

Coluna do dia: Honduras e hipocrisia

29/09/2009

Por Raphael Machado Silva*

Cada vez que estamos diante de um evento internacional de alguma relevância, principalmente os que envolvem conflitos, sejam armados ou não, sejam de natureza interna ou externa, nós podemos ser testemunhas de como todo o palavrório democrático-humanista serve algumas vezes como uma capa para a defesa de toda forma de destruição inconsequente.

O posicionamento é curioso: Não há problema em promover insurreições civis no Irã, porque este “não é um país democrático”. Não há problema em bombardear países do Oriente Médio, porque eles “não são livres” ou “odeiam nossa liberdade”. Também não há problema em Israel chacinar civis palestinos, ou dos países que lhe fazem fronteira, porque “eles são a única democracia do Oriente Médio” ou (ainda mais convincente para os desinformados): “oh! Eles estão sob o risco de um novo holocausto!”.

Assim, podemos verificar que esses argumentos são usados para enfeitar puros e diretos interesses de ordem política e/ou econômica. Pode parecer surpreendente, mas a maioria das pessoas crê nesse tipo de discurso.

E nem ao menos me refiro aqui às pessoas de pouca instrução (quanto a essas não pode haver qualquer surpresa nesse sentido), mas, principalmente, à classe média, especificamente os estudantes e os praticantes de profissões liberais.

Por tabela, isso já indica que cultura e educação não dão qualquer garantia de capacidade de tecer juízos verdadeiros sobre os eventos que nos cercam. Os termos empregados apenas facilitam esse uso, já que documentos como a Carta das Nações Unidas e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estão repletos de conceitos nebulosos, quando não conceitos mutuamente contraditórios ou até mesmo falaciosos.

É muito normal, portanto, que tenhamos que nos submeter a ouvir todo esse dramalhão vindo de setores da mídia, mas, principalmente, de políticos sul-americanos em geral, assim como de organizações internacionais.

“Oh, o horror! Micheletti deu um golpe em Honduras! Minha nossa! E pior! Agora ele está limitando a liberdade de imprensa!” – Nesse momento, quem prestar atenção poderá ver a boca espumante dos apresentadores de telejornais…

Como se Micheletti estivesse alinhando jornalistas em paredões de fuzilamento, como, aliás, era costume dos heróis de Chávez, Lula, Zelaya e todo esse bando político internacional.

É assustador ver como pessoas supostamente “ilustradas” têm reações absolutamente emocionais diante de fatos políticos puros. Fatos políticos não possuem significação moral implícita. Toda a significação moral dos fatos políticos é construída e colocada lá por seus intérpretes. Só existe na mente deles. Só tendo consciência disso podemos ver que o que houve no país centro-americano foi um levante militar em defesa da Constituição de Honduras, que impediu um golpe que muito provavelmente acabaria colocando o país nos mesmos caminhos hodiernamente trilhados pela Venezuela.

E se Micheletti declarou Estado de Sítio (o qual é um instituto constitucionalmente previsto e não uma arbitrariedade ditatorial), isso ocorreu porque Brasil e Venezuela conspiraram para levar Zelaya a Honduras e abrigá-lo lá, de modo a que esse palhaço de rodeio metido a Presidente pudesse incitar e promover a insurreição contra o atual governo de Honduras, para assim supostamente retornar ao poder nos braços do povo e, com anuência deste, dar o seu golpe (a caracterização de golpe independe da existência ou não de apoio popular).

Que interesse poderia ter o Brasil em abrigar esse projeto de ditador socialista chamado Zelaya? Ou seja, se nossos líderes políticos têm a função de representar nossos interesses, que interesse temos nós, como povo, em abrigar e apoiar esse elemento? Se nossa mente já foi “desbloqueada”, sabemos de início que toda e qualquer resposta do tipo: “temos que defender a democracia em Honduras” é absolutamente inválida.

* Raphael Machado Silva é colunista do Perspectiva Política às terças.

Coluna do dia: Brasil, Honduras e uma constatação óbvia

28/09/2009

Por Arthurius Maximus*

A recente crise política entre Brasil e Honduras, alguns posicionamentos do governo brasileiro e a repercussão destes entre a população serviram para demonstrar claramente como a ignorância e a falta de informação podem ser prejudiciais a um povo.

Descartando-se as condições que levaram os acontecimentos em Honduras a serem considerados como um golpe, podemos perceber que a população brasileira ainda se deixa influenciar claramente por questões ideológicas menores e sem importância, esquecendo-se que certas ações devem ser observadas sob uma ótima mais fria e mais distante, banhada unicamente pela legalidade e pelo normalismo civilizado.

Lula afirmou em entrevista, ainda na ONU, que Zelaya é o Presidente eleito de Honduras e que, por isso, deve cumprir o seu mandato até o fim e “ponto final”. No entanto, antes de ser um político eleito e mesmo de gozar de altíssimos índices de popularidade (o caso de Lula), Zelaya é, como qualquer um de nós, escravo da lei maior de seu país: a Constituição.

E é aí que se encerra toda a discussão sobre “golpe”, “contra golpe” ou “não golpe”. O que teria acontecido em Honduras? Analisando-se sob o ponto de vista da Constituição daquele país, Zelaya pretendia dar um golpe e modificar a mesma. Em seu artigo 239, a Constituição hondurenha ordena a deposição e a perda dos direitos políticos por dez anos do político que assim se comportar. Este ditame foi seguido pelo governo atual, com apoio da Corte Constitucional (o STF hondurenho).

Mas porque todos dizem que houve um golpe por lá? Por que as demais nações assim reconheceram as ações empreendidas? O golpe pode ser estabelecido graças a inúmeros erros cometidos pelos responsáveis pela deposição de Zelaya: A falta de um processo de impedimento formal (como aquele que fizemos com Collor), o sequestro de Zelaya e o seu envio compulsório para a Costa Rica ainda de pijamas e a idiota opção pela censura e pelo silêncio diante da comunidade internacional.

Mas e daí? O que isso tem a ver com ignorância e falta de informação? Muito simples. A forma como algumas pessoas vem tratando o caso, inclusive o Presidente Lula, mostra que pouco conhecem sobre a democracia e a organização política.

O fato de alguém ter sido eleito ou gozar de grande popularidade não pode ser encarado como a concessão de um cheque em branco, que permita a violação de qualquer lei, em nome da satisfação de vontades pessoais e da perpetuação no poder. Desde a Idade Média, concluiu-se que o poder absoluto corrompe e é perigoso. Daí o surgimento de um instrumento capaz de traçar parâmetros de comportamento e de limitar o poder das autoridades, garantindo que, em determinadas circunstâncias, fossem substituídas legalmente e sem violência: a Carta Magna (ou Constituição).

Em uma democracia, são as leis que regem o destino de uma nação e não os homens. Zelaya foi eleito, isso é certo. Mas também violou a Constituição de sua nação. Logo, é importante que se analise a situação fora da dicotomia “bem versus mal” ou “pobre versus rico” que governos populistas adoram implantar.

A intervenção brasileira em Honduras viola as leis internacionais ao permitir que Zelaya fique abrigado na embaixada brasileira sem uma definição de status clara e que use uma instituição que é, por natureza, neutra e imparcial, como patamar político para incentivar o conflito e a violência em uma nação que já o tinha considerado “carta fora do baralho”.

Em Honduras, sindicatos, igrejas (católica e evangélica), a ordem dos advogados de lá, o tribunal eleitoral e o constitucional, a maioria dos partidos políticos e toda a sociedade civil o afastaram de bom grado e o consideram um elemento pernicioso à nação.

A posição do Brasil é tão questionável que a própria ONU recusou-se a proferir as declarações fortes que o governo brasileiro desejava e limitou-se a afirmar, dentro do direito internacional, a inviolabilidade da embaixada brasileira. Qual a reação de Lula ao não encontrar eco nesse organismo internacional para suas sandices? Afirmar que a ONU está “falida”. Algo bem estranho para alguém que deseja tanto ter um assento no Conselho de Segurança.

Por parte de nosso povo, seguem as comparações errôneas entre o que acontece aqui e a realidade hondurenha. Mencionam a fácil mudança de normas constitucionais que experimentamos no Brasil como base para o “absurdo” de Zelaya ser impedido de fazer uma consulta popular em Honduras.

Ao nosso povo, falta o entendimento de que leis constitucionais não devem ser mudadas ao bel prazer de quem governa. Ao nosso povo, falta o costume de ser regido por pessoas que levam as leis de seu país a sério e que não coloquem suas próprias figuras acima da normalidade constitucional de suas nações. Ao nosso povo, causa estranheza viver sob um regime que tenha leis estáveis e leis que sempre “pegam”.

Para muitos de nós, constituições como a americana e a inglesa são aberrações estranhas em sua quase imutabilidade. No entanto, cabe entender que uma nação sem leis constitucionais duras e de difícil modificação se transformará em algo como uma monarquia absolutista ou um regime onde uma maioria momentânea pode fazer o que quiser com as leis do país (alguma semelhança?) e, nesse caso, o maior prejudicado será o próprio povo.

Um povo sem conhecimentos políticos, sem entendimento e instrução de como agem e se constroem sistemas de governo não tem a capacidade para formar uma opinião e para analisar de forma fria os acontecimentos que se desenrolam diante de seus olhos. O abandono político, a baixa instrução, a alienação e a incapacidade de compreender a ligação entre causa e efeito das ações políticas praticadas por quem quer que seja mostram a fragilidade política de nosso povo. E isso é a pior tragédia que nossa nação experimenta.

Nota do Editor: Conclui-se, portanto, que Zelaya merece apenas total solidariedade no que tange o modo como foi retirado do poder, mas não sua restituição no cargo pois, como bem explicitado no texto acima, perdeu seu cargo ao tentar perpetuar-se no poder, por conta dos ditames normativos da Constituição hondurenha.

*Arthurius Maximus é colunista do Perspectiva Política às segundas e editor do blog Visão Panorâmica

Candidatos a Presidente de Honduras se reúnem com Zelaya

26/09/2009

Quatro dos seis candidatos a Presidente da Honduras nas eleições marcadas para novembro se reuniram na embaixada do Brasil com Manuel Zelaya. Antes, haviam se encontrado com o Presidente “de facto” Roberto Micheletti.

Os candidatos requisitaram a busca de um consenso que, pelo menos, garanta as eleições e possibilite do retorno da paz ao país.

Zelaya disse que as eleições só terão legitimidade se ele retornar ao cargo.

Os questionamentos que faço são dois:

Primeiramente, como poderia Zelaya retornar ao cargo? A Constituição hondurenha prevê que qualquer um que tente se perpetuar no poder perde, automaticamente, o mandato.

Portanto, tendo Manuel Zelaya desrespeitado não só a Constituição de seu país, como também a proibição da Justiça hondurenha com relação ao plebiscito que visava permitir ou não o instituto da reeleição, deve ele perder seu mandato. É a simples legalidade.

Se Manuel Zelaya empreendeu atos que causam a perda do mandato instantânea, como pode ele requerer sua volta ao poder? Que peça a punição dos militares truculentos que o retiraram do país à força ou, até mesmo, novas eleições onde aliados seus possam concorrer, porém, não é passível de requisição o retorno de Zelaya ao poder, afinal, este não é mais ocupado por ele legalmente.

Em segundo lugar, como pode Zelaya se reunir com candidatos a Presidente de Honduras na embaixada brasileira?

Não é proibido que ele faça política estando asilado em nosso prédio diplomático? Então o que está havendo?

Obviamente que alinhavar acordos e compromissos políticos é fazer política, assim como discursar da sacada também o é.

Fica comprovado que, ao contrário do que dizem Lula e Celso Amorim, a embaixada brasileira em Tegucigalpa é, hoje, sim, base de operações zelayista.

A Constituição hondurenha prever a perda do mandato dos que tentam se perpetuar no poder e os acordos políticos representarem um ato de “fazer política” são fatos. Inegáveis.

Zelaya não tem mais legitimidade legal para comandar Honduras e Zelaya está usando a embaixada como base política para irradiar uma inquietação nada desejável em Honduras.

Não há como negar estes dois pontos, pois contra fatos não há argumentos.

Por falar em fatos, os zelayistas alegam que a embaixada está sendo atacada com gases tóxicos. Se isso for verdade, o Perspectiva repudia de forma categórica o ataque. Averiguemos.

Em tempo: Faço com relação a Zelaya a mesma pergunta que direciono a Hugo Chávez e que sempre fica, curiosamente, sem resposta – Por que Zelaya não indicou um sucessor que defendesse sua plataforma supostamente amada por algumas parcelas da população, ao invés de tentar perverter a lei hondurenha e conseguir permissão para lutar pela reeleição? Por que não um mantenedor das plataformas atuais que não fosse Zelaya? Na Venezuela, por que não um seguidor de Chávez? Por que o personalismo? Sempre pergunto isso e nenhum simpatizante do chavismo me responde.

Em tempo 2: Lula retrucou, quando questionado a respeito da participação ou não do Brasil em todo o plano de regresso de Zelaya, dizendo que deviam acreditar nele, e não em um golpista, sendo este, no caso, Roberto Micheletti. Pois bem. Se golpistas não merecem credibilidade, não ouçam Chávez, ele já tentou, no passado, tomar o poder venezuelano através de um golpe.